14.5.07

Nação nordestina - Parte II


Sendo a Paraíba um dos estados que produz mais cantores e compositores por metro quadrado, era natural que não ficasse de fora quando os ventos do mercado voltaram-se para o nordeste.

Zé Ramalho chegou com estilo, com letras complexas, enigmáticas, de tom profético, apocalíptico, psicodélico. Segundo ele, “música é para botar as pessoas para viajar” e seus discos, realmente, poderiam muito bem ser chamados de “discos voadores”. Como seu primeiro trabalho, um disco experimental em parceria com Lula Côrtes, Paêbirú, de pouca divulgação (escutando-o no escuro, voa-se melhor). Zé tornou-se mais conhecido do público em 1977, quando lançou um disco que trazia uma versão instrumental de “Bicho de sete cabeças” e as canções “Avôhai”* (com Patrick Moraz, do grupo inglês Yes, nos teclados), “Chão de giz” e “Vila do sossego”, alguns de seus maiores sucessos até hoje, que têm histórias interessantes, por ele reveladas em alguns depoimentos, que nos ajudam a entendê-las um pouco melhor.

“Chão de giz” foi feita para um amor platônico dele por uma mulher casada e rica, enquanto “Vila do Sossego” era a casa de praia de uma tia, em João Pessoa. “Em 73, essa casa tornou-se um ponto de encontro de artistas de João Pessoa que se reuniam para fumar um baseado, tomar umas, conversar sobre arte e outros rumos. ... O que aparece na música são citações desses encontros.” (tá explicado!), afirmou o cantor em depoimento ao poeta Jorge Salomão, em 1998. “Avôhai”, por sua vez, ele fez em homenagem ao avô que o criou, o “velho e invisível Avôhai”. Se eu tivesse ido à Vila do Sossego, gostaria de discutir com ele a letra de “Pelo vinho e pelo pão”. Seria uma metamorfose kafkaniana?

Compositor de excelentes trabalhos autorais, Zé Ramalho foi um dos compositores mais gravados por essa geração, com destaque para as interpretações marcantes de Elba Ramalho. Em um de seus melhores discos, o excelente álbum duplo “Nação Nordestina”, lançado em 2000, porém, ele assina apenas seis das vinte faixas. Nas demais, uma gama de compositores nordestinos: Luiz Gonzaga, João do Vale, Geraldo Vandré, Dominguinhos e Gilberto Gil, entre outros. Destaque para a criativa capa, inspirada em “Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, e para o encarte, com belos desenhos e todas as faixas comentadas. Produção de Robertinho do Recife.

A também paraibana Elba Ramalho começou cantando e atuando nas peças musicais “Morte e Vida Severina” e “Ópera do Malandro”, experiência que lhe proporcionou uma excelente presença de palco. Sempre identificada com suas raízes, gravou canções de vários compositores nordestinos, às vezes discos inteiros, como “Leão do Norte”, “Flor da Paraíba” (com exceção de uma faixa) e “Baioque” (deste, apenas a canção-título, de Chico Buarque, não tinha, entre os compositores, alguém da região).

Em 1984, Elba gravou a polêmica canção “Nordeste independente” (Bráulio Tavares / Ivanildo Vila Nova), uma crítica ao descaso e à discriminação sofrida pela região que, naqueles tempos, viveu o auge do coronelismo, do clientelismo, do voto de cabresto. “Já que existe no sul esse conceito / Que o nordeste é ruim, seco e ingrato / Já que existe a separação de fato / É preciso torná-la de direito”, dizia a primeira estrofe da canção, que tinha como refrão: “Imagine o Brasil ser dividido e o nordeste ficar independente”.

O baiano Moraes Moreira começou como integrante do grupo Novos Baianos, cujo primeiro disco foi lançado em 1969, partindo para carreira-solo em 1975. Nessa mesma época, conheceu Armandinho, filho de Osmar Macedo, um dos criadores do trio-elétrico, invenção que completava, então, 25 anos, “desde os tempos da velha fubica”. Este encontro foi fundamental para a definição do estilo musical de Moraes, que se tornou um exímio compositor de músicas carnavalescas, sendo seu primeiro grande sucesso a música “Pombo-correio”, feita em parceria com Dodô e Osmar.

A partir de 1978, continuou a compor belas marchinhas, afoxés e frevos, em parcerias com Fausto Nilo (“Chão da praça”, “Bloco do prazer”, “De noite e de dia”), Capinan (“Cidadão”) e Abel Silva (“Festa do interior”), carnavalizando essa turma que, com Fagner, por exemplo, compunha canções mais intimistas. Em 1981, apresentou-se no festival de Montreux, na Suíça, com Toquinho e Elba Ramalho, o que resultou num disco ao vivo. Outras belas canções suas são “Meninas do Brasil”, com Fausto Nilo, do LP “Bazar brasileiro”, de 1980 e “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”, com Pepeu Gomes, do disco de mesmo nome, de 1979.

O ano de 1979, aliás, foi prodigioso com essa turma, todos no auge do reconhecimento artístico, lançando alguns de seus melhores trabalhos. “A Peleja do diabo com o dono do céu”, de Zé Ramalho, por exemplo, contou com acompanhamentos instrumentais de Geraldo Azevedo, Jorge Mautner, Pepeu Gomes e de sua conterrânea Cátia de França. Todas as canções eram de sua autoria, entre elas várias de suas melhores músicas: além da faixa-título, destaque para “Admirável gado novo”, “Beira-mar”, “Garoto de aluguel”, “Pelo vinho e pelo pão” e a instrumental “Agônico”, em que Zé Ramalho toca todos os instrumentos. Merece destaque também a capa, com Zé do Caixão e a atriz Xuxa Lopes.

“Frevo Mulher”, de Amelinha, contou com o mesmo respeitável elenco de compositores, em sua maioria nordestinos, em outras tantas belas canções: “Santa Tereza” (Fagner e Abel Silva), “Galope Rasante” (Zé Ramalho), “Coito das Araras” (Cátia de França) e a melhor gravação de “Dia Branco” (Geraldo Azevedo e Rocha). O mesmo pode-se dizer de “Ave de Prata”, primeiro disco de Elba Ramalho, que tinha, entre as canções, marcantes interpretações de “Não Sonho Mais”, de Chico Buarque, e “Ave de Prata”, de Zé Ramalho. Dois excelentes LP’s, que ainda não foram relançados em formato de CD.

Em “Beleza”, Fagner contou com seus parceiros e compositores habituais e com excelentes arranjos de João Donato. Sua melancolia característica permaneceu presente neste trabalho, através de sua voz, dos arranjos, das melodias e sobretudo dos versos de belas canções, como “Noturno”**, “Asas” e “Beleza”, três de seus maiores sucessos, carregadas de uma tristeza que chegava ao ápice na última faixa do disco, “Elizete”, que ele fez para sua irmã, falecida num acidente de automóvel, naquele ano.

Tantos talentos indiscutíveis, surgidos em condições as mais adversas (parafraseando Belchior, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindos do interior), servem-nos de orgulho, ao mesmo tempo em que nos fazem refletir e questionar quantos tantos outros são desperdiçados, por falta de oportunidade, até que a gente aprenda que “ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país” (Milton Nascimento).



* Avôhai (Zé Ramalho)

Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas, de ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde coarava sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisível Avôhai
Oh meu velho e indivisível Avôhai
Neblina turva e brilhante em meu cérebro, coágulos de sol
Amanita matutina e que transparente cortina ao meu redor
Se eu disser que é meio sabido você diz que é meio pior
É pior do que planeta quando perde o girassol
É o terço de brilhante nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira que nunca dormia só, Avôhai

O brejo cruza a poeira
De fato existe um tom mais leve na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida sua alma na altura que mandar
São os olhos, são as asas, cabelos de Avôhai
Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada e na cratera condenada eu me calei
Se eu calei foi de tristeza, você cala por calar
E calado vai ficando só fala quando eu mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa
Girando a carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Avôhai, Avôhai, Avôhai


** Noturno (Graco-Caio Sílvio)

O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas
Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania vem mais forte
Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou, há muito me deixou...
Ai, coração alado
Desfolharei meus olhos
Neste escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança
Nesta estrada
Só quem pode me seguir sou eu
Sou eu, sou eu, sou eu...

3.5.07

Nação nordestina – Parte I


Sempre foi difícil para um artista nordestino, ou de qualquer outro lugar do país que não o eixo Rio-São Paulo, conseguir espaço para seu trabalho. Nos anos 70, porém, um grupo de cantores e compositores da região, oriundos em sua maioria do sertão, enfrentou o desafio de sair de sua terra natal para tentar a sorte por lá, seguindo os passos e exemplos dos mestres e conterrâneos Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, mas levando no matulão, também, a guitarra e abrindo portas para outros, que viriam depois.

Assumiram o estereótipo do nordestino, de feições agrestes, sem maquiagens nem embelezamentos artificiais, com sotaque, vozes melancólicas, fortes, ásperas, lembrando a paisagem crua e seca do sertão. Tais características marcantes, aliadas a uma notável qualidade musical, chamou a atenção da mídia e do público.

Oe elementos do grupo, apesar de dispersos geograficamente por entre os estados nordestinos, tinham forte ligação entre si. A cantora cearense Amelinha, por exemplo, começou com o conterrâneo Fagner e foi casada com Zé Ramalho. Este, por sua vez, tinha algum parentesco com Elba Ramalho e começou tocando na banda de Alceu Valença, que era amigo de Geraldo Azevedo e junto com ele iniciou a carreira. Essa união, que persistiu ao longo dos anos, produzindo importantes trabalhos, resultou, em 1996, em mais um excelente disco, "O Grande Encontro", gravado ao vivo, que reuniu Alceu, Geraldo, Elba e Zé. Em 1997 e 2000, mais dois volumes de "O Grande Encontro" foram lançados, sem a participação de Alceu Valença.

Do Ceará, Raimundo Fagner e Belchior foram os que mais conseguiram destaque, tendo recebido, no início de suas carreiras, fundamental apoio de Elis Regina que, em 1972, gravou em seu disco a canção Mucuripe, dos dois compositores, também gravada por Roberto Carlos, em 1975. Bem antes de se tornar conhecido pelo grande público em 1978, com o disco "Quem viver chorará" e a música "Revelação" (Clodô/Clésio), Fagner já havia feito excelentes trabalhos, como o disco de estréia, "O último pau-de-arara", de 1973, que contava com a participação de Nara Leão e Naná Vasconcelos, produção de Roberto Menescal e Paulinho Tapajós e arranjos de Ivan Lins.

É deste disco a música "Canteiros", feita por Fagner, baseada em poesia de Cecília Meireles (Marcha), que o tornou réu em processo movido pelas filhas da poetisa. Por decisão da justiça, o disco teve que ser relançado, com a substituição de "Canteiros" por "Cavalo ferro" (Fagner/Ricardo Bezerra) e apenas em 2000 o músico pôde regravar a canção, num álbum duplo, gravado ao vivo. O processo envolvia, também, outra canção, "Motivo", também baseada em poema de Cecília Meireles, de mesmo nome, gravada por Fagner, em 1978. Novamente, o disco foi recolhido e relançado, com a faixa "Quem me levará sou eu" (Dominguinhos/Manduka), que acabara de vencer um festival da Rede Tupi de Televisão, em substituição a "Motivo".

Fagner musicou, também, outros poemas, como "Traduzir-se", de Ferreira Gullar, "Fanatismo" e "Fumo", da poetisa portuguesa Florbela Espanca, entre outros. Desde seus primeiros trabalhos, contou com parcerias freqüentes e de qualidade com o compositor baiano Capinan ("Pavor dos paraísos", "Natureza noturna"), os cearenses Fausto Nilo ("O astro vagabundo", "Calma violência"), Brandão ("Dois querer", "Beleza"*) e Belchior ("Mucuripe", "Moto I"), além do carioca Abel Silva ("Asa partida", "Sangue e pudins", "Asas"). Contou, também, com a qualidade dos arranjos de nomes como Hermeto Paschoal, João Donato, Wagner Tiso, Robertinho do Recife e o já citado Ivan Lins, um time de primeira.

A maioria de suas canções traziam, em comum, versos plangentes (e pungentes), em tom de lamento, desesperança, pessimismo e desilusão, que combinavam bem com sua voz melancólica e agradaram em cheio à juventude, geralmente perdida. Em meados da década de 80, seguiu em uma linha romântica, porém de letras mais fáceis, menos elaboradas, numa trajetória que poderíamos chamar "De Revelação a Deslizes".

Amelinha teve quase todos os seus discos concentrados entre 1977 e 1987, sendo o primeiro deles produzido por Fagner, que também produziu trabalhos de vários outros cantores.
Sua voz bonita e agradável foi logo enaltecida, bem como seu repertório. Ednardo, mais conhecido como o autor de "Pavão misterioso" e "Enquanto engomo a calça", foi outro destaque cearense surgido na época.

Os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo começaram a carreira um pouco antes, em 1972, quando lançaram um disco juntos. São deles as canções "Caravana" e "Táxi Lunar", esta última em parceria com Zé Ramalho. Em 1984, Geraldo lançou mais um trabalho em grupo, com o paraibano Vital Farias e os baianos Elomar e Xangai, a partir de um show gravado ao vivo, o LP "Cantoria", aclamado pela crítica. Compositor de estilo romântico, embora tenha composto, também, em outros estilos, teve como principal intérprete de suas canções a cantora Elba Ramalho.

De estilo inovador, Alceu foi um dos pioneiros, em Pernambuco, a misturar ritmos regionais com solos de guitarra, tendo parte dos créditos pelo surgimento, na década de 90, do manguebeat. Lançou seu primeiro trabalho individual em 1974, o conceituado "Molhado de suor", recentemente relançado em CD, e alcançou maior sucesso junto ao público no início da década de 80, com as canções "Coração bobo", "Pelas ruas que andei" e "Tropicana".



* Beleza (Raimundo Fagner - Brandão)

Beleza só se tem quando se acende a lamparina
Iluminando a alma se entende a própria sina
E quando se vê o arame que amarra toda gente
Pendendo das estacas sob um sol indiferente
Beleza só depois de uma sangria desatada
Aberta na ferida dos perigos do amor
E quando se afasta a sombra triste do remorso
Que faz olhar pra dentro para enfrentar a dor
Repara este silêncio que se estende da janela
Repassa o teu passado e come o lixo que ele encerra
Vagar sem remissão é também parte da questão
Juntar estas migalhas para refazer o pão
Não é da natureza que ele surge confeitado
Mas é desta tristeza, deste adubo de rancor
Beleza é o temporal que suja e corta uma visão
E esmaga qualquer sonho com um grito de pavor

12.4.07

Meu rei mandou dizer...

Com todo o poder, audiência e experiência que as Organizações Globo possuem na televisão brasileira, era natural que se aventurassem, um dia, a fazer, também, cinema. Hoje, após passar por dificuldades e quase desaparecer durante o governo Collor, o cinema nacional voltou a ter grandes bilheterias, com o surgimento da Globo Filmes e todo o seu poder de divulgação, sem que isso signifique, contudo, ganho para todos. Seus filmes, sendo ou não meras transposições de produções da televisão para a tela grande, ficam, em geral, com cara de novela. E, assim como ocorre na TV, há um enorme desequilíbrio de forças, com a globalização a tomar espaço de produções menores, mas de maior qualidade.

A nova produção da Globo Filmes, “Ó Paí, Ó”, de Monique Gardenberg, que dirigiu, também, Benjamim, baseado em livro homônimo de Chico Buarque, deve seguir o caminho inverso, mas não menos direto, e virar seriado na TV. Parte, contudo, de uma boa idéia, a de mostrar as dificuldades e desventuras de uma comunidade pobre dos arredores do Pelourinho, no centro histórico de Salvador, e sua forte ligação com o carnaval.

Segundo a página oficial do filme (www.opaio.com.br), “Ó Pai, Ó faz uma rasura na superfície de uma reordenação urbanística do Pelourinho que violentou territorialidades negras em tentativas vãs de embranquecimento cultural e de desafricalização dos espaços públicos de Salvador”. Rasura, de fato, bem superficial e a lápis, resultando em papéis sem maiores riscos, pois o filme não foge à regra global e sofre da mesma miopia ou visão pouco aprofundada de questões importantes, visão essa decorrente do compromisso com o padrão Globo de qualidade, que a exige, em troca de uma boa divulgação, com direito a comentários na novela das oito e em seus programas.

Quando insinua tratar com seriedade de temas como o preconceito racial, o assunto é logo abortado, como se entrassem os comerciais. Isto acontece, claramente, numa cena em que o ator Lázaro Ramos mostra todo o seu potencial dramático, talvez menos conhecido (pelo menos na televisão) do que sua veia cômica. Ele rouba a cena e em seguida devolve-a ao público, já quase transformada em realidade, através de sua contundente (e convincente) expressão facial, no primeiro momento sério do filme até que... uma piada recoloca-o nos eixos mal traçados de uma comédia musical sem muita graça.

Um aspecto interessante é a divulgação do belo trabalho social, cultural e de resistência, que faz o Bando de Teatro Olodum na capital baiana. O filme, inclusive, é baseado em uma peça de teatro encenada pelo grupo, do qual saiu, também, boa parte do elenco. Um bando de bons atores, que têm a chance de serem conhecidos e reconhecidos nacionalmente, seguindo os passos de Lázaro Ramos e da cantora Virgínia Rodrigues, que começaram no grupo.

Além deles, “Ó Paí, Ó” conta com as participações de Stênio Garcia, Wagner Moura e Dira Paes. Merecem elogios, também, as atuações de Luciana Souza (dona Joana) e dos graciosos e espontâneos garotos Vinícius Nascimento e Felipe Fernandes (Cosme e Damião), bem como a beleza morena de Emanuelle Araújo, ex-vocalista da Banda Eva.

Na parte musical e nas cenas de carnaval, o filme também parece um pouco prejudicado pelos interesses comerciais, deixando um pouco de lado, por exemplo, o afoxé, ritmo que melhor representa a cultura carnavalesca negra baiana (o Araketu é bom demais, mas a coisa mais linda de se ver é o Ilê-Aiyê). Mesmo o samba-reggae, sempre posto, injustamente, como subproduto da chamada axé-music, mas de valor bem maior, poderia ter sido melhor explorado e ter substituído algumas faixas da trilha sonora (disponível em CD).

Se a primeira impressão é a que fica, porém, “Ó Paí, Ó” começa muito bem com a bela canção “É d’Oxum”* (na voz de Jauperi, ex-vocalista do Olodum), já gravada por Gal Costa. Termina bem, também, com “Protesto do Olodum – E lá vou eu”** (com participação de Margareth Menezes e Daniela Mercury), gravada em 1988 pela Banda Mel, que casa perfeitamente com a segunda e última cena séria do filme, protagonizada com destaque pela atriz Luciana Souza.

Outros destaques da trilha sonora são “Ilha de Maré”, que já foi sucesso na voz de Alcione em 1977; “Depois eu volto”, do tradicional sambista baiano Batatinha; “Vem meu amor” (por Lázaro Ramos), gravada anteriormente pelo Olodum; e “Canto do mundo”, de Caetano Veloso, que também assina “Ó Paí, Ó”, com Davi Moraes. A produção musical do filme é de Betão Aguiar, Davi Moraes e Luiz Brasil; a não-musical, de Augusto Casé, Sara Silveira e Paula Lavigne.

Saiu por uma porta, entrou pela outra. Meu rei mandou dizer que, em suma, a história e a trilha do filme valem como uma série ou especial da Globo, mas poderiam valer muito mais. Quem quiser que conte outra e tomara que queiram.



* É d’Oxum (Vevé Calazans/ Gerônimo Santana)

Nessa cidade todo mundo é d'Oxum
Homem, menino, menina, mulher
Toda essa gente irradia magia
Presente na água doce
Presente na água salgada
E toda cidade brilha
Seja tenente ou filho de pescador
Ou importante desembargador
Se der presente é tudo uma coisa só
A força que mora n'água
Nao faz distinção de cor
E toda cidade é d'Oxum
É d'Oxum, é d'Oxum
Eu vou navegar nas ondas do mar
Eu vou navegar, eu vou navegar


** Protesto do Olodum – E lá vou eu (Tatau)

Força e pudor
Liberdade ao povo do pelô
Mãe que é mãe no parto sente dor
E lá vou eu

Declara a nação,
Pelourinho contra a prostituição
Faz protesto manifestação
E lá vou eu

Aids se expandiu
E o terror já domina o brasil
Faz denúncia Olodum Pelourinho
E lá vou eu

Brasil liderança
Força e elite na poluição
Em destaque o terror Cubatão
E lá vou eu

Lá e cá nordestópia
Na Bahia existe Etiópia
Pro nordeste o país vira as costas
E lá vou eu

Moçambique, hei
Por minuto um homem vai morrer
Sem ter pão nem água pra beber
E lá vou eu

Mas somos capazes
O nosso deus a verdade nos trás
Monumento da força e da paz
E lá vou eu

Desmond Tutu
Contra o apartheid na África do Sul
Vem saudando o Nelson Mandela
O Olodum

29.3.07

Anos 80: o paradoxo estendido na areia



Com Eduardo e Mônica perto de completarem bodas de prata, vale a pena recordar o que acontecia quando eles se conheceram. Aquela festa estranha, com gente esquisita, não tinha uma trilha musical tão inovadora em termos de sonoridade, mas tornou-se uma identidade, imagem da juventude da época. Uma imagem tosca, mas real, talvez a única possível, diante das circunstâncias.

Tudo começou com Evandro Mesquita que, vindo do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, trouxe a linguagem teatral à sua banda Blitz, suas apresentações em palco e suas canções, a partir de “Você não soube me amar” que, em 1982, abriu as portas para o denominado BRock. Do grupo de teatro, também fazia parte a camaleoa Regina Casé. Da banda, Lobão e a carioca Fernanda Abreu. Marina Lima, Ritchie e Lulu Santos chegaram sozinhos, os dois últimos vindos de um grupo não muito conhecido, de nome Vímana, junto com Lobão. Num cantinho, meio deslocada, uma turma fazia uma festinha paralela: 14 Bis, Boca Livre e Roupa Nova.

Sem microcomputador, internet, telefone celular, CD e MP3, a informação era menos acessível. A televisão acabava de entrar na era dos vídeo-clips e as bandas de sucesso tocavam na rádio Fluminense e no Circo Voador, ambos no Rio de Janeiro, e apresentavam-se em programas de auditório como o Cassino do Chacrinha, da Rede Globo. Rolava de tudo: Miquinhos Amestrados, Abóboras Selvagens, Kid Abelha, Kid Vinil, Absyntho, Herva Doce, Sempre Livre, Camisa de Vênus. Difícil descrever, por exemplo, a loucura que era a apresentação dos Titãs, com seus oito integrantes se espalhando pelo pequeno palco em performances alucinantes, em meio à gritaria do auditório, estripulias de Chacrinha, toques de sirene e requebros das chacretes.

O Rock in Rio I, ocorrido em janeiro de 1985, ajudou a consolidar o BRock como algo rentável para as gravadoras e, por conseqüência, a disseminar o surgimento de bandas que apareciam por todas as bandas, de qualidade ou não. Mesmo não fazendo parte de suas atrações, os grupos Titãs, Legião Urbana, Ultraje a Rigor e RPM alcançaram um maior destaque após o festival, o qual ajudou, também, a alavancar a carreira de grupos que já se destacavam, como Kid Abelha, Blitz, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, este último protagonista de um de seus melhores momentos, quando Cazuza cantou, abraçado à bandeira brasileira, “Pro dia nascer feliz”. Era o dia da votação que elegeria Tancredo Neves presidente da república.

Nas escolas, na década anterior, os filhos da “revolução” cresciam tendo aulas de “moral e cívica”, que reverenciavam “nossos” presidentes. O movimento estudantil não tinha mais força, as manifestações culturais eram censuradas, a televisão deixava-nos burros, muito burros demais. Todo esse cerceamento de liberdade teve conseqüências na formação intelectual dessa geração perdida, que parecia de outro mundo, uns aliens alienados, que não tinham outra cara pra mostrar. Eram o fruto de todo esse lixo, “toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer”. Não havia outra saída: “vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

Na década de 80, enfim, o sinal fechado do período de repressão tornou a abrir. Em 1979, veio a Lei da Anistia e em 1982, eleições diretas para governador, embora ainda não para presidente (Diretas já já). “Eu vejo a vida melhor no futuro”. Porém, o que fazer com essa senhora liberdade, que abria suas asas sobre nós? Que caminho seguir? Não sabíamos lidar com isso.

Por outro lado, se a política caminhava em direção a uma maior abertura, a liberdade sexual trilhava o caminho inverso: “meu prazer agora é risco de vida”. Frutos da revolução sexual dos anos 60, os jovens de então depararam-se com um vírus desconhecido, o qual, por ter sido, a princípio, entendido de maneira equivocada como exclusividade de homossexuais e africanos, alastrou-se rapidamente, resultado da filosofia egoísta dos “sem-risco”: “se não seremos atingidos, por que nos preocuparmos?”. Hoje, paga-se o preço por esse descaso.

Alienados, desiludidos, sem posições políticas definidas, “cansados de correr na direção contrária”, a seu jeito, os jovens protestavam: “indecente é você ter que ficar despido de cultura”, “as ilusões estão todas perdidas”, “os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito”, “meu partido é um coração partido”, “minha metralhadora cheia de mágoas”, “meu cartão de crédito é uma navalha”, “ideologia, eu quero uma pra viver”, “a gente não sabemos escolher presidente”, “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”. Que país é esse?

Outros, em crise de identidade, apenas experimentavam o inédito prazer de comprar um disco e gostar de uma banda da qual seus pais não gostavam, que tivesse suas caras. Como rebeldes sem causa (“como é que eu vou crescer, sem ter com quem me rebelar?”), querendo negar os preceitos de Belchior de que “nossos ídolos ainda são os mesmos” e que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Como eles, queríamos nos sentir capazes de produzir algo de valor e não mais ter que repetir: “a gente somos inútil”.

Até que não nos saímos tão mal e, em meio ao lixo que cuspimos, pudemos garimpar e encontrar belas poesias expelidas por Cazuza, Renato Russo e Júlio Barroso, que poderiam ter feito muito mais, não fosse o destino tão cruel ao dizimar algumas das principais cabeças dessa geração (Herbert Vianna escapou por pouco). Outros talentos, porém, sobreviveram: Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulinho Moska, que à época rondava o lixo com música barata, junto com os Inimigos do Rei, entre outros.

O alívio definitivo e a certeza de que a década não fora perdida veio, então, quando escutamos Gal Costa, Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Luiz Melodia cantando Cazuza, Chico Buarque cantando com Paula Toller, Tom Jobim com Marina Lima e Gilberto Gil cantando e compondo com os Paralamas do Sucesso, assim como exaltando o que acontecia, em seu “Roque santeiro – o rock”. O paradoxo estendido nas areias escaldantes, então, desfez-se, junto com um mar de dúvidas. Descobrimos, enfim, que poderíamos gostar desses expoentes da nossa geração sem romper com nossos grandes e insubstituíveis ídolos, os mesmos de nossos pais. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido.



Roque santeiro - o rock (Gilberto Gil)

Outrora, só cabeludo
Agora, o menino é tudo de novo no front
Outrora, só rebeldia
Agora, soberania na noite neon

Outrora, mera fumaça
Agora, fogo da raça, fogoso rapaz
Outrora, mera ameaça
Agora, exige o direito ao respeito dos pais

E tem mais, e tem mais, e tem mais

Outrora, arraia miúda
Agora, lobão de boca bem grande a gritar
Outrora, pirado e louco
Agora, poucos insistem em negar-lhe o lugar

Outrora, frágil autorama
Agora, três paralamas de grande carreta de som
Outrora, simples bermuda
Agora, ultravestidos de elegante ultraje a rigor

E o amor, e o amor, e o amor

Só quem não amar os filhos
Vai querer dinamitar os trilhos da estrada
Onde passou passarada
Passa agora a garotada, destino ao futuro

Deixa ele tocar o rock
Deixa o choque da guitarra tocar o santeiro
Do barro do motocross
Quem sabe ele molde um novo santo padroeiro

Outrora, o seio materno
Agora, o meio da rua, na lua, nas novas manhãs
Outrora, o céu e o inferno
Agora, o saber eterno do velho sonho dos titãs

Outrora, o reino do Pai
Agora, o tempo do Filho com seu novo canto
Outrora, o Monte Sinai
Agora, sinais da nave do Espírito Santo

E o encanto, e o encanto, e o encanto

15.2.07

Cem e sem anos do frevo


“Ô, ô, saudade, saudade tão grande ...” (Antônio Maria) - A despeito de uma limitada divulgação nacional nos dias atuais, o frevo já viveu uma época de ouro, quando tocava e era tocado em todo o país, contando com o apoio de uma gravadora pernambucana, a Rozenblit, especialista em lançamentos do gênero, que saíam aos montes e com qualidade, principalmente quando o carnaval se aproximava. Compositores como Antônio Maria, Nelson Ferreira, Capiba e Edgar Moraes criavam canções que reverenciavam seus blocos preferidos e a eles declaravam amor fiel. Em algumas, prostituíam-se, declarando-se a vários ao mesmo tempo, como em “Valores do passado”, uma escalação do dream-team dos blocos de frevo, alguns deles ainda em atividade, como o “Bloco das flores”, fundado em 1921.

“Saudade que eu sinto do Clube das Pás, do Vassouras, passistas traçando tesouras nas ruas repletas de lá” (Antônio Maria) - Se a dança é derivada dos passos da capoeira, inventados pelos negros, a sonoridade e o instrumental são atribuídos a bandas marciais. Os primeiros clubes de frevo, como o “Clube das pás”, o “Vassourinhas” e o “Lenhadores”, datam do final do século XIX e continuam existindo até hoje. Como não se sabe ao certo quando a festa começou, escolheu-se, recentemente, como data de criação do frevo, o dia 9 de fevereiro de 1907, quando registrou-se a primeira referência à dança com este nome.

“Pode acabar o petróleo, pode acabar a vergonha, pode acabar tudo enfim, mas deixem o frevo pra mim” (Capiba) - No ano de seu centenário, o frevo foi registrado como patrimônio cultural imaterial do país, no livro das formas de expressão. Entre as características que justificaram tal registro, estão sua riqueza e simplicidade, singularidade e diversidade, e seu caráter libertário de resistência, a princípio apenas social, posto que surgiu entre os negros recém-libertados e, posteriormente, também cultural, diante da globalização do mercado musical.

“É lindo ver o dia amanhecer com violões e pastorinhas mil...” (Getúlio Cavalcanti) - O frevo é dividido em três gêneros principais. O frevo-de-rua é instrumental, executado por orquestras de metais e é o mais vivaz e ligeiro. Quando ganhou letra, virou frevo-canção, o mais abrangente e variado. O frevo-de-bloco, por sua vez, tem um ritmo mais suave e é geralmente executado por um coral de vozes femininas, acompanhado por uma orquestra de instrumentos de pau e corda.

“É de fazer chorar quando o dia amanhece e obriga o frevo a acabar ...” (Luiz Bandeira) - O processo de aculturação e discriminação por que passou Pernambuco com o golpe militar, refletiu, também, ou sobretudo, na área cultural, abandonada nos anos que se seguiram. O carnaval do Recife foi sumindo aos poucos, até chegar, ao final da década de 70, praticamente morto, restrito às comunidades. Blocos tradicionais de frevo, maracatu e caboclinho dispunham de pequena subvenção e desfilavam para um mirrado público no centro da cidade.

“Ei pessoal, vem moçada, carnaval começa no Galo da Madrugada” (José Mário Chaves) - Diante deste quadro, em 1979, fundou-se o “Clube de Máscaras Galo da Madrugada”, na intenção de reviver os velhos carnavais pernambucanos. O bloco foi, durante muito tempo, o único do carnaval recifense a atrair um grande público, crescente a cada ano. Hoje, embora não seja mais o único a cantar, o Galo segue seu grandioso desfile nos bairros de São José e Santo Antônio, abrindo o carnaval, no sábado de Zé Pereira, acompanhado por uma multidão.

“Entre confetes e serpentinas venho te oferecer com alegria o meu amor ...” (Clídio Nigro / Clóvis Vieira) - Ao mesmo tempo, Olinda virou reduto de resistência à dissolução das manifestações culturais do carnaval pernambucano. Blocos irreverentes foram criados, com nomes e hinos fazendo referência à situação política do país, como: “Eu acho é pouco”, “Siri na lata” e “Nóis sofre mais nóis goza” (este último no Recife), que se juntaram a blocos tradicionais da cidade como “Pitombeira dos Quatro Cantos”, “Elefante de Olinda” e aos seus tradicionais bonecos gigantes. O título de patrimônio cultural da humanidade, recebido pela cidade em 1982, contribuiu para dar maior visibilidade aos festejos nesta cidade.

“Batidas de bombos são maracatus retardados, chegando à cidade cansados, com seus estandartes no ar” (Antônio Maria) - Um evento conseguiu atravessar, incólume, o marasmo em que se encontrava o carnaval do Recife, tornando-se uma de suas maiores referências na mídia: a “Noite dos Tambores Silenciosos”, cerimônia que reproduz o ritual de escravos, suas preces e loas em busca de proteção, e reúne as mais tradicionais nações de maracatu de baque-virado, entre elas algumas fundadas ainda na época do império, antes da abolição da escravatura, como o “Nação Elefante”, de 1800 e o “Leão Coroado”, de 1863. Tais maracatus têm como características as figuras do rei e rainha, a religiosidade e os ritmos percussivos, de influência negra, bastante ligados à resistência da raça à situação vigente na época.

“Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu ...” (Caetano Veloso) - A inclusão de instrumentos eletrônicos nas orquestras foi viabilizada com a invenção do trio elétrico, quando compositores como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Moraes Moreira deram nova energia ao ritmo. Mas, se em Pernambuco o frevo era ligado aos antigos carnavais e pouco se produzia de novo, o ritmo foi perdendo espaço também na Bahia, com o surgimento do samba-reggae e da axé-music, no início dos anos 90.

“Vem fazer parte desse cordão, Recife tem um lugar pra você dentro do coração” (Sérgio Andrade / Zezinho Franco) - Na década de 80, contribuíram para o ressurgimento do carnaval recifense as apresentações da Banda de Pau e Corda na praia de Boa Viagem e o projeto “Asas da América”, do compositor Carlos Fernando, que tentou recuperar a vivacidade e a energia de um frevo que vinha perdendo as forças e incentivou uma nova geração de artistas a compor e interpretar frevos-canção, entre eles Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho.

“Modernizar o passado é uma evolução musical” (Chico Science) - Em meados da década passada, dois outros fatores possibilitaram a revalorização da cultura popular pernambucana: a revitalização do outrora abandonado bairro do Recife, a qual viabilizou uma estrutura mais profissional, necessária ao evento e o rufo dos tambores, o eco das alfaias, a repercussão da percussão de Chico Science e Nação Zumbi, que se uniu ao som dos clarins de momo. Também passaram a receber mais atenção e destaque antigas manifestações culturais do interior do estado, como o maracatu rural, de Nazaré da Mata; os papangus, de Bezerros; os caboclinhos, de Goiana e os caretas, de Triunfo.

“Quero sentir a embriaguez do frevo, que entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé ...” (Luiz Bandeira) - O nome frevo vem de ferver e quem ouve os gritos e pulos da multidão, parecendo pessoas em ebulição logo aos primeiros acordes de “Vassourinhas”, espécie de hino do carnaval pernambucano, entende bem o porquê. A música faz uso de requintes de crueldade: começa de repente, sem introdução, sem preparar os corações dos pobres foliões e segue divertindo-se com a surpresa e as conseqüentes perdas de controle e compostura dos mesmos, presas fáceis, indefesas, vítimas emocionadas, enlouquecidas. Doidos varridos por vassourinhas que levantam a poeira e seguem causando impacto, bagunçando tudo, lavando suas almas, até terminarem a faxina, com a sensação do dever cumprido.

“E frevo ainda, apesar da quarta-feira, no cordão da saideira, vendo a noite se enfeitar ...” (Edu Lobo).

1.2.07

Rompendo as fronteiras dos jardins da razão


Em meio à apatia generalizada, metástase da impassibilidade em que se encontrava o Recife pós-golpe militar, quando pouco ou nada de novo conseguia emergir de seus becos, um grupo de amigos, liderados pelos músicos Chico Science e Fred Zero Quatro, reuniu-se, no início da década de 90, denunciando a estagnação, o vazio criativo e o depressivo quadro social em que viviam seus habitantes.

Suas idéias foram reunidas num tipo de manifesto, intitulado "Caranguejos com cérebro", no qual clamavam: "Um choque rápido ou o Recife morre de infarto", pela obstrução de suas artérias, a matança de seus rios e o aterramento de seus estuários. O texto falava do conceito de mangue, de sua importância para o equilíbrio ambiental e da cena musical que na cidade despontava, à qual eles deram o nome de manguebeat, ao mesmo tempo em que propunha uma saída, "para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos", através de uma mudança de atitude urgente: "Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.".

Chico Science criou a banda Nação Zumbi e Fred Zero Quatro, a Mundo Livre S/A. Após alguns shows em bares do Recife, ambos lançaram seus primeiros discos, "Da lama ao caos" e "Samba esquema noise", respectivamente, em 1994. Após se apresentarem na primeira edição do festival "Abril pro rock", que surgiu na mesma época, dividindo o palco com Gilberto Gil na canção "Macô", Chico Science e Nação Zumbi despertaram a atenção dos críticos para sua música. A mistura de sons da banda adveio, de forma natural, da formação musical de seus componentes, vindos parte de um grupo de rock, o Loustal (entre eles, o próprio Chico e o guitarrista Lúcio Maia), parte de um grupo de samba-reggae e outros ritmos afros, o Lamento Negro. Em 1996, lançaram o segundo disco, "Afrociberdelia".

A simbologia do mangue reproduzia bem as características do movimento, com sua diversidade de espécies representando a variedade de estilos, sua localização, entre o rio e o mar, entre a água doce e a salgada, equivalendo à mistura de ritmos e sua destruição representando o esvaziamento da alma da cidade. Seguindo o ímpeto tropicalista de misturar, o manguebeat tinha como imagem símbolo uma antena parabólica enfiada na lama do mangue. "Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão".

Nas letras, referências a revoltas e líderes populares, à concentração de riquezas, à discriminação, à fome e seus males, com citações à revolução praieira, a Antônio Conselheiro, Zumbi e Josué de Castro, este último espécie de ícone do manguebeat, com suas alusões ao "estranho mimetismo entre homens e caranguejos", tão bem representado por Chico Science nas canções e também no palco, em sua admirável e singular performance.

O fim do segundo milênio começava a despontar e uma pesquisa feita por um instituto da cidade de Washington – EUA, apontava o Recife como a quarta pior cidade do mundo para se viver, fato descrito por Chico Science em uma de suas canções. A cidade crescera rápida e desordenadamente. "A cidade não pára, a cidade só cresce. O de cima sobe e o de baixo desce". A exposição desses contrastes sociais e da dura realidade de uma "situação sempre mais ou menos, sempre uns com mais e outros com menos", contribuiu para que o manguebeat fosse bem melhor aceito na periferia, seu berço e fonte de inspiração.

A forte vibração vinda do mangue abalou um pouco as sólidas estruturas da sociedade conservadora recifense. Os respingos da lama nas varandas de seus apartamentos de luxo, qual "a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma", desagradaram aos assustados e aflitos burgueses, protegidos em suas casas fortes, os quais, diferentemente das populações ribeirinhas, que (sobre)vivem em "mocambos entulhados à beira do Capibaribe", sempre apreciaram o mangue à distância, do alto dessas varandas, com vista para o rio. O duro retrato de uma manguetown miserável ("Tô enfiado na lama / é um bairro sujo / onde os urubus têm casas / e eu não tenho asas") não caiu nas graças dos mais abastados que, embora na mesma cidade, viviam em outro mundo, tampouco lhes cheirou bem ("ninguém foge ao cheiro sujo da lama da manguetown").

A modernização da sonoridade, por sua vez, aproximou o movimento dos mais jovens, deixando os mais velhos bem reticentes, quando não exclamativos, à teoria de que "modernizar o passado é uma evolução musical". Concordando ou não com essa teoria, temos que reconhecer o papel fundamental de Chico Science na revalorização da tradicional cultura popular do estado, na revitalização do carnaval do Recife e de ritmos como o coco e o maracatu.

Pernambuco sempre se fechou um pouco em sua forte tradição de cultura popular, regional e, talvez por isso, tenha tido, nas últimas décadas, pouco acesso à mídia, infelizmente cada vez mais globalizada (Alceu Valença, pioneiro, no estado, na mistura de rock com ritmos locais, foi uma das raras exceções). Chico Science e Nação Zumbi quebraram um pouco essa separação, modernizando a música regional, aproximando-a dos mais jovens e abrindo as portas para que outros músicos e grupos, que vieram em seus rastros, conseguissem mais espaço, quer seguindo a mistura e diversidade de estilos do manguebeat, quer não. Nomes como Otto, ex-Mundo Livre S/A; Siba Veloso, ex-Mestre Ambrósio; Silvério Pessoa, ex-Cascabulho; as bandas Devotos e Faces do Subúrbio e, mais recentemente, Cordel do Fogo Encantado e Mombojó.

Chico Science faleceu precocemente, aos trinta anos, em um acidente de carro, num domingo, dia 2 de fevereiro de 1997, dia de Iemanjá, entre o mangue e a praia, entre a lama e o caos, entre o rio e o mar, entre Recife e Olinda, entre rios, pontes e overdrives. Há dez anos. Seus preceitos de liberação da mente, expansão da consciência e tudo o mais que faça alguém ficar pensando melhor, continuam bem vivos e em sintonia com os anseios de quem está sempre à busca de romper as fronteiras dos jardins da razão.

23.1.07

Monte de sucesso


O ecletismo da produção musical de Marisa Monte reflete bem a trajetória de quem começou a carreira estudando canto lírico para, em seguida, aparecer ao público como revelação da música popular brasileira. Reflete, também, não apenas suas influências, mas suas amizades, seus amores, suas fases, sua vida pessoal.

De seu pai, ex-diretor-cultural da escola de samba carioca Portela, vieram os sambistas da Velha Guarda e com eles, Paulinho da Viola. De Nando Reis, vieram os Titãs e entre eles, Arnaldo Antunes (ou o contrário). De Davi Moraes, vieram os Novos Baianos e entre eles, Moraes Moreira, Pedro Baby e Dadi. Noves fora, Carlinhos Brown.

Finalmente, do seu filho, veio uma pausa de cerca de cinco anos nas apresentações em palco, que possibilitou o trabalho de pesquisa e a preparação de seus dois novos trabalhos, "Infinito particular" e "Universo ao meu redor", os quais melhoraram sua média anterior de cinco cd’s em 16 anos de carreira. Este maior espaçamento entre discos lançados e descompromisso de lançar um por ano são, em parte, responsáveis pela manutenção da qualidade em seu trabalho.

Em seu álbum preto, "Infinito particular", considerado por um crítico do jornal The New York Times o segundo melhor disco de 2006 em todo o mundo, todo o repertório é composto de canções suas, em diversas parcerias. Além da já habitual, com o concreto Arnaldo Antunes e o abstrato Carlinhos Brown, da qual ela tornou-se o equilíbrio, ela compôs, também, com Adriana Calcanhoto, Seu Jorge e Marcelo Yuka, entre outros.

Embora seja uma das cantoras que menos se expõe na mídia, sempre preservando seu infinito particular do universo ao seu redor (mesmo os discos são separados), Marisa vem mantendo uma boa parceria público-privada ao longo de sua carreira, preferindo mostrar suas caras na música, aos caros ouvintes, e não em revistas Caras, fúteis. "Gerânio", por exemplo, foi feita a partir de uma carta em que sua prima a descreve. Na canção que dá nome ao disco e é sua primeira faixa, por sua vez, a descrição pode se aplicar a ela mesma ou a sua música: "Eis o melhor e o pior de mim / O meu termômetro, o meu quilate / Vem, cara, me retrate / Não é impossível / Eu não sou difícil de ler / ... / Só não se perca ao entrar / No meu infinito particular".

"O rio" é uma bela e singela cantiga de ninar criança e gente grande também: "Quando amanhã por acaso faltar / Uma alegria no seu coração / Lembra do som dessas águas de lá / Faz desse rio a sua oração / Lembra, meu filho, passou, passará / Essa certeza a ciência nos dá / Que vai chover quando o sol se cansar / Para que flores não faltem".

Embora algumas de suas músicas, de estilo mais comercial, como "Já sei namorar", façam parte da sua cota "o pior de mim" (nesse caso, o termo privada, da PPP mencionada acima, pode, para alguns, assumir um outro significado), ela, de um modo geral, é competente nisso também (vide "Até parece" e "Pra ser sincero"). Ademais, sabe que tem um público diversificado e que a sociedade deformadora de opinião é bem mais condescendente com "pequenos deslizes" de cantores como ela que, embora definidos como de música popular brasileira, são tratados como genuínos representantes de uma música não-popular brasileira, na acepção elitista do termo.

"Pernambucobucolismo", idealizada durante um trajeto por entre plantações de cana-de-açúcar do interior de Pernambuco, remete-nos, realmente, ao doce silêncio e à leveza dos canaviais. Apenas baixo, percussão e sua voz, num arranjo puro, simples, bucólico, que tem como resultado uma revolução do interior (da pessoa e do lugar), não-praieira, pacífica, um movimento silencioso, um barulhinho bom. Para ouvir em silêncio absoluto. Também bucólica é "Vilarejo", que descreve um lugar onde o mundo tem razão e onde portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar. Peitos fartos, filhos fortes e em todas as mesas pão.

Dispondo de grande quantidade de material, após intensa pesquisa que contou com a ajuda de antigos compositores, Marisa, que já vinha gravando sambas em trabalhos anteriores, lançou, também, o álbum "Universo ao meu redor", só com músicas deste ritmo, entre composições antigas, mas ainda inéditas e outras mais recentes. Paulinho da Viola, de quem ela já gravara "Dança da solidão" e "Para ver as meninas", está muito bem representado nesse novo disco com "Para mais ninguém".

Ao ser indagada, em entrevista a uma revista, sobre novos talentos da música brasileira, Marisa Monte afirmou que, enquanto as pessoas estão sempre à procura do novo na juventude, ela busca o novo nas gerações anteriores. De fato, algumas músicas de "Universo ao meu redor" foram compostas há mais de cinqüenta anos e nunca haviam sido gravadas, entre elas "Meu canário" (Piu-piu, piu-piu, piu-piu, canta, meu canarinho, para amenizar a minha dor), do mesmo autor de "O pato" (O pato vinha cantando alegremente, quém, quém), o onomatopéico compositor Jayme Silva. A música estava registrada apenas no HD (head-disk) de Monarco, sambista da Portela.

Outro destaque da velha guarda é a canção "Lágrimas e tormentos", mas, como novo e antigo são adjetivos que denotam condição e não qualidade, sambistas mais novos como Adriana Calcanhoto e o trio Marisa, Brown e Arnaldo, atendem satisfatoriamente ao pedido final dos mais velhos, de não deixar o samba morrer, com suas canções "Vai saber" e "Universo ao meu redor", respectivamente.

Os arranjos, de Eumir Deodato, João Donato e Philip Glass, conseguem manter a atmosfera de simplicidade das canções, sem perderem o esmero e o apuro. Nos acompanhamentos, na bateria, Pupilo (Nação Zumbi) e em instrumentos de corda, Jacques Morelenbaum, Nicolas Krassik, Pedro Baby e o inseparável Dadi (A Cor do Som), entre outros. Toda essa mistura, meio bossa nova e rock’n roll, talvez revele o segredo de seu sucesso, a abrangência de seu público e sua percepção de que o Brasil não é só verde, anil e amarelo, o Brasil também é cor de rosa e carvão.

30.12.06

Conversa com verso

Na última estação, em razão da confusão na aviação civil, avião não se viu e a população do Brasil, que se viu nessa situação, sem ação no saguão da estação, diante de uma aviação vil que não lhe serviu, servil, inquiriu: "vou ou não vou?", "vôo ou não vôo?". Em qualquer nação, overbook é contravenção, uma agressão, não tem perdão, mas o que dizer do cidadão que cancela a excursão e não dá satisfação, deixando vazio seu lugar ou posição no avião e dando sua contribuição às pequenas taxas de ocupação? Todos têm culpa, então e estão com Pires na mão, sem razão. A reclamação no balcão das companhias de aviação segue a mil, com razão, assim como a convicção de que do extravio só escaparão as bagagens de mão. Se em tal ocasião não havia avião, nos verões que virão, vocês verão, a via-crúcis nos terminais terminarão e os aviões que não haviam aviado, aviarão. Sairão da situação anacrônica em que estão e, então, decolarão e voarão.

Na novela da passarela, a magrela, que é só costela, sem nada na panela, trela que custa a ela seqüela, presa a uma empresa de meia-tigela, debela a situação em tela, que nada tem de bela, e, enfim, se rebela: ruim sem ela, pior com ela. Bela, mas num estado de osso e pele a que o padrão a impele, o que come expele. Carente de HDL, tentando ser Gisele, esperando que alguém a revele, a bela donzela apela para que o ás do corte e costura corte sua desventura e costure sua cura, revele sua loucura, aceite sua gordura, e cancele a ditadura da cintura.

As coisas nos Andes vão andar e, com Correa, vão correr. Devedores bolivianos, cansados de atentar contra Morales e os bons costumes, vão, finalmente, afirmar: "Evo, não nego, pago quando puder". Uribe, presidente da Colômbia Pictures, apoiado pelos Estados Unidos, ficará com as FARC e o queijo na mão, com receio de que um Vladimir Putin da vida envenene seu queijo com alguma droga nociva ou dê bola pra ele.

Romário, retardatário, mas ainda no páreo, em romaria no hilário intento do milésimo tento, promete que, em 2007, fará novo experimento. Tentará no basquete seu sustento, para que o processo não seja tão lento e, pelo contrário, o tetragenário, que tá lento, mostre o talento do craque lendário, encontre um alento e, por um momento, seu trabalho saia mais a contento, acelerando ao menos cem por cento, com meia cesta equivalendo a um tento.

Com um mínimo de menos de quatrocentos, um aumento de noventa e um por cento em um rendimento, lamento, mas não tem cabimento. Que no ano que vem, para lamentar o parlamentar e para nosso alento, o aumento salarial do parlamento seja igual ao percentual de cumprimento de toda promessa e juramento da campanha eleitoral, dando encerramento, afinal, a um aumento de vencimentos desproporcional e dando vencimento ao clamor geral contra o congresso nacional e à cara de pau de cada mau elemento, seja senador ou deputado federal. Verdade seja dita, essa sujeira irrita e Rita, então, sem eira nem beira e aflita, em sua costumeira desdita, perde a estribeira e, de maneira grosseira, em vindita, revida a rasteira e dita ao dito, que a um pedido seu não atendera, a mesma punhalada traiçoeira e maldita que levamos na traseira. Gabeira permita que sua classe reflita para que essa dita besteira não se repita. Tenho dito.

Após essa conversa em prosa e verso, girando em sentido inverso por um universo controverso e assunto diverso, não tergiverso e me despeço com os versos de um sucesso de Louis Armstrong, que aqui jazz e de quem soul fã confesso. Que no futuro que amanhã começa, a tolerância, a generosidade e o sorriso venham em excesso, a desigualdade cesse, não haja caminho adverso, o destino não seja perverso, a justiça tenha frente e verso, o verdadeiro sentido da vida seja expresso e o mundo seja maravilhoso para todos, não apenas para myself, é o que peço.






What A Wonderful World (Bob Thiele - George Weiss)

I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world
I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world
The colors of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands, saying, "how do you do?"
They're really saying, "I love you"
I hear babies cry, I watch them grow
They'll learn much more, than I'll never know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world

2.12.06

Choque cultural


Movimentos geralmente são definidos por características singulares, ímpares e bem definidas. Refletem uma tendência de idéias mais ou menos unificadas e homogêneas, predominantes em determinada época. A corrente dos tropicalistas, que completa quarenta anos em 2007, no entanto, foge um pouco a essa definição padrão, ao abraçar várias tendências e influências aparentemente incompatíveis, sem um sentido único. Como o movimento aparentemente desordenado dos elétrons. Caetano Veloso, um dos fundadores do movimento, até diz preferir o nome Tropicália a Tropicalismo, entre outras razões, justamente pela idéia limitadora e de enquadramento associada ao sufixo ismo, muito utilizado para denominar movimentos nas mais diversas áreas.

Sabemos, das aulas de eletricidade, que tensão gera corrente e a tropicalista, embora Gil e Caetano tenham-se destacado no festival de música da TV Record de 1967, com "Domingo no parque" e "Alegria, alegria" (segunda e quarta colocadas), respectivamente, provocou choque e não foi logo bem aceita. A Tropicália, cujo nome foi sugerido pelo produtor de cinema Luís Carlos Barreto, baseado em uma obra do artista plástico Hélio Oiticica, surgiu num clima de rivalidade e discórdia entre dois grupos antagônicos.

De um lado, os politizados, estudantes, artistas, intelectuais, contrários ao golpe militar de 64 e, por conseguinte, ao chamado imperialismo vindo dos Estados Unidos ou a qualquer influência deles, ou dos estrangeiros em geral, na nossa cultura. Do outro, os não politizados, que queriam apenas se divertir, sem maiores questionamentos sobre a situação do país. Havia, então, correntes alternadas, em sentidos contrários: o primeiro grupo era simpatizante e adepto da Bossa Nova e das músicas de protesto, de cunho político, e o segundo, da Jovem Guarda, influência dos Beatles e outros grupos de rock na música nacional.

Os tropicalistas tornaram-se, então, um campo neutro, sem uma polarização definida de forma simplória entre positiva e negativa. Uma energia mais nova que a Bossa Nova, mais jovem que a Jovem Guarda. Em vez do sistema monofásico vigente, onde só se podia apreciar um ou outro estilo, propuseram uma fonte geradora de energia trifásica, com as três correntes interagindo através de ondas harmônicas e em ressonância, em circuitos paralelos. Da Jovem Guarda, buscaram um som mais universal, mas sem copiar o rock estrangeiro. Em relação à Bossa Nova, sugeriram uma mudança de tom: em vez do Jobim, o Zé. De João Gilberto, ficou o Gilberto, que se reproduziu e virou Gilberto Gil.

"É proibido proibir". Então, podia-se valorizar a cultura brasileira sem menosprezar as influências estrangeiras: "sobre a cabeça os aviões, sobre os meus pés os caminhões". Podia-se exclamar "viva a bossa" ou "viva a banda", mas também "ouvir aquela canção do Roberto". "Que tudo mais vá pro inferno, meu bem". Podia-se contar uma história com princípio, meio e fim, como em "Domingo no parque" ou ser concretista, como em "Batmakumba"*, com sua letra visual, em forma de K, ou ainda das asas de um morcego, universalizando a macumba. Podia-se cantar em inglês: "baby, baby, I love you", em espanhol: "soy loco por ti, América, soy loco por ti de amores", em português, ou ainda criar uma nova língua, juntando todas: "batmakumbayêyê batmakumbaoba". "Não sei. Leia na minha camisa". Afinal de contas, o som é universal e tropical é tropical em várias línguas.

Mas, pela lei de Ohm e pela lei dos homens, toda corrente gera resistência e uma alta resistência impede que a corrente se propague. O movimento chegou ao fim com a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em dezembro de 1968, por parte do governo militar (a trupe carlista não gostava de tropicalista), os baianos Caetano e Gil foram presos e depois seguiram em exílio para a Inglaterra, onde permaneceram por quase quatro anos. Pouco antes disso, lançaram um disco coletivo de nome "Tropicália ou Panis et Circenses", que consagrou o movimento e contou também com a participação de Tom Zé, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes, Torquato Neto, Capinam e o maestro e arranjador Rogério Duprat.

Entre acordes nada dissonantes de guitarra, Caetano sintetizou bem o espírito do movimento em sua canção "Alegria, alegria"**, que retratava os acontecimentos da época de forma fragmentada, como notícias de jornal, forma essa que caracterizava também a postura neutra (no sentido de imparcialidade, não de impassibilidade), mas ao mesmo tempo marcante dos tropicalistas. Golpe militar, movimento hippie, guerra do Vietnã, conquista da lua, exibiam-se nas manchetes da letra, por entre fotos e nomes, repartidos em crimes, espaçonaves, guerrilhas, entre caras de presidentes e grandes beijos de amor, bomba e Brigitte Bardot. Sem livros e sem fuzil, nada no bolso ou nas mãos, caminhando contra o vento. É proibido proibir e vocês não estão entendendo nada!




* Batmakumba (Caetano Veloso – Gilberto Gil)

batmakumbayêyê batmakumbaoba
batmakumbayêyê batmakumbao
batmakumbayêyê batmakumba
batmakumbayêyê batmakum
batmakumbayêyê batman
batmakumbayêyê bat
batmakumbayêyê ba
batmakumbayêyê
batmakumbayê
batmakumba
batmakum
batman
bat
ba
bat
batman
batmakum
batmakumba
batmakumbayê
batmakumbayêyê
batmakumbayêyê ba
batmakumbayêyê bat
batmakumbayêyê batman
batmakumbayêyê batmakum
batmakumbayêyê batmakumbao
batmakumbayêyê batmakumbaoba


** Alegria, alegria (Caetano Veloso)


Caminhando contra o vento
Sem lenço sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes pernas bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia?
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou

Por que não? Por que não?

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço sem documento
Eu vou

Eu tomo uma Coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome sem telefone
No coração do Brasil

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou

Sem lenço sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou

Por que não? Por que não?

14.11.06

Pontos de vista

Em todos os sentidos, considero-me pouco aguçado e apurado nos detalhes, percebendo pouco pequenas diferenciações. Pequenas variações de odores não me cheiram melhor nem pior, meu paladar escolhe o que lhe agrada quase ao sabor do acaso, não dou ouvidos a certos ruídos e escuto um pouco de tudo. Faltou tato? Este às vezes me falta, também, em outros sentidos. Minha visão, na minha visão, não foge à regra e, como os demais sentidos, não é tão exigente, detalhista ou observadora, sobretudo do ponto de vista da arte da pintura.

Vejo com bons olhos, contudo, uma expressão artística que desperta a sensibilidade e impressiona a visão, sobre a qual atrevo-me a escrever, como admirador e não como conhecedor: o Impressionismo, especialmente na figura de Claude Oscar Monet, seu criador, pintor francês nascido há exatos 166 anos, cujo aniversário de 80 anos de morte dar-se-á neste mês de dezembro de 2006.

Monet não foi crítico nem contestador em seus trabalhos, tendo sua revolução ocorrido mais na técnica do que no conteúdo de suas obras, geralmente paisagens suaves e belas. Passou a infância na cidade do Havre, situada na foz do rio Sena, cena ideal para despertar seu gosto por essa pintura e, aos quinze anos, já era conhecido na cidade e ganhava dinheiro como caricaturista, o que poderíamos chamar de política "monetária".

A exposição que deu origem ao movimento impressionista ocorreu na cidade de Paris, em 1874 e seu nome provém de um quadro de Monet, apresentado na ocasião: "Impression: Soleil Levant" (Impressão: Nascer do Sol), nem tão representativo das características do Impressionismo, não fosse, justamente, seu título. Inicialmente usado pelos críticos em tom pejorativo, o nome "Impressionismo" foi mantido, por retratar bem duas importantes características do movimento: a valorização da construção subjetiva da imagem, das impressões do observador sobre ela e o hábito de pintura de paisagens in loco, retratando, assim, a primeira impressão do pintor (parecendo um esboço, na visão dos críticos), utilizado, principalmente, por Monet, já alguns anos antes do início formal do movimento.

"Impression: Soleil Levant" – Monet - 1874
("Impressão: Nascer do Sol", quadro que deu origem ao Impressionismo)

Tendo surgido após o Realismo que, na pintura, preocupava-se com a fidelidade à forma dos objetos retratados, o Impressionismo, por sua vez, preocupava-se com a fidelidade à percepção do objeto por parte do observador, possuindo como características, por conseguinte, o uso das variações de luz e seus reflexos sobre as imagens, dos efeitos de luz e sombra e a ausência de linhas e contornos bem definidos. Para reforçar essas particularidades, Monet fazia uso de paisagens a céu aberto e séries de quadros em seqüências, retratando paisagens em diferentes horas do dia, sob diferentes efeitos de luz. Além dele, o Impressionismo teve como principais expoentes os pintores Auguste Renoir e Edgard Degas e manifestou-se, também, na escultura, com Auguste Rodin e na música, com Maurice Ravel, todos franceses.

Se o Impressionismo é, em alguns aspectos, distante da realidade, uma característica em especial, reforçada por pintores ditos pós-impressionistas, aproxima-o das impressões que nos causa o mundo real, da maneira como percebemos a vida e seus acontecimentos: o processo de formação da imagem apenas em nossa retina, através da técnica do uso de cores complementares não misturadas, mas que, por meio de um fenômeno óptico, produzem um efeito de mistura em nossos olhos. Esta semelhança com a realidade é percebida quando observamos que a informação ou a imagem, sua interpretação e seus efeitos, assim como os acontecimentos, repercutem em nós dependendo da maneira como nossa mente os absorve. Quando assimilamos algo, não absorvemos apenas o fato em si, mas sim o fato como o percebemos, já impregnado de nós mesmos, de nossas vivências. Assim é a vida.




"La Promenade, la femme à l'ombrelle" – Monet - 1875
("O passeio, mulher com sombrinha", que retrata sua primeira esposa, Camille e seu filho mais velho, Jean)

“Eu não sou um grande pintor, um grande poeta. Sei apenas que faço o que posso para expressar o que sinto em frente à natureza.”

(Claude Monet)

2.11.06

Mutatis Mutantes


Os Mutantes mudaram, literalmente. E “o A e o Z”, música que gravaram em 1973 e que deu nome ao primeiro álbum da banda após a saída de Rita Lee, pode ter também, agora, um outro significado: o A de Arnaldo Baptista e o Z de Zélia Duncan. É que a cantora faz parte da nova formação do grupo, reunido este ano para shows, em substituição a Rita Lee, que não se interessou em participar do novo projeto.

A volta dos Mutantes ocorreu em maio de 2006, em um show em Londres, que fez parte de uma série de apresentações ocorridas na capital inglesa em homenagem ao movimento tropicalista, em um evento denominado “Tropicália - A Revolution in Brazilian Culture”, do qual também participaram Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé. O grupo voltou a se apresentar duas vezes em julho, em Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos. A apresentação em Londres foi gravada e vai ser lançada, brevemente, em CD e DVD. Estão previstas, também, apresentações em solo brasileiro, em 2007.

Fora a entrada de Zélia Duncan nos vocais, os demais integrantes permaneceram os mesmos: Dinho Leme na bateria e os irmãos Arnaldo Baptista nos teclados e Sérgio Dias na guitarra, com o reforço, desta vez, de dois backing vocals e outros músicos, entre eles a percussionista Simone Soul, que já acompanhou vários nomes da MPB, como Chico César, Zeca Baleiro e a própria Zélia Duncan.

Espécie de precursores do estilo seguido logo depois pelo grupo Secos & Molhados e pelo cantor Raul Seixas (vide “O vira”, do primeiro e “Mosca na sopa”, do segundo), Os Mutantes tinham como uma de suas características mais marcantes o humor, a irreverência e a ironia inteligentes, que se mostravam, ora na maneira como se vestiam em suas apresentações, ora em várias letras de suas canções, como “Amor branco e preto”, cujo título parece insinuar um relacionamento amoroso inter-racial, mas que, na verdade, fala de um amor não correspondido entre... Bem, vejam a letra, bastante atual, ao final do texto.

Logo no início da carreira, foram convidados para acompanhar Ronnie Von em seu programa na TV Record. Foi o cantor da Jovem Guarda quem batizou o grupo dos irmãos Baptista com o nome de “Os Mutantes”. Fazendo jus ao nome, pouco depois, eles aproximaram-se do movimento tropicalista, acompanhando Gilberto Gil na canção “Domingo no Parque”, segunda colocada no Festival da Record de 1967.

Os desentendimentos entre seus integrantes começaram a surgir quando, no início da década de 70, Rita Lee quis continuar seguindo o caminho dos tropicalistas e Arnaldo e Sérgio, como mutantes, quiseram partir para o rock progressivo e o experimentalismo. Se ambas as intenções eram válidas e enriquecedoras culturalmente falando, a de Rita se mostrou mais enriquecedora também na acepção monetária da palavra.

No ano seguinte a sua saída dos Mutantes, Arnaldo e Dinho também abandonaram a banda, que seguiu ainda com Sérgio Dias até 1978, quando encerrou definitivamente (à época) suas atividades. Em 1977, já consagrada em sua carreira solo, com sucessos como “Ovelha negra”, “Menino bonito”, “Coisas da vida” e “Agora só falta você”, Rita Lee gravou um elogiado disco ao vivo, junto com Gilberto Gil, o Refestança. Seguiu fazendo uma ponte entre o rock e a MPB, acompanhada da banda Tutti-Frutti, com quem fez os melhores trabalhos de sua carreira pós-Mutantes até que, em 1980, já sem essa banda, superou a marca de um milhão de discos vendidos do LP que levava seu nome no título, sucesso avassalador à época, com todas as faixas tocando em rádio, especialmente “Lança-perfume” e que iniciou uma fase mais comercial de sua carreira.

Para Arnaldo Baptista, contudo, riqueza parece nunca ter sido um grande apelo. “Se eles têm três carros, eu posso voar”, já dizia ele em sua bela “Balada do Louco”. Depois de um acidente ou tentativa de suicídio em 1982, quando caiu ou se atirou do terceiro andar de uma clínica onde se recuperava do uso de drogas, ele passou a morar num sítio em Juiz de Fora, Minas Gerais, levando uma vida simples, afastado da mídia.

A partir de 2000, quando foi lançado o álbum Tecnicolor, gravado em 1970 pelos Mutantes, mas até então inédito em disco, voltou a se apresentar em shows, participando de festivais como o “Abril pro Rock”, no Recife e o “Free Jazz”, no Rio de Janeiro, onde, além de sua apresentação solo, dividiu o palco com um grande fã, Sean Lennon, com quem cantou um dos maiores sucessos dos Mutantes, a música “Panis et Circensis”, de Caetano e Gil. Em 2004, lançou um novo trabalho, o disco “Let it bed” que, ironicamente, tem como uma de suas faixas a canção LSD, que brinca com “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles, fazendo uso das mesmas três letras, desta feita como as iniciais de "Louvado Seja Deus” (na música, ele diz: “Louvado seja Deus que nos deu o rock'n roll”).

Com a MPB em constante mutação, essa volta dos Mutantes pode trazer muito mais do que simples curiosidade aos mais novos e saudosismo aos mais antigos, que já cantaram com Rita Lee o refrão: “Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu com a música popular brasileira?” e hoje em dia andam meio desligados, talvez sentindo a falta daquele ácido Lee-Sérgico.



AMOR BRANCO E PRETO (Rita Lee / Arnaldo Baptista)

Por que será que eu gosto de sofrer?
Vai ver que agora eu dei pra masoquista
Meu amor branco e preto
Às vezes me deixou na mão
Mas eu gosto de você
Já não me importa a sua ingratidão
Sofro mas continuo a te adorar
Corinthians meu amor
Corinthians!

24.10.06

Sábio Sabino

No mês em que se comemora o dia das crianças, presto uma singela homenagem a Fernando Sabino, autor de diversos contos, crônicas e livros como "O encontro marcado", publicado em vários países e "O grande mentecapto", entre outros.

Aprendi a admirá-lo ainda na infância, lendo seus contos que fizeram parte dos vários volumes da deliciosa coleção "Para gostar de ler", entre eles "O homem nu"*, bastante leve e divertido (pra nós, não pra o homem), que já dera nome a um de seus livros de contos e crônicas e posteriormente foi adaptado para o cinema. Além de Fernando Sabino, a coleção "Para gostar de ler" contava, ainda, com as notáveis contribuições de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade, que tornavam fácil aos pequenos leitores iniciantes o alcance do objetivo claramente expresso em seu nome.

Não é fácil escrever para crianças e adolescentes, nem despertar seus interesses para a leitura, sem guardar um pouco deles dentro de si, algo que Sabino sempre buscou, declaradamente, ao longo de suas mais de oito décadas vividas. Decerto devido ao seu jeito simples, agradável e informal de escrever, imaginava-o, à época, bem mais jovem do que seus por mim então desconhecidos cinqüenta e poucos anos.

Hoje, percebo que, de certa forma, ele era jovem mesmo, algo que pude compreender melhor tomando conhecimento de seu epitáfio. Nascido e sepultado no dia das crianças, 12 de outubro, em sua lápide está escrito, a seu pedido: "Aqui jaz Fernando Sabino. Nasceu homem, morreu menino". Ou seja, enquanto eu estava me tornando menor, virando homem, ele estava crescendo, virando criança, realizando o desejo de toda sua vida, o qual ele resumiu nas seguintes frases, que revelam bem sua admiração e amor aos pequeninos, sentimentos com os quais compactuo:

"Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino".



* Clique aqui para ler o conto

29.9.06

Beleza pura

Pouco antes e ainda durante a renovação, para o bem ou para o mal, da música brasileira, proporcionada pelo chamado BRock e de seu monopólio na indústria fonográfica nacional, um grupo dava um novo tom, uma nova cor ao som monocromático da música brasileira de então. Com seu embrião formado no grupo Novos Baianos, do qual fazia parte o baixista Dadi, e contando com dois baianos entre seus integrantes, este novo grupo daria seqüência à boa e constante influência dos mesmos na MPB, com o mesmo charme bonito que o santo lhes deu.

Com a saída de Moraes Moreira dos Novos Baianos para seguir carreira-solo, Dadi passou a acompanhá-lo em shows para, em seguida, dar vida própria a esse novo grupo ao qual Caetano Veloso, que já homenageara o baixista com a canção "Leãozinho", sugeriu o nome de "A Cor do Som".

Para compor a aquarela musical da banda, Dadi convidou seu irmão Mu Carvalho, pianista. Ambos vêm de uma família bastante ligada à música e também são irmãos de Sérgio Carvalho, produtor musical e de Heloísa Tapajós, socióloga e pesquisadora de MPB. Heloísa, por sua vez, é casada com o compositor Paulinho Tapajós, autor de clássicos da nossa música, como "Andança" (com Edmundo Souto e Danilo Caymmi) e "Cantiga por Luciana" (com Edmundo Souto). Numa parceria em família, Mu e Paulinho Tapajós, juntamente com Cláudio Nucci, integrante do grupo Boca Livre, compuseram a bela canção "Sapato velho", que veio a se tornar um grande sucesso na interpretação do grupo Roupa Nova.

Outro integrante de "A Cor do Som" foi o principal responsável por dar ao grupo um perfil e uma identidade instrumental peculiar, bastante elogiados à época: Armandinho, filho de Osmar Macedo, inventor do trio elétrico junto com Dodô (completava o trio, o músico Temístocles Aragão). No início da década de 60, aos nove anos de idade, em Salvador, ele já tocava guitarra no grupo do pai que, a partir de 1974, passou a ser conhecido como "Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar". Hoje, é considerado um dos maiores instrumentistas do país e o danado é bom como quê, mesmo.

Completaram a formação original do grupo o baterista Gustavo Schröeter, que também acompanhara Moraes no início de sua carreira-solo e o percussionista Ary Dias.

O grupo lançou dez trabalhos, entre 1977 e 1987, e foi convidado, em 1979, a participar do disco "A Ópera do Malandro", de Chico Buarque, a quem acompanharam na faixa "Hino de Duran". Reuniram-se em 1996 para a gravação de um CD ao vivo e novamente em 2006, com "A Cor do Som Acústico", com o qual ganharam o prêmio Tim de melhor grupo, na categoria canção popular.

Este novo CD/DVD mostra bem a diversidade de ritmos e sons que sempre caracterizou a banda, indo do chorinho instrumental de "Noites cariocas" (Jacob do Bandolim) ao samba-reggae de "Amor inteiro" (Armandinho e Fausto Nilo). Contém algumas músicas inéditas, como "O dia de amanhã" (Dadi e Arnaldo Antunes) e antigos sucessos do grupo, com destaque para "Abri a porta", de Gilberto Gil e Dominguinhos, "Beleza Pura", de Caetano Veloso, com participação especial de Daniella Mercury e "Menino Deus", também de Caetano, com quem eles cantam na faixa.

Uma curiosidade sobre Menino Deus* é que a canção homenageia, com poesia, singeleza e ternura, um bairro antigo da cidade de Porto Alegre, de mesmo nome, que Caetano descobriu em uma viagem àquela cidade (Também foi assim que descobri tal homenagem, em passagem pelo bairro, por meio de uma guia de turismo).

Outra participação especial no CD foi a de Moraes Moreira em "Davilicença", composta por ele (em parceria com Armandinho) em homenagem ao então pequenino filho, Davi Moraes, o qual participa do DVD, tocando guitarra no frevo Taiane, de Osmar Macedo.

Atualmente, além do trabalho com "A Cor do Som", seus integrantes trabalham com outros projetos e músicos. Dadi faz parte da banda que acompanha a cantora Marisa Monte e possui composições em parceria com ela, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes (é quase, digamos assim, um quarto tribalista). Armandinho continuou o trabalho de seu pai, já falecido, no trio elétrico e vem fazendo um trabalho instrumental em conjunto com o violonista Yamandú Costa.



Menino Deus (Caetano Veloso)

Menino Deus, um corpo azul dourado
Um porto alegre é bem mais que um seguro
Na rota das nossas viagens no escuro

Menino Deus, quando tua luz se acenda
A minha voz comporá tua lenda
E por um momento haverá mais futuro
Do que jamais houve

Mas ouve a nossa harmonia,
A eletricidade ligada no dia
Em que brilharias por sobre a cidade

Menino Deus, quando a flor do teu sexo
Abrir as pétalas para o universo
E então, por um lapso, se encontrar anexo

Ligando os breus, dando sentido aos mundos
E aos corações sentimentos profundos
De terna alegria no dia
Do menino Deus
No dia do menino Deus

19.9.06

Um jornal brilhante


Na segunda metade da década de 60, após o golpe militar e antes do AI-5, enquanto as pessoas na sala de jantar eram ocupadas em nascer e morrer, o Sol despontava do lado de fora de suas janelas, antes que a definitiva noite se espalhasse.

O jornal alternativo "O Sol" surgiu como um encarte diário do Jornal dos Sports e logo ganhou luz própria. A idéia de seu idealizador e criador, o jornalista Reynaldo Jardim, era que fosse um jornal-escola, em que editores como ele, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony e Ziraldo assumiriam o papel de professores, e novos jornalistas, atuando como repórteres e colaboradores, seriam os alunos. Entre os alunos de destaque estavam Daniel Azulay, Dedé Gadelha, primeira esposa de Caetano Veloso e Luiz Carlos Sá, que depois viria a compor o trio Sá, Rodrix e Guarabira, autor de belas canções como "Caçador de mim" e "Sobradinho" ("o sertão vai virar mar, dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão"), em parceria com Guarabira, além de um dos jingles mais duradouros e famosos do nosso país ("Vem pra Caixa você também").

Como se quisesse acompanhar a temporada anual do seu homônimo astro-rei no hemisfério sul, o Sol durou apenas seis meses, começando na primavera e terminando no verão, entre 1967 e 1968. É sobre ele, os fatos que noticiava e as pessoas que faziam ou eram notícia na época que versa o documentário "O Sol – Caminhando contra o vento", dirigido por Tetê Moraes, com roteiro dela e de Martha Alencar, as quais faziam parte da equipe do periódico. A maior parte dos depoimentos foram colhidos durante uma reunião de confraternização organizada pela produção do filme, alguns deles sem acrescentar muito ao seu resultado final, como se a diretora tivesse filmado tudo e esquecido de cortar os excessos. Em certos momentos, também, sente-se falta de uma narrativa que o conduza e explique melhor a história do jornal.

O filme situa bem a história de "O Sol" no contexto político e cultural da época, mostrando cenas de acontecimentos contemporâneos marcantes, tanto no âmbito nacional quanto em outros países, como a passeata dos cem mil, o AI-5, a primavera de Praga e a morte de Che Guevara. Tendo surgido em meio a toda essa efervescência política, o jornal destacava-se nessa área, com matérias provocadoras e manchetes criativas como "CPI PARA CIA" e "FMI É O FIM".

Participam com vários depoimentos ao longo do documentário, além daquelas que trabalhavam no jornal, pessoas que viveram ou, de alguma maneira, influenciaram os acontecimentos da época e viram o Sol nascer (alguns deles, quadrado também), como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Fernando Gabeira, Ruy Castro e Vladimir Palmeira.

Na área cultural, o país vivia o auge dos festivais de música, com inúmeros talentos surgindo e o filme mostra cenas de alguns desses festivais, como o de 1967, de um nível tal que teve como primeiros colocados os compositores Edu Lobo (Ponteio), Gilberto Gil (Domingo no Parque), Chico Buarque (Roda Viva) e Caetano Veloso (Alegria, Alegria). Este último, em um de seus depoimentos, esclarece a dúvida sobre sua suposta referência ao jornal, em trecho da letra dessa canção ("O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça"). Também são exibidas cenas do festival de 1968, que teve a polêmica disputa do primeiro lugar entre "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré, a preferida do público, e "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim, que venceu sob protestos e vaias, embora também trouxesse em sua letra alguma mensagem política, ainda que de uma forma bem mais sutil e leve em comparação com sua concorrente. *

Ao final, uma frase muito repetida à época (não apenas por padeiros) é colocada como pergunta a alguns dos entrevistados que a respondem de uma maneira que logo associamos ao contexto político atual e à chegada da esquerda ao poder no Brasil: o sonho acabou? Caetano diz que sim, mas que isso pode não ser ruim. Gabeira diz que não, que ele apenas está se modificando e tem que se renovar sempre. Que a gente possa, então, seguir vivendo. Por que não? Por que não?

Página oficial do filme: http://www.osolfilme.com



* Com exceção de "Ponteio", as demais músicas citadas neste parágrafo, bem como "Panis et circenses" (Gilberto Gil e Caetano Veloso) e "Soy loco por ti America" (Gilberto Gil e Capinam), também referenciadas no texto, constam da trilha sonora do filme, disponível em CD.

4.9.06

Meia-verdade

Em tempos de vacas magras na seleção brasileira de futebol, lembremos do episódio ocorrido nas quartas-de-final da copa do mundo 2006, época em que as vacas começaram o regime: o momento do gol que eliminou o Brasil, na derrota para a França. Tal episódio motivou, à época, desabafo (não a música) de Roberto Carlos (não o cantor), em que ele afirmava entender a revolta das pessoas, mas que os jogadores deviam ser respeitados e dizia também: “Chega de tentar achar culpados, vamos pelo menos uma vez entender que futebol é assim, nem sempre se pode vencer”. Apenas para relembrar os fatos, na hora do gol, Roberto Carlos estava ajeitando a meia.

Em meio a tanta confusão, apesar de concordar em parte com a reação meio irada de boa parte dos torcedores e não negar que o Brasil jogou um futebol de meia-tigela nessa copa, venho, por meio deste texto, buscar um meio-termo e defender o nosso jogador de camisa meia-dúzia, que estava, realmente, meio devagar, e de tão lento, quase não passou do meio-de-campo, mas que, em outros torneios, deu aos amantes do futebol, principalmente ao povo mais sofrido, meios de levar a vida com um pouco mais de alegria e por isso não deve ter seu passado esquecido ao ir pro meio da rua.

Em nosso país, há mesmo uma certa vocação para a caprinocultura expiatória, seja no campo dos esportes (incluindo o meio-campo do futebol), da política, das artes ou em outro qualquer. Sendo ou não cabras (ou bodes) safados, os bodes expiatórios são comuns no nosso meio ambiente, aparecendo sempre que algo deu bode, muitas vezes por incentivo dos meios de comunicação, querendo embolar o meio-de-campo. O técnico zangado, anterior a Dunga, não estava de todo errado quando afirmou que os torcedores eram “caixas de ressonância” da imprensa. Quem assistiu à Rede Globo achincalhando o nosso lateral de meia-idade ou execrando e decretando o fim do francês Zidane e como isso repercutiu na opinião de meio mundo de gente sabe disso.

Temos vários exemplos de bodes expiatórios que, de todos os bodes (ou “everybode”), são os únicos penalizados. No futebol, Roberto Carlos tem, entre outras, a companhia de Toninho Cerezzo, a ovelha negra, ou o bode da vez da copa do mundo de 82 (uma copa não se perde por causa de meio minuto, uma reputação, sim). Como esse meio não é privilégio dos brasileiros, na música, Yoko Ono também possui o título, em reconhecimento a serviços prestados em favor do fim da carreira dos Beatles, do ponto de vista dos fãs, para quem, ao casar-se com John Lennon, ela, literalmente, passou a ter culpa no cartório.

Dando meia-volta e retornando ao futebol brasileiro, percebe-se que os mais jovens, por acompanharem os jogos com mais fervor, por não terem presenciado outros fracassos da nossa seleção, como em 66 e 90 - entre outras tantas conquistas e boas participações - e não conhecerem, até 2006, uma seleção brasileira que não tivesse ido a uma final de copa, foram os mais indignados e, em conseqüência, mais suscetíveis a interpretações precipitadas. Talvez, a geração no entremeio de dois títulos, que não acompanhou a copa de 70 e só viu o Brasil ser campeão em 94, já na idade adulta, mais calejada por tantos percalços futebolísticos, seja mais conformada e transigente com tais fracassos.

Depois de 1986, 1998 e 2006, francamente, o Brasil já é freguês da França. Na última encomenda desse freguês, o tal lance fortuito do gol que nos fez cantar em outra freguesia, foi a linha de impedimento da defesa brasileira que falhou (se os demais jogadores da nossa seleção tivessem arrumado a meia também, em vez de correrem em direção à bola, talvez tivesse sido melhor). Ademais, o Brasil não perdeu a copa porque Roberto Carlos arrumou a meia, o zangado Parreira é que não arrumou um meio de o Brasil ganhar a copa. E em vez de colocar outro meia em seu lugar, apenas amarrou o bode...

21.8.06

“Há várias formas de fazer MPB.
Eu prefiro todas.”


Nos anos 70, os festivais de música popular brasileira não tinham mais a mesma força que na década anterior e os artistas então revelados não mais buscavam reconhecimento, sendo já bastante admirados pelo público. Ao mesmo tempo, a censura abria suas asas e soltava suas feras, em dias nem tão dançantes, de tanta mentira, tanta força bruta...

Foi nesse cenário que a gravadora Phonogram, atual Universal, reuniu seu especial elenco de cantores, os quais representavam o que havia de melhor na MPB à época (e ainda hoje) e realizou o memorável encontro batizado de Phono 73, no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, durante três dias do ano de 1973. Essa histórica apresentação foi lançada, em 2005, em uma caixa com dois CD’s e um DVD, este último, infelizmente, sem a íntegra dos shows, mas apenas 36 minutos de imagens ainda inéditas, entre apresentações e bastidores, tudo o que conseguiu ser recuperado do material filmado na época. Embora a qualidade do som, tecnicamente falando, não seja tão boa e assincronismos entre som e imagem sejam bem perceptíveis em alguns trechos do vídeo, isso não compromete a coleção, que vale pela reunião de tantos talentos, em performances tão ousadas e inovadoras, que fazem o nosso século XXI parecer bem careta em frente àqueles tempos, aos olhos de quem assiste.

O melhor momento do show, registrado no DVD, é quando Chico Buarque e Gilberto Gil aparecem em uma das primeiras apresentações públicas da canção "Cálice", de autoria dos dois, recém-composta. Censurada, a música não podia ser executada em ambientes públicos. Foi então que Gil, com toda sua perspicácia e imaginação, começou a cantar a melodia, emitindo sons vocais por ele inventados, em substituição à letra da música e Chico respondeu, cantando apenas seu inofensivo refrão. Tudo ia bem, até que Chico pôs um "arroz à grega" no meio da letra, em alusão ao fato de que os jornais da época, quando tinham suas matérias censuradas, colocavam em seu lugar receitas culinárias. Foi o suficiente para cortarem o som do seu microfone durante a apresentação (nesse dia, colocaram um censor esperto para acompanhar o show, mas nem tanto, como veremos a seguir), ao que ele protestou ao final da música, dizendo que esse corte não estava programado e era desnecessário ("Estava no programa que eu não posso cantar a música Cálice nem Anna de Amsterdam. Não vou cantar nenhuma das duas, mas desligar o som não precisava não"), o que ficou registrado, graças ao som da mesa de áudio, que permaneceu ligado ("Cálice" só pôde ser gravada em LP no ano de 1978, num dos melhores discos de Chico, que continha, além dessa, outras duas músicas que haviam sido liberadas para execução naquela ocasião: "Apesar de você" e "Tanto mar"). Ao cantar, depois, a música Baioque, de sua autoria, ele diz: "Vamos ao que pode", momento também registrado no CD.

Como todo autoritarismo é irracional e incoerente e o censor não era tão esperto assim (ou só tinha ouvidos pra o bicho-papão Chico), apesar da proibição de "Cálice", permitiu-se que o conjunto MPB-4 cantasse a música "Pesadelo" (ver letra ao final do texto), de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, de letra bem contundente e direta.

Alguns cantores apresentaram-se, sozinhos ou em duplas, em exibições bonitas, polêmicas, contestadoras ou provocantes (não necessariamente nessa ordem, nem fora dela): Caetano Veloso incorporou com sensibilidade e perfeição o sertanejo, ao cantar "A Volta da Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, quase sem acompanhamento, apenas (?) sua voz e depois dividiu o palco com o cantor "popular" Odair José sob vaias da platéia, ao que respondeu chamando o evento de "Caphono 73" e dizendo que "não existe nada mais Z do que público classe A"; Maria Bethânia e Gal Costa, belas e sensuais com suas barriguinhas de fora, cantaram juntas a bela "Oração de Mãe Menininha", de Dorival Caymmi, beijando-se na boca ao final e Sérgio Sampaio, autor de "Eu quero é botar meu bloco na rua", em uma de suas poucas aparições públicas, fez coreografia um tanto quanto despudorada, considerando-se que naquela época não se estava acostumado com boquinhas da garrafa nem tampouco com vizinhos querendo comer coelhinhos, como hoje em dia. O DVD exibe, ainda, participações de nada menos que Toquinho e Vinícius, Elis Regina e Raul Seixas, entre outros.

O manifesto do evento falava da diversidade da nossa música e da necessidade de se aceitarem todas as formas de expressão, "porque negá-las seria negar comunidades inteiras". E citava uma frase de Gilberto Gil, a qual sintetizava o espírito do festival (que, não por acaso, tinha como subtítulo "O canto de um povo"), e que vem norteando toda sua notável carreira: "Há várias formas de fazer música brasileira. Eu prefiro todas".



PESADELO (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

12.8.06

As duas faces do terror


Certamente, você lembra onde estava no dia 11 de setembro de 2001, um dia de muita angústia, incerteza, tristeza e medo para todos nós. A cena dos aviões chocando-se contra os dois prédios do World Trade Center, em Nova York, nos Estados Unidos, é impressionante, quem a viu nunca vai esquecer e, por mais que você a reveja, não consegue conceber tamanha tragédia. Em frações de segundos, centenas de vidas, nos aviões e nos prédios, acabaram-se e, em poucos minutos, outras milhares também, com a queda das torres. Foram quase três mil mortos e apenas vinte pessoas resgatadas com vida dos escombros. Parecia um filme de guerra, de ficção ou de terror, algo difícil de se esquecer. Parecia um filme e agora é isso também ...

Na semana em que a Inglaterra prendeu supostos suspeitos de planejarem ataques terroristas contra aviões que fazem a rota entre Londres e cidades americanas e há cinco anos dos atentados contra os maiores prédios de Nova York, foi lançado, nos Estados Unidos, o filme "World Trade Center" (traduzido como "Torres Gêmeas", no Brasil), de Oliver Stone que, além de "Platoon", sobre a guerra do Vietnã, dirigiu o filme "JFK – a pergunta que não quer calar", entre outros, e pretende, com este novo filme, dar ao episódio uma visão de esperança e luta em vez de morte e destruição. O filme conta a história real de dois sobreviventes dos atentados, John McLoughlin e Will Jimeno, os quais faziam parte, à época, da polícia de Nova York e que, ao tentarem salvar a vida dos que se encontravam dentro do World Trade Center após o choque dos aviões, acabaram se tornando, também, vítimas, ficando durante horas sob os escombros de uma das duas torres. No elenco, Nicolas Cage como John McLoughlin e Michael Pena, destaque em "Crash – No limite", como Will Jimeno.

O filme, que estréia no Brasil em outubro de 2006, é todo feito do ponto de vista dos dois policiais e, por isso, não mostra os aviões chocando-se contra as torres (que ironicamente situavam-se na Liberty Street), mas sim a angústia e o desespero de quem estava dentro dos prédios após o choque e antes dos desabamentos. Ao optar por mostrar o drama das vítimas, sem, também, analisar politicamente o fato, o diretor agradou à maioria dos espectadores (o filme foi considerado "patriótico" por alguns críticos americanos e foi bem recebido pela maioria da população de Nova York), mas perdeu a oportunidade de mostrar, também, ao mundo que, assim como o WTC tinha duas torres, o terrorismo tem duas faces. Sobre o mesmo tema, o canal de TV por assinatura GNT exibe os documentários "O Centro do Mundo" e "Uma História de Duas Torres", a partir do próximo dia 28 de agosto.

Nada justifica um ato de tamanha insanidade, mas é certo que, com a conivência e o apoio americanos, ou mesmo independente deles, atrocidades semelhantes são cometidas diariamente, em vários cantos do mundo, mas, como não acontecem em locais que têm próximos de si a Quinta Avenida, a Broadway, a Estátua da Liberdade ou a Wall Street, não recebem a mesma atenção da comunidade internacional. Ademais, depois desse triste episódio, milhares de outras vidas inocentes também foram (e continuam sendo) perdidas, no Afeganistão, no Iraque, no conflito entre Israel e Palestina e agora no Líbano, com a presença, o apoio ou simplesmente a indiferença dos Estados Unidos, em guerras insensatas, que não levam a nada e que nunca terminam. Tais guerras só fazem aumentar o ódio contra este país norte-americano, que está em maus lençóis (ou burcas), pois, diferentemente da Guerra Fria, que se autodissolveu, com o fracasso do regime comunista nos países do leste europeu, a guerra atual é de fundo religioso, da parte dos muçulmanos (embora um tanto quanto racista por parte dos americanos) e religião é algo bastante precioso para a população islâmica, a qual não se restringe a um só país, fazendo com que o terrorismo seja um inimigo permanente, disperso, oculto, apátrida e, por tudo isso, difícil de ser combatido, tornando esta uma espécie de guerra eterna e de difícil solução. Antes fosse apenas uma obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade fosse mera coincidência.

Página oficial do filme: www.wtcmovie.com.