1.5.09

Caminhando e cantando - os dias eram assim

Quando se fala em música de protesto, Geraldo Vandré é o primeiro nome que nos vem à cabeça. Vandré tinha convicção de que a arte constituía poderosa arma contra o regime militar e, por conta disso, não via com bons olhos aquela que não se prestasse a tal fim. Desaprovava o uso de guitarras da Jovem Guarda e do Tropicalismo – influência externa, em geral associada ao imperialismo estadunidense -, bem como os temas mais suaves da Bossa Nova, também pouco engajados politicamente.

O compositor paraibano teve curta carreira artística, talvez desiludido com o caminho que traçava o país, a perseguição que sofria por lhe ser contrário e as dificuldades com a censura. Lançou apenas cinco discos, sendo o último em 1973. Tempo suficiente, porém, para compor belas canções, como Disparada e Canção da despedida. Sua canção mais conhecida, Caminhando (Pra não dizer que não falei das flores), tornou-se hino de resistência à ditadura. Era fascinante escutar pessoas cantando, em rodas de violão ou reuniões informais, uma música que não tocava em rádio e televisão, nem estava disponível em disco, o que, naqueles tempos, apenas contribuía para torná-la especial.

Da desilusão de Roda-Viva (“tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”) à esperança de Vai Passar (“vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade”), Chico Buarque foi o compositor que melhor traduziu o sentimento do povo em relação ao rumo político que o país tomava. No início dos anos 70, período crítico da ditadura militar, mandou um recado mais do que direto contra o governo e a repressão em Apesar de você. Quando a censura deu conta do recado, a canção já havia sido lançada em compacto simples que foi, então, recolhido.

O disco Calabar (1973), trilha sonora para a peça de mesmo nome, com composições de Chico Buarque e Ruy Guerra, teve que mudar a capa e o título, que passou a ser Chico canta. Fora isso, trechos de música foram alterados, palavras substituídas ou suprimidas. No jogo de palavras em que era mestre, Chico usou as sílabas de Calabar como mote de uma das canções do disco: Cala a boca Bárbara. Outras duas – Ana de Amsterdam e Vence na vida quem diz sim - apenas foram liberadas em versões instrumentais. Com subtítulo “O elogio da traição”, a peça fazia uma analogia entre Calabar – personagem da história do Brasil visto de forma controversa como traidor - e os opositores do regime militar.

Com o nome cada vez mais visado, Chico gravou, no ano seguinte, disco com músicas de outros compositores, com um sugestivo título: Sinal fechado. Para escapar da censura, passou a adotar, até ser descoberto alguns meses depois, o pseudônimo Julinho de Adelaide, com o qual assinou Milagre brasileiro, Acorda amor (“depois de um ano eu não vindo, ponha a roupa de domingo e pode me esquecer”) e Jorge Maravilha (“você não gosta de mim, mas sua filha gosta”).

Tim Maia disse, certa vez, que com uma música de Ivan Lins faria umas dez, em exaltação ao estilo apurado das composições do colega. Compositor mais comumente associado a canções românticas, Ivan Lins, com o parceiro e letrista Vítor Martins, também foi esmerado em canções políticas, como A noite (“a noite tem deixado seus rancores gravados...”), Cartomante (“nos dias de hoje não lhes dê motivo, porque na verdade eu te quero vivo”) e Aos nossos filhos*, as duas últimas com interpretações notáveis de Elis Regina. Ironicamente, um de seus primeiros sucessos foi O amor é o meu país, de seu primeiro LP (1970), considerada alienada para um período tão conturbado.

Pra não dizer que não falei das flores, com a abertura política, canções outrora censuradas puderam, enfim, ser gravadas, como a citada música de Vandré, que fez parte de um disco ao vivo da cantora Simone, gravado no último dia do ano de 1979, no qual ela fazia votos de “que as pessoas menos afortunadas do que nós tenham um pouquinho de estabilidade na vida”. Um ano antes, num LP a que ele se refere como o “disco das samambaias”, por conta da capa, Chico Buarque não perdeu tempo e gravou logo três: Apesar de você, Cálice e Tanto mar.

A partir daí, surgiu uma leva de canções mais otimistas. Prenunciava-se “um novo tempo, apesar dos perigos”, com mensagens como “desesperar jamais, aprendemos muito nesses anos” (Ivan Lins e Vítor Martins). Como já disse Tom Zé, a felicidade é cheia de hino. Vieram, então, os hinos da anistia (O bêbado e o equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc; Tô voltando, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro), das diretas (Pelas tabelas, de Chico Buarque), da Nova República (Coração de estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso), culminando com o hino da redemocratização (Vai passar, de Chico Buarque e Francis Hime).

A arte, mais especificamente a música, sempre foi lenitivo a momentos difíceis. Quem canta seus males espanta, diz um dito popular. Cantando eu mando a tristeza embora, responde um cantor popular. E assim, virando a página, tocando em frente, caminhando, cantando e seguindo a canção, escrevemos nossa história em notas musicais.



* Aos nossos filhos (Ivan Lins / Vítor Martins)

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

E quando lavarem a mágoa
E quando lavarem a alma
E quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim

15.4.09

Formas simples pra falar de amor

Entre as décadas de 50 e 60, o rock começou a fazer barulho pelo mundo, revelando expoentes como Elvis Presley nos Estados Unidos e os Beatles na Inglaterra. Paralelamente a esse burburinho, o Brasil calava-se diante da Bossa Nova e seu novo paradigma de interpretação e composição. Pouco depois, questões políticas nacionais exacerbaram uma dicotomia lado A – lado B, expandindo-a para a música, até que os tropicalistas, ao olharem de lado para a categorização, deixarem de lado o preconceito e colocarem lado a lado os dois lados, fizeram tudo virar um saudável clipe sem nexo, meio bossa nova e rock’n roll.

Quem viveu a adolescência nesse período entre meados das duas décadas, além de vivenciar as mudanças inerentes a essa etapa da vida, presenciou aquelas por que passou a música e, certamente, não saiu ileso. O cantor e compositor Roberto Carlos foi um desses jovens. Iniciou a carreira nessa época, cantando no estilo da recém-surgida Bossa Nova, mas, logo em seguida, deixou o barquinho correr e criou o movimento que ficou conhecido como Jovem Guarda, inspirado no tal do rock. Não obstante, sempre foi figura benquista em todo o meio artístico, com amigos como o tropicalista Caetano Veloso e o bossanovista Ronaldo Bôscoli, que foi produtor de seus shows junto com Miele.

Em seu marcante LP de 1971, quando Caetano estava no exílio em Londres, Roberto gravou uma canção dele - Como dois e dois - e outra para ele, Debaixo dos caracóis dos seus cabelos*, que faz sutil referência ao exílio, como uma espécie de Sabiá (esta inspirada na Canção do Exílio, de Gonçalves Dias) a cantar em outra freguesia, a da Jovem Guarda. Em discos posteriores, gravou, também de Caetano, Muito romântico e Força estranha. Ainda no quesito homenagem, no qual, como diria Carlos Imperial, ele era dez, nota dez, compôs pro parceiro Erasmo Carlos (Amigo), pra seus pais (Meu querido, meu velho, meu amigo e Lady Laura) e talvez seja o único compositor a lembrar a categoria das tias (Minha tia).

O cantor, que está completando 50 anos de carreira, lançou, em 1959, seu primeiro trabalho, um compacto simples (que, pra quem não sabe, era uma miniatura de LP, ainda assim fisicamente um pouco maior que um CD, contendo duas músicas). Dois anos depois, lançou o primeiro LP, Louco por você, o único que ainda não autorizou a ser relançado em CD. Nesse disco, havia várias canções de Carlos Imperial (o tal do “dez, nota dez!”) e versões de músicas estrangeiras. No segundo LP, iniciou a parceria com Erasmo Carlos, com Parei na contramão e outra.

Durante quatro anos, apresentou, junto com Erasmo e Wanderléa, o programa Jovem Guarda, na tv Record. Várias canções de Roberto e Erasmo tornaram-se marcos desse período, como Quero que vá tudo pro inferno - lançada no LP Jovem Guarda (1965) e regravada dez anos depois -, que está para a Jovem Guarda como Chega de saudade para a Bossa Nova. A dupla inovou na linguagem de algumas letras: você tem que aprender a ser gente, sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo, e que tudo mais vá pro inferno, por exemplo, soaria incomum na voz de cantores de rádio.

Outro sucesso da época, Festa de Arromba, gravada por Erasmo, descreve uma reunião fictícia e faz referência a expoentes da Jovem Guarda. A canção serviu de inspiração para, na década de 70, Rita Lee e Paulo Coelho comporem versões irônicas e atualizadas, Arrombou a festa I e II (Ai, ai meu Deus, o que foi que aconteceu com a música popular brasileira?). Também nessa década, Roberto e Erasmo compuseram Jovens tardes de domingo, bela exaltação do que representou um tempo que provoca certa nostalgia mesmo em quem não o viveu.

Quando o movimento arrefeceu, Roberto Carlos passou a adotar o estilo romântico que o caracteriza até hoje, numa mudança perceptível a partir do citado LP de 71. Ainda assim, continuou retratando bem os dilemas da juventude, seus anseios ou a falta deles, como em À janela, Traumas ou Como dois e dois (“Tudo certo como dois e dois são cinco”). Nessa época, bateu recordes de venda de discos e quase tudo o que compôs tornou-se clássico da nossa música - e até nome de gente, como O divã, uma de suas pérolas. Ao longo da carreira, teve canções gravadas por intérpretes dos mais variados estilos, de Maria Bethânia a Chico Science.

No seu aniversário, em 19 de abril, RC inicia, em sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim (ES), turnê cujo ponto alto será uma apresentação no Maracanã, Rio de Janeiro. Eventos especiais marcarão os 50 anos de carreira do cantor, todos em São Paulo. No Teatro Municipal, ocorrerá o show “Elas cantam Roberto Carlos”, do qual participarão várias elas. No ginásio do Ibirapuera, será apresentado o “Roberto Carlos Rock Symphony”, com participação de bandas de rock. O espetáculo “Emoções sertanejas” será exibido no estádio do Pacaembu e reunirá cantores de... música sertaneja. Haverá, ainda, a “Expo RC 50 anos”, sobre a carreira do cantor, no parque do Ibirapuera.

Como eu já disse em outra ocasião, ele estava certo ao afirmar: “Não adianta nem tentar me esquecer”. Sabe que é coisa muito grande pra esquecer.





* Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

(Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Um dia a areia branca
Seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar
Janelas e portas vão se abrir
Pra ver você chegar
E ao se sentir em casa
Sorrindo vai chorar

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar de um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um instante

As luzes e o colorido
Que você vê agora
Nas ruas por onde anda
Na casa onde mora
Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar de um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um instante

Você anda pela tarde
E o seu olhar tristonho
Deixa sangrar no peito
Uma saudade, um sonho
Um dia vou ver você
Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso

27.3.09

Depois do dilúvio


“Por que não viver esse mundo, se não há outro mundo?”. Depois dos mal comportados anos 60 - onde se pôde experimentar de tudo um pouco - e com os efeitos da ditadura surgindo com mais força, era natural que os anos 70 fossem mais conservadores. A aniquilação dos movimentos estudantis e a censura, em geral, afastaram os jovens da área cultural e, tirando os artistas já estabelecidos, como Chico, Caetano, Gil, Roberto e outros, poucos conseguiram destaque. Apenas os mais persistentes ousaram enfrentar uma situação adversa, como foram os casos de Raul Seixas e dos grupos Secos & Molhados - do qual fazia parte Ney Matogrosso – e Novos Baianos. Em comum, a atitude de enfrentar a dita desdita apenas pelo comportamento, sem canções notadamente de protesto.

Os Novos Baianos formavam um grupo recheado de gente boa e talentosa que, após o exílio dos tropicalistas Gil e Caetano, fazendo uso da mesma régua e compasso, arregaçou as mangas e começou a traçar seu caminho pelo mundo num espetáculo de sugestivo nome: Desembarque dos bichos depois do dilúvio. Os bichos misturavam samba, bossa-nova e rock, pandeiro, violão e guitarra, em composições em sua maioria próprias. Entre cantores, compositores e instrumentistas a equipe era composta por Luís Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Baby Consuelo, Bolacha e os integrantes do subconjunto A cor do som Dadi, Baixinho e os irmãos Jorginho e Pepeu Gomes *.

Acabou Chorare, o segundo trabalho da turma, de 1972, é daquelas obras eternas (foi eleito, em 2007, o melhor disco de música brasileira de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil). Nesse disco, Galvão assim se referiu ao grupo e suas influências: "Tudo começou quando Caetano e Gil deixaram o Brasil e nós desembarcamos no Sul. Vínhamos do meio da rua, da juventude que viveu, pulou e sorriu o tropicalismo. A alegria, alegria que Caetano deu ao jovem de saber que ainda existe aquela figura pensando e a força de Gil trouxeram a gasolina pro meu pique. Com a passagem de João Gilberto, 'o mestre', pelo Brasil, o nosso trabalho e esse disco assumiram essa qualidade. João deixa ele na gente".

Adeptos de uma filosofia hippie, naturalista, os Novos Baianos moraram alguns anos em comunidade, num sítio no Rio de Janeiro. Foi nessa época que eles conheceram João Gilberto e descobriram uma admiração mútua, galvanizada pela "lei natural dos encontros", em que deixamos e recebemos um tanto. João Gilberto louvou o estilo de vida do grupo, ao mesmo tempo em que passou a exercer influência sobre seu trabalho.

Essa influência, no segundo disco, é nítida, sobretudo nas faixas Preta pretinha e Acabou chorare, essa última até no título, uma frase dita pela filha de João, Bebel Gilberto, na época ainda bebê. Depois de abrir o berreiro, a futura cantora, parecendo saber, desde pequena, que o pai não gostava de barulho, misturou línguas e tratou logo de anunciar: "Acabou chorare". Interessante que, anos depois, uma frase dita pelo próprio João Gilberto, ao observar uma mulata descendo o morro, daria nome a outra canção de Moraes Moreira: "Lá vem o Brasil descendo a ladeira".

A maioria das canções de Acabou Chorare são conhecidas e tocam em rádio até hoje, seja em suas gravações originais, seja em regravações feitas por outros artistas. Estão, também, no repertório desse disco os sucessos Brasil pandeiro, de Assis Valente - um samba da década de 40, Besta é tu, Mistério do Planeta e A menina dança **, que vejo como uma referência às meninas-do-olhos sob efeito dos colírios alucinógenos de José Simão ou outros artifícios, certamente comuns entre eles.

O último disco dos Novos Baianos foi lançado em 1979. Em seguida, Dadi juntou-se a Armandinho e seguiu com A cor do som, enquanto Moreira, Paulinho, Baby e Pepeu seguiram carreira solo. Mesmo extinto, o conjunto completa quarenta anos em 2009 e, pra marcar a data, seus integrantes têm participado de eventos e comemorações. Moraes Moreira lançou o livro em cordel A história dos Novos Baianos e outros versos, junto com show, CD e DVD homônimos. Galvão, Paulinho, Pepeu e Baby apresentaram-se no carnaval de Salvador em um trio elétrico, como nos velhos tempos. Legal ver baianos novos curtindo o som dos novos baianos, o mesmo som que seus pais, velhos baianos, escutavam quando ainda eram baianos novos.





* Assista (se quiser) ao documentário Novos Baianos Futebol Clube, de Solano Ribeiro (1973):

Parte I / Parte II / Parte III


**A menina dança (Moraes Moreira / Luís Galvão)

Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos


Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar


De um lado o olho desaforo
Que diz o meu nariz arrebitado
E não levo para casa
Mas se você vem perto eu vou lá
Eu vou lá


No canto do cisco
No canto do olho
A menina dança


E dentro da menina
A menina dança


E se você fecha o olho
A menina ainda dança


Dentro da menina
Ainda dança


Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer
Nascer o que há

22.1.09

Quando o coração fala mais alto

Por esses dias, o nome da cantora Maysa voltou a ser celebrado, graças à minissérie da Rede Globo “Maysa – Quando fala o coração”, baseada em arquivos de família, notícias de jornais e diários escritos por ela própria, mesmo material utilizado pelo livro “Maysa: Só numa multidão de amores”, de Lira Neto (ed. Globo, 2007). O escritor, não obstante, desaprovou a minissérie de Manoel Carlos, dirigida por Jayme Monjardim, filho da cantora *.

Guardadas as proporções devidas aos apelos novelesco-filiais - aceitáveis para um meio de comunicação tão amplo e abrangente como a televisão -, a obra (que bem poderia ter como subtítulo: Quando fala o coração de um filho), mais do que apresentar o trabalho de Maysa a um público novo, proporcionou a uma geração nascida antes de sua morte, mas que não chegou a acompanhar sua carreira, a oportunidade de entender e desmistificar a imagem vaga e distante que fazia dela.

Na época em que faleceu, há trinta e dois anos completados hoje e aos quarenta de idade, sua canção mais famosa, “Meu mundo caiu”, fez parte da trilha sonora da novela “Estúpido Cupido”, da Rede Globo, sendo esse meu primeiro contato com sua obra. A composição de Maysa destacava-se pelo tom melancólico, o que me causava certo desconforto, afinal, à parte o trocadilho, não há nada mais pra baixo que a expressão “meu mundo caiu”.

Ademais, como parte dessa geração a que me referi, que cresceu e despertou para a música depois da Bossa Nova, da Jovem Guarda e do Tropicalismo, eu estranhava um pouco o vozeirão característico dos cantores que surgiram antes desses movimentos e que, depois deles, viraram exceção em vez de regra, como era o caso de Maysa. Com tal prevenção, só bem depois procurei conhecer melhor seu trabalho – e apreciei -, como por meio do disco: “Maysa – Essa chama que não vai passar”, com vários cantores interpretando canções que ela gravou ao longo da carreira, lançado em 2006.

Lira Neto afirma que poucos tiveram vida e arte ligadas de forma tão indissociável quanto Maysa. Na arte, ela manteve-se fiel a seu estilo, mesmo ao decantar (exaltar) a decantada (enxuta) Bossa Nova e gravar canções de Ronaldo Bôscoli - com quem manteve relações musicais e (nem tanto) amorosas -, Tom e Vinícius. O termo brega ainda não era comum, então os ávidos em categorização classificaram tal estilo como cafona, boco moco. Os traços de personalidade que a cantora deixava transparecer em suas autobiográficas composições **, se hoje seriam vistos como sinais de depressão, termo à época ainda não banalizado, eram, então, sintomas de fossa, os quais a tornaram assim conhecida, como cantora de fossa.

Na vida, Maysa reuniu ingredientes de forte apelo popular: riqueza, fama, casos amorosos, autodestruição, transgressões, escândalos provocados por bebedeiras e vice-versa, necessariamente nessa desordem. Vítima da síndrome vínico-jobiniana de tristeza-e-melancolia-que-não-sai-de-mim, seu temperamento forte parecia querer disfarçar uma insegurança que, por sua vez, provocava-lhe a necessidade de ser admirada, aceita, elogiada e de aparecer, a despeito dos desentendimentos frequentes com atitudes invasivas da mídia. Nos relacionamentos em geral, parecia buscar nos outros atitudes paternais sem, contudo, ser maternal, haja vista a relação distante com o filho.

Na minissérie, os números musicais foram um bom recheio, sobretudo pelo fato de as letras das canções encaixarem-se tão bem com a trama, devido a seu já citado conteúdo autobiográfico. A atriz Larissa Maciel, no papel de Maysa, fez um bom trabalho. É no choro que se reconhece um bom ator e, interpretando uma personagem por natureza tão melancólica, era natural que ela tivesse que passar por esse teste. E passou bem, como na cena de um show em Lisboa, em que dedica “Hino ao amor” - versão de uma canção de Edith Piaf -, ao ex-marido, recém-falecido. O coração falou mais alto.



* Trecho inicial do artigo “Minissérie global simplifica e distorce biografia de Maysa”, do escritor Lira Neto, publicado na Folha de São Paulo em 14/1/2009:

Ao assistir aos capítulos de “Maysa - Quando Fala o Coração”, logo me veio à lembrança o dia em que um jornalista quis saber a opinião da escritora Rachel de Queiroz a respeito da adaptação de seu romance “Memorial de Maria Moura” para a televisão, à época também levada ao ar na forma de minissérie. Rachel, com irresistível senso de humor, sapecou: “Até estou gostando; eles lá na Globo é que não gostaram muito de meu livro, pois trataram de mudar tudo na história” (Leia aqui o artigo completo).



** Resposta (Maysa)

Ninguém pode calar dentro em mim
Essa chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar
Eu não posso explicar quando foi
E como ela veio
E só digo o que penso
Só faço o que gosto
E aquilo que creio
Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim

8.1.09

Falando a mesma língua – parte II: abrindo um parêntese

O ano novo chegou, junto com o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, o qual entrou em vigor, no Brasil, em seu primeiro dia. Devido às dificuldades em sua aprovação – o acordo atingiu a maioridade no ano passado -, ficou decidido que, para a mudança tornar-se oficial, seria necessária a ratificação de apenas três dos oito países da comunidade lusófona (o que ocorreu em 1º de janeiro de 2007) e não de todos, como de início. Até o momento, metade dos países que fazem parte do acordo já o ratificaram: Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal, além do Brasil. A outra metade parece não tê-lo aprovado ainda apenas por ter outras prioridades, não por lhe ser contrária.

Ora, ora, pois, pois, mas estou cá a pensar que a maior parte das análises a respeito desse acordo tem sido feita a partir do ponto de vista luso-brasileiro, sem levar em conta, na discussão dos prós e contras, as situações bem específicas dos demais países envolvidos, sobre os quais não nos chegam muitas informações. Volto ao assunto, então, para escutarmos o outro lado do disco: em lugar de um fado tropical - da linda mulata com rendas do Alentejo e do rio Amazonas que, numa pororoca, deságua no Tejo -, um puro semba africano. Parafraseando Gil, só quem sabe onde é Luanda saberá lhe dar valor.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa, defensor do acordo, apresenta importante argumento a seu favor. Com uma produção de livros ainda incipiente, Angola precisa importar bastantes livros de Brasil e Portugal e, num país com alto índice de analfabetismo, o acesso a livros com diferentes grafias aumenta a dificuldade de aprendizado da língua, ainda que sejam poucas as palavras que tiveram alterações gráficas. Para diminuir o problema, os livros didáticos provêm, em geral, exclusivamente de Portugal o que, para ele, justifica, em parte, a resistência desse país à aprovação do acordo: com ele, os portugueses perdem mercado editorial nos países africanos.

Essa redução da influência de Portugal sobre Angola, porém, já vem ocorrendo em outras áreas. No que Agualusa chama de vingança de ex-colônia, a música popular angolana tem sido predominante no mercado português, o que tem feito com que os jovens lusitanos imitem o jeito de falar dos angolanos (algo como o que ocorre com o sotaque carioca em relação ao Brasil), a ponto de ele – natural de Angola, mas, apenas por ser branco, confundido com português -, ao falar em locais públicos de Lisboa, ser interpretado como um português querendo ser moderno ou falar como um jovem.

Um ponto pacífico (e, por isso, também atlântico) é que, mesmo com a cooperação de um sem-número de super-homens, ou talvez por isso mesmo, o recém-nascido acordo foi supereconômico nas mudanças no emprego do hífen, sinal dia a dia crítico. A dificuldade de autoaprendizagem e a necessidade de esforço extraordinário, quase sobre-humano, para assimilar os anti-intuitivos contraexemplos não cessaram de todo. Ainda que tal contrassenso tenda a nos tornar super-resistentes - pra não dizer ultrarresistentes a essas regras -, fazendo-nos sentir semianalfabetos com hífen, lembremos que o supracitado acordo não caiu de paraquedas, foi bem debatido por seus coautores, inclusive com consulta pública – ainda que malsucedida - quanto a sua implementação.

Segundo um caro amigo, só dois ou três chatos deviam entender as anteriores regras do hífen, o que não deve mudar tanto: agora, talvez uns quatro ou cinco venham a entendê-las. Para servir como base para os futuros dicionários, dirimir dúvidas e etc., o documento oficial será o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que está sendo concluído e deverá ser divulgado em breve.

O gramático Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras, a qual participou ativamente da elaboração do texto do acordo, afirma que a nossa língua era a única, dentre as faladas em mais de um país, em que a grafia não era unificada. Outro acadêmico critica o uso do termo "norma culta" no texto do acordo, termo que, segundo ele, traz uma incorreção política, pois você dizer que um jeito de falar ou escrever é culto, vulgar ou chulo é fazer juízo de valor, quando a melhor maneira de falar, na verdade, é a que vem de dentro de cada um, adequada a suas vivências e experiências, de forma natural e espontânea. Como diria a cantora Ana Carolina, é isso aí!

25.12.08

Retrospectiva recreativa

O ano vai chegando ao final, época em que deixamos fluir nosso espírito fraternal, em meio a ceias de Natal, Roberto Carlos Especial, etcetera e tal. Em mais uma habitual retrospectiva anual, vejamos o que foi notícia de jornal, o que houve de especial, para o bem ou para o mal, nos cenários nacional e mundial.

Depois do chilique de Milosevic e malgrado o protesto de Belgrado, de bom grado, parte do povo de Kosovo reconheceu como um país novo essa província do tamanho de um ovo. Em Cuba, Fidel encerrou seu papel de direção da nação e, sem escarcéu, abriu mão do martelo e da foice e foi-se ao léu. A população ergueu as mãos ao céu e tirou o chapéu, em comemoração à ascensão do seu irmão, que teve boa aceitação, mesmo mantida a retaliação do tio Sam. Sem confusão, mas com embargo, sin embargo.

Na grande potência, a inadimplência provocou falência, os bancos pediram clemência e Obama, sua excelência, homem do ano da Time, pediu ao povo paciência e clamou com veemência: dai-me sapiência para encarar a presidência, livrai-me do subprime e da desavença, perdoai-me pelo ataque ao Iraque, a invasão ao Afeganistão, o mal-estar com Ahmadinejad e os entraves com Hugo Chaves. Em xeque, o BRIC deu um breque e até que o sino da carestia por aqui repique, a crise se complique e pipoque, sem alguém que a explique, do Chuí ao Oiapoque, sem saco e sem saque, pra que o crescimento não empaque, seguimos no pique do PAC.

Passando de falta pra flauta, de saque pra sax, de repercussão pra percussão e de violação pra viola, louvemos dois compositores de primeira. Um faria cem anos, Angenor de Oliveira, o famoso Cartola, figura pioneira da música brasileira, criador da escola Estação Primeira de Mangueira e de canções que a gente a toda hora cantarola e põe pra tocar na vitrola ou radiola, como queira. O outro deixou a vida real, compositor do mesmo time, Dorival Caymmi, um ser especial, sublime, sem igual, que tão bem exprime, e de forma tão natural, a gente simples do litoral.

A violência no trânsito continua monstruosa e homérica, com veículos guiados por gente colérica e histérica, em má condição etílica e com teor alcoólico compatível com a máquina, numa mistura fatídica que, enfim, obtém repercussão jurídica, com a Lei Seca. Pra diminuir essa taxa de mortalidade trágica, quase bélica, agora quem seca a caneca vai de táxi, como Angélica.

Nos caminhos da vida, somos estimulados, desde pequenos, a competir. Compete a nós aceitar ou não. De um jeito ou de outro, como em tudo na vida, paga-se um preço, maior no primeiro caso. Em todo caso, não importa o quanto importa. O importante é não competir. Discordo de uma antiga musiquinha de Natal que dizia: “Quero ver você não chorar, não olhar pra trás nem se arrepender do que faz”. Chorar, olhar pra trás e se arrepender do que faz não faz mal e, às vezes, é fundamental. Chorar por sentir, olhar pra trás para ajudar, arrepender-se para reparar e, como maior presente, aos outros fazer-se presente, a si mesmo, viver o presente, renovando, diariamente, o simples desejo de um feliz dia novo para todos.

“A vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro” (John Lennon).



Simples Desejo (Daniel Carlomagno e Jair Oliveira)

Que tal abrir a porta do dia
Entrar sem pedir licença
Sem parar pra pensar
Pensar em nada

Legal ficar sorrindo à toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua

Pra viver e pra ver
Não é preciso muito não
Atenção, a lição
Está em cada gesto

Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez
Eu só tenho um simples desejo

Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem

11.12.08

No seu tempo

Costuma-se dizer que alguém está à frente de seu tempo quando se quer destacar seu vanguardismo. O polêmico cantor Cazuza parecia não estar nem à frente nem atrás, mas no seu tempo. Tempo de contradições e conflitos, ilusões e desilusões, em que vimos a volta da democracia (pós-Riocentro), mas com eleições indiretas (pré-Collor); um presidente que foi eleito, mas não assumiu; o congelamento de preços, seguido da maior das inflações; uma seleção de futebol que encantou o mundo, mas não ganhou a copa; o surgimento da AIDS, pondo em risco os prazeres básicos da filosofia hippie, com exceção do rock’n roll.

Foi por meio desse prazer sem risco que ele traduziu tal estado de espírito, em frases como: meu cartão de crédito é uma navalha, minha metralhadora cheia de mágoas, mentiras sinceras me interessam, vejo um museu de grandes novidades, vivo num clipe sem nexo, meu prazer agora é risco de vida, meu partido é um coração partido.

2008 marca os 18 anos de morte e o cinqüentenário de nascimento de Cazuza. O cantor e compositor começou a carreira como vocalista do grupo Barão Vermelho, com quem lançou três discos, todos pela gravadora Som Livre, cujo diretor era seu pai, João Araújo. Desde o primeiro disco, já mostrou a que vinha e o reconhecimento de grandes nomes da MPB, que gravaram algumas de suas canções, mostrou que não vinha apenas por ser filho de um diretor de gravadora. Seu primeiro disco solo, "Exagerado", foi lançado ainda pela Som Livre e os quatro seguintes, pela gravadora Polygram.

Dos ilustres intérpretes de suas canções, fizeram parte Caetano Veloso (Todo amor que houver nesta vida), Ney Matogrosso (Pro dia nascer feliz), Gal Costa (Brasil), Simone, Luiz Melodia (Codinome beija-flor) e Marina Lima (Preciso dizer que te amo). Frejat, companheiro de banda, foi seu mais constante parceiro musical. Juntos, eles compuseram, entre outras, a música-tema de "Bete Balanço" - sucesso de bilheteria do cinema nacional nos anos 80. Cazuza compôs, também, em parceria com Rita Lee (Perto do fogo) e Gilberto Gil (Um trem pras estrelas, do filme homônimo de Cacá Diegues).

Naquela época, havia, ainda, pouca informação a respeito da AIDS e Cazuza, uma das vítimas desse desconhecimento, foi um dos primeiros brasileiros de fama reconhecida a tornar público que havia contraído a doença. Após a morte do cantor, Lucinha Araújo, sua mãe, criou a Sociedade Viva Cazuza, com o objetivo de prestar assistência a crianças carentes com AIDS.

Sobre o assunto, em matéria considerada desnecessária e apelativa, a revista Veja estampou, na capa da edição de 26 de abril de 1989, uma foto do cantor, já bastante debilitado pela doença, com o seguinte texto: “Uma vítima da Aids agoniza em praça pública”. O impacto negativo provocado pela foto e pela matéria gerou carta de desagravo à revista, assinada por vários artistas e resposta do próprio compositor. Quem viu a chocante imagem, que não vale ser aqui reproduzida, decerto não a esqueceu.

Na década de 90, Cássia Eller dedicou um disco inteiro, "Veneno antimonotonia", às composições de Cazuza. Na mesma época, Lucinha Araújo publicou o livro "Cazuza – só as mães são felizes". Anos depois, ele teve sua trajetória de vida desde o começo da carreira artística mostrada no filme "Cazuza – o tempo não pára", de Sandra Werneck e Walter Carvalho, baseado no livro. Um filme marcante para quem viveu a época.

Se na vida pessoal foi figura polêmica, de comportamento pouco convencional, como cantor, Cazuza deveria ser avaliado por seu trabalho. Há quem não ache, e a quem não ache, sua canção responde por ele: "Não escondam suas crianças, nem chamem o síndico, nem chamem a polícia, nem chamem o hospício. Eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo, a não ser a mim" (Mal nenhum – Cazuza / Lobão).



Ideologia (Cazuza/Frejat)

Meu partido é um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito

Que aquele garoto que ia mudar o mundo
Frequenta agora as festas do "Grand Monde"

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia! Eu quero uma pra viver

O meu prazer agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Ah! saber quem eu sou

Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
Agora assiste a tudo em cima do muro

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia! Eu quero uma pra viver

21.11.08

Carta aberta

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Cérebro eletrônico (Gilberto Gil)

O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Quase tudo
Mas ele é mudo


O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda

Só eu posso pensar se Deus existe
Só eu
Só eu posso chorar quando estou triste
Só eu

Eu cá com meus botões de carne e osso
Eu falo e ouço
Eu penso e posso

Eu posso decidir se vivo ou morro
Porque
Porque sou vivo, vivo pra cachorro
E sei

Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Em meu caminho inevitável para a morte

Porque sou vivo, sou muito vivo
E sei
Que a morte é nosso impulso primitivo
E sei

Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro

6.11.08

Reflexos e reflexões

A Lewis Hamilton e Barack Obama

Num passado recente do nosso país, há apenas 120 anos, homens eram subjugados por seus semelhantes, com a conivência das leis e da maior parte da sociedade. Em trecho de relatório de cônsul britânico no Recife a um conde inglês, em 1843, constante do livro "Children of God's Fire – A documentary history of black slavery in Brazil" de Robert Edgar Conrad, publicado nos EUA, percebe-se uma síntese da época da escravidão no Brasil, quando se mutilava corpo e alma de seres humanos e as leis serviam de pretexto para quem se beneficiava da situação vigente:

"In a word, my Lord, all the worst features of slavery exist in this province; the endeavour of the master is to suppress alike the intellect, the passions, and the senses of these poor creatures, and the laws aid them in transforming the African man into the American beast"*.

Mais de um século após a quebra das correntes, uma outra corrente vem consolidando, em nosso país, o entendimento de que a abolição da escravatura pela princesa Isabel apenas corrigiu uma injustiça secular e a data não ressalta a luta dos negros pela libertação. Em seu lugar, vem se firmando, a cada ano, a comemoração do dia da consciência negra, em 20 de novembro, instituído pela lei 10.639/2003 - a mesma que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. O dia, que coincide com a morte de Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência à escravidão e luta pela liberdade, é feriado em várias cidades brasileiras, em sua grande maioria dos estados do Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo suas capitais.

As leis mudaram e a escravidão acabou (?), tarde demais, a vergonha permanece. Como no canto das três raças**, ecoa noite e dia. Nada redime nossa sociedade de ato tão vil e covarde, o qual contribuiu bastante para a desigualdade de condições que se experimenta até hoje em dia, desde o primeiro abrir de olhos. Olhos que podem ser vistos, por exemplo, nas primeiras e fortes cenas do filme "Última Parada 174", de Bruno Barreto, no rosto de um bebê que é tomado dos braços da mãe como "pagamento" de dívidas relacionadas ao tráfico de drogas ou de uma criança que vê a mãe assassinada.

A página em branco da vida dos dois garotos, como a de outros tantos, começa ali a ser preenchida, em linhas tortas, deixando antever os garranchos de seu capítulo final. Um caminho tortuoso e de certa forma previsível, em que violência e crime não são apenas a última parada, nem simples casos de polícia, mas um problema social. O filme é baseado em história real. Um dos dois garotos sobreviveu à chacina da Candelária e, anos depois, matou uma refém e foi morto por policiais, no desfecho do seqüestro de um ônibus, no Rio de Janeiro.

Em filmes como esse (outros exemplos são "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite"), a exposição de cenas de violência tem sempre como justificativa o objetivo que as acompanha, qual seja o de chamar a atenção para algo que de fato existe. Isolados do mundo que nos cerca, fechamos os olhos e vemos miséria e violência como algo distante, enquanto isso é possível. Nesses filmes, porém, somos postos frente a frente com essas mazelas.

Tal método é discutível, em ambos os sentidos: que se pode discutir e que é contestável, duvidoso, pois há quem seja - ou procure ser - consciente de outras formas, preferindo a denúncia implícita, que não precisa ser escancarada para ser compreendida. Eu, por exemplo, prefiro a poesia de "Central do Brasil". Há que se reconhecer, porém, nos três filmes citados, o lado mais positivo do princípio maquiavélico de que os fins justificam os meios. Certamente, os fins desses filmes fazem-nos sair do cinema reflexivos.





* Em uma palavra, meu senhor, todas as piores características da escravidão existem nesta província; o esforço dos mestres é, igualmente, de suprimir o intelecto, as paixões e os sentimentos destas pobres criaturas, e as leis ajudam-lhes a transformar o homem africano na besta americana.


** Canto das três raças (Paulo César Pinheiro – Mauro Duarte)

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor

17.10.08

Falando a mesma língua

Acordo e dou de cara com o acordo. Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, os países lusófonos, enfim, falarão a mesma língua. O mesmo não se pode dizer dos linguistas desses países. Estes não andam falando a mesma língua e com alguns deles não tem acordo. Os que não o veem com bons olhos, dizem que não vai funcionar, ponto. Já os que creem em seu êxito, respondem: não vai funcionar, vírgula! A resistência é maior em Portugal, onde as mudanças na ortografia atingirão em torno de 1,5% das palavras. No Brasil, o percentual de vocábulos alterados é de cerca de 0,5%*.

O fato é que o acordo ortográfico – de 1990 -, começa a vigorar, no Brasil, a partir de janeiro de 2009, embora as regras anteriores permaneçam válidas até 2012. A ideia é unificar a grafia e acabar com a odisseia na comunicação escrita entre os países de língua portuguesa, aumentando a integração entre eles, sendo este seu maior trunfo. A principal queixa dos discordantes é o alto custo envolvido com as mudanças, principalmente na reedição de livros - sobretudo os didáticos, gramáticas e dicionários. Vale lembrar que já passamos por outros acordos e reformas ortográficas - não tão facilmente assimiláveis - e que, por conseguinte, nossa ortografia já foi bem diferente, com menos acentos e muitas consoantes mudas **.

No novo acordo, a maior parte das mudanças implica em perda de acento, como nos hiatos oo (voo), na terceira pessoa do plural dos verbos dar, crer, ler, ver (deem, creem, leem, veem), nas paroxítonas com I e U tônicos precedidos de ditongo (feiura) e nos ditongos ei e oi - apenas em paroxítonas (plateia perde o acento, coronéis, não e cuidado: não confundir veia literata com uma senhora idosa versada em letras). Em Portugal, a maior mudança, porém, talvez seja a supressão das consoantes mudas na grafia de algumas palavras (director, óptimo), o que tem deixado os portugueses sem acção.

Há outras mudanças simplificadoras, como a perda do acento diferencial de palavras homógrafas. Por exemplo, pára, do verbo parar, para de ter acento, o que não constitui um problema, pois se você para para observar, neste caso é fácil distinguir o verbo da preposição. Com relação ao acréscimo das letras K, W e Y ao nosso alfabeto, K pra nós não tem muita utilidade, Y muito menos e W, só na internet. O hífen, que dá trabalho a todo o mundo, perdeu o emprego em algumas situações (abrindo um parêntese aqui, as exceções, grande problema do hífen, continuam) e, finalmente, para que todos fiquem tranquilos e ninguém mais tema nem trema ao escrever, o trema não mais existirá.

A conclusão a que se pode chegar é que o acordo atual, ainda que facilite, não é suficiente para proporcionar uma maior integração entre os países em questão, uma vez que não há como unificar o vocabulário em constante evolução de tais países, cada um com suas próprias influências históricas, como o tupi-guarani e as palavras de origem africana, no caso do Brasil. Por outro lado, é considerável podermos imaginar que este texto escrito assim, de acordo com o acordo, poderia ser lido, sem alterações, em Lisboa ou João Pessoa, em Portugal ou Guiné-Bissau.



* Quanto a esse percentual, Vasco Graça Moura, escritor e deputado português no Parlamento Europeu e um dos maiores críticos do acordo que, segundo ele, “serve interesses geopolíticos e empresariais brasileiros” e “redundará em total benefício do Brasil”, afirma que “não foi feito cálculo nenhum quanto à frequência com que essas palavras são utilizadas, havendo casos em que tal frequência é altíssima”. Leia esta e outras opiniões do além-mar, a favor e contra o acordo, em: www.ciberduvidas.sapo.pt/controversias.

** Para ilustrar tais mudanças de ortografia, seguem curiosos trechos do prefácio e apêndice do livro “A illusão americana”, de Eduardo Prado, publicado no Brasil em 1895, pouco depois da proclamação da República:

“Este despretencioso escripto foi confiscado e prohibido pelo governo republicano do Brazil. Possuir este livro foi delicto, lel-o conspiração, crime havel-o escripto”.

“Escrevo um livro sustentando a doutrina politica de que o Brazil deve ser livre e autonomico perante o estrangeiro, e adopto o aphorismo de Montesquieu, de que as republicas devem ter como fundamento a virtude.
O governo é contrario a essas opiniões, e está no seu direito. Manda, porém, prohibir o livro! Onde está a palavra do governo, dada solemnemente n'um decreto em que diz garantir a propaganda de qualquer doutrina politica?
A sabedoria popular diz: Palavra de rei não volta atraz. - O povo terá de inventar outro proverbio para a palavra do vice-presidente da republica”.

21.9.08

Um Rio que passou em minha vida

Entre os anos 20 e 30 do século passado, as escolas de samba do Rio de Janeiro tinham como mestres nomes como Cartola e Ismael Silva. Surgidas no subúrbio, tais escolas eram manifestações do povo, pelo povo e para o povo, numa democracia musical, afinada e harmônica. Depois, vieram Martinho da Vila, Paulinho da Viola, entre tantos outros que contribuíram para fazer do samba esse ritmo tão popular.

Com o passar dos anos, ao mesmo tempo em que o desfile das escolas foi se consolidando como um espetáculo, o carnaval carioca foi sumindo das ruas, tornando-se um tanto elitista (isso vem mudando, vide Monobloco, Simpatia é quase amor, Cordão do Boitatá e outros blocos de rua). Porém, ai porém, ser ou não ser elitista, como tudo na vida, depende do ângulo de visão, no caso o de quem assiste ou o de quem faz. Olhando de cima, de fora pra dentro ou do ponto de vista dos espectadores dos desfiles, sim, pois paga-se caro para assisti-lo e o ingresso é bastante disputado. Olhando por baixo, de dentro pra fora ou do ponto de vista de quem está desfilando, não, pois trata-se, em sua maior parte, de gente das comunidades, que trabalha o ano inteiro, a vida toda, para fazer uma boa apresentação e tem nesse ofício sua razão de viver.

Gente de um outro Rio de Janeiro, não o que tem braços abertos no cartão postal, mas o que tem Jesus e está de costas, que não figura no mapa, do subúrbio de Chico, berço do samba, que nos legou os laralaiás das canções. Um Rio que passou em minha vida, na minha infância, quando escutava belíssimas canções saídas das mentes sensíveis da turma da Velha Guarda da Portela, como “O mar serenou”, de Candeia e “Quantas lágrimas”, de Manacea, grandes sucessos nas vozes de Clara Nunes e Cristina Buarque, respectivamente.

Um rio que deságua na Lapa da nova geração real de sambistas (a imperatriz Teresa Cristina à frente), trazendo afluentes influentes como Paulinho da Viola e Marisa Monte, o primeiro, idealizador do grupo formado por ex-integrantes da Portela – nunca vi coisa mais bela - e produtor do primeiro disco da Velha Guarda, “Portela passado de glória”; a segunda, filha de ex-diretor da escola e produtora do último disco dos veteranos sambistas, “Tudo azul”, com músicas antigas, porém inéditas, algumas gravadas apenas em suas memórias.

Do trabalho de pesquisa para a composição do repertório de “Tudo azul”, surgiu o documentário “O mistério do samba”, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda, após quase dez anos de filmagens, a partir de 1998. O filme registra depoimentos de vários integrantes da Velha Guarda da Portela, entre eles Argemiro e Jair do Cavaquinho - falecidos durante o período das filmagens -, bem como os encontros do grupo com Marisa Monte, que também colabora como produtora e roteirista. Entre as canções do filme estão “Quantas lágrimas” e “Esta melodia”, esta última já gravada por Marisa em “Verde anil amarelo cor de rosa e carvão”, aquela do refrão: “Não suporto mais tua ausência / já pedi a Deus paciência”, mais uma que começa com um delicioso laralaiá.

Em depoimento ao documentário, Paulinho da Viola, ao se referir à emoção que a música e outras artes proporcionam, dispensa, de forma genial, maiores explicações: “você pode até explicar, mas não é o mais importante”. Eis o mistério do samba. O que difere a música da ciência é justamente que esta precisa do conhecimento, da medida, da precisão, da explicação para ser entendida, enquanto a música só precisa do sentimento. Não dá pra definir, é como aquele azul da Portela, que não era do céu nem era do mar e conquistou Paulinhos num certo dia de carnaval...



Foi um rio que passou em minha vida (Paulinho da Viola)

Se um dia
Meu coração for consultado
Para saber se andou errado
Será difícil negar
Meu coração tem mania de amor
Amor não é fácil de achar
A marca dos meus desenganos ficou, ficou
Só um amor pode apagar

Porém
Há um caso diferente
Que marcou um breve tempo
Meu coração para sempre
Era dia de carnaval
Eu carregava uma tristeza
Não pensava em novo amor
Quando alguém que não me lembro anunciou
Portela, Portela
O samba trazendo alvorada
Meu coração conquistou

Ah, minha Portela
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria a voltar
Não posso definir aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar
Foi um rio que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar

7.9.08

Fora de série

* Ao Mestre Salu, grande mestre da cultura popular e torcedor do Santa Cruz.

João Cabral de Melo Neto e Chico Science, tal qual as águas dos rios que os inspiravam, refletiram bem a imagem do povo de sua cidade, aquele que realmente a constrói, pisa em seu chão, vive e convive em seus espaços e não apenas a vê através da janela do carro, da varanda do apartamento ou da tela da tv. É desse povo simples, dessa gente sofrida, que tem no futebol uma de suas poucas alegrias, que se constitui a maior parte da torcida do Santa Cruz Futebol Clube, e é natural, portanto, que os dois ilustres recifenses fossem torcedores desse clube, tendo o poeta sido, inclusive, atleta de sua equipe de futebol juvenil.

O clube pernambucano, que possui 24 títulos estaduais e já revelou atletas como Ricardo Rocha e Rivaldo, foi fundado em 1914 - por garotos que costumavam se reunir no pátio da igreja de Santa Cruz, no bairro da Boa Vista - e afundado no novo milênio, quando passou a viver sua pior fase. Depois de sagrar-se campeão estadual pela única vez na década, em 2005 e disputar a primeira divisão do campeonato brasileiro em 2006, “o mais querido”, como o chamava o mestre Capiba, foi rebaixado três vezes consecutivas, fato inédito no futebol brasileiro, o maior rebaixamento consecutivo do norte-nordeste-centro-oeste-sudeste-sul, algo difícil de se repetir.

Na década de 70, em sua época de ouro, o Santa Cruz conquistou sete títulos estaduais, entre os quais o pentacampeonato pernambucano, tinha a maior torcida do estado, inaugurou o estádio do Arruda, pertencente ao clube e fez boas campanhas no Brasileirão. Se, hoje em dia, Sport e Náutico são os únicos clubes pernambucanos que figuram no cenário nacional, o Brasil já foi, em tempos passados, Terra de Santa Cruz.

Em 73, o clube teve o artilheiro da competição (Ramon) e em 78 ficou na quinta colocação, mantendo-se invicto por 27 jogos, mas o ano em que mais se destacou foi 75, quando chegou às semifinais, sendo, então, derrotado pelo Cruzeiro (eu estava lá!), que se tornaria o vice-campeão nacional e campeão da Libertadores no ano seguinte. Em 76, venceu, em torneio no Recife, a seleção da Tchecoslováquia, à época campeã da Eurocopa e, no final da década, retornou invicto de excursão à Europa e ao Oriente Médio, tendo vencido, entre outras, a seleção da Romênia.

Numa segregação literal, costuma-se dividir as pessoas em classes sociais: A, B, C, D. O mesmo ocorre com os times de futebol, divididos entre as séries A, B, C e – agora também – D. Como se pessoas e clubes pudessem ser valorados por uma simples letra. Os jogadores passam, a torcida fica. Por isso, a maior conquista de um clube é sua torcida e, nesse aspecto, tenha santa paciência, o Santa Cruz, que tem em sua bandeira as cores das três raças, vermelha, preta e branca, é fora de série.

Como diz o hino do clube, composto pelos irmãos Valença, “Esta multidão tamanha, gente pobre que te aclama, lembra o ouro que se apanha nos cascalhos e na lama. Esse ouro é sangue, é vida. É delírio, raça e amor. A bandeira tão querida. A bandeira tricolor”. O hino é uma canção de amor ao clube e a sua torcida, pois como dizia Gonzaguinha, “uma canção de amor também é aquela que canta o suor do trabalho, o calo das mãos de quem canta a esperança, no jogo, na dança, com garra e fé”. Como têm dito os sofridos tricolores, um amor incondicional, um amor que não tem divisão, ao que acrescento: um amor fora de série.

27.8.08

Momentos olímpicos

De acordo com a Wikipedia, o Aurélio, o Houaiss e outros caras, olimpíadas e jogos olímpicos, atualmente bastante usados como sinônimos, podem não ter o mesmo significado. O termo olimpíada representava, na Grécia Antiga, o período de quatro anos compreendido entre duas edições de tais jogos, que por sua vez, têm esse nome por terem surgido na cidade grega de Olímpia. Em suma: após a olimpíada, começam os jogos olímpicos. Outra curiosidade é que o símbolo oficial dos jogos, os conhecidos cinco anéis de cores diferentes, representam, cada um, um continente, o azul sendo a Europa, o amarelo, a Ásia, o preto, a África, o vermelho, a América e o verde, a Oceania.

Um grande momento da história dos jogos olímpicos foi a conquista de quatro medalhas de ouro, no atletismo, pelo atleta negro Jesse Owens, dos Estados Unidos, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, episódio que foi de encontro aos objetivos do líder nazista Adolf Hitler de comprovar a superioridade da raça ariana durante os jogos.

A ginástica e o atletismo, duas das modalidades mais tradicionais dos jogos olímpicos, foram responsáveis por outros dois momentos marcantes de sua história, opostos em termos de resultados, mas semelhantes no espírito de superação e perseverança. Nas Olimpíadas de Montreal, em 1976, a romena Nádia Comaneci recebeu a primeira nota 10 da ginástica olímpica, com apenas 14 anos de idade e em 1984, em Los Angeles, a suíça Gabriela Andersen-Scheiss, à época com 39 anos, terminou a prova em um dos últimos lugares, quase não se aguentando em pé, cambaleando, desorientada, até cruzar a linha de chegada e ser acudida por médicos, desmaiando em seus braços.

As brigas políticas, que iam de encontro ao espírito olímpico de união entre os povos, foram freqüentes nas várias edições dos jogos, com destaque para o atentado ocorrido em Munique - que resultou na morte de atletas da equipe de Israel - e os jogos realizados durante a Guerra Fria, na década de 80. Em 1984, em Los Angeles, as Olimpíadas foram marcadas pelo boicote da maioria dos países socialistas à competição, em resposta a ato semelhante praticado pelos Estados Unidos e dezenas de outros países aos jogos de Moscou, em 1980.

Os jogos de Barcelona, em 1992, por sua vez, foram os primeiros ocorridos após importantes fatos históricos que se refletiram na relação dos países participantes. Três anos após a queda do muro de Berlim e dois após o fim do regime de apartheid, a Alemanha, como nação unificada, e a África do Sul voltaram a participar de Olimpíadas. Já a União Soviética e a Iugoslávia viviam um processo de desmembramento em várias nações, com algumas delas, como Lituânia, Letônia, Estônia, Croácia e Eslovênia, participando separadamente da competição. As repúblicas soviéticas remanescentes participaram com o nome de Equipe Unificada.

A canção tema das Olimpíadas de Barcelona, “Amigos para Siempre”, refletiu bem o tal espírito olímpico, louvando a amizade e a união entre os povos e as nações e sensibilizou a todos. Foi também nessa época que uma nova “modalidade” criada pelos voluntários gandulas mereceu destaque: a limpeza de quadra sincronizada, que roubava a cena nos intervalos dos jogos de vôlei e basquete - sendo bastante aplaudida - e que até hoje dão um toque de graça a esses jogos.

O Brasil, depois de uma maratona de deslizes e sobressaltos com vara, até que não se saiu tão mal em Pequim. Mas quem merece parabéns mesmo é a Jamaica, país que melhor reverteu (e inverteu) a proporcionalidade direta entre a posição no quadro de medalhas e o quadro social, com sua décima terceira colocação e suas onze medalhas, sendo seis de ouro, três delas de Usain Bolt, no atletismo. Tentando escrever este texto rapidamente, talvez inspirado nos tempos olímpicos, lembrei da velocidade das braçadas de Michael Phelps, atleta estadunidense que ganhou oito provas de natação nesses jogos. Nada mau pra quem nada bem. A potência máxima da natação é levada ao Cubo D'Água: pura matemática. Mas o que ele faz pra ganhar tantas medalhas de ouro? Nada de mais, apenas nada demais! Beijing pra todos.

14.8.08

Avós do coração

Tristeza não tem fim. Felicidade, sim. Quando era pequeno, chorava ao escutar esse trecho da música de Tom e Vinícius. Ao levar a letra ao pé da letra, sentia-me incomodado em estar iniciando uma trajetória na qual a tristeza seria constante e a felicidade, apenas pequenos momentos. Enxergando a vida através das lentes suaves dos olhos de uma criança, era feliz e resolvi, então, esperar vir o amadurecimento, deixar de ser jovem para então poder tirar conclusões mais precisas. Aos pouquinhos, sem pressa, entre felicidades e tristezas, ganhos e perdas, chegadas e partidas, encontros e despedidas. Só não sabia ao certo quando deixaria de ser jovem...

Descobri que isso acontece no exato momento em que perdemos nossos avós e constatamos que por ninguém mais seremos tratados como crianças. Foi assim que, numa fria manhã de agosto, repentinamente, amanheci mais velho. Sem a grande mãe, como chamam os ingleses. Sem a estrela-guia com quem descobri a importância de se escutar avós (e a voz) do coração, a quem devo a crença de que o amor é possível, de quem sempre admirei a simpatia e herdei o gosto por rir de qualquer coisa, a quem sempre busquei seguir na sensibilidade, simplicidade e delicadeza sem, contudo, chegar a seus pés. Linda com l maiúsculo, minha avó é a felicidade pela qual volto a chorar, depois de adulto, ao perceber que estava certo ao chorar, quando criança.

20.7.08

Da missa um terço


Uma cerimônia que ocorre todos os anos no interior de Pernambuco, sob o sol forte do sertão, dentro da jurisdição de Januário, que vai de Salgueiro a Bodocó, resgata os verdadeiros e primordiais preceitos religiosos de negação ao que representa luxo, ostentação, superfluidade. O evento ocorre, mais precisamente, no Parque Estadual João Câncio, Sítio das Lajes, a cerca de 30 km da cidade de Serrita e a 577 km do Recife, desde 1970, sempre num domingo do mês de julho, a partir das 10 horas da manhã.

Trata-se da Missa do Vaqueiro, cerimônia idealizada por Luiz Gonzaga em homenagem ao vaqueiro Raimundo Jacó, seu primo, neto do véio zangado, que um dia pediu respeito a Januário e seus oito baixos. Hoje em dia, a reverência estende-se a todos os vaqueiros, ao próprio Luiz Gonzaga e também ao padre João Câncio, celebrante das primeiras edições da missa e um de seus organizadores, junto com Gonzagão. Além deles, também foi responsável pela criação da missa o poeta Pedro Bandeira, de Juazeiro do Norte, único dos três ainda vivo.

O acesso ao parque é difícil, o cenário, monótono, o transporte, precário. Os vaqueiros que vêm de longe chegam em paus-de-arara, enquanto seus cavalos são transportados por caminhões, das fazendas. Outros andam léguas a pé ou já chegam montados nos cavalos. Lotações fazem jus ao nome e passam lotadas sob a vista grossa de alguns fiscais das estradas. O caminho caminha, a dura paisagem dura e, de tão igual, permanece. Lembra um causo de Gonzaga que, ao voltar pro sertão, depois da fama, perguntou a um transeunte: “Daqui pra Exu é longe?”, ao que este respondeu: “Umas seis léguas” e completou: “Aqui pra nós, porque nesse carro aí não dá nem quatro”.

A celebração acontece no local onde Raimundo Jacó foi encontrado morto, em julho de 1954, supostamente assassinado. No início da cerimônia, vaqueiros entram a cavalo no chão de terra seca e batida, ao som de “A morte do vaqueiro”*, de Nelson Barbalho e Luiz Gonzaga (aquela do tengo lengo tengo), que homenageia Jacó. De início, o próprio Gonzagão cantava essa e outras músicas, assim como o Quinteto Violado, que, inclusive, gravou dois discos inspirados na cerimônia. Atualmente, cantores populares revezam-se na interpretação das canções.

No ofertório, momento mais bonito, os vaqueiros sucedem-se em direção ao altar e entregam ao padre, uma a uma, as várias partes de sua indumentária típica, como chapéu, gibão, perneira, sela, alforje e chocalho, ao mesmo tempo em que Pedro Bandeira explica, de forma poética, a utilidade de cada uma delas. Na comunhão, os vaqueiros repartem o queijo, a rapadura e o vinho. Um comovente ritual, em que as lágrimas iminentes nas peles ressequidas lembram a promessa de chuva na terra rachada e as mãos em prece confundem-se com os mandacarus da paisagem.

A exploração turística do evento, ainda que pequena, se por um lado proporciona um mínimo de infra-estrutura, por outro, tira um pouco de sua espontaneidade, conseqüência natural da simplicidade rica dos sertanejos, numa tentativa artificial de criar um espetáculo. Em alguns desses momentos teatralizados, por exemplo, uma espécie de chefe de cerimonial insiste para que os vaqueiros acenem com seus chapéus.

Numa região geralmente esquecida pelas autoridades, que não sabem da missa 1/3, é pertinente a denúncia de exploração política do ato, presente nos versos do cordel “Encontro de padre João com Raimundo Jacó no céu”, de Pedro Bandeira: “Da sua missa primeira / Todo sertão tem saudade / Hoje o governo aproveita / Pra fazer publicidade / Parece uma coisa boba / Que o progresso sempre rouba / A nossa felicidade”. Acontece, por exemplo, de políticos adentrarem o parque montados a cavalo, com chapéu de couro na cabeça e o séquito de vaqueiros seguindo-os.

A festa profana começa na sexta-feira anterior à missa e segue até o domingo, tendo como atrações, além das apresentações de artistas populares, as vaquejadas, rodas de forró - semelhantes às rodas de samba - e pegas de boi. Na ocasião, alguns jovens sertanejos, indiferentes à missa e seguindo o exemplo que chega das “terras civilizadas”, reúnem-se dia e noite, religiosamente, em um extenso conjunto de bares à beira da estrada onde, em vez de hosana, o som é nas alturas. Acordar com a passarada até se consegue, dormir ao som do chocalho é que é difícil...



* A Morte do Vaqueiro (Luiz Gonzaga / Nelson Barbalho)


Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar

Tengo, lengo, tengo,
lengo, tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi

Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão

Tengo, lengo, tengo,
lengo, tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi

Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Que inda chora sua dor
É demais tanta dor
A chorar com amor

4.7.08

O concreto e o abstrato na terra da polêmica

Criar polêmica não é para qualquer um. Mais cômodo é seguir o senso comum dos críticos ou patrulhadores de plantão e não ir de encontro a suas opiniões, ainda que isso signifique optar pelo diferente, pelo exótico, em vez de louvar o que é mais comum.

O filósofo e poeta Antônio Cícero, também conhecido como parceiro musical e irmão da cantora Marina Lima, afirmou, em entrevista recente, que toda originalidade é, de início, esquisita, o que lembra a famosa frase de Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Em comum, as duas frases têm um componente generalizador e polêmico, o pronome indefinido toda. Certas vezes, os críticos, formadores de opinião, têm um gosto meio esquisito mesmo, mas estar do lado deles é achar-se parte de uma minoria intelectual privilegiada, o popular “crente que está abafando”, fugindo, assim, da “unanimidade burra”, do trivial, de apelo mais fácil.

Os embates entre os dois lados, porém, decorrem, muitas vezes, mais da polêmica que a polêmica cria, por conta da forma como é lançada, do que do lado escolhido. Recentemente, dois depoimentos - do tipo que gera controvérsias pelo conteúdo e sobretudo pela forma - receberam destaque na internet, ambos, de certa forma, coerentes com a especialidade dos respectivos autores: o primeiro, do economista Rodrigo Constantino, com MBA em finanças e profissional do mercado financeiro, conforme perfil exposto em seu blog e o segundo do humorista Marcelo Madureira, do programa Casseta e Planeta.

O economista, que se define como um pensador independente e libertário, escreveu em seu blog artigo intitulado “Um século de hipocrisia”, sobre o arquiteto Oscar Niemeyer, que completou, este ano, um século de vida. O artigo, a começar pelo título, é provocativo, recheado de frases como: “Niemeyer, sejamos bem francos, não passa de um hipócrita”, “Na prática, Niemeyer é um capitalista, não um comunista. Mas um capitalista da pior espécie: o que usa a retórica socialista para enganar os otários”, ou ainda: “... a ignorância é cada vez menos possível como desculpa para defender algo tão nefasto como o regime cubano, restando apenas a opção da falta de caráter mesmo. Ainda mais no caso de Niemeyer”.

No campo profissional, sabe-se que o arquiteto também gera polêmica, pelo uso em excesso de concreto em detrimento do verde em seus projetos. De concreto, porém, há de se concordar que, ainda que não se aprove suas posições ideológicas ou seu trabalho, os adjetivos usados do começo ao fim do artigo - que ainda deixa no ar a pergunta: “O que alguém como Niemeyer tem para ser admirado, enquanto pessoa?” - são fortes e desrespeitosos aos seus cabelos brancos.

Na mesma linha da forma exacerbando o conteúdo, mas com maior repercussão, inclusive por conta da maior divulgação por parte da mídia, Madureira afirmou, em debate ocorrido no Rio de Janeiro, no Cine Odeon: “Gláuber Rocha é uma merda”. Carlos Heitor Cony descreveu a reação dos “entendidos” participantes do evento ao comentário do humorista com ironia, como que adivinhando o pensamento daqueles que se imaginam agraciados com um gosto apurado, privilégio de poucos: “Como podiam ter deixado um cara daqueles, que não pertencia ao povo eleito, penetrar no sagrado pátio, no templo da arte do Terceiro Mundo...?”.

Entendidos à parte, mesmo aqueles que consideram a obra do cineasta de não tão fácil assimilação hão de concordar que o termo utilizado para descrevê-lo não cheira bem. Rocha é muito mais sólido do que isso. Como não cheira bem, também, o alarde que fizeram porque Ronaldo trocou as bolas. Como diz Caetano Veloso, nada pode prosperar quando todo o mundo quer saber com quem você se deita, o que, aliás, não interessa a ninguém, assim como o fumo e a bebida da rebelde Núbia Lafayette. Caetano, que gosta de polêmicas, criticou tais comentários intrusivos e traduziu bem o fenômeno: “A vida é assim: complexa e bonita, como os travestis”.

19.6.08

O nosso Dominguinhos de todos os dias


Há alguns dias, um homem arretado recebeu, com o sorriso sincero e a simplicidade cativante de sempre, merecida homenagem na sexta edição do Prêmio Tim de Música, substituto do Prêmio Sharp, que, este ano, trouxe seu nome no subtítulo: “Ano Dominguinhos”. Vai ser, também, um dos homenageados do São João do Recife.

Os primeiros discos do músico são da década de 60, época em que começou, também, a tocar com Luiz Gonzaga, que conheceu ainda adolescente, em sua terra natal, Garanhuns, no agreste pernambucano. O Rei do Baião, responsável pela escolha de seu nome artístico Dominguinhos, chamou-o para fazer parte do grupo que o acompanharia no histórico show “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, no Teatro Tereza Rachel, no Rio, em 1972, um trabalho, segundo o jornalista Sérgio Cabral, da linha recomendada por Drummond que, cansado de ser moderno, resolveu ser eterno.

No ano seguinte, gravou seu primeiro grande sucesso, “Lamento sertanejo”*, uma parceria brilhante com Gilberto Gil a qual, pra mim, melhor define o sertanejo e sua dificuldade em lidar com os “mestiços neurastênicos do litoral”, como bem definiu Euclides da Cunha em “Os Sertões”. Gostaria de ser sertanejo para poder sentir o prazer de ser perfeitamente traduzido por canções como esta, “Súplica cearense” do baiano Gordurinha, “Disparada” do paraibano Geraldo Vandré.

“Lamento sertanejo” foi gravada, também, por Gil, juntamente com “Tenho sede”, de Dominguinhos e Anastácia – primeira esposa do sanfoneiro e sua principal parceira musical -, no disco Refazenda, numa época em que músicas que não eram feitas pra tocar no rádio ainda tocavam no rádio, o que fez com que Dominguinhos passasse a ser mais conhecido pelo grande público. Outra parceria dele com Anastácia, “Eu só quero um xodó”, já havia sido destaque no disco anterior de Gil, “Cidade do Salvador” e, alguns anos depois, em “Refestança”, de Gil e Rita Lee. O baiano e o pernambucano compuseram juntos, também, “Abri a porta”, um dos destaques do LP “Frutificar”, do grupo “A cor do som”.

Nos anos 80, Dominguinhos compôs, com Nando Cordel, “De volta pro aconchego” e “Gostoso demais”, que conseguiram uma brechinha no monopólio do rock brasileiro de então e foram das canções mais executadas nas rádios, em gravações de Elba Ramalho e Maria Bethânia, respectivamente. Também nessa época, firmou parceria com Chico Buarque em “Tantas palavras”, parceria que seria reeditada, anos depois, em “Xote da navegação”. Outro grande sucesso dele com Nando Cordel na década foi “Isso aqui tá bom demais”, gravada com Chico que, assim como “De volta pro aconchego”, fez parte da boa trilha sonora da impactante novela “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, que havia sido censurada em 75 e, dez anos depois, refilmada e exibida.

Dominguinhos tem mais de 40 discos lançados, sendo o último um trabalho em conjunto com o violonista Yamandú Costa, pela gravadora Biscoito Fino, em 2007. No Prêmio Tim, dividiu o palco com velhos e novos amigos como Elba Ramalho, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo e Luciano e Vanessa da Mata, a quem acompanhou na sanfona, na citada “Lamento sertanejo”. No mesmo evento, uma seleção musical foi interpretada em conjunto por ele, Flávio José, Jorge de Altinho e o impagável Genival Lacerda, nomes conhecidos no nordeste, mas nem tanto no sudeste e sul do país. Em depoimento, na ocasião, Ângela Rô Rô afirmou: “Dominguinhos é o deus da música brasileira”. Como disse um aluno em prova do Enem, “eu concordo em gênero e número igual” (sic bem grande)!



* Lamento sertanejo (Gilberto Gil / Dominguinhos)


Por ser de lá do sertão
Lá do cerrado
Lá do interior, do mato
Da caatinga, do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado

Por ser de lá
Na certa, por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada
Caminhando a esmo

4.6.08

Rivalidade PEBA

Recentemente, o poeta, escritor, antropólogo e historiador baiano Antônio Risério publicou artigo intitulado “Pernambuco fogo alto, Bahia banho-maria”, reproduzido abaixo*, em que fala das diferenças históricas e atuais entre esses dois estados. Como pernambucano, procuro expor, a seguir, um outro ângulo de visão do que fala o texto, a partir do que vivenciei por aqui, ao longo dos anos.

Durante minha infância e adolescência, li, ou escutei, vários depoimentos muito parecidos com esse de Risério, apenas trocando baiano por pernambucano, Bahia por Pernambuco. Sempre tendemos a ser mais críticos com o lugar em que vivemos do que com os demais. O que ele chama de “narcisismo provinciano” do baiano, por exemplo, em geral era visto pelo pernambucano como uma característica positiva do povo baiano, de dar valor a sua terra (talvez a recíproca, nesse caso, também ocorra, de lá pra cá, pra mostrar que, como na física, tudo depende do referencial de onde observamos as coisas). Esse valor à terra era algo que, pelo menos nessa época, não parecia existir por aqui e esse propalado orgulho do pernambucano, se existia, era coisa dos mais velhos, que destacavam os fatos do passado e ignoravam a situação vigente.

O período da ditadura militar, que presenciei em sua maior parte, coincidiu com uma época de total marasmo cultural e estagnação econômica em Pernambuco, essa última atribuída, em parte, à discriminação do governo dos militares, por conta de Recife e Pernambuco, por ocasião do golpe, terem como governantes políticos de esquerda. Todo esse vazio, imagino, resultou numa baixa auto-estima do povo daqui.

Depois de Luiz Gonzaga e antes de Chico Science, ou depois do golpe e antes da volta das eleições diretas, não surgiram grandes poetas nem músicos de grande destaque nacional oriundos deste estado. Aliás, o manguebeat surgiu justamente como uma resposta a esse vazio e marasmo reinantes ou a “uma depressão crônica que paralisa os cidadãos", como disse Fred 04, uma das cabeças do movimento (o que lembra o comentário de Risério, de que a Bahia "parece hoje paralisada, incapaz de produzir pensamentos e idéias”).

Após tão acentuado declínio, sem ter mais pra onde cair, o momento presente a que ele se refere, em Pernambuco, só poderia mesmo ser de subida. Quanto ao também citado êxito do atual governador Eduardo Campos, ressalte-se que ele é afinado com o governo federal, o que, de certa forma, tem ajudado. Seu correligionário e avô Miguel Arraes, por exemplo, em seu terceiro governo, entre 94 e 98, não foi tão bem sucedido: FHC e seu vice (ainda que pernambucano) eram de posição antagônica à do governo estadual.

Brasil X Argentina, Rio X São Paulo, Bahia X Pernambuco, essas rivalidades ou preconceitos quanto ao local de origem, pra mim tão ilógicos quanto o preconceito de cor, existem em ambos os lados do X, em boa parte alimentados pelos respectivos governos, no intuito de destacar seus países/estados e em outra parte, também, pela imprensa. Mas, como diz Arnaldo Antunes, “nenhuma pátria me pariu” e eu fico com Gilberto Freyre, Jorge Amado e vários outros que, espero, sejam a maioria.



* Pernambuco fogo alto, Bahia banho-maria (Antônio Risério)

Diferenças entre a Bahia e Pernambuco sempre foram apontadas pelos mais diversos tipos de observador, de eruditos a iletrados.

Por conta, inclusive, de antiga rivalidade entre os dois Estados.

Rivalidade, aliás, que chegou a provocar uma caracterização baiana do Recife que, se é falsa e ridícula no conteúdo, é brilhante, digna do James Joyce do Finnegans, do ponto de vista formal: “Recífilis, a Venérea brasileira, capital de Per nambucocos”.

Rivalidades e preconceitos à parte (coisas que, de resto, nunca foram alimentadas por personalidades como Gilberto Freyre e Jorge Amado), essas diferenças entre baianos e pernambucanos foram formuladas de formas diversas e atribuídas a razões igualmente várias. O “gênio do lugar”, a “alma do povo”, o “caráter” de cada região se manifestariam, por exemplo, na virilidade pernambucana e na malemolência baiana. João Cabral achava enjoativos o jeitão relaxado, a ausência de rigor, a excessiva doçura das coisas criadas na Bahia. Era todo pelo corte seco, pelo golpe preciso.

Muitos baianos, por sua vez, não gostavam da aspereza pernambucana. De sua natureza agreste. Pernambucano não se desarmaria nem para um abraço – viria sempre com uma faca na frente.

É certo que tais observações subjetivas ou preconceituosas remetem a uma base real. São traços culturais distintivos que podem ser examinados de uma perspectiva histórico-antropológica.

Um amigo meu (não vou citar nomes neste artigo) observa, por exemplo, que mesmo conspirações e revoluções, que aconteceram nas histórias da Bahia e de Pernambuco, apresentam caráter humanamente distinto. Bastaria comparar, diz ele, estilos e princípios da Confederação do Equador e da Revolução dos Alfaiates, por exemplo. Mas não é por esse terreno que vou enveredar.

Quero falar do momento presente. De como Pernambuco e Bahia estão vivendo, hoje, situações e sensações radicalmente dessemelhantes.

Diferenças que parecem ter sido antecipadas, aliás, pelas produções artísticas desses Estados. Não faz muito tempo, outro amigo sublinhou o contraste que via entre os cinemas da Bahia e de Pernambuco. Salvo raras exceções, inquietude, criatividade e ousadia no cinema pernambucano (num caminho que desembocaria em Aspirinas & Urubus), mas autocomplacência, redundância e narcisismo provinciano nos filmes baianos. Na música, a situação não seria diversa. Apesar da imponência da percussão do Olodum, da criatividade de Carlinhos Brown e Gerônimo, a Bahia era o reino da “axé music”, enquanto Pernambuco, incorporando a Tropicália, ousava no “mangue beat”.

Hoje, essa diferença parece espalhada por todas as áreas do pensar, do criar e do fazer. No meio do empresariado, entre os políticos e administradores públicos, no ambiente universitário, na área mais ampla da produção intelectual. No campo intelectual, a Bahia, que sempre participou intensamente dos grandes debates e reflexões que se desenharam no País – dos tempos de Vieira aos dias de Glauber, passando pelo Visconde de Cairu, por Ruy Barbosa, Guerreiro Ramos, Anísio Teixeira e Nestor Duarte –, parece hoje paralisada, incapaz de produzir pensamentos e idéias.

Mas, como disse, os intelectuais não estão sós nas águas estagnadas da mentalidade rotineira. Ainda um outro amigo me sugere: compare as associações comerciais e federações de indústrias da Bahia e de Pernambuco. A diferença é brutal: lá, projetos e propostas; aqui, o vazio. A Bahia parece reduzida à espera da fábrica da Toyota. No campo político, a mesmíssima coisa. Até os antigos quadros da direita pernambucana são superiores a tudo que existe no espaço partidário baiano.

Na Bahia, nem a maré transformadora, que se poderia ter armado com a derrota do carlismo, aconteceu.

Em Pernambuco, a chegada de Eduardo Campos avivou ainda mais o pedaço. Na Bahia, nada. Não há tesão na transformação. No novo. Ao contrário, reinam a flacidez e o ceticismo. Em suma: Pernambuco, hoje, é sinônimo de entusiasmo e inquietude – a Bahia, de mormaço e mesmice. Continuam em vigor aqui, acima de tudo, a mediocridade e o clientelismo. E, o que é pior: anda todo mundo muito satisfeito consigo mesmo e com o que vê.