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8.3.21

A esses seres humanos

A Amélia, mulher de verdade, que me deixou saudade. A Geni, mulher de verdade e um poço de bondade. A Bárbara, que amar nunca é demais. A Conceição, de quem me lembro muito bem. A Marina, de quem estou de mal. À tigresa, de íris cor de mel. A Carolina, menina bem difícil de esquecer, de olhos fundos, que não viu o tempo passar na janela porque foi pro samba, pra dançar o xenhenhém.

A Beatriz, que não me deixa entrar na sua vida. À deusa da minha rua, à dona da minha cabeça. À preta, pretinha, à pérola negra, à magrelinha. À malandrinha, rainha dos meus sonhos, que demorou, mas chegou e minha vida transformou. À moça bonita, à mais bonita. A essa mulher, àquela mulher. À violeira, caprichosa e nordestina, à paraíba masculina. À namorada: a minha, a de um amigo meu ou a que tem namorada.

A Luciana, sorriso de menina, nos olhos de mar. A Madalena, meu bem querer, que foi pro mar e me deixou a ver navios. À morena dos olhos d’água, que não tira os seus olhos do mar, nem vê que a vida ainda vale o sorriso que eu tinha pra lhe dar, mas a Rita levou. A Rita que levou meu sorriso e a Irene que o trouxe de volta.

A Rosa, Rosinha, de quem me recordo, olhando a chuva, que guarda consigo meu coração e embora divina e graciosa, e com andar de moça prosa, ou talvez por isso, arrasa o meu projeto de vida (eu, hein, Rosa!). À Maria vai com as outras, à Maria de verdade. A Maria, que mistura a dor e a alegria, que ri quando deve chorar e não vive, apenas agüenta. Que sobe o morro e não se cansa, lata d’água na cabeça e uma força que nunca seca.

A Eva, que me dá força pra viver e me abraça por um instante. A Iolanda, com quem quero morrer e ficar, eternamente. À morena de Angola ou a tropicana. A Tereza da praia, que não é de ninguém. À moça bonita da praia de Boa Viagem, à morena de Itapoã, à garota de Ipanema. Às mulheres de Atenas, que têm medo apenas. À bailarina que não tem. À mulher de fases.
Às três meninas do Brasil, de simpatia mulata. À menina veneno, que tem um jeito sereno. À menina do Lido, que eu conheço não sei de onde. À alegre menina, a quem chamei de rainha. À pobre menina, que não tem ninguém. À menina que mora na ladeira e à que carreguei no colo.

A você, que não está entendendo nada do que eu digo, a você, que tirou partido de mim, a você, que não serve pra mim, a você, que é tudo pra mim, a você, que precisa saber de mim, a você que eu não conheço mais.

A Kátia Flávia, Anna Júlia, Lady Laura, Sá Marina, titia Amélia, Adelaide, Alice, Camila, Diana, Anália, Dora, Maricotinha, Laura, Helena, Vera, Solange, Sandra, Sílvia, Lígia, Lia, Tereza, Luzia, Luíza, Sandra Rosa Madalena, Clara, Ana e quem mais chegar.

Às mulheres de João, de vida e morte severinas: Juliana, de José e João; Maria Lúcia, de Jeremias e João; Joana, que errou de João. Às mulheres de todas as cores, de várias idades e muitos amores. Enfim, à mulher, sempre mulher, este ser superior, sempre a me ensinar como ser humano e não como ser vivo, minha eterna admiração.



3.7.06

Só queria agasalhar meu anjo ...




Moda e política, embora não combinem e tenham graus de relevância e impacto opostos no cotidiano e na vida das pessoas, já andaram juntas, tempos atrás, quando a estilista Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, fez protestos nas passarelas para denunciar os desmandos da ditadura militar que vitimaram seu filho, Stuart Angel.

No início da década de 70, Zuzu Angel já era uma estilista bastante conhecida no Brasil e no exterior. Seu filho Stuart, militante do MR-8, organização de esquerda brasileira, foi preso, torturado, assassinado e dado como desaparecido político no governo militar de Médici, em 1971, quando tinha 26 anos. A partir de então, ela iniciou uma luta ávida e destemida pela localização e recuperação do corpo de seu filho e protestou contra o regime militar com o instrumento de que dispunha, a moda. Denunciou através de suas vestes e de antológicos desfiles, como o realizado no consulado brasileiro em Nova York, no qual ela, que tinha os anjos como marca de suas confecções, devido a seu sobrenome, utilizou como motivo das estampas de sua coleção anjos machucados, feridos, sangrando. Em seus "desfiles políticos", os manequins desfilavam com vendas nos olhos e mordaças na boca. Sem perder tempo, fez denúncias à ONU, fez protestos até em aviões, aproveitando suas viagens e pediu apoio a artistas, intelectuais e políticos de esquerda.

Há exatos trinta anos, Zuzu Angel morreu em um estranho acidente de carro, no túnel Dois Irmãos (que posteriormente recebeu seu nome), no Rio de Janeiro, uma semana após escrever uma carta a seu amigo, o compositor Chico Buarque de Hollanda, dizendo-se ameaçada e responsabilizando o governo dos militares, ou os assassinos de seu filho, como ela se referia a eles, por algo de ruim que porventura lhe acontecesse. No ano seguinte à morte da estilista, em 1977, Chico Buarque compôs em sua homenagem a bela música Angélica, em parceria com Miltinho, do conjunto MPB-4 (ver letra ao final do texto) e gravou-a em seu disco Almanaque, de 1981.

Em um comovente artigo publicado há dois anos no JB Online, "Letra para uma mãe lutadora", Hildegard Angel, irmã de Stuart e atualmente colunista do Jornal do Brasil, conta como se emocionou ao escutar a gravação dessa música pelo conjunto Quarteto em Cy, enviada para ela pelas integrantes do grupo. Seu depoimento é tocante, principalmente quando se refere a um trecho da letra que diz: "Só queria embalar meu filho que mora na escuridão do mar". O corpo de Stuart Angel nunca foi encontrado, tendo sido jogado ao mar, segundo relatos da época. Sobre esse fato, ela diz que, anos depois, encontrou uma poesia feita por seu irmão na adolescência, parafraseando Dorival Caymmi, ao afirmar que "é doce morrer no mar". Diz também que, à época de seu desaparecimento, recebeu de um pai-de-santo a notícia de que ele se encontrava no fundo do mar, quando ela ainda alimentava esperanças de encontrá-lo vivo. Ainda mais inusitado é o fato de que o pai-de-santo era o compositor Herivelto Martins

Esta página infeliz da nossa história será relembrada no filme Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, que tem estréia nacional no próximo dia 4 de agosto. O roteiro é uma parceria entre o próprio Sérgio Rezende e Marcos Bernstein, roteirista do premiado e bonito filme Central do Brasil e a produção é de Joaquim Vaz de Carvalho, amigo de Stuart. Além de Angélica, de Chico Buarque e Miltinho, o filme tem, também, música de Cristóvão Bastos.

No elenco, além de Patrícia Pillar como protagonista, no papel de Zuzu Angel, estão atores experientes como Ângela Vieira, Othon Bastos e Nelson Dantas, que faleceu este ano, em seu último trabalho, e os jovens e talentosos atores Leandra Leal, que vem se destacando em trabalhos na televisão e no cinema, mas ainda não recebeu um papel à altura de seu talento e Daniel de Oliveira que encantou no papel-título de Cazuza – O tempo não pára, um filme inesquecível para quem viveu a época e era admirador do poeta; será Frei Betto em Batismo de Sangue, que também fala de política à época da ditadura e interpretará Stuart Angel nesse longa-metragem que traz ainda no elenco Alexandre Borges e Luana Piovani no papel da simpática Elke Maravilha (que, aliás, faz uma ponta no filme), a modelo preferida e amiga íntima da estilista, que foi presa por protestar em sua defesa, em episódio retratado na película.

O filme chega em boa hora, perto das eleições, para reavivar a memória dos espectadores e para que as gerações mais novas possam saber melhor quem é essa mulher, pois a moda agora é esquecer que estilistas sem talento que costuraram o triste destino do Brasil e modelos que desfilavam na Arena daqueles tempos, vestindo-se num estilo conservador e retrógrado, e que se mantiveram na mídia até bem pouco tempo, querem, agora, voltar às passarelas, pôr novamente as mangas de fora e posar travestidos de "prafrentex", como se dizia naquele tempo.




Angélica (Miltinho - Chico Buarque)

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar



Mais informações sobre o filme em:
http://www.zuzuangelofilme.com.br

18.5.06

Carioca sob medida para todos


Não poderia inaugurar este blog em melhor estilo, ao falar de um carioca. Não do Zé, mas do Chico, assim chamado durante sua adolescência em São Paulo. Seu pai era paulista; seu avô, pernambucano; seu bisavô, mineiro; seu tataravô, baiano. Isso mesmo. Nos dias de hoje, ele é mais conhecido como Chico Buarque de Holanda e acaba de lançar seu novo disco, "Carioca", depois de longas e tenebrosas estações (e transações também): seu último CD com músicas inéditas foi "As Cidades", de 1998.

Este seu novo trabalho é o primeiro pela gravadora Biscoito Fino (cada vez mais fino), o novo dono da voz. Além do CD, será lançado também um documentário em DVD, com uma hora de duração, intitulado "Desconstrução", contendo o processo de elaboração do álbum e os bastidores das gravações. Nem todas as faixas do CD são inéditas, algumas já foram gravadas por outros cantores, outras por ele mesmo, como "Ode aos Ratos", dele e de Edu Lobo, da peça musical "Cambaio".

Todas as doze faixas do disco são de sua autoria, cinco delas em parceria, inclusive uma inédita com o cantor e compositor Ivan Lins, a música "Renata Maria", também já gravada anteriormente por ele, neste caso, junto com a cantora Leila Pinheiro, em seu último trabalho. As outras músicas compostas em parceria foram: "Bolero Blues", com o baixista de sua banda Jorge Hélder (em uma das boas cenas do DVD, Hélder chora ao saber que Chico pôs letra em sua música e selecionou-a para o CD); "Leve", com o cantor e compositor Carlinhos Vergueiro, composta em 1997 e gravada pela cantora Dora Vergueiro, nesse mesmo ano, em seu disco e "Imagina" com seu maestro soberano, Antônio Brasileiro, Tom Jobim, a qual Chico canta em dueto com a cantora Mônica Salmaso. Uma curiosidade é que a melodia de "Imagina", de 1947, é a primeira feita por Tom Jobim. A letra foi feita bem depois por Chico, em 1983, quando a canção entrou na trilha sonora do filme "Para Viver Um Grande Amor", interpretada, então, por Djavan e Olívia Byington.

Além de "Imagina", outras músicas também foram feitas por encomenda para trilhas sonoras de filmes, como "Porque Era Ela, Porque Era Eu", composta para o filme "A Máquina", de João Falcão, atualmente em exibição nos cinemas e "Sempre", do novo filme de Cacá Diegues, "O Maior Amor Do Mundo", com estréia prevista para setembro deste ano (veja letra ao final do texto).

As músicas "Ela Faz Cinema" e "As Atrizes", embora não tenham sido feitas para nenhum filme específico, têm a sétima arte como tema. Completam o CD as faixas "Subúrbio", "Outros Sonhos" e "Dura na Queda", que tem o sub-título de "Ela Desatinou nº 2", feita por Chico em homenagem a Elza Soares, e gravada por ela no seu bastante elogiado e premiado CD "Do Cóccix ao Pescoço", lançado em 2002.

Além de Mônica Salmaso, o disco tem também participações de Dominguinhos, que toca acordeon na faixa "Outro Sonhos" e de Daniel Jobim, no piano, na música "Imagina". Os arranjos são do maestro Luiz Cláudio Ramos.

P.S.: Pessoas especiais não são preconceituosas e Chico não é exceção: aceitou participar do novo disco da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, cantando junto com eles a música "Minha História", sua versão para a música italiana "Gesùbambino" (Dalla – Palotino).



Sempre (Chico Buarque)

Sempre
Eu te contemplava sempre
Te mirei de mil mirantes
Mesmo em sonho estive atento
Para poder lembrar-te sempre
Como olhando o firmamento
E as estrelas cintilantes
Que se foram para sempre
No teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso, o teu silêncio
Serão meus ainda e sempre
Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que o bastante
Quando em cada instante é sempre