27.5.12

Anos dançantes

Nos anos 70, vários talentos que despontaram na década anterior e mudaram os rumos de nossa música, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Elis Regina, Rita Lee, Edu Lobo, Maria Bethânia, Gal Costa e outros, atingiam o auge de suas carreiras, numa profusão de trabalhos impecáveis. Na segunda metade dessa década, porém, uma onda vinda do exterior passou a dividir os acordes com essa música popular brasileira que se encontrava num de seus períodos mais férteis e de maior qualidade: a disco music, inspirada na black music, mas sem uma identificação exclusiva com o movimento negro.

Donna Summer, Gloria Gaynor e os grupos Abba e Bee Gees foram alguns de seus maiores expoentes. As músicas, recheadas de mensagens otimistas, falavam de superação, de dança e movimento. Nas letras em inglês, era bem comum o uso dos verbos dance (dançar) e shake (agitar, balançar): You can dance, you can jive, having the time of your life (Dancing queen - Abba), There is movement all around (…) On the waves of the air, there is dancin' out there (Night fever – Bee Gees), Feel the city breakin' and everybody shakin' and you're stayin' alive (Staying alive – Bee Gees), Let's dance, this last dance tonight (Last dance – Donna Summer). E mais: You should be dancing, Shake your booty, Dance and shake your tambourine. Mas as letras eram o que menos importava...

Interessante, também, certas considerações de gênero nas letras de algumas canções, em se tratando de um estilo marcado justamente pela quebra de paradigmas que reforçam as diferenças sexuais, seja no comportamento, no vestuário ou mesmo na dança, sem a figura do homem como condutor. Considerações como I'm so glad that I'm a woman e I've got to be a macho man conviviam em harmonia e davam a deixa: I am what I am and what I am needs no excuses. Estávamos conversados.

Assim como a Jovem Guarda foi inspirada num estilo que veio de fora do país e representou um contraponto a composições mais elaboradas da MPB, o mesmo ocorreu na década seguinte, com a chamada disco music, embora a variante local deste estilo, representada por nomes como As Frenéticas, Lady Zu e Miss Lene, tenha sido bem menos forte do que aquela do movimento dos anos 60. Por aqui, o estilo musical representou, também, o fim da era das músicas políticas ou de protesto e abriu as portas para os menos políticos, mas não menos extravagantes anos 80, cujas calças bag, camisas coloridas e ombreiras devem muito às meias coloridas de lurex, saltos plataforma e calças boca-de-sino dos 70.

As novas tribos de então, em meio a sinais de fumaça de gelo seco, queriam apenas cair na gandaia. Em vez de boate ou balada, discotecas, como a Studio 54, de Nova York, EUA e, aqui no Brasil, a Dancin' days, do Rio de Janeiro. A casa noturna carioca, de propriedade do produtor musical Nelson Motta e citada por Caetano Veloso em Tigresa – uma ode à atriz Sônia Braga (… Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis e hoje dança no frenetic Dancin' days) – equivalia ao que representou o Circo Voador, também no Rio, para os anos 80 e inspirou uma canção homônima (do próprio Nelson Motta), síntese do lema da casa, “dance bem, dance mal, dance sem parar”.

A discoteca inspirou a música e ambas inspiraram uma novela da Rede Globo que marcou época, Dancin' days (1978), de Gilberto Braga, com Sônia Braga como protagonista, cuja trilha internacional era repleta de sucessos das pistas de dança e cujo tema de abertura era a citada canção de Nelson Motta, de mesmo nome, interpretada por um grupo musical criado por ele, As Frenéticas. O grupo era formado apenas por mulheres, que trabalhavam como garçonetes na referida casa, entre elas Regina Chaves, que foi casada com Chico Anysio, Sandra Pêra, irmã da atriz Marília Pêra e cunhada de Nelson Motta e Duh Moraes, para os mais novos, a tia Nastácia da versão mais recente do Sítio do Picapau Amarelo.

O ritmo das discotecas inspirava danças e coreografias que, cada vez mais, passavam a fazer parte do pacote musical. No cinema, os musicais Até que enfim é sexta-feira (1978), com Donna Summer no elenco e na trilha sonora (Oscar de melhor canção com Last dance) e, principalmente, Os embalos de sábado à noite (1977), com várias canções do grupo Bee Gees e que revelou o talento de John Travolta como dançarino, ajudaram a consolidar o ritmo dos fins de semana ao redor do mundo. Estava escrito para a posteridade, em letras de néon: há mais coisas entre os requebros de Elvis e os de Madonna do que supõe a van de Ed Motta.


*


12.5.12

Laralaísmos

Li, certa vez, texto que exaltava o laralaiá e suas variações - presentes em várias de nossas canções populares - e mencionava suas ligações mais fortes com o samba. Nas palavras do autor, Daniel Brazil, “Não são aqueles laralaiás que só substituem trechos da letra, mas que tem melodia própria, personalidade e autonomia. Momentos em que o compositor pára, pensa, e diz: - Aqui vou colocar um laralaiá de responsa, pra todo mundo cantar!”. O artigo falava de laralaiás clássicos, como os de Chico Buarque em Quem te viu, quem te vê: Hoje o samba saiu, laralaiáe Minha história: Minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laialaiá (este, segundo o texto, só existe na versão em português da canção original italiana). O assunto é bem interessante e dá muitos panos pras mangas musicais, então, vamos lá laralaiá...

Além do artifício óbvio de cobrir trechos de letras de canções olvidados por nossos ouvidos, o laralaiá e outros termos afins, em geral, suavizam as canções e tornam a interpretação musical menos automática, mecânica e mais emocional, natural, humana, sendo esta sua principal função. E é justamente essa proximidade com o humano e suas emoções que nos toca. A arte imitando a vida. Ao mesmo tempo, o laralaísmo é o que mais diferencia o canto da linguagem falada. Afinal, ninguém costuma dizer coisas do tipo: “passa o açúcar, lalalá” (nem em jantar dançante).

Nesse aspecto de expressar sentimentos, o recurso do laralaiá tem função semelhante às interjeições, os ais e uis, igualmente comuns em canções (As rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai), em que cumprem a função de cobrir ou completar trechos melódicos com propriedade e poesia. Como canta Geraldo Azevedo, O charme das canções são suas frases banais, são seus ais, seus uis e ão”*. Tais interjeições estão até em nome de música, como Ai ai ai, de Vanessa da Mata e ôÔÔôôÔôÔ, de Thaís Gulin.

Quando entoado no começo, o laralaiá dá o tom da canção, não apenas no sentido musical, mas quanto a seu estilo. É o que acontece, por exemplo, em Caminhando (Pra não dizer quenão falei das flores), em que o tom de protesto que a canção carrega nos versos seguintes é suavizado pelo laralaiá inicial de Geraldo Vandré. Chico Buarque, em Se eu soubesse, utiliza-o como uma forma mais criativa de reticências, que incorpora rima e cadência: Mas acontece que eu saí por aí e aí, larari, lariri, enquanto o de Vinícius de Moraes, em Pela luz dos olhos teus, é substantivado, com uso dos mesmos requintes: Meu amor juro por Deus que a luz dos olhos meus já não pode esperar / Quero a luz dos olhos meus na luz dos olhos teus sem mais lararará.

Em Prometemos não chorar, clássico do brega, o lá lalalá lalá permeia toda a música, em meio a um chororô não prometido, mas cumprido e a comentários esnobes da fria figura masculina incorporada pelo cantor Barros de Alencar. Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga, gênios da simplicidade, também utilizaram com propriedade esses elementos em suas canções, vide Saudade da Bahia: Ai, ai, que saudade eu tenho da Bahia, do primeiro ou Estrada de Canindé: Ai, ai, que bom, que bom, que bom que é..., A triste partida (Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo, viver como escravo no norte e no sul, ai, ai, ai, ai) e o laiá laiá laiá laiá do refrão de Qui nem jiló, do segundo. 

O yeah está mais ligado à linguagem pop, mais universal, como em She loves you (yeah, yeah, yeah), dos Beatles. Por aqui, foi bem empregado, por exemplo, em Fácil, do grupo Jota Quest: Um dia feliz, às vezes, é muito raro, yeeeeeeah. Algumas variações do laralaiá são, também, universais e caem bem noutras línguas. O lailalai do refrão de The boxer (Simon & Garfunkel), por exemplo, toca mais fundo do que qualquer verso que viesse a estar em seu lugar. O mesmo aplica-se ao lalalá (ou nananá) final de Hey Jude, que encerra o sentido metafórico da letra, de deixar uma canção penetrar no coração e, assim, torná-la melhor

Roberto Carlos, com o fim da Jovem Guarda, rompeu a fronteira entre o iê iê iê (ou yeah yeah yeah) e o laralaiá, logo no início dos anos 70, na introdução de Todos estão surdos. Anos depois, em Guerra dos meninos, usou deste artifício como uma canção dentro da canção: Quando em minha porta alguém tocou / Sem que ela se abrisse ele entrou / E era algo tão divino, luz em forma de menino / Que uma canção me ensinou / lá lá lá lá lá lá. Nosso saudoso e amado mestre Chico Anysio exalta, em Rio antigo (Como nos velhos tempos): O Lamartine me ensinando um lalalalalá gostoso e termina essa ode maravilhosa à cidade idem com outro laraiá, igualmente inspirado, que fecha a música com clave de ouro.

Dentre as opções, os ais são especiais e bem luso-brasileiros. O dicionário inFormal, que se apresenta como um dicionário on-line de português onde as palavras são definidas pelos usuários, faz curiosa referência à diferença entre ai, ai - geralmente usado em situações de conforto ou prazer – e ai, ai, ai ou ai, ai, ai, ai, ai, em geral usados para alertar, indicar cuidado ou mesmo recriminar. De fato, em Ive Brussel, de Jorge (ainda) Ben, os ais repetidos, adquirem uma conotação de prazer: Que naquele dia você foi tudo, foi demais pra mim, ai, ai. Sozinho, o ai remete a desejo, lamento: Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal / Ai, que saudade d'ocê. Em linguagem atual: ai, se eu te pego é diferente de ai, ai, se eu te pego, a primeira expressão, um anseio, a segunda, um devaneio.



* O charme das canções (uis e ais) (Geraldo Azevedo / Capinan)

O charme das canções
São suas frases banais
São seus ais, seus uis e ão
Coisa de fazer sorrir
A triste noiva do faquir
Coisa de fazer sonhar
A moça do novo andar
Coisa de fazer parar
O chofer do caminhão
São seus ão meus ais e uis
Coisa de fazer chorar
A natureza morta
O charme das canções
São eu te amo
Tua traição teus punhais
E ai, Jesus, são seus uis
Meus ão e ais
São Jamais, jasmins ou nunca
São nunca mais ou querer teus beijos
Ou serão teus beijos, sempre
E sempre mais
São seus ais, seus uis e ão
Coisas que entortam
Um certo coração

26.4.12

Arruda fields forever

(O sonho não acabou)


 Naquele dia, acordei com o som de um carro tocando algo no estilo tchê tchererê tchê tchê em altos decibéis e pensei, ainda atordoado: é um sonho ou estarei, logo mais, frente a frente com um ex-beatle? Depois de Ringo Starr, cri que minha cota de beatles a domicílio tinha-se esgotado, já que achava impossível uma vinda de Paul McCartney ao nordeste brasileiro. E os demais, John Lennon e George Harrison, ainda que não menos atraentes, eu não queria ver tão cedo...

Anos atrás, não imaginaria estar a menos de sete mil quilômetros de distância de Paul. Ele não viria ao Brasil. Veio. Refiz os cálculos e passei, então, a imaginar que a distância entre nós nunca seria menor do que dois mil quilômetros. Ele não sairia do eixo Rio-São Paulo. Saiu. Por alguns dias, estive a menos de três quilômetros dele. Por algumas horas, a menos de cem metros. Por alguns segundos, a menos de três metros. Uma longa e sinuosa estrada levou-me ao campo. Segui caminhando, sem preocupações, olhando aquelas pessoas solitárias, sem saber de onde vinham. Chegando lá, embaixo do céu azul suburbano, senti algo que não pude esconder. Todos os meus problemas pareciam bem distantes. Só aguardava esse momento pra ser livre. Noites solitárias nunca mais. Arruda Fields Forever.

Embaixo do céu suburbano e estrelado, eis que surgiu mais uma estrela, a maior da música pop mundial, cujo brilho fez-se ainda mais intenso por sua disposição e simpatia demonstrados ao longo do show e em toda sua estada na capital pernambucana. De dentro do carro que o levava, vidro aberto, acenou para o público, na chegada ao estádio do Arruda (os três metros de que falei acima), entrou e saiu do hotel sempre pela porta da frente, posou para fotos com policiais militares que iriam trabalhar durante o show, distribuiu autógrafos, levou gente ao palco e interagiu com o público durante incríveis três horas de um espetáculo pontual (quase quarenta canções, com algumas variações do primeiro para o segundo dia), entre várias outras demonstrações de gentileza.

Não sabia que seria possível admirá-lo ainda mais. Vê-lo cantar All my loving, logo nos primeiros minutos da apresentação, vestido com o mesmo modelo de terno, tocando baixo do mesmo jeito, com os mesmos movimentos corporais do passado e com imagens dos Beatles no fundo do palco foi uma experiência encantadora. Sensação semelhante a visitar um lugar que se conhecia apenas, mas intensamente, dos livros de história. Outros arroubos foram Eleanor Rigby, Yesterday ao violão, no segundo bis e, da fase pós-Beatles (com o grupo Wings), Band on the run e Live and let die, com belos efeitos especiais. Empaulgação ilimitada, para quem presenciava um momento histórico.

Ao piano, Paul cantou três de suas mais belas canções: Hey Jude, Let it be e The long and winding road. Sobre esta, o cantor revelou, em Many years from now (Barry Miles, 1997), sua biografia autorizada: “É uma canção triste, porque fala do inatingível. (…) É a estrada em que nunca se chega ao fim.” e confessou: “Gosto de compor músicas tristes”. Neste mesmo livro, ele citou Bach como um dos compositores prediletos dos Beatles e uma de suas fontes de inspiração, como na canção Blackbird, também cantada no Arrudão, que alude à luta dos negros americanos por direitos civis e lembrou-me, também, o nosso Íbis. Vê-se que a boa qualidade harmônica e melódica das 'músicas tristes' dos rapazes de Liverpool não era casual.

Reverências aos ex-companheiros de banda – John, George e Ringo – e de vida – Linda e Nancy – foram mais alguns dos inúmeros momentos marcantes da apresentação. George Harrison foi homenageado com algo do que fez de melhor: Something, Ringo com Yellow submarine e Lennon com Here today, composta por Paul como um tributo ao companheiro. My valentine *, canção que fez para Nancy, sua atual esposa e que está em seu novo disco Kisses on the bottom, mostra que o gentleman Paul não perdeu a fórmula da boa música.

Em entrevista à revista Época, dias antes do show, Paul McCartney fez interessante comparação entre o público que o prestigiava no tempo dos Beatles e o atual: “Percebo que o público que vem aos shows hoje é formado por crianças, adolescentes e adultos. É engraçado porque, no tempo dos Beatles, as coisas eram muito diferentes. A gente cantava rock para jovens que expressavam por meio da música sua rebeldia em relação aos pais. Era o conflito de gerações típico dos anos 1960. Hoje não há mais conflito de gerações. As famílias vão aos concertos de rock. (...) Sinto-me muito bem nessa situação que talvez parecesse excêntrica há 50 anos, porque sou um sujeito bem família”.

Essa diversidade de público foi perceptível no show do Arruda, em que seus fãs de carteirinha portavam desde as estudantis até as de idosos. Em se tratando de show em estádio, o som pareceu impecável e o cuidado com este aspecto em suas apresentações também foi frisado por Paul nessa entrevista. Quanto ao fato de apresentar-se no Recife e em Florianópolis, ele afirmou que, desde a época dos Beatles, sempre quis ir aos mais diversos lugares, o que nem sempre foi possível.

A predisposição do cantor, aliada ao crescimento econômico do Brasil - mais especificamente, do nordeste do país – e a consequente e crescente percepção, por parte de produtores musicais, de que o mundo não gira apenas em torno do eixo Rio-São Paulo, tornou possível este acontecimento inédito e inesquecível. Como disse um amigo, impossível ficar em casa sabendo que Paul estaria tocando aqui perto. Para mim e demais torcedores do Santa Cruz presentes, assistir ao show do ídolo em casa foi um privilégio ainda maior.

* My valentine (Paul McCartney)

1.4.12

Raul toca

Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa” (Raul Seixas)


Abrindo as portas de abril, que se apresenta como mês promissor para os apreciadores da música pop(ular) em vários gêneros, com shows especiais como Maria Rita interpretando Elis Regina, o retorno do grupo Los Hermanos, nova turnê brasileira de Paul McCartney e novo show de Chico Buarque, entrou em cartaz nos cinemas nacionais o filme RaulSeixas – O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho (Cazuza – O tempo não para, Budapeste).

No filme, a carreira do cantor e compositor baiano é mostrada em interessante paralelo com seus relacionamentos afetivos, dos quais, em meio a depoimentos de amigos, admiradores e parceiros, os testemunhos de parentes são os mais reveladores. Dentre as mulheres com quem o músico viveu, apenas a primeira não quis ser entrevistada: escreveu uma carta, em que afirma não querer falar no assunto. As demais companheiras, bem como suas filhas, referem-se a ele de forma, em geral, carinhosa. Uma das mulheres apresenta o neto adolescente do maluco beleza, nascido nos EUA, como o filho que Raul não teve. A semelhança entre avô e neto impressiona.

O início – Nos anos 60, contagiado pela onda roqueira que assolava o mundo e o país, Raul Seixas aproximou-se de um dos destaques da Jovem Guarda, Jerry Adriani, a quem acompanhou em shows. Pouco depois, lançou seu primeiro disco, Raulzito e os Panteras e trabalhou, também, como produtor musical. No início dos anos 70, lançou outro trabalho, junto com Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star: Sociedade da grã-ordem kavernista apresenta sessão das dez.

O fim – O filme de Walter Carvalho aborda, por meio de depoimentos e imagens, um aspecto polêmico do final da carreira de Raul Seixas, em que ele aproximou-se do também cantor e compositor Marcelo Nova, ex-vocalista e líder da banda Camisa de Vênus. A discussão deu-se em relação ao comportamento de Marcelo Nova, visto por uns como oportunista - que estaria se aproveitando da fama de Raul - e por outros como solidário, que o estaria ajudando, num momento em que ele estava debilitado e um tanto esquecido.

O meio - Em 1973/74, Raul Seixas fez dois de seus melhores e mais destacados discos, Krig-ha Bandolo e Gita, que têm no repertório vários de seus clássicos: Metamorfose ambulante, Medo da chuva, Mosca na sopa, Sociedade alternativa, O trem das sete, Ouro de tolo e Gita, as três últimas também gravadas por Zé Ramalho (fez um disco inteiro cantando Raul), Caetano Veloso e Maria Bethânia, respectivamente. Neles, teve início sua parceria com Paulo Coelho, que duraria até perto do final da década, com algumas canções de Mata virgem* (78). Nessa época, as trilhas sonoras nacionais das novelas da Globo eram encomendadas a um único artista ou grupo e, não bastassem os dois citados discos, as canções de O rebu (1974) ficaram a cargo da prolífica dupla.

A irreverência, característica tão agradável aos olhos infantis, ajuda a explicar a empatia que certos grupos musicais despertam nas crianças ao longo do tempo. Essa irreverência é percebida não só na obra do conjunto - a música em si -, mas no conjunto da obra - as atitudes, a postura, a aparência, as vestimentas dos músicos. Na década de 70, esse comportamento foi visto, de forma mais intensa, tanto nos Secos & Molhados, como em Raul Seixas. Duas das composições que mais marcaram os infantes daquela geração vieram deles: O vira, dos primeiros e Mosca na sopa, do segundo. Indiferentes a qualquer sentido político-social da letra de Mosca na sopa, era a interpretação literal que agradava às crianças, além do ritmo, uma mistura de baião com rock.

Falando em baião e rock, Luiz Gonzaga e Elvis Presley sempre foram identificados por Raulzito como suas maiores fontes de inspiração e é perceptível a mistura dos estilos dos dois músicos em suas composições. É empolgante uma cena do filme em que ele, ao citar essas influências, emenda uma música de Elvis com a Asa Branca de Gonzagão, num encaixe perfeito, que fala por si só. É mosca na sopa. Já nos exagerados anos 80, em que a irreverência foi mais regra que exceção, Raul voltou a se aproximar do universo infantil com Carimbador Maluco - tema do especial Plunct Plact Zuuum, da Rede Globo -, para surpresa de seus já crescidinhos fãs.

Parecido com o que ocorreu com o público infantil, a identificação dos jovens com Raul deu-se, em boa parte, por conta de sua postura rebelde. Por meio de suas canções, ele expôs ao público um ponto de vista divergente ou alternativo quanto a conceitos firmados como vencer na vida ou ser normal, tratados como absolutos por quem tem aquela velha opinião formada sobre tudo, inclusive sobre o que é vencer na vida ou ser normal.




* Mata virgem (Raul Seixas / Tania Menna Barreto)

Você é um pé de planta
Que só dá no interior
No interior da mata
Coração do meu amor

Você é roubar manga
Com os moleques no quintal
É manga rosa, espada
Guardiã no matagal

Qual flor de uma estação
Botão fechado eu sou
Se amadurecendo
Pra se abrir pro meu amor

Úmida de orvalho
Que o sol não enxugou
Você é mata virgem
Pela qual ninguém passou

É capinzal noturno
Escuro e denso protetor
De um lago leve e morno
Teu oásis seu amor

3.3.12

Sobre Wando

O pertencer a uma mesma geração proporciona uma série de cumplicidades às pessoas, sendo a música uma das mais diretas e representativas. A contemporaneidade, logicamente, não implica em homogeneidade de inclinações, mas cria certos vínculos emocionais. Pessoas de gerações diferentes, mesmo com gosto musical parecido, não vivenciam essa cumplicidade, uma vez que ela é construída não por identidade de gosto, mas com base em momentos em comum vividos numa mesma fase da vida e ao longo do tempo.

A morte do cantor Wando e como ela repercutiu de forma diferente em diferentes gerações, muito ou pouco sentida, ilustra bem essas reflexões. Muito se questionou o fato de ele ter sido endeusado e reverenciado, por alguns, apenas depois de morrer. Pode ser, isso ocorre com frequência - ou, como diria Cauby, essas coisas acontecem por aí naturalmente -, mas alguns desses depoimentos pareceram sinceros e é provável que tenham partido justamente de alguns de seus contemporâneos.

O moço mineiro tinha público cativo e sua popularidade remonta à década de 70, quando O importante é ser fevereiro foi gravada por Jair Rodrigues. Pouco depois, ele compôs Moça*, que o posicionou, perante a mídia, na categoria dos cantores românticos - ainda não existia o termo brega. A música fez parte da trilha sonora da primeira versão da novela Pecado Capital e foi regravada, anos depois, por CaetanoVeloso. Na mesma linha e na mesma época, Wando compôs A menina e o poeta**, bonita, mas pouco conhecida, mesmo tendo sido gravada por Roberto Carlos, em seu disco de 1976. Nesse mesmo período, despontaram, também, Agepê, Hildon, entre outros.

Já nos anos 80, Chora coração, tema da novela Roque Santeiro e Coisa cristalina foram grande destaque, mas nada comparável a Fogo e paixão, seu maior sucesso, um “Ai se eu te pego” da época que, com sua letra quente, consolidou a fama de amante latino do cantor e o hábito de seus iaiás e ioiôs de jogarem peças íntimas no palco. Ele afirmava, porém, que essa aproximação com o público feminino sempre fora seu objetivo, desde o início da carreira.

Ninguém atravessou incólume os anos 80 que, ao proporcionar a ruptura da fronteira entre estilos musicais, representou uma espécie de retropicalismo, somado a grandes porções de jovem guarda. Há semelhanças entre o é proibido proibir tropicalista e o vale tudo ou libera geral oitentista, quando cantores mais populares passaram a frequentar espaços elitizados, antes exclusivos e restritos, como as rádios FM ou as casas de show voltadas para as classes mais abastadas. Com Wando, não foi diferente. Aquela que já cantarolou uma música dele, que atire a primeira calcinha, a segunda, a terceira...

*


**



A menina e o poeta (Wando)

Virgem menina morena
Nos cabelos uma trança
No rosto um jeito criança
Na voz um canto mulher

Virgem menina morena
Nos olhos toda a primavera
No corpo uma longa espera
Coração banhado em fé

A tarde corre pra noite
A lua desperta sorrindo
A menina na janela
Botão em flor se abrindo

Nasceu o primeiro desejo
Conhecer o primeiro amor
Na história de um poeta
A menina acreditou

Mas o poeta foi um dia
E até hoje não voltou
Ninguém sabe o caminho
Que o poeta levou

O vento que foi com ele
Um dia por lá voltou
Mas só que voltou sozinho
E a menina chorou

Na história do poeta
A menina acreditou
E dos olhos da menina
Uma lágrima rolou

7.2.12

Orações descoordenadas e insubordinadas para todos os períodos – quinta edição


(Não se preocupe, isso passa, é só uma frase)

Há algo de podre no queijo-do-reino da dona Márcia.”

No primeiro segundo, fui ao terceiro quarto e vi que tudo ficou em ordem nesse período.”

'The Oscar goes to' não se discute”.

Ser ou não ser, eis a questão? Há mais coisas entre masculino e feminino do que supõe nossa vã hipocrisia.”

Se não conseguimos encontrar nossa cara metade, talvez seja hora de procurarmos uma mais em conta.”

Longe das ruas, foliona desfila no bloco de folhas de um dicionário, entre fantasia e frevo.”

Análise sintética: período momesco é aquele em que o sujeito abandona as aspas e abre parênteses para a espontaneidade.”

Uma dica importante: a melhor resolução para monitores, impressoras, scanners e máquinas digitais é comprá-los em promoção. Uma ótima resolução.”

Quem brinca com fogo pode se queimar. Quem brinca no mar pode se afogar. Quem brinca com palavras pode se queimar no mar e no fogo se afogar.”

Como se conjuga uma união conjugal: Lia, terceira pessoa do verbo ler, uniu-se a Lemos, a primeira pessoa que viu pela frente.”

Na calada da noite, surgiram comentários à surdina. Mas a surda não deu ouvidos e, desnuda, saiu com uma muda de roupa que deu o que falar.”

O melhor meio de provar que o mundo é redondo é a quantidade de mails que, volta e meia, voltam ao nosso meio.”

Golpe de 64: it begins with US.”

Não tem til, til tem não.”

Castelo Branco: extensão da Casa Branca.”

Eufemismo, próprio de fêmeas, pode, também, atacar os machos, dentre os exemplares menos agressivos da espécie humana.”

Nesse espaço vital em que o mundo gira, o poeta põe o que o tirano tira.”

Dois instrumentistas, um era baixo, outro era surdo. O surdo tocava baixo, o baixo tocava surdo. O baixo tocava baixo, porque não era surdo.”

Do ponto de vista da ética, cada um tem sua ótica.”

Sentiu dó. Tomou aquele dó pra si. Foi acusado de plágio. A música custou-lhe uma nota.”

Tem gente que confunde matrimônio com patrimônio e prefere se casar com caminhão de bens.”

Num verdadeiro relacionamento afetivo, a melhor parte do corpo do parceiro são os ouvidos.”

As asas da imaginação desapropriam o sentido próprio, desfiguram o sentido figurado, ilimitam o que, loucamente, cada louca mente capta.”

Quem BEBE pode entrar em COMA alcoólico. COMO?”

Calma: quem não tem filho, pode ter uma sobrinha. Ou uma sobrinha.”

So, I saw my soul sailing the sea.”

Para se chegar à verdade absoluta, deve-se estar fora de si. É verdade! Absoluta!!”

Eu, tu, elo. Nós, voz, elos.”

A dor meço de olhos abertos.”

Quem não ama fica amuado.”

14.1.12

A música da sua vida

Um dos maiores documentaristas brasileiros, Eduardo Coutinho está com novo filme na praça, As canções, eleito melhor documentário no Festival do Rio 2011, pelos júris popular e oficial. Coutinho sempre parte, em seus filmes, de ideias simples para criar algo original e, por vezes, genial, já que a genialidade tem um pé na simplicidade. Algo como o que fizeram (ou fazem), na música, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, João Gilberto, ou mesmo Chico Buarque.

As canções chega ao limite dessa simplicidade, tanto no cenário enxuto – o entrevistado em um palco de teatro com uma cortina preta por trás -, quanto no mote que o conduz, representado pela questão: “Qual a música da sua vida?”. Foram 240 pessoas abordadas, 42 pré-selecionadas e 18 escolhidas para a versão final do documentário. Os depoimentos foram, quase todos, ligados a relacionamentos amorosos, ilustrados por canções anteriores à década de 80, o que se explica pela faixa etária da maioria dos depoentes. Interessante, também, ao se levar em conta o tema do filme, é que Eduardo Coutinho dificilmente escuta música, o que me lembrou o poeta João Cabral, que não apenas não escutava, como detestava qualquer tipo de música.

As canções guarda algumas semelhanças com Jogo de cena (2007), desde o cenário até o formato de busca aleatória dos entrevistados - o segundo por meio de outdoors, anúncios e o primeiro pelas ruas do Rio de Janeiro, principalmente. Em ambos, um modo interessante de contar os fatos também foi, logicamente, levado em conta. E se a convocação das pessoas, em Jogo de cena, pedia histórias de vida marcantes, em As canções houve mais um requisito: como os relatos eram associados a músicas, o depoente deveria saber cantar razoavelmente bem, sem ser profissional. Nesse aspecto, alguns cantaram bem demais, diminuindo um pouco a emoção que viria com uma interpretação mais espontânea, mas a maioria cantou com o coração.

Não por acaso, os depoimentos mais marcantes do documentário aliam boa música a interpretação natural, história interessante a narração envolvente. Como o primeiro, de uma mulher que canta Minha namorada (Vinícius de Moraes / Carlos Lyra) e traz consigo a letra da canção, manuscrita por um namorado, que lha dedicou (êpa!), décadas atrás. Ou o último, em que a depoente espelha as desventuras do amor com um Retrato em branco e preto (Chico Buarque / Tom Jobim). Por outro lado, canções repetidas em mais de um depoimento, como Olha (Roberto Carlos / Erasmo Carlos) e a versão brasileira de Perfídia (Alberto Dominguez), impedem o filme de abranger um universo musical maior.

Anos atrás, num programa de televisão de tema semelhante, em que as pessoas, ao citarem músicas que marcaram várias épocas de suas vidas, construíam suas trilhas sonoras, uma entrevistada incluiu, em sua lista, Vento no litoral (Renato Russo / Dado Villa-Lobos / Marcelo Bonfá) e emocionou-se ao cantar: “Já que você não está aqui, o que posso fazer? Quero ser feliz, ao menos. Lembra que o plano era ficarmos bem”. Geralmente associada a um fim de relacionamento, a letra da canção lembrava-lhe o falecido pai. Em As canções, senti falta de visões diferentes assim.

Para um amante da música e admirador da obra de Eduardo Coutinho, minha expectativa para este filme era grande - e, em parte, foi atendida, ainda que não consiga igualá-lo ao desconcertante e surpreendente Jogo de cena, ou mesmo a seus filmes mais conhecidos, como Cabra marcado para morrer, Peões, Babilônia 2000 e Edifício Master. A razão pode estar no fato de que, se em todos eles conseguimos nos emocionar ou rir com as narrativas, sejam elas quais forem, sem que, necessariamente, tenhamos vivido algo semelhante, o gosto musical pode influir no julgamento de As canções a ponto de gostarmos mais das histórias na medida em que gostamos das músicas que as acompanham - cada um tem seu As canções particular.

O próprio cineasta não fugiu por completo desse aspecto, mesmo que inadvertidamente, na medida em que selecionou, para o filme, duas pessoas que escolheram Perfídia – que ele diz adorar – como canção de suas vidas. Da mesma forma, Ternura (Estelle Levitt / Kenny Karen, versão: Rossini Pinto), escolhida por outro entrevistado, já foi citada por Coutinho como uma canção que lhe marcou - ainda que não seja a música de sua vida -, por ele tê-la usado em um de seus filmes, na voz de Wanderléa.

Quando se quer emocionar a todo custo, faz-se uso de melodramas, com fundo musical e imagens de efeito. Neste filme, como em quase todos do diretor, ambos os recursos são o próprio personagem ou saem dele. A música deixa de ser incidental ou de fundo e passa ao plano principal, enquanto o efeito especial, como ele mesmo afirmou em entrevista, “é a pessoa que fala, que vive, inventa” e FIM.





5.12.11

Marisa de verdade

Desde seu primeiro trabalho, que misturava rock, samba, xote e MPB, Marisa Monte recebeu o rótulo elogioso de cantora eclética. Como a primeira impressão é a que fica, vem daí as expectativas da crítica especializada e de parte de seu público por trabalhos diferenciados e longe do óbvio. A partir do segundo disco, Mais, a cantora foi além e surgiu como compositora, lado que vem exercitando desde então, num crescente. Nesse ofício, vem seguindo o modelo Roberto Carlos de manter-se fiel a poucos parceiros e repetir uma fórmula que vem dando certo, mas que pode soar repetitiva (Roberto, por sinal, é um dos compositores admirados pela diva). 

Não trilhar o caminho mais fácil de sempre gravar outros compositores, ao mesmo tempo em que constitui ato de ousadia, deixa o cantor mais vulnerável e exposto a críticas, o que vem ocorrendo com seu novo disco, O que você quer saber de verdade, “acusado” de ter canções um tanto quanto óbvias, pra não dizer simplórias. De fato, o disco traz algumas melodias fáceis e mensagens simples (vão-se memórias e crônicas, ficam-se declarações de amor), mas isso não chega a ser novidade - vide Os tribalistas e seu megassucesso Já sei namorar -, nem compromete todo o resultado - o citado Mais tinha canções como Eu sei e Beija eu, no mesmo estilo e nem por isso desinteressantes, assim como as do disco atual. A diferença, talvez, esteja na dose.

Em entrevista sobre o novo trabalho, Marisa diz gostar e sempre se utilizar desse tipo de linguagem em suas canções: “Minha música sempre teve essa vocação popular. (...) Minha linguagem sempre foi direta, clara, simples. (...) Claro que tem um contato com uma poesia mais sofisticada, como em Diariamente, Bem Leve ou Maria De Verdade. E eu gosto disso também. (...) Dizem que sou cult, mas eu nunca tive a intenção de ser cult, no sentido de fazer música para poucos. Às vezes, acho que a minha música se confunde com a minha postura reservada. E isso cria um paradoxo.”

O que você quer saber de verdade, com exceção de três faixas, tem a participação de um, dois ou três dos inseparáveis compositores Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e a própria Marisa Monte. Para comprovar que às vezes é bom inspirar novos ares e novos parceiros, uma das mais diferenciadas canções do disco é O que se quer, parceria dela com Rodrigo Amarante, do Los Hermanos, que soa como uma marcha-rancho sanfonada. Em seus dois discos simultâneos anteriores, Adriana Calcanhoto e outros entraram nesse rol de novos parceiros, também com bons resultados.

Outros companheiros de longas datas de Marisa também participam deste novo disco. O músico Dadi, ex-Novos Baianos e A Cor do Som, marca presença como coprodutor, instrumentista, compositor e pai (seu filho André Carvalho, que apareceu para a mídia na voz de Maria Gadu como autor de Tudo diferente, assina Nada tudo). Três músicos da Nação Zumbi - Pupilo, Dengue e Lúcio Maia – participam como instrumentistas e é interessante ver suas performances num outro estilo musical.

Bastante ligada a suas raízes cariocas, ao samba e aos compositores do Rio de Janeiro, como Tim Maia, Jorge Benjor e Paulinho da Viola, Marisa Monte sempre manteve ligações musicais, também, com o nordeste brasileiro, desde seu primeiro disco, quando gravou o Xote das meninas (Luiz Gonzaga / Zé Dantas), com citações de Genival Lacerda. Além de Brown e do trio da Nação, a porção nordestina do novo disco está presente no acordeon do cearense Waldônis - que deu um toque bem peculiar e especial a algumas canções - e, particularmente, na faixa Hoje eu não saio não, que é tipo um xaxado, buarqueanamente falando.

A canção-título*, que abre o disco e foi anteriormente gravada por Arnaldo Antunes em Qualquer (2006), fala da graça das pequenas coisas, do que realmente importa. Na mensagem singela, lembra Vilarejo, do álbum anterior e, como aquela, não caberia em letra e arranjo rebuscados. Ambas são canções adequadas, que cabem em si. O disco segue com Descalço no parque, uma antigona de Jorge Ben - e aí MM repete a fórmula RC de sucesso. Quem se lembra dos discos de Roberto Carlos da década de 70 sabe que todos eles tinham que ter uma canção de Maurício Duboc e Carlos Colla, outra de Isolda e Milton Carlos, além de uma de tema religioso e outra ecológica. No caso de Marisa, onde lê-se cada uma das duplas, leia-se Paulinho da Viola e Jorge Ben(jor).

Marisa Monte também é eficaz em baladas e, se Infinito particular tinha Pra ser sincero e Até parece, neste elas estão bem representadas com Depois e Era óbvio. Amor I love you passou a bola pra Ainda bem**, um bolerão rasgado, com direito a trompete e belo clipe em preto e branco(a) dela bailando com o lutador Anderson Silva. Se as duas músicas não dizem tanto, dizem o necessário àquilo a que se propõem - mais uma vez, cabem em si. Outros exemplos de trechos de letras simples, mas bacanas estão em Seja feliz (“Tão curta a vida. Curta a vida”) e Bem aqui (“Se a gente nem sabe onde está bem, está bem aqui”). Merecem destaque, ainda, outras duas canções: uma versão que foi sucesso décadas atrás com Dalva de Oliveira (Lencinho querido) e outra que lembra as músicas da Jovem Guarda (Aquela velha canção).

Amantes da música num sentido mais amplo e geral hão de apreciar o novo trabalho da cantora de bela voz. Escutar, entender, viajar, dançar, pular, protestar, namorar, cantarolar, assoviar, para cada situação, há um tipo de música mais adequado e, a depender das circunstâncias, a água mineral do Candeal pode até saciar mais ou descer melhor do que aquilo que apreciamos num Bach, on the rocks, jazz, blues, etc.


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9.11.11

Música das bandas de lá

O documentário Rock Brasília – Era de ouro, de Vladimir Carvalho, vem sendo exibido de forma discreta nas salas de cinema do país, com exceção da capital federal, onde foi o esperado filme de abertura do consagrado festival de cinema local. A repercussão por lá não podia ser diferente, em se tratando de uma cidade que é importante personagem da história contada, mas o filme é uma boa surpresa, também, para quem se dispõe a assisti-lo longe do planalto central, do céu de Brasília, do traço do arquiteto.

Em geral, fala-se do rock brasileiro dos anos 80 como algo indivisível, sem considerar suas especificidades e, nesse aspecto, o filme tem uma abordagem diferente: atém-se ao surgimento de três bandas brasilienses – Capital Inicial, Plebe Rude e Legião Urbana -, cujas histórias são interligadas. Apesar dessa abordagem, não deixa de inserir o universo local no contexto nacional e vice-versa.

Brasília é uma cidade atípica, que não conseguimos dissociar de dois aspectos principais. Primeiro o político, refletido em certas letras de cunho social das bandas de lá, como Que país é esse, Até quando esperar, Mais do mesmo, Geração Coca-Cola (desde pequenos nós comemos lixo / comercial e industrial / mas agora chegou nossa vez / vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês). Depois - consequência de ser centro do poder - o fato de abrigar pessoas de várias localidades, sobretudo na década de 80, quando ainda formava a primeira geração de nativos, então na casa dos vinte anos. Muitos dos jovens eram filhos de políticos, diplomatas, funcionários públicos, incluindo integrantes dos três citados grupos.

O filme dá a devida importância a esses aspectos no surgimento de tais bandas, na medida em que toma como coprotagonistas os pais (literalmente) do rock brasiliense e põe suas considerações ao lado dos depoimentos de integrantes das três bandas, em diferentes épocas, colocando, juntos, pais e filhos da revolução, como ressalta o trailer oficial. Boa parte da história é contada do ponto de vista dos pais.

O embrião desses grupos musicais foi a amizade dos irmãos Fê e Flávio Lemos com Renato Russo. Os três formaram, com outros amigos, a banda punk Aborto Elétrico, que seria dividida, após desentendimentos, em Capital Inicial e Legião Urbana. Junto com os garotos que formariam a Plebe Rude, eles moravam todos próximos, em uma das quadras residenciais do plano piloto da capital federal, onde matavam o tempo e o propalado marasmo da cidade em encontros regados a rock e maconha.

Em paralelo, bandas cariocas já causavam certo alvoroço sonoro no Rio de Janeiro, a começar da Blitz e foi uma delas, meio carioca, meio brasiliense, que fez a ponte e impulsionou o movimento dos meninos de Brasília: os Paralamas do Sucesso. Dois de seus integrantes, Bi Ribeiro e Herbert Vianna tinham um pé naquela cidade. Os Paralamas já gozavam de certo prestígio na mídia e puderam, assim, dar boas referências de seus colegas às gravadoras, ávidas por novos talentos num estilo musical que prosperava.

As três bandas mostradas no filme fazem parte da segunda leva dos grupos de rock brasileiros dos anos 80, os quais despontaram para o sucesso após a primeira metade da década, que teve como divisores de águas a eleição indireta de Tancredo Neves para presidente e o Rock in Rio I, ambos em janeiro de 85. Com exceção do grupo Legião Urbana, ícone da música daquele período, os dois outros tiveram, na ocasião, menor acesso à mídia, sobretudo a Plebe Rude que, salvo algumas músicas, não tocava tanto nas rádios, sempre mais abertas ao que consideravam sucessos fáceis.

Não obstante, o maior sucesso da Plebe Rude, Até quando esperar*, é uma canção menos comum, que fala do acaso probabilístico com que somos jogados de um ou outro lado da sociedade ao nascermos, bem como de um certo sentimento de culpa que tal fato provoca naqueles que fazem parte do lado mais privilegiado, em condições de desigualdade com o “lado B”.

Em momento interessante do filme, Renato Russo relata seu estranhamento com o fato de um dos discos da Legião - que começa com Há tempos, canção sem refrão, de versos nada triviais para os padrões de um estilo massificado - ter estourado nas rádios e ser um dos maiores êxitos de venda da época. Outro trecho mostra imagens do grupo apresentando-se no programa Chico & Caetano, da Rede Globo, pontuadas por observações de Caetano, sempre atento a novidades. Ao final, um hino da geração 80, Tempo perdido, para deleite dos saudosos fãs da época (ou dos que passaram a apreciá-la depois), que podem sair da sessão cantarolando: ‘fomos’ tão jovens, tão jovens...



* Até quando esperar (Philippe Seabra / André X)

Não é nossa culpa
Nascemos já com uma bênção
Mas isso não é desculpa
Pela má distribuição

Com tanta riqueza por aí, onde é que está
Cadê sua fração?
Até quando esperar?

E cadê a esmola
Que nós damos sem perceber
Que aquele abençoado
Poderia ter sido você?

Com tanta riqueza por aí, onde é que está
Cadê sua fração?
Até quando esperar a plebe ajoelhar
Esperando a ajuda de Deus?

Posso
Vigiar teu carro
Te pedir trocados
Engraxar seus sapatos






7.10.11

A maçã e a chuva


Considerações musicais de Raul Seixas para relacionamentos amorosos

(A Steve Jobs, que gostava de maçã e provou ao mundo que nem todas são iguais)

A fidelidade como requisito ao casamento costuma ser inquestionável. Por outro lado, e ao mesmo tempo, o pouco êxito no cumprimento deste requisito, motivo maior de separações, junto às naturais dificuldades de relacionamento, também é indiscutível. Os pesos e medidas utilizados para julgar atos de infidelidade conjugal, porém, são menores em sua versão masculina e, aí sim, começa a discussão. Trata-se, afinal, de um pacto, acordo ou contrato entre duas pessoas que prometem ser fiéis uma à outra, por toda a vida. Uma via de mão dupla, em que a ultrapassagem não é aconselhável, nem pra um lado, nem pra outro. 
 
O assunto é tema recorrente, também, na música e na literatura. O poetinha Vinícius de Moraes reconheceu o amor como algo não imortal, posto que é chama. Seria possível, então, manter essa chama acesa e tornar a fidelidade não um fardo, mas um prazer? Há quem acredite que sim, e são muitos. Há quem acredite que não, e não são poucos. O cantor e compositor Raul Seixas apresentou, por meio de duas canções em parceria com o escritor Paulo Coelho – Medo da chuva* e A maçã** -, um modelo de casamento que foge ao padrão hi-fi, de alta fidelidade. Ao reconhecer a via da fidelidade como inviável numa união entre duas pessoas, ele propôs, em seu colóquio, um novo modelo de relacionamento.

O estranho modelo seixiano é, pelo menos, coerente, uma vez que, ao considerar a tão propalada fraqueza da carne inerente à espécie humana como um todo, independente de gênero, assume seus efeitos e dispensa a fidelidade em ambos os lados da relação. Pela sua visão, melhor assumir suas limitações do que colocar panos quentes apenas na pulada de cerca masculina. A liberdade que ele pede em Medo da chuva, oferece em A maçã. Não se trata de ser adepto, tampouco de aprovar, muito menos de recomendar a aplicação de sua teoria, qual seja a de sair por aí a comer maçã na chuva, mas há que se admitir a lógica de seu raciocínio.

Em Medo da chuva, ele constata que, ao se prender exclusivamente a alguém, como pedras imóveis na praia, deixa-se de viver várias outras possibilidades de amores – afinal, quem não está na chuva é pra não se molhar. Ao mesmo tempo, reflete que o segredo da vida e da felicidade está em perder o medo da chuva e assumir-se incapaz de amar apenas uma vez e de cumprir as juras de amor eterno, feitas ao pé do altar.

Em A maçã, ele também assume o desgaste provocado por uma relação biunívoca e, ao admitir que o amor só dura em liberdade, aceita, também, libertar, não sem sofrimento, a pessoa amada. Por essa linha de raciocínio, em se abolindo expectativas inalcançáveis e recíprocas de fidelidade, evitar-se-ia, também, as consequentes frustrações.

As duas canções, ora são complementares - com enfoques na impossibilidade de se amar apenas uma vez (Medo da chuva) ou apenas um de cada vez (A maçã) -, ora parecem dialogar uma com a outra, em harmonia e sintonia perfeitas. Mesmo sem entrar no mérito do que ambas apregoam, a coerência de ideias entre uma e outra letra é perceptível, como nas duas estrofes a seguir:

É pena que você pense que eu sou seu escravo / Dizendo que eu sou seu marido e não posso partir / Como as pedras imóveis na praia eu fico ao seu lado sem saber / Dos amores que a vida me trouxe e eu não pude viver” (Medo da chuva).

Se eu te amo e tu me amas / E outro vem quando tu chamas / Como poderei te condenar? / Infinita tua beleza / Como podes ficar presa / Que nem santa num altar?” (A maçã).

A diferença de abordagem da infidelidade masculina perante a feminina é histórica e alimentada por simplificações estereotípicas bem comuns - do tipo homem sujeito, mulher objeto ou homem quer sexo, mulher quer dinheiro -, exploradas, inclusive, pela mídia. Em contraponto a tal raciocínio, a teoria do maluco beleza, pelo menos, tira da mulher o exclusivo papel de fiel da balança e diminui, com equidade, o peso dessa fidelidade entre as duas partes. O ideal, porém, e sempre, é cada um escolher uma e apenas uma maçã, a mais madura ou a que mais lhe aprouver e não entrar num relacionamento apenas para passar uma chuva.


* Medo da chuva (Raul Seixas / Paulo Coelho)

É pena que você pense que eu sou seu escravo
Dizendo que eu sou seu marido e não posso partir
Como as pedras imóveis na praia eu fico ao seu lado sem saber
Dos amores que a vida me trouxe e eu não pude viver

Eu perdi o meu medo, meu medo, meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar

Aprendi o segredo, segredo, segredo da vida
Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar

Eu não posso entender tanta gente aceitando a mentira
De que os sonhos desfazem aquilo que o padre falou
Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo, hoje eu sei
Que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez, uma vez

Eu perdi o meu medo, meu medo, meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar

Aprendi o segredo, segredo, segredo da vida
Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar


** A maçã (Raul Seixas / Paulo Coelho)

Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar?
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa no altar?

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar

O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar?



23.9.11

Que a vida começasse em 85


A primeira edição do festival Rock in Rio, ocorrida em janeiro de 1985, foi desses eventos que acontecem no momento certo, no lugar certo. Com um público total de 1.380.000 pessoas, o maior de todas as edições, tornou-se uma espécie de versão brasileira de Woodstock, sem o mesmo caráter libertário e alternativo, mas com semelhante apelo de um período musical fértil por trás, guardadíssimas as devidas proporções.

O Rock in Rio I foi, ao mesmo tempo, divisor de águas e ponto médio no percurso ascendente que a nova onda roqueira percorria no país, a começar da data em que foi realizado, bem no meio da década de 80. Mesmo com o rock nacional já consolidado, o festival contribuiu para seu crescimento mais acelerado e uma maior profissionalização do negócio como um todo, o que gerou oportunidade para novas bandas que não paravam de surgir, fossem de boa ou má qualidade aos olhos e ouvidos críticos. Por outro lado, durante o evento, muito se queixou da diferença de tratamento dispensado aos músicos locais em relação aos estrangeiros, estes com mais exigências e regalias.

Para o público, o clima do festival foi o melhor possível. Refletia o astral do país, que encerrava, na ocasião, um período de 21 anos de ditadura militar e virava a tal página infeliz da nossa história. Além de grandes nomes da MPB, como Ney Matogrosso, Ivan Lins, Erasmo Carlos, Rita Lee, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Alceu Valença, Moraes Moreira e de artistas do rock nacional que despontavam a olhos vistos e não vistos (Blitz, Kid Abelha, Lulu Santos, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso), o festival teve como atrações internacionais os grupos Queen, Yes, AC/DC, Iron Maiden e os cantores James Taylor e Rod Stewart, entre outros.

Bandas como Legião Urbana, Titãs, Ultraje a Rigor e RPM, que logo despontariam para o sucesso, não participaram do evento. Diferentemente de edições posteriores, o Rock in Rio I contou com apenas um palco, sem abrir espaço para revelações. Mesmo dentre os novos talentos, preferiu investir em nomes mais conhecidos ou já consagrados. O Ultraje a Rigor, não obstante, foi homenageado no show dos Paralamas do Sucesso, que cantaram Inútil* (de Roger Moreira, líder do grupo), num dos grandes momentos do festival.

Passados 25 anos da última eleição direta para presidente e com o fracasso recente da campanha Diretas Já (que virou diretas já já), a letra de Inútil, por meio de um linguajar que remetia ao sucateamento da educação, à má qualidade do ensino e à baixa escolaridade do brasileiro, começava com a constatação: “A gente não sabemos escolher presidente”. Com inflação, crise, dívida externa e FMI na pauta dos assuntos econômicos, prosseguia: “A gente pede grana e não consegue pagar” e, após sucessivos fracassos nas copas de 74, 78 e 82, terminava com outro fato inegável: “A gente joga bola e não consegue ganhar”. Em suma: “A gente somos inútil”.

Vários outros momentos marcaram o evento e, mesmo quem não o acompanhou à época, deve ter deparado, depois, com imagens como as emocionantes interpretações de Love of my life pelo grupo Queen ou You've got a friend por James Taylor. Taylor, pouco depois, viria a compor Only a dream in Rio, canção em que declara seu amor à cidade e fala da experiência pela qual passou no festival carioca: “Eu estava lá naquele dia / E meu coração voltou a viver / Havia mais do que as vozes que cantavam / Mais do que rostos me olhando / E mais do que olhos brilhando”.

A nível nacional, muitos dos momentos inesquecíveis do Rock in Rio I tiveram relação com as mudanças políticas por que passava o país, com a redemocratização. Mesmo versos de canções que não tinham, originalmente, ligação com o tema, acabaram por ganhar essa conotação, como: “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais” (Anunciação** – Alceu Valença) e “Estamos, meu bem, por um triz, pro dia nascer feliz” (Pro dia nascer feliz – Cazuza / Frejat ).

Em 15 de janeiro de 85, Tancredo Neves foi eleito, de forma indireta, presidente da República, o que marcou o fim dos governos militares no país. Naquele mesmo dia, o grupo Barão Vermelho apresentou, no festival, um show emocionante, com os componentes da banda em total sintonia com a plateia, todos imbuídos do mesmo espírito patriótico, revestidos por trajes e bandeiras verde-amarelas. No ponto máximo do show, Cazuza clamou: “Que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã. Um Brasil novo, com a rapaziada esperta”, após cantar Pro dia nascer feliz***, para delírio do público.

A quarta edição do festival em território brasileiro terá início nesta sexta-feira, 23 de setembro. A programação é diversificada e tem como maiores destaques internacionais Elton John e Stevie Wonder. A ideia de um espaço alternativo foi mantida e promete alguns bons shows. Nada comparável àquela edição que, não só em termos de atrações, mas sobretudo pelo momento cultural e político do país, parece ser insuperável. Afinal, uma esperança clara por dias melhores combina perfeitamente com o espírito juvenil, que, por sua vez, casa muito bem com um festival de rock. E não é todo dia que esse amoroso triângulo é formado, que a Lua está na sétima casa e Júpiter alinhado a Marte.



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