(Era dos festivais)
As imagens dos festivais do final dos anos 60 foram, ao longo das décadas seguintes, bastante exibidas, sobretudo na televisão, a ponto de muitas delas nos parecerem bem familiares. As cenas mais marcantes, porém, eram, em geral, fragmentadas e misturavam várias edições de festivais, entre os das tv’s Record e Globo, principalmente. No cinema, lembro de duas boas produções recentes que abordaram o assunto de alguma forma: O Sol – Caminhando contra o vento (2006) e Palavra encantada (2008). Agora, chega às telas Uma noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, diretamente voltado para o tema, mais especificamente para o III Festival de Música Popular Brasileira, da tv Record.
Essa edição do festival da Record - nossa MTV do passado, com vários programas musicais e cantores contratados -, está entre as mais lembradas de todas. O filme tem como um dos pontos fortes as apresentações na íntegra de algumas das finalistas desse festival, entremeadas por entrevistas da época com os artistas concorrentes, bem como ótimos depoimentos atuais.
É sempre uma experiência interessante ver artistas hoje consagrados ainda sem a bagagem dos anos vividos, na flor da idade e com ideias à flor do cérebro, prontas para desabrochar. Um Chico Buarque com as conexões cerebrais a todo vapor, exercitando-se para produzir o que viria a ser, mais adiante, um dos maiores tesouros da música popular brasileira; um Roberto Carlos ainda na Jovem Guarda, antes de sua melhor e pior fase; um Caetano Veloso veloz, em pleno movimento e um Gilberto Gil genial, acompanhado de uma Rita Lee linda e mutante, com o coração literalmente à flor da pele.
Foi nessa edição inovadora do festival que Gil e Caetano romperam as barreiras do som - acompanhados pelas guitarras elétricas dos Mutantes e dos argentinos Beat Boys -, que Roberto interpretou um samba (Maria, carnaval e cinzas - 5º lugar) em plena Jovem Guarda e que Chico iniciou seu repertório de canções politicamente engajadas. Num período em que nacionalismo era sinal de protesto contra o regime vigente, Caetano, provocativo, protestou contra o protesto. Não bastasse ter usado guitarras em Alegria, alegria (4º lugar), que, entre outras, fazia citações à Coca-Cola, ícone do imperialismo dos Estados Unidos, o cantor ainda se fez acompanhar por uma banda argentina.
Embora os festivais fossem programas organizados por emissoras de televisão e transmitidos por esse meio de comunicação, foi o palco onde aconteciam que constituiu o verdadeiro espaço democrático, em plena ditadura, devido à imensa participação popular. O organizador do festival da Record, Solano Ribeiro, afirma que os primeiros festivais dos anos 60 já haviam instituído a vaia como personagem, fato que se repetiu na ediçao de 67, onde a distinta protagonista foi responsável por algumas das imagens mais marcantes, como a discussão do cantor Sérgio Ricardo com a plateia, que culminou com um violão quebrado.
Um fato curioso é que, para levar esses protagonistas – aplausos e vaias - ao público de casa, Zuza Homem de Mello, engenheiro de som responsável pela transmissão televisiva, colocou um microfone no teto do teatro, como afirma em depoimento ao filme. Ficou claro que o que sempre vi como má qualidade do som na transmissão - por conta das limitações da época -, deveu-se, em boa parte, a esse recurso propositadamente utilizado.
Uma característica interessante, que talvez seja a cereja do bolo na receita de sucesso deste que pode ser considerado o melhor dos festivais, foi a qualidade dos arranjos das canções vencedoras, as três primeiras delas valendo-se do artifício da crescente empolgação até o desfecho apoteótico.
No arranjo de Magro (MPB-4) para Roda-Viva (3º lugar), a música vai acelerando o andamento, como uma roda girando cada vez mais rápido, até terminar de súbito, impelindo o público ao aplauso caloroso (segundo Chico, os aplausos pareciam estar previstos no arranjo). Artifício semelhante é usado em Ponteio*, de Edu Lobo (1º lugar), no refrão “quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”. Já o arranjo premiado de Rogério Duprat para Domingo no parque (2º lugar) usa a alternância de ritmo e andamento, de acordo com a narrativa, refletindo na alternância de sensações, até terminar com um empolgado “êh êh êh êh”, em coro.
Mesmo sendo inegável o caráter democrático dos festivais, a ânsia por novos tempos, o acirramento dos ânimos e os protestos por conta da ditadura geraram certas distorções ou exageros, como Chico ter sido vaiado no festival seguinte, por ter vencido, com Sabiá, em detrimento de Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Por outro lado, as músicas de cunho político mais explícito, como a de Vandré, ou mesmo Roda-Viva de Chico, não foram vencedoras, ainda que Sabiá e Ponteio tenham, também, forte mensagem política.
Outro aspecto que pode ser observado por meio dos depoimentos dos artistas ao filme é que a exposição exagerada, durante e após os anos de festivais, causou-lhes um certo incômodo, a ponto de vários deles, como Chico (“Não penso muito nessas histórias”), Caetano (“Queria me livrar de Alegria, alegria, como Chico se livrou de A banda”) e Edu (“Não tenho uma música só”), passarem a impressão de pouco caso em relação àqueles anos. Não se pode negar, porém, a qualidade de um festival que se deu ao luxo de eliminar uma canção como Eu e a brisa** (Johnny Alf), fechando as portas a surpresas do inesperado ou a alguém que a quisesse escutar.
* Ponteio (Edu Lobo/Capinan)
Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse ou amor ou dinheiro
Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar
Ô, você, de onde vai, de onde vem
Diga logo o que tem pra contar
Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra, nem sol, nem vento
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto calado, sem ponteio
Violência, viola, violeiro
Era morte em redor, mundo inteiro
Era um dia, era claro, quase meio
Tinha um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia das ondas do mar
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola ponteio
Meu canto não posso parar, não
Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei por inteiro
Eu espero, não vá demorar
Este dia estou certo que vem
Digo logo o que vim pra buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar
** Eu e a brisa (Johnny Alf)
Ah! se a juventude que esta brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só pra ser um sonho
Dai então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria
E depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz
Fica, oh brisa, fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar
20.8.10
6.8.10
Tradução mais que completa
A cidade de São Paulo, característica comum às metrópoles, é formada por várias tribos que pouco ou nada se misturam, buscam cada qual seus espaços e traduzem o lugar de várias maneiras, em diferentes dialetos. A música vinda de lá reflete essa característica, a de ter várias características (e ao mesmo tempo nenhuma, como ser regional ou folclórica, a despeito da legítima música caipira ou sertaneja, vinda do interior do estado).
Uma dessas traduções paulistanas – a mais completa, segundo Caetano Veloso - é a de Rita Lee, cantora que, por sua irreverência inteligente, sempre foi interessante de se escutar - cantando, mas sobretudo falando. Abrindo um parêntese para ilustrar essa irreverência, lembro de duas frases que já escutei ou li em entrevistas dela. Uma em que afirmava querer morrer no palco, o que, segundo ela, seria ótimo para o currículo e outra em que dizia não acreditar em avião: “Acredito em disco-voador, em avião, não”. Além disso, Rita foi transgressora desde o início da carreira, com os Mutantes, com quem formou a banda paulista do tropicalismo.
A vanguarda paulistana foi outra tradução interessante, seja pelo experimentalismo do músico Arrigo Barnabé (paranaense da turma paulista), pelas músicas faladas do grupo Rumo, de letras simplesmente inteligentes, pela irreverência do grupo Língua de Trapo ou pela marginalidade - no ótimo sentido - de Itamar Assumpção. Por terem perfil alternativo e independente, porém, não chegavam à grande massa. E para ser a mais completa, a tradução teria que unir todas essas qualidades: irreverência, inteligência, popularidade, transgressão, simplicidade.
O cantor francês Manu Chao – e ele não é o único - costuma dizer que quando quer conhecer bem uma cidade, costuma ir à rodoviária local. Segundo ele, é lá que se conhece, de verdade, o povo de um lugar, aquele que constitui sua melhor expressão e que não se encontra nos livros de história. E é nesse aspecto, da proximidade com seu povo, da simplicidade, sem perder a citada irreverência inteligente e transgressora, que o compositor Adoniran Barbosa – que faria cem anos hoje, 6 de agosto de 2010 - pode ser considerado a tradução mais completa das terras paulistanas. Um zumbi a despertar o samba de seu túmulo, novo quilombo de Zumbi, mais uma vez lembrando Caetano. Sampa, aliás, é outra completa tradução paulistana.
No hábito de contar histórias e falar sobre sua terra do ponto de vista de suas camadas populares, valendo-se de um linguajar de rica simplicidade, Adoniran Barbosa está para São Paulo como Noel Rosa pra o Rio de Janeiro, Dorival Caymmi para a Bahia e Luiz Gonzaga para Pernambuco. Entre as histórias que eles contam e criam, não sabemos bem o que é verdade ou lenda - e fazemos questão de não saber.
Um desses episódios que envolvem Adoniran diz que ele trabalhou como vendedor numa loja da rua 25 de março, na capital paulista e foi demitido por atender os clientes fazendo batucada no balcão. Outro caso diz que, após muitos anos trabalhando na rádio Record, o compositor paulista resolveu pedir aumento. O responsável pela gravadora disse-lhe que iria estudar o caso e que ele voltasse depois. Quando voltou, ao obter a resposta de que o caso ainda estava em estudo, saiu-se com esta: “Tá certo, o senhor continue estudando e quando chegar a época da sua formatura me avise”. O que menos importa é a veracidade, nesses casos.
Adoniran teve como maiores intérpretes de suas canções a cantora Elis Regina e o conjunto Demônios da Garoa, que registraram belas gravações de suas músicas mais conhecidas, Saudosa maloca e Trem das onze (essa última recebeu, também, excelente versão de Gal Costa). O compositor, que também foi humorista, direcionou a leveza de seu humor para versos como “Nóis se gosta muito mais / Nóis não usa os bleque tais” e canções como Tiro ao Álvaro, Samba do Arnesto ou mesmo a tragicômica Iracema, em que a protagonista da letra morre atropelada.
Nem só de alegria eram feitas as composições do sambista. Com Vinícius de Moraes, ele compôs Bom dia tristeza, de uma tristeza ímpar e a citada Saudosa maloca, de versos pungentes como “Que tristeza que nóis sentia / Cada táuba que caía / Doía no coração”*. Dia desses, citei, em texto, a poesia da frase “como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar” (Romaria - Renato Teixeira). Considero Saudosa maloca da mesma linha, quer pela simplicidade da linguagem, quer por expressar o mais puro sentimento, assim como Cidadão (de Lúcio Barbosa, cantada por Zé Geraldo), Súplica cearense (Gordurinha e Nelinho) e Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) que, nesses aspectos, beiram a perfeição.
A mudança de estilo de Adoniran Barbosa em Bom dia tristeza é algo que me faz lembrar Waldick Soriano, que, taxado de brega, sempre gerou comentários perplexos, por cantar, ao mesmo tempo, a nada sutil Eu não sou cachorro não e a romântica Tortura de amor, sucesso, tempos atrás, na voz de Maria Creuza (“Hoje que a noite está calma e que minh'alma esperava por ti, apareceste, afinal, torturando este ser que te adora...”). Mas tradução completa é assim mesmo: não deixa faltar nada. E joga as cascas pra lá!
Disco comemorativo (vários intérpretes): http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3060453/adoniran-100-anos/?ID=42F947637DA08010A262D0962&PAC_ID=30927
* Saudosa Maloca (Adoniran Barbosa)
Se o sinhô não tá lembrado
Dá licença de contar
Ali onde agora está
Este edifício arto
Era uma casa véia, um palacete assobradado
Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca
Construímos nossa maloca
Mas um dia
Nóis nem pode se alembrá
Veio os home com as ferramenta
E o dono mandô derrubá
Peguemos todas nossas coisas
E fumos pro meio da rua
Apreciá a demolição
Que tristeza que nóis sentia
Cada táuba que caía
Doía no coração
Matogrosso quis gritar
Mas em cima eu falei
Os home tá com a razão
Nóis arranja outro lugar
Só se conformemo
Quando o Joca falou
Deus dá o frio conforme o cobertor
E hoje nóis pega as paia
Nas grama do jardim
E pra esquecer nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida
Que dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vida
Uma dessas traduções paulistanas – a mais completa, segundo Caetano Veloso - é a de Rita Lee, cantora que, por sua irreverência inteligente, sempre foi interessante de se escutar - cantando, mas sobretudo falando. Abrindo um parêntese para ilustrar essa irreverência, lembro de duas frases que já escutei ou li em entrevistas dela. Uma em que afirmava querer morrer no palco, o que, segundo ela, seria ótimo para o currículo e outra em que dizia não acreditar em avião: “Acredito em disco-voador, em avião, não”. Além disso, Rita foi transgressora desde o início da carreira, com os Mutantes, com quem formou a banda paulista do tropicalismo.
A vanguarda paulistana foi outra tradução interessante, seja pelo experimentalismo do músico Arrigo Barnabé (paranaense da turma paulista), pelas músicas faladas do grupo Rumo, de letras simplesmente inteligentes, pela irreverência do grupo Língua de Trapo ou pela marginalidade - no ótimo sentido - de Itamar Assumpção. Por terem perfil alternativo e independente, porém, não chegavam à grande massa. E para ser a mais completa, a tradução teria que unir todas essas qualidades: irreverência, inteligência, popularidade, transgressão, simplicidade.
O cantor francês Manu Chao – e ele não é o único - costuma dizer que quando quer conhecer bem uma cidade, costuma ir à rodoviária local. Segundo ele, é lá que se conhece, de verdade, o povo de um lugar, aquele que constitui sua melhor expressão e que não se encontra nos livros de história. E é nesse aspecto, da proximidade com seu povo, da simplicidade, sem perder a citada irreverência inteligente e transgressora, que o compositor Adoniran Barbosa – que faria cem anos hoje, 6 de agosto de 2010 - pode ser considerado a tradução mais completa das terras paulistanas. Um zumbi a despertar o samba de seu túmulo, novo quilombo de Zumbi, mais uma vez lembrando Caetano. Sampa, aliás, é outra completa tradução paulistana.
No hábito de contar histórias e falar sobre sua terra do ponto de vista de suas camadas populares, valendo-se de um linguajar de rica simplicidade, Adoniran Barbosa está para São Paulo como Noel Rosa pra o Rio de Janeiro, Dorival Caymmi para a Bahia e Luiz Gonzaga para Pernambuco. Entre as histórias que eles contam e criam, não sabemos bem o que é verdade ou lenda - e fazemos questão de não saber.
Um desses episódios que envolvem Adoniran diz que ele trabalhou como vendedor numa loja da rua 25 de março, na capital paulista e foi demitido por atender os clientes fazendo batucada no balcão. Outro caso diz que, após muitos anos trabalhando na rádio Record, o compositor paulista resolveu pedir aumento. O responsável pela gravadora disse-lhe que iria estudar o caso e que ele voltasse depois. Quando voltou, ao obter a resposta de que o caso ainda estava em estudo, saiu-se com esta: “Tá certo, o senhor continue estudando e quando chegar a época da sua formatura me avise”. O que menos importa é a veracidade, nesses casos.
Adoniran teve como maiores intérpretes de suas canções a cantora Elis Regina e o conjunto Demônios da Garoa, que registraram belas gravações de suas músicas mais conhecidas, Saudosa maloca e Trem das onze (essa última recebeu, também, excelente versão de Gal Costa). O compositor, que também foi humorista, direcionou a leveza de seu humor para versos como “Nóis se gosta muito mais / Nóis não usa os bleque tais” e canções como Tiro ao Álvaro, Samba do Arnesto ou mesmo a tragicômica Iracema, em que a protagonista da letra morre atropelada.
Nem só de alegria eram feitas as composições do sambista. Com Vinícius de Moraes, ele compôs Bom dia tristeza, de uma tristeza ímpar e a citada Saudosa maloca, de versos pungentes como “Que tristeza que nóis sentia / Cada táuba que caía / Doía no coração”*. Dia desses, citei, em texto, a poesia da frase “como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar” (Romaria - Renato Teixeira). Considero Saudosa maloca da mesma linha, quer pela simplicidade da linguagem, quer por expressar o mais puro sentimento, assim como Cidadão (de Lúcio Barbosa, cantada por Zé Geraldo), Súplica cearense (Gordurinha e Nelinho) e Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) que, nesses aspectos, beiram a perfeição.
A mudança de estilo de Adoniran Barbosa em Bom dia tristeza é algo que me faz lembrar Waldick Soriano, que, taxado de brega, sempre gerou comentários perplexos, por cantar, ao mesmo tempo, a nada sutil Eu não sou cachorro não e a romântica Tortura de amor, sucesso, tempos atrás, na voz de Maria Creuza (“Hoje que a noite está calma e que minh'alma esperava por ti, apareceste, afinal, torturando este ser que te adora...”). Mas tradução completa é assim mesmo: não deixa faltar nada. E joga as cascas pra lá!
Disco comemorativo (vários intérpretes): http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3060453/adoniran-100-anos/?ID=42F947637DA08010A262D0962&PAC_ID=30927
* Saudosa Maloca (Adoniran Barbosa)
Se o sinhô não tá lembrado
Dá licença de contar
Ali onde agora está
Este edifício arto
Era uma casa véia, um palacete assobradado
Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca
Construímos nossa maloca
Mas um dia
Nóis nem pode se alembrá
Veio os home com as ferramenta
E o dono mandô derrubá
Peguemos todas nossas coisas
E fumos pro meio da rua
Apreciá a demolição
Que tristeza que nóis sentia
Cada táuba que caía
Doía no coração
Matogrosso quis gritar
Mas em cima eu falei
Os home tá com a razão
Nóis arranja outro lugar
Só se conformemo
Quando o Joca falou
Deus dá o frio conforme o cobertor
E hoje nóis pega as paia
Nas grama do jardim
E pra esquecer nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida
Que dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vida
12.7.10
Jabulani
Uma estrela maior, dividida entre seus três amores, recebe, neste vídeo, uma homenagem, numa versão da canção Teresinha, de Chico Buarque de Holanda, Alemanha, Espanha...
Jabulani
(Versão para Teresinha, de Chico Buarque de Holanda, Alemanha e Espanha)
O terceiro me chegou como quem vem de uma conquista
Trouxe um bicho do Borussia e um Podolski dialetista
Me mostrou Schweinsteiger e as vantagens que ele tinha
Me mostrou o senhor Özil, nem esperava que ele vinha
Me encontrou tão desarmada no fim da competição
E na última rodada, assustada, eu disse não
O segundo me chegou como quem chega a assustar
Trouxe um grupo eficiente que botava pra quebrar
Com um bom time no passado, esperou minha acolhida
Vacilou no fim da reta e a final tava perdida
Me encontrou tão desarmada que apanhou na decisão
E na última rodada, assustada, eu disse não
O primeiro me chegou com uma certeza danada
Ele não marcou Sjneider, nem por Sjneider perguntou
Assim como em Barcelona, foi metendo onde ele quer
Me ajeitou naquela grama e me tomou pelo pé
Foi chegando o artilheiro e antes que eu dissesse não
Me jogou contra o goleiro, dentro do gol, é campeão
Jabulani
(Versão para Teresinha, de Chico Buarque de Holanda, Alemanha e Espanha)
O terceiro me chegou como quem vem de uma conquista
Trouxe um bicho do Borussia e um Podolski dialetista
Me mostrou Schweinsteiger e as vantagens que ele tinha
Me mostrou o senhor Özil, nem esperava que ele vinha
Me encontrou tão desarmada no fim da competição
E na última rodada, assustada, eu disse não
O segundo me chegou como quem chega a assustar
Trouxe um grupo eficiente que botava pra quebrar
Com um bom time no passado, esperou minha acolhida
Vacilou no fim da reta e a final tava perdida
Me encontrou tão desarmada que apanhou na decisão
E na última rodada, assustada, eu disse não
O primeiro me chegou com uma certeza danada
Ele não marcou Sjneider, nem por Sjneider perguntou
Assim como em Barcelona, foi metendo onde ele quer
Me ajeitou naquela grama e me tomou pelo pé
Foi chegando o artilheiro e antes que eu dissesse não
Me jogou contra o goleiro, dentro do gol, é campeão
9.7.10
Do carrossel ao bate-bate
Futebol é um esporte bretão que, com o tempo, vem se tornando brutão. Um parque de diversões que já teve carrossel e hoje tem bate-bate. Futebol de brutão, como tem demonstrado a maioria dos jogos da copa do mundo da África do Sul e amistosos anteriores, que vitimaram, entre outros, Drogba, Ballack e Beckham. Além de brutão, as primeiras rodadas da primeira fase da competição foram de partidas com poucos gols, pior média da história. Não fossem as vuvuzelas, com seus zumbidos de muriçoca, os jogos estariam de dar sono. Pareciam estar em super câmera lenta.
Desfez-se a profecia de Honda, que dizia: “E nesse dia, então, vai dar na décima nona edição: duas rodas nos pés conduzirão a um bom caminho o Japão”. A Itália mostrou um futebol que se aspetta con prego e a limitada Inglaterra confirmou que Gerrard é humano. Pela Argentina, Messi ficou na promessi. Di Maria vai com as outras, sozinho não fez Verón. Bastou pegar a Alemanha, pra ficar Higuaín a Palermo. Manda quem Podolski, obedece quem tem Burdisso.
Engana-se quem concluir que antipatizo com a Argentina. Não consigo incorporar essa rivalidade que a mídia e, às vezes, o governo de ambos os lados estimulam, fazendo uso, no caso brasileiro, de frases repetidas à exaustão, como: “ganhar é bom, ganhar da Argentina é melhor ainda”. O futebol imita a vida e essa competição é a mesma que, novamente mídia e governo, estimulam entre Rio e São Paulo, Pernambuco e Bahia, etc., ao longo dos anos e que carece de consistência. Ou seja, entre iguais, a rivalidade; dos “superiores”, o preconceito. Torci pela Argentina, que jogou bonito e tinha uma equipe unida, que contava com o apoio emocional de um técnico merecedor dos holofotes que costuma atrair, pelo que já fez no futebol (opinião paulêmica, eu sei).
A Irlanda, ôps, França, francamente, mostrou a que não veio. Depois de conseguir a vaga para a copa de mão beijada e deixar a Irlanda de mãos abanando, saiu com uma mão na frente e outra atrás. Henry melhor quem Henry por último. Aliás, num jogo que se joga com os pés, meter os pés pelas mãos proporcionou alguns dos melhores momentos da competição. O brasileiro Luís Fabiano fez um gol de mão cheia, enquanto o atacante uruguaio Suárez foi até quebrar a barra e pegou a bola com a mão, num dos minutos mais empolgantes e inacreditáveis da história das copas.
Enquanto isso, seguimos iludidos pela ideia de caminho livre, sonhando ir mais longe e não vislumbramos um acidente de percurso em sentido contrário. Vans da Holanda aproximando-se da faixa e atropelando brasileiros, que não deram bola pros sinais. Van der Wiel, Van Bronckhorst, Van Bommel, Van Persie, Van Marwijk... Enquanto uns van e outros voltam, o Brasil nem Van, nem Schwein. Em vão, ainda se esperava que os Vans holandeses se rendessem à nossa vã filosofia de jogo. Qual o quê, como diria Chico Buarque (de Hollanda). Robben ou não, a Holanda é um timão.
Gostei dos semifinalistas. Pelo Uruguai, sinto a natural simpatia dos vizinhos e admiro a garra de seu grupo. A Alemanha jogou bem e, com a entrada de Özil, ficou em ponto de Ballack. Pelo Brasil, também torci, mas não queria ganhar a copa jogando daquele jeito e, eliminado, tratei de eleger a final que mais me agradaria.
Escolhi Espanha x Holanda, por vários motivos. Primeiro, porque desde 62, com o Brasil, havia uma exata alternância de títulos mundiais entre sulamericanos e europeus o que, repetindo 34/38 deles e 58/62 nossos, essa final quebraria (melhor ter parado por aqui, 2014 vem aí). Outros três motivos. Para fugir de mais um título tri-vial Brasil-Alemanha-Itália, pelos cem por cento de aproveitamento dos holandeses e por ser este um confronto que coloca frente a frente meus lados criança de ontem e de hoje, o que explico a seguir.
Gosto da atual seleção espanhola, por lembrar, de longe, o Brasil de outrora*, mas sobretudo por ser a preferida das crianças, que conhecem todos seus jogadores. Mas é com a Holanda campeã que eu acertaria as contas com o passado. As duas primeiras copas de que me lembro foram, justamente, aquelas das duas derrotas holandesas na final, ambas para as equipes anfitriãs. Como vivências de infância são marcantes e as duas copas correspondiam a cem por cento do que já tinha visto, passei a achar que toda seleção que jogasse em casa seria a campeã e desenvolvi certa resistência a essa ideia (na próxima passa). Ao mesmo tempo, com a equipe holandesa, carrossel da minha infância, criei uma ligação afetiva que, em ocasiões mais recentes, fui levado a reprimir, em nome do amor à pátria que atravessou seu caminho por duas vezes.
* O futebol (Chico Buarque)
Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro
Notas
Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Só
Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca
Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha
Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga
(Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi para
Pagão para Pelé e Canhoteiro)
Desfez-se a profecia de Honda, que dizia: “E nesse dia, então, vai dar na décima nona edição: duas rodas nos pés conduzirão a um bom caminho o Japão”. A Itália mostrou um futebol que se aspetta con prego e a limitada Inglaterra confirmou que Gerrard é humano. Pela Argentina, Messi ficou na promessi. Di Maria vai com as outras, sozinho não fez Verón. Bastou pegar a Alemanha, pra ficar Higuaín a Palermo. Manda quem Podolski, obedece quem tem Burdisso.
Engana-se quem concluir que antipatizo com a Argentina. Não consigo incorporar essa rivalidade que a mídia e, às vezes, o governo de ambos os lados estimulam, fazendo uso, no caso brasileiro, de frases repetidas à exaustão, como: “ganhar é bom, ganhar da Argentina é melhor ainda”. O futebol imita a vida e essa competição é a mesma que, novamente mídia e governo, estimulam entre Rio e São Paulo, Pernambuco e Bahia, etc., ao longo dos anos e que carece de consistência. Ou seja, entre iguais, a rivalidade; dos “superiores”, o preconceito. Torci pela Argentina, que jogou bonito e tinha uma equipe unida, que contava com o apoio emocional de um técnico merecedor dos holofotes que costuma atrair, pelo que já fez no futebol (opinião paulêmica, eu sei).
A Irlanda, ôps, França, francamente, mostrou a que não veio. Depois de conseguir a vaga para a copa de mão beijada e deixar a Irlanda de mãos abanando, saiu com uma mão na frente e outra atrás. Henry melhor quem Henry por último. Aliás, num jogo que se joga com os pés, meter os pés pelas mãos proporcionou alguns dos melhores momentos da competição. O brasileiro Luís Fabiano fez um gol de mão cheia, enquanto o atacante uruguaio Suárez foi até quebrar a barra e pegou a bola com a mão, num dos minutos mais empolgantes e inacreditáveis da história das copas.
Enquanto isso, seguimos iludidos pela ideia de caminho livre, sonhando ir mais longe e não vislumbramos um acidente de percurso em sentido contrário. Vans da Holanda aproximando-se da faixa e atropelando brasileiros, que não deram bola pros sinais. Van der Wiel, Van Bronckhorst, Van Bommel, Van Persie, Van Marwijk... Enquanto uns van e outros voltam, o Brasil nem Van, nem Schwein. Em vão, ainda se esperava que os Vans holandeses se rendessem à nossa vã filosofia de jogo. Qual o quê, como diria Chico Buarque (de Hollanda). Robben ou não, a Holanda é um timão.
Gostei dos semifinalistas. Pelo Uruguai, sinto a natural simpatia dos vizinhos e admiro a garra de seu grupo. A Alemanha jogou bem e, com a entrada de Özil, ficou em ponto de Ballack. Pelo Brasil, também torci, mas não queria ganhar a copa jogando daquele jeito e, eliminado, tratei de eleger a final que mais me agradaria.
Escolhi Espanha x Holanda, por vários motivos. Primeiro, porque desde 62, com o Brasil, havia uma exata alternância de títulos mundiais entre sulamericanos e europeus o que, repetindo 34/38 deles e 58/62 nossos, essa final quebraria (melhor ter parado por aqui, 2014 vem aí). Outros três motivos. Para fugir de mais um título tri-vial Brasil-Alemanha-Itália, pelos cem por cento de aproveitamento dos holandeses e por ser este um confronto que coloca frente a frente meus lados criança de ontem e de hoje, o que explico a seguir.
Gosto da atual seleção espanhola, por lembrar, de longe, o Brasil de outrora*, mas sobretudo por ser a preferida das crianças, que conhecem todos seus jogadores. Mas é com a Holanda campeã que eu acertaria as contas com o passado. As duas primeiras copas de que me lembro foram, justamente, aquelas das duas derrotas holandesas na final, ambas para as equipes anfitriãs. Como vivências de infância são marcantes e as duas copas correspondiam a cem por cento do que já tinha visto, passei a achar que toda seleção que jogasse em casa seria a campeã e desenvolvi certa resistência a essa ideia (na próxima passa). Ao mesmo tempo, com a equipe holandesa, carrossel da minha infância, criei uma ligação afetiva que, em ocasiões mais recentes, fui levado a reprimir, em nome do amor à pátria que atravessou seu caminho por duas vezes.
* O futebol (Chico Buarque)
Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro
Notas
Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Só
Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca
Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha
Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga
(Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi para
Pagão para Pelé e Canhoteiro)
4.6.10
Bicampeões morais
O cronista esportivo Armando Nogueira disse, certa vez, sobre a copa de 70: “Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.”. Suas palavras caberiam bem, também, em relação a outra copa que, para mim e creio que para quem mais não acompanhou nosso terceiro título, foi a melhor de todas: Espanha, 1982. Nas duas edições anteriores, após a conquista do tri, chegamos às semifinais, mas não vencemos, muito menos convencemos. Quem tinha menos de vinte anos à época, nunca tinha visto o Brasil ser campeão e a expectativa só aumentava...
Pela primeira vez, desde 1970, via-se o Brasil jogar um futebol de encher os olhos, em que os gols eram incríveis obras coletivas, que faziam jus ao termo futebol-arte, repetido à exaustão. Claro que havia problemas, divergências (Jô Soares tinha um personagem em seu programa humorístico que clamava, no orelhão, ao técnico Telê Santana: “Bota ponta, Telê!”, pelo fato de a seleção não contar com um ponta-direita) e momentos de mau futebol, como creio que havia, também, no time de 70. Como em toda competição, porém, as imagens que ficaram foram apenas as mais bonitas e marcantes, o que pode dar a impressão, aos que não assistiram aos jogos, de que era assim o tempo todo, o que não é verdade. Era assim quase o tempo todo.
Depois do título moral de 78, quando terminamos a competição invictos, sob o comando do capitão Coutinho, o futebol solto e alegre do time de 82 bateu bem com os ares de liberdade que se aproximavam. A copa da Espanha foi marcante em vários aspectos e logo se formou um clima positivo entre os torcedores, com direito até a músicas de sucesso, o que não ocorria desde o título de 70, com os “noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção” (em 74 e 78, o “salve a seleção” teve outra conotação). Uma dessas canções, o samba Povo feliz (Voa canarinho) foi gravada por Júnior, um dos craques do time de 82, às vésperas da competição.
Mas foi outra canção que descreveu bem o sentimento da época, de um otimismo comedido, mas crescente. A esperança por um fio, materializada na figura do técnico Telê Santana. A canção citava o apelido carinhoso recebido por ele, quando ainda jogava, como ponta: Telê, um fio de esperança / De velho, moço e criança / Unindo os corações / E assim de novo do mundo seremos / Seremos os campeões*. A melodia lembrava uma marchinha ou um frevo, com toques de música espanhola. No ano seguinte, após mais esse fracasso do escrete verde e amarelo, outra canção retratou a frustração de todos os amantes de futebol da nação: “A gente joga bola e não consegue ganhar. Inútil! A gente somos inútil!” (Inútil, de Roger Moreira - Ultraje a Rigor).
Os meios de comunicação também contribuíram com sua arte, como a vinheta de abertura das transmissões dos jogos na rede Globo de televisão, uma espécie de previsão do Google Earth, em que uma vista aérea da Terra ia se aproximando do continente europeu, da Espanha, de Madrid, de um estádio de futebol, até chegar, no centro do gramado, a uma bola. Bem bolado (não resisti, como diria um amigo). Ao fundo, uma música que misturava as melodias de Pra frente Brasil e Touradas em Madri.
O primeiro embate do Brasil nessa copa, contra a União Soviética, foi um exemplo de que havia momentos sem graça, que, nesse jogo, duraram quase todo o primeiro tempo, que terminou com a vitória dos soviéticos por 1 x 0. O goleiro deles, Dasaev, era excelente, o melhor da copa e pegava tudo. Durante o intervalo, de tão calejados por experiências passadas recentes, ficamos com a impressão de que, mais uma vez, não chegaríamos lá. Tanto que nem levamos em conta o fato de que era uma estreia, a tensão era grande e o entrosamento pequeno. No final das contas, ganhamos por 2 x 1, com um pênalti não marcado a favor dos soviéticos, mas um futebol bem mais bonito, a partir do segundo tempo, algo que se repetiria daí pra frente.
Nessa edição, pela primeira vez, a competição contou com 24 seleções, divididas em seis grupos, dos quais se classificavam duas. Na primeira fase, além da URSS, a seleção brasileira enfrentou a Escócia (4 x 1) e a Nova Zelândia (4 x 0). Na segunda fase, as doze seleções restantes foram divididas em grupos de três. Um desses grupos poderia ter determinado os três primeiros colocados do campeonato, se a regra não determinasse a passagem apenas do líder, tampouco o destino os tivesse aproximado antes da hora. Foi nele que caímos e foi nele que caímos: Brasil, Argentina e Itália. A euforia foi grande e a confiança total, porém, após a vitória no primeiro confronto, contra a Argentina, por 3 x 1. Afinal de contas (não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo), a squadra azzurra, adversária seguinte, tinha se classificado com três empates horrorosos.
Não assisti à copa de 50, mas creio que a certeza de uma vitória contra a Itália (ou do empate, resultado que já nos classificava), em 82, era quase tão grande quanto a da conquista do primeiro título, naquela copa. Da mesma forma, a frustração da derrota no Sarriá, em Barcelona, foi quase tão grande quanto a do episódio conhecido como Maracanaço, na edição realizada no Brasil. Como a convulsão de Ronaldo em 1998 e a meia de Roberto Carlos em 2006, Toninho Cerezo, injustamente, levou a culpa por não levarmos a copa, graças a um passe lateral, do meio do campo, que caiu nos pés de Paolo Rossi, atacante italiano (dos seis gols dele, que foi artilheiro da copa, metade foi marcada contra o Brasil e a outra metade após esse jogo, na semifinal e final).
Na verdade, o problema foi o mesmo de Hungria e Holanda, também citados como injustiçados, em copas anteriores: jogar bonito, sem pensar apenas em resultados. Perdemos por 3 x 2 e, mais do que o “É tetra! É tetra!”, de Galvão Bueno, em 94, ecoa nos meus ouvidos, até hoje, o melancólico “Acabou o jogo! Acabou o jogo!”, de Luciano do Vale, à época locutor da rede Globo (Depois da copa, ele foi afastado da emissora e surgiram comentários de que o motivo teria sido o fato de mostrar-se muito emotivo nas transmissões, o que era, justamente, sua melhor virtude. Nem sabíamos o que viria pela frente...). Fomos bicampeões morais.
Foi nessa época, também, que os jogadores brasileiros passaram a ser mais cobiçados pelos times europeus, dando início ao fenômeno que ocorre até os dias de hoje. Depois da copa, vários titulares da nossa seleção – que sei de cor até hoje: Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, Serginho e Éder - foram embora, a maioria para a Itália (Falcão era o único “estrangeiro” do grupo e, antes da convocação para a copa, já atuava nesse país, onde recebeu o apelido de rei de Roma). Se, nos anos seguintes, o campeonato espanhol e, mais adiante, o inglês teriam maior destaque na mídia, o italiano era a bola da vez nos anos 80.
Bola pra frente. Hoje, somos pentacampeões e vem aí a copa da África, continente de um povo sofrido, mas alegre e que merece um pouco de diversão, um ópio saudável, do bem. Como diz o escritor Eduardo Galeano, somos todos africanos emigrados e a primeira copa nesse continente, no país de Nelson Mandela, tem, por isso, um sabor todo especial, como voltar pra casa. E como já fomos campeões em todos os continentes que já sediaram a competição (América do Norte, América do Sul, Europa e Ásia), nada melhor do que também levar o título em casa. E repetir a dose, em 2014, novamente em casa.
* Sangue, swing e cintura (Moraes Moreira)
O rei aqui é Pelé
Na terra do futebol
Olé, é bola no pé
Redonda assim como o sol
Seja no Maracanã
Ou no gramado espanhol
Escola aqui é de samba
E bola é arte do povo
Sua alegria Deus manda
Nasce um Garrincha de novo
Quem sabe tem mais de um
Quebrando a casca do ovo
Tá lá, ta lá, tá lá
Tá no filó
Tá na filosofia
Quem sabe, sabe
O craque brasileiro
Tem sabedoria
Sangue, swing e cintura
Mistura de pé
Futebol e arte
Que em nenhuma outra parte
Do mundo há
Galinho de Quintino
Flamengo menino
Feito em forma de hino
Gol
Calcanhar de Sócrates
Gogó de cantor
Só craque, só craque, só craque, só craque
Só craque doutor
Telê, um fio de esperança
De velho, moço e criança
Unindo os corações
E assim de novo do mundo seremos
Seremos os campeões
Pela primeira vez, desde 1970, via-se o Brasil jogar um futebol de encher os olhos, em que os gols eram incríveis obras coletivas, que faziam jus ao termo futebol-arte, repetido à exaustão. Claro que havia problemas, divergências (Jô Soares tinha um personagem em seu programa humorístico que clamava, no orelhão, ao técnico Telê Santana: “Bota ponta, Telê!”, pelo fato de a seleção não contar com um ponta-direita) e momentos de mau futebol, como creio que havia, também, no time de 70. Como em toda competição, porém, as imagens que ficaram foram apenas as mais bonitas e marcantes, o que pode dar a impressão, aos que não assistiram aos jogos, de que era assim o tempo todo, o que não é verdade. Era assim quase o tempo todo.
Depois do título moral de 78, quando terminamos a competição invictos, sob o comando do capitão Coutinho, o futebol solto e alegre do time de 82 bateu bem com os ares de liberdade que se aproximavam. A copa da Espanha foi marcante em vários aspectos e logo se formou um clima positivo entre os torcedores, com direito até a músicas de sucesso, o que não ocorria desde o título de 70, com os “noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção” (em 74 e 78, o “salve a seleção” teve outra conotação). Uma dessas canções, o samba Povo feliz (Voa canarinho) foi gravada por Júnior, um dos craques do time de 82, às vésperas da competição.
Mas foi outra canção que descreveu bem o sentimento da época, de um otimismo comedido, mas crescente. A esperança por um fio, materializada na figura do técnico Telê Santana. A canção citava o apelido carinhoso recebido por ele, quando ainda jogava, como ponta: Telê, um fio de esperança / De velho, moço e criança / Unindo os corações / E assim de novo do mundo seremos / Seremos os campeões*. A melodia lembrava uma marchinha ou um frevo, com toques de música espanhola. No ano seguinte, após mais esse fracasso do escrete verde e amarelo, outra canção retratou a frustração de todos os amantes de futebol da nação: “A gente joga bola e não consegue ganhar. Inútil! A gente somos inútil!” (Inútil, de Roger Moreira - Ultraje a Rigor).
Os meios de comunicação também contribuíram com sua arte, como a vinheta de abertura das transmissões dos jogos na rede Globo de televisão, uma espécie de previsão do Google Earth, em que uma vista aérea da Terra ia se aproximando do continente europeu, da Espanha, de Madrid, de um estádio de futebol, até chegar, no centro do gramado, a uma bola. Bem bolado (não resisti, como diria um amigo). Ao fundo, uma música que misturava as melodias de Pra frente Brasil e Touradas em Madri.
O primeiro embate do Brasil nessa copa, contra a União Soviética, foi um exemplo de que havia momentos sem graça, que, nesse jogo, duraram quase todo o primeiro tempo, que terminou com a vitória dos soviéticos por 1 x 0. O goleiro deles, Dasaev, era excelente, o melhor da copa e pegava tudo. Durante o intervalo, de tão calejados por experiências passadas recentes, ficamos com a impressão de que, mais uma vez, não chegaríamos lá. Tanto que nem levamos em conta o fato de que era uma estreia, a tensão era grande e o entrosamento pequeno. No final das contas, ganhamos por 2 x 1, com um pênalti não marcado a favor dos soviéticos, mas um futebol bem mais bonito, a partir do segundo tempo, algo que se repetiria daí pra frente.
Nessa edição, pela primeira vez, a competição contou com 24 seleções, divididas em seis grupos, dos quais se classificavam duas. Na primeira fase, além da URSS, a seleção brasileira enfrentou a Escócia (4 x 1) e a Nova Zelândia (4 x 0). Na segunda fase, as doze seleções restantes foram divididas em grupos de três. Um desses grupos poderia ter determinado os três primeiros colocados do campeonato, se a regra não determinasse a passagem apenas do líder, tampouco o destino os tivesse aproximado antes da hora. Foi nele que caímos e foi nele que caímos: Brasil, Argentina e Itália. A euforia foi grande e a confiança total, porém, após a vitória no primeiro confronto, contra a Argentina, por 3 x 1. Afinal de contas (não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo), a squadra azzurra, adversária seguinte, tinha se classificado com três empates horrorosos.
Não assisti à copa de 50, mas creio que a certeza de uma vitória contra a Itália (ou do empate, resultado que já nos classificava), em 82, era quase tão grande quanto a da conquista do primeiro título, naquela copa. Da mesma forma, a frustração da derrota no Sarriá, em Barcelona, foi quase tão grande quanto a do episódio conhecido como Maracanaço, na edição realizada no Brasil. Como a convulsão de Ronaldo em 1998 e a meia de Roberto Carlos em 2006, Toninho Cerezo, injustamente, levou a culpa por não levarmos a copa, graças a um passe lateral, do meio do campo, que caiu nos pés de Paolo Rossi, atacante italiano (dos seis gols dele, que foi artilheiro da copa, metade foi marcada contra o Brasil e a outra metade após esse jogo, na semifinal e final).
Na verdade, o problema foi o mesmo de Hungria e Holanda, também citados como injustiçados, em copas anteriores: jogar bonito, sem pensar apenas em resultados. Perdemos por 3 x 2 e, mais do que o “É tetra! É tetra!”, de Galvão Bueno, em 94, ecoa nos meus ouvidos, até hoje, o melancólico “Acabou o jogo! Acabou o jogo!”, de Luciano do Vale, à época locutor da rede Globo (Depois da copa, ele foi afastado da emissora e surgiram comentários de que o motivo teria sido o fato de mostrar-se muito emotivo nas transmissões, o que era, justamente, sua melhor virtude. Nem sabíamos o que viria pela frente...). Fomos bicampeões morais.
Foi nessa época, também, que os jogadores brasileiros passaram a ser mais cobiçados pelos times europeus, dando início ao fenômeno que ocorre até os dias de hoje. Depois da copa, vários titulares da nossa seleção – que sei de cor até hoje: Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, Serginho e Éder - foram embora, a maioria para a Itália (Falcão era o único “estrangeiro” do grupo e, antes da convocação para a copa, já atuava nesse país, onde recebeu o apelido de rei de Roma). Se, nos anos seguintes, o campeonato espanhol e, mais adiante, o inglês teriam maior destaque na mídia, o italiano era a bola da vez nos anos 80.
Bola pra frente. Hoje, somos pentacampeões e vem aí a copa da África, continente de um povo sofrido, mas alegre e que merece um pouco de diversão, um ópio saudável, do bem. Como diz o escritor Eduardo Galeano, somos todos africanos emigrados e a primeira copa nesse continente, no país de Nelson Mandela, tem, por isso, um sabor todo especial, como voltar pra casa. E como já fomos campeões em todos os continentes que já sediaram a competição (América do Norte, América do Sul, Europa e Ásia), nada melhor do que também levar o título em casa. E repetir a dose, em 2014, novamente em casa.
* Sangue, swing e cintura (Moraes Moreira)
O rei aqui é Pelé
Na terra do futebol
Olé, é bola no pé
Redonda assim como o sol
Seja no Maracanã
Ou no gramado espanhol
Escola aqui é de samba
E bola é arte do povo
Sua alegria Deus manda
Nasce um Garrincha de novo
Quem sabe tem mais de um
Quebrando a casca do ovo
Tá lá, ta lá, tá lá
Tá no filó
Tá na filosofia
Quem sabe, sabe
O craque brasileiro
Tem sabedoria
Sangue, swing e cintura
Mistura de pé
Futebol e arte
Que em nenhuma outra parte
Do mundo há
Galinho de Quintino
Flamengo menino
Feito em forma de hino
Gol
Calcanhar de Sócrates
Gogó de cantor
Só craque, só craque, só craque, só craque
Só craque doutor
Telê, um fio de esperança
De velho, moço e criança
Unindo os corações
E assim de novo do mundo seremos
Seremos os campeões
20.5.10
O perfeito e o imperfeito do subjetivo
Palavras foram criadas para facilitar a comunicação. A linguagem, portanto, pressupõe esse fim. De nada adianta ignorar ou execrar o linguajar popular, restringir-se à norma culta e não se fazer entender pela maioria das pessoas, como um brasileiro exilado em sua própria pátria. Afinal, que língua é essa que pouquíssimos brasileiros falam? Podemos chamá-la de língua oficial? A discussões desse tipo é que se propõe a exposição Menas: o certo do errado, o errado do certo (com curadoria de Ataliba Castilho e Eduardo Calbucci), em cartaz no Museu da Língua Portuguesa (SP, até 27 de junho próximo), que nos apresenta interessantes frases, como: “Se alguém usou uma palavra, ela existe.” ou “Todos têm sotaque. Ainda bem.”.
Tais discussões casam bem com o pensamento de Marcos Bagno, profissional graduado em Letras pela UFPE, doutor em Línguística pela USP, professor da UnB e autor de mais de 30 livros, entre eles Preconceito linguístico. Impossível ficar indiferente a suas convicções. De posições firmes, o escritor, tradutor e linguista mineiro costuma afirmar, por exemplo, que o professor Pasquale e suas concepções rígidas de 'certo' e 'errado' estão na contramão da história e não são aceitas nos maiores centros de pesquisa linguística brasileiros.
Bagno defende a ideia de que o preconceito linguístico esconde um imenso preconceito social (a forma caricata e inventada com que a rede Globo mostra o sotaque nordestino em suas produções é um claro exemplo disso) e constitui “um disfarce amplamente aceito para que uma pessoa seja discriminada e excluída dos bens sociais aos quais teria direito pelo simples fato de ser um cidadão”.
Em recente e interessante entrevista ao Jornal do Commercio (PE), o linguista sugeriu: “as aulas de língua materna têm que se destinar, antes de mais nada, à inserção dos aprendizes na cultura letrada, e isso se faz por meio da leitura, da escrita, da leitura, da escrita e principalmente da leitura e da escrita”. E concluiu: “Enquanto nossos professores acharem que é preciso ensinar dígrafo, oxítonas, preposições, oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo, epiceno e outras coisas cabalísticas desse tipo, nossa educação linguística continuará catastrófica como já está”.
Quanto a conclusões simplistas e precipitadas de que estaria fazendo apologia ao vale-tudo na língua portuguesa, afirma, com propriedade: “Nenhum linguista sensato jamais disse que não é preciso ensinar aos alunos as formas privilegiadas, normatizadas de uso da língua. O que dizemos é que essas não são as únicas formas válidas de uso da língua e que é preciso abordar em sala de aula a multiplicidade de usos idiomáticos que existe na sociedade. No entanto, como nossa sociedade só consegue pensar em termos de sim/não, preto/branco, certo/errado, um discurso que contemple a variação, a noção de pluralidade de falas, não consegue penetrar no senso comum”.
O escritor reconhece o viés político por trás de muitas de suas afirmações, o que considera inevitável. Entre os polêmicos, mas/e interessantes comentários encontrados em seus livros, cito dois, a título de ilustração. No primeiro, ele compara a morfologia verbal das línguas inglesa e portuguesa, ao observar que se I lived, you lived, he lived, we lived, they lived é recebido sem estranhamento, o mesmo não ocorre com eu morava, tu morava, ele morava, nós morava, eles morava, recebidos com “o riso, o deboche ou, no melhor dos casos, a compaixão pelos 'infelizes caipiras' que 'não sabem falar direito', como se fossem menos inteligentes ou até menos humanos que os demais falantes”.
O segundo comentário trata da troca do L pelo R na pronúncia de certas palavras, ao que ele se refere como “um fenômeno fonético que contribuiu para a formação da própria língua portuguesa padrão”. Segundo ele, “as pessoas que dizem Cráudia, grobo, chicrete, pranta estão apenas dando livre curso à mesma tendência fonética que fez, por exemplo, com que o latim fluxu desse em português frouxo, com um R bem nítido, que plaga desse praga, que sclavu desse escravo, que blandu desse brando, que flaccu desse fraco, que gluten desse grude, que o germânico blank desse em português branco (...)”.
Para enriquecer a discussão, entrei em contato com o professor, que, gentilmente, comentou os seguintes pontos. Sobre a questão (que já foi bem pior) da valorização quase exclusiva da ortografia e das normas gramaticais, em detrimento da clareza na comunicação, ele afirmou: “O apego à tradição gramatical e à ortografia é muito antigo em toda a civilização ocidental, data de pelo menos três séculos antes de Cristo, quando foi criada a disciplina gramatical. Ao se fixar um modelo único de 'língua certa', inspirado nos usos de uns poucos escritores consagrados do passado, todos os demais usos da língua foram jogados na lata do lixo do 'erro'. As pesquisas linguísticas contemporâneas mostram o absurdo que é essa atitude, que carece de qualquer fundamentação científica, sendo integralmente ideológica”.
Com relação ao novo acordo ortográfico, disse ser a favor “porque, antes de tudo, retira de Portugal uma arma ideológica que sempre esteve nas mãos dos setores chauvinistas da sociedade portuguesa: a ideia de que a língua é 'deles' e que por isso toda decisão sobre os destinos do idioma cabem prioritariamente a Lisboa”. E completa: “Ora, 90% dos falantes de português vivem no Brasil. Se todos os demais países de língua portuguesa abandonassem a língua e a trocassem por outra, ainda assim o português brasileiro seria a terceira língua mais falada no Ocidente (…). Com o Acordo, todos os usuários da língua vão ter uma maneira única de escrever e isso decerto facilitará muito a divulgação do idioma e a circulação dos bens impressos. É preciso lembrar, sempre, que não se trata de uma 'uniformização da língua', como muitas pessoas equivocadamente têm dito. (...) o que vai mudar exclusivamente é a maneira de escrever a língua”.
O que concluo disso tudo é que se por um lado tenho o “vício” de seguir os rigores das regras gramaticais e até me incomodo ao perceber certos erros de grafia, por outro (ou pelo mesmo) comporto-me como um dinossauro jurássico sempre que sigo, por exemplo, o costume enraizado de respeitar regras de próclise e ênclise, como a de não iniciar frases com pronomes oblíquos* (quanto à mesóclise, ser-me-ia demais respeitá-la).
Não sou nenhum especialista no assunto, mas, em suma, mesmo sem concordar “em gênero e número igual”, reconheço, “com os nervos da cor da pele”, a singularidade do raciocínio do exímio linguista, cujas ideias, ainda que em primeira análise pareçam radicais e exageradas, suscitam reflexões, como a percepção de que a língua não é criada no papel, por acadêmicos, mas resulta, isso sim, da linguagem falada.
* Pronominais (Oswald de Andrade)
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da nação brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Tais discussões casam bem com o pensamento de Marcos Bagno, profissional graduado em Letras pela UFPE, doutor em Línguística pela USP, professor da UnB e autor de mais de 30 livros, entre eles Preconceito linguístico. Impossível ficar indiferente a suas convicções. De posições firmes, o escritor, tradutor e linguista mineiro costuma afirmar, por exemplo, que o professor Pasquale e suas concepções rígidas de 'certo' e 'errado' estão na contramão da história e não são aceitas nos maiores centros de pesquisa linguística brasileiros.
Bagno defende a ideia de que o preconceito linguístico esconde um imenso preconceito social (a forma caricata e inventada com que a rede Globo mostra o sotaque nordestino em suas produções é um claro exemplo disso) e constitui “um disfarce amplamente aceito para que uma pessoa seja discriminada e excluída dos bens sociais aos quais teria direito pelo simples fato de ser um cidadão”.
Em recente e interessante entrevista ao Jornal do Commercio (PE), o linguista sugeriu: “as aulas de língua materna têm que se destinar, antes de mais nada, à inserção dos aprendizes na cultura letrada, e isso se faz por meio da leitura, da escrita, da leitura, da escrita e principalmente da leitura e da escrita”. E concluiu: “Enquanto nossos professores acharem que é preciso ensinar dígrafo, oxítonas, preposições, oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo, epiceno e outras coisas cabalísticas desse tipo, nossa educação linguística continuará catastrófica como já está”.
Quanto a conclusões simplistas e precipitadas de que estaria fazendo apologia ao vale-tudo na língua portuguesa, afirma, com propriedade: “Nenhum linguista sensato jamais disse que não é preciso ensinar aos alunos as formas privilegiadas, normatizadas de uso da língua. O que dizemos é que essas não são as únicas formas válidas de uso da língua e que é preciso abordar em sala de aula a multiplicidade de usos idiomáticos que existe na sociedade. No entanto, como nossa sociedade só consegue pensar em termos de sim/não, preto/branco, certo/errado, um discurso que contemple a variação, a noção de pluralidade de falas, não consegue penetrar no senso comum”.
O escritor reconhece o viés político por trás de muitas de suas afirmações, o que considera inevitável. Entre os polêmicos, mas/e interessantes comentários encontrados em seus livros, cito dois, a título de ilustração. No primeiro, ele compara a morfologia verbal das línguas inglesa e portuguesa, ao observar que se I lived, you lived, he lived, we lived, they lived é recebido sem estranhamento, o mesmo não ocorre com eu morava, tu morava, ele morava, nós morava, eles morava, recebidos com “o riso, o deboche ou, no melhor dos casos, a compaixão pelos 'infelizes caipiras' que 'não sabem falar direito', como se fossem menos inteligentes ou até menos humanos que os demais falantes”.
O segundo comentário trata da troca do L pelo R na pronúncia de certas palavras, ao que ele se refere como “um fenômeno fonético que contribuiu para a formação da própria língua portuguesa padrão”. Segundo ele, “as pessoas que dizem Cráudia, grobo, chicrete, pranta estão apenas dando livre curso à mesma tendência fonética que fez, por exemplo, com que o latim fluxu desse em português frouxo, com um R bem nítido, que plaga desse praga, que sclavu desse escravo, que blandu desse brando, que flaccu desse fraco, que gluten desse grude, que o germânico blank desse em português branco (...)”.
Para enriquecer a discussão, entrei em contato com o professor, que, gentilmente, comentou os seguintes pontos. Sobre a questão (que já foi bem pior) da valorização quase exclusiva da ortografia e das normas gramaticais, em detrimento da clareza na comunicação, ele afirmou: “O apego à tradição gramatical e à ortografia é muito antigo em toda a civilização ocidental, data de pelo menos três séculos antes de Cristo, quando foi criada a disciplina gramatical. Ao se fixar um modelo único de 'língua certa', inspirado nos usos de uns poucos escritores consagrados do passado, todos os demais usos da língua foram jogados na lata do lixo do 'erro'. As pesquisas linguísticas contemporâneas mostram o absurdo que é essa atitude, que carece de qualquer fundamentação científica, sendo integralmente ideológica”.
Com relação ao novo acordo ortográfico, disse ser a favor “porque, antes de tudo, retira de Portugal uma arma ideológica que sempre esteve nas mãos dos setores chauvinistas da sociedade portuguesa: a ideia de que a língua é 'deles' e que por isso toda decisão sobre os destinos do idioma cabem prioritariamente a Lisboa”. E completa: “Ora, 90% dos falantes de português vivem no Brasil. Se todos os demais países de língua portuguesa abandonassem a língua e a trocassem por outra, ainda assim o português brasileiro seria a terceira língua mais falada no Ocidente (…). Com o Acordo, todos os usuários da língua vão ter uma maneira única de escrever e isso decerto facilitará muito a divulgação do idioma e a circulação dos bens impressos. É preciso lembrar, sempre, que não se trata de uma 'uniformização da língua', como muitas pessoas equivocadamente têm dito. (...) o que vai mudar exclusivamente é a maneira de escrever a língua”.
O que concluo disso tudo é que se por um lado tenho o “vício” de seguir os rigores das regras gramaticais e até me incomodo ao perceber certos erros de grafia, por outro (ou pelo mesmo) comporto-me como um dinossauro jurássico sempre que sigo, por exemplo, o costume enraizado de respeitar regras de próclise e ênclise, como a de não iniciar frases com pronomes oblíquos* (quanto à mesóclise, ser-me-ia demais respeitá-la).
Não sou nenhum especialista no assunto, mas, em suma, mesmo sem concordar “em gênero e número igual”, reconheço, “com os nervos da cor da pele”, a singularidade do raciocínio do exímio linguista, cujas ideias, ainda que em primeira análise pareçam radicais e exageradas, suscitam reflexões, como a percepção de que a língua não é criada no papel, por acadêmicos, mas resulta, isso sim, da linguagem falada.
* Pronominais (Oswald de Andrade)
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da nação brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
6.5.10
Transações políticas e transições sexuais (e vice-versa)
Já se discutiu, ao longo do tempo, a relação entre política e sexo, entre companheiro de luta e companheiro de leito. Meu partido é um coração partido, já dizia Cazuza, nos relativamente despolitizados anos 80. Desde a transformadora década de 60, porém, política e sexo já andavam um tanto descompassados em nosso país. As práticas livres adquiridas com a revolução sexual, fruto das conquistas do movimento hippie, foram refreadas, do lado de baixo do Equador, pelas ditaduras instaladas por essas bandas. Na década de 80, por sua vez, a liberdade política conquistada com o fim das ditaduras, veio acompanhada da repressão sexual provocada pela descoberta do vírus da AIDS. Como resultado, no ramo da música, fatos curiosos ocorreram.
Sexo, política e rock’n roll. Nos anos 60, as canções de protesto combatiam o momento político e refletiam bem o clima de repúdio à situação vigente e a esperança num futuro melhor. Já as ingênuas canções da Jovem Guarda, e mesmo as da Bossa Nova, não refletiam tanto a revolução sexual em curso. Se bem que, pouco depois, os Secos & Molhados viriam a distorcer, sem discursos panfletários, apenas com seus requebros, a rígida coluna vertebral da dita ditadura, característica que, junto com o forte apelo visual e músicas como O vira, tornou o grupo bastante admirado, também, pelas crianças.
Por sua vez, a cena musical dos anos 80, que já não via mais como novidade as canções de duplo sentido ou de apelo sexual, presentes desde a década anterior com Genival Lacerda e Gretchen, entre outros, recebia reforços nesse estilo. Músicas como Serão extra (Eu fui dar mamãe / Fui dar mamãe / Fui dar um serão extra / Trabalhei com o patrão), do grupo Dr. Silvana & Cia., Amante profissional (Pra qualquer tipo de transação / Sem compromisso emocional / Só financeiro), do Herva Doce e Dentro do coração (Põe devagar), do Rádio Táxi, brincavam com o sexo de maneira despretensiosa, em contrapeso à dura realidade que despontava, evidenciada por Cazuza em Ideologia: Meu prazer agora é risco de vida.
No campo político, a década coincidiu com o período de abertura e o fim da censura aos meios de comunicação, esse último tendo gerado calorosas discussões entre o que podia e o que não podia ou quais seriam os limites do bom senso. Alheios a essa discussão e como crianças que ganham um brinquedo novo, os compositores daquela geração, mesmo sem o apuro e a sutileza de um Chico Buarque, queriam mais era experimentar ao máximo a novidade que surgia. Ao mesmo tempo, como todo principiante - pássaro novo longe do ninho -, não sabiam como lidar com a incipiente liberdade. Foi assim, então, que o público pôde presenciar, pelas primeiras vezes, o uso aberto do palavrão, em canções como Faroeste caboclo (Renato Russo).
O tema censura foi, inclusive, ironizado pelo irreverente Léo Jaime, em Solange, do disco Sessão da tarde (1985), versão para a música de Sting, So lonely: “Eu tinha tanto pra dizer / metade eu tive que esquecer / E quando eu tento escrever / Seu nome vem me interromper / ... / Solange, Solange, Solange / É o fim, Solange”. Solange Hernandes foi diretora da Divisão de Censura de Diversões Públicas do Departamento da Polícia Federal, setor extinto em 1988.
Renato Russo, que faria 50 anos em 2010, embora só tenha chegado ao sucesso após a leva de bandas surgidas na primeira metade da década de 80, que teve o Rock in Rio como marco divisório, foi um dos ícones da juventude da época e compôs duas canções que, junto com Brasil, de Cazuza, viraram hinos políticos daquela geração: Que país é este? e Geração Coca-Cola*. E já que falamos de sexo e política, vale lembrar que outra canção dele, Eduardo e Mônica, recebeu uma análise (Mônica e Eduardo) um tanto política e sexualmente incorreta, na qual o autor inverte o senso comum de que Mônica é inteligente e engajada, enquanto Eduardo é alienado. Não obstante as ditas incorreções, o texto merece uma leitura mais leve, por ser passional – o que o torna mais engraçado - e criativo.
Faroeste caboclo, que se assemelha a uma espécie de ópera-rock, seja pela duração de cerca de nove minutos, seja por contar uma história – de desfecho trágico, por sinal - ou ainda pelas alternâncias melódicas que acompanham o sentimento do que vai sendo narrado, não deixa de lado o toque político, ainda que solto, no último verso: “E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília com o diabo ter / Ele queria era falar com o presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer” (a extensa música, contrariando as lógicas de mercado, tocava bastante em rádio e era quase uma obrigação, para os jovens de então, saberem sua letra de cor e não salteado). A saga de João de Santo Cristo, narrada na canção, vai virar filme, em breve.
Mas foi a forma peculiar de narrar, por meio da música, conflitos existenciais próprios da juventude – os quais, numa geração dita perdida, pareciam ainda mais comuns -, que tornou tão idolatrado o cara que ousou cantar “e eu gosto de meninos e meninas”. Conflitos traduzidos em versos como “ainda estou confuso, só que agora é diferente”, “mudaram as estações e nada mudou”, “não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas”. E olhe que sexo verbal nem fazia seu estilo.
* Geração Coca-Cola (Renato Russo / Fê Lemos)
Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove às seis
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
25.4.10
O filho da mãe
Roberto Carlos Braga é brega? Chega de briga. Como previ, há alguns meses, não adianta nem tentar lhe esquecer. O cantor e compositor vem, desde o ano passado, comemorando seus cinquenta anos de carreira e, no ano que vem, completará setenta de idade, o que motivará, mais uma vez, merecidas comemorações. Por sinal, ele estará puxando o bloco dos setentões, que se aproxima, com Chico e Caetano, entre outros, logo atrás.
Uma dessas homenagens prestadas, nos últimos meses, ao rei, está ao alcance de quem andar por São Paulo por esses dias: a exposição Roberto Carlos – 50 anos de música, que acontece na Oca do Parque do Ibirapuera e que ele mesmo ajudou a organizar. A exposição aproxima-se do final e traz, entre as atrações, documentários e vídeos sobre sua carreira, bem como depoimentos de pessoas importantes em sua trajetória artística, como o parceiro Erasmo Carlos, Wanderléa, Gal Costa, Maria Bethânia e Caetano Veloso.
Gal, em seus primeiros discos, gravou várias canções da dupla Roberto e Erasmo, como Se você pensa e Eu sou terrível, além de uma interpretação definitiva e insuperável de Sua estupidez, cuja bela letra é uma forma mais rebuscada e poética de dizer “você não vale nada, mas eu gosto de você”. Sua estupidez é do disco Fatal, de 1971 - fatal, inclusive, no excelente repertório (só para dar uma ideia... não dá para dar uma ideia a não ser enumerando quase todas as músicas, então deixo apenas a ideia da ideia).
Engraçado que essas canções, bem apropriadas ao perfil ou estilo criado, à época, pela cantora baiana, diziam frases fortes que o próprio RC, hoje em dia, em outra fase, ou Bethânia, por exemplo, não diriam (pior pra eles), como “você tem que aprender a ser gente” e “use a inteligência uma vez só” (só faltou Quero que vá tudo pro inferno). Nesse mesmo período, Gal recebeu da dupla a canção Meu nome é Gal, feita especialmente para ela, como não é difícil perceber. Bethânia, por sua vez, além de ser um dos poucos artistas a ter participação em algum disco de Roberto (em 1982, na faixa Amiga), gravou disco inteiro, As canções que você fez pra mim (1994), com composições do rei.
Caetano, em seu incentivo à luta contra qualquer tipo de preconceito musical, sempre se preocupou, ao longo da carreira, em desfazer qualquer rivalidade entre Tropicalismo, Bossa Nova e Jovem Guarda. Depois de uma troca de amabilidades que nos proporcionou interpretações marcantes de músicas de sua autoria por parte de Roberto (Como dois e dois, Muito romântico, Força estranha) e vice-versa (Debaixo dos caracóis de seus cabelos), coroou bem sua linha de comportamento ao participar, recentemente, do trabalho que reuniu essas três vertentes da produção musical dos anos 60: o disco Roberto Carlos e Caetano Veloso e a música de Tom Jobim (2008), em que o rei da Jovem Guarda e o mestre do Tropicalismo uniram-se, em reverência ao maestro da Bossa Nova.
Sou de um tempo em que aguardar os lançamentos de trabalhos desses artistas, ano após ano, já era, por si só, atividade extremamente aprazível, seguida de plena recompensa, exercício do qual os discos de Roberto Carlos faziam parte. Por isso, em época de tantas homenagens a esse astro da nossa música, acrescento mais essa, que tem motivos de sobra para acontecer especificamente por esses dias. Primeiro, o aniversário do cantor, que ocorreu esta semana, depois, o dia das mães que se aproxima e que nos remete à lembrança de uma das maiores mães da MPB, a quem devemos sua vinda ao mundo - Lady Laura*, reverenciada pelo filho em um desses discos esperados -, por meio de quem homenageio todas elas.
* Lady Laura (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino
E na hora do meu desespero gritar por você
Te pedir que me abrace e me leve de volta pra casa
Que me conte uma história bonita e me faça dormir
Só queria ouvir sua voz me dizendo sorrindo:
Aproveite o seu tempo, você ainda é um menino
Apesar da distância e do tempo eu não posso esconder
Tudo isso eu às vezes preciso escutar de você
Lady Laura, me leve pra casa
Lady Laura, me conte uma história
Lady Laura, me faça dormir
Lady Laura
Lady Laura, me leve pra casa
Lady Laura, me abrace forte
Lady Laura, me faça dormir
Lady Laura
Quantas vezes me sinto perdido no meio da noite
Com problemas e angústias que só gente grande é que tem
Me afagando os cabelos você certamente diria:
Amanhã de manhã você vai se sair muito bem
Quando eu era criança podia chorar nos seus braços
E ouvir tanta coisa bonita na minha aflição
Nos momentos alegres sentado ao seu lado eu sorria
E nas horas difíceis podia apertar sua mão
Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino
Muito embora você sempre acha que eu ainda sou
Toda vez que te abraço e te beijo sem nada dizer
Você diz tudo que eu preciso escutar de você
Uma dessas homenagens prestadas, nos últimos meses, ao rei, está ao alcance de quem andar por São Paulo por esses dias: a exposição Roberto Carlos – 50 anos de música, que acontece na Oca do Parque do Ibirapuera e que ele mesmo ajudou a organizar. A exposição aproxima-se do final e traz, entre as atrações, documentários e vídeos sobre sua carreira, bem como depoimentos de pessoas importantes em sua trajetória artística, como o parceiro Erasmo Carlos, Wanderléa, Gal Costa, Maria Bethânia e Caetano Veloso.
Gal, em seus primeiros discos, gravou várias canções da dupla Roberto e Erasmo, como Se você pensa e Eu sou terrível, além de uma interpretação definitiva e insuperável de Sua estupidez, cuja bela letra é uma forma mais rebuscada e poética de dizer “você não vale nada, mas eu gosto de você”. Sua estupidez é do disco Fatal, de 1971 - fatal, inclusive, no excelente repertório (só para dar uma ideia... não dá para dar uma ideia a não ser enumerando quase todas as músicas, então deixo apenas a ideia da ideia).
Engraçado que essas canções, bem apropriadas ao perfil ou estilo criado, à época, pela cantora baiana, diziam frases fortes que o próprio RC, hoje em dia, em outra fase, ou Bethânia, por exemplo, não diriam (pior pra eles), como “você tem que aprender a ser gente” e “use a inteligência uma vez só” (só faltou Quero que vá tudo pro inferno). Nesse mesmo período, Gal recebeu da dupla a canção Meu nome é Gal, feita especialmente para ela, como não é difícil perceber. Bethânia, por sua vez, além de ser um dos poucos artistas a ter participação em algum disco de Roberto (em 1982, na faixa Amiga), gravou disco inteiro, As canções que você fez pra mim (1994), com composições do rei.
Caetano, em seu incentivo à luta contra qualquer tipo de preconceito musical, sempre se preocupou, ao longo da carreira, em desfazer qualquer rivalidade entre Tropicalismo, Bossa Nova e Jovem Guarda. Depois de uma troca de amabilidades que nos proporcionou interpretações marcantes de músicas de sua autoria por parte de Roberto (Como dois e dois, Muito romântico, Força estranha) e vice-versa (Debaixo dos caracóis de seus cabelos), coroou bem sua linha de comportamento ao participar, recentemente, do trabalho que reuniu essas três vertentes da produção musical dos anos 60: o disco Roberto Carlos e Caetano Veloso e a música de Tom Jobim (2008), em que o rei da Jovem Guarda e o mestre do Tropicalismo uniram-se, em reverência ao maestro da Bossa Nova.
Sou de um tempo em que aguardar os lançamentos de trabalhos desses artistas, ano após ano, já era, por si só, atividade extremamente aprazível, seguida de plena recompensa, exercício do qual os discos de Roberto Carlos faziam parte. Por isso, em época de tantas homenagens a esse astro da nossa música, acrescento mais essa, que tem motivos de sobra para acontecer especificamente por esses dias. Primeiro, o aniversário do cantor, que ocorreu esta semana, depois, o dia das mães que se aproxima e que nos remete à lembrança de uma das maiores mães da MPB, a quem devemos sua vinda ao mundo - Lady Laura*, reverenciada pelo filho em um desses discos esperados -, por meio de quem homenageio todas elas.
* Lady Laura (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino
E na hora do meu desespero gritar por você
Te pedir que me abrace e me leve de volta pra casa
Que me conte uma história bonita e me faça dormir
Só queria ouvir sua voz me dizendo sorrindo:
Aproveite o seu tempo, você ainda é um menino
Apesar da distância e do tempo eu não posso esconder
Tudo isso eu às vezes preciso escutar de você
Lady Laura, me leve pra casa
Lady Laura, me conte uma história
Lady Laura, me faça dormir
Lady Laura
Lady Laura, me leve pra casa
Lady Laura, me abrace forte
Lady Laura, me faça dormir
Lady Laura
Quantas vezes me sinto perdido no meio da noite
Com problemas e angústias que só gente grande é que tem
Me afagando os cabelos você certamente diria:
Amanhã de manhã você vai se sair muito bem
Quando eu era criança podia chorar nos seus braços
E ouvir tanta coisa bonita na minha aflição
Nos momentos alegres sentado ao seu lado eu sorria
E nas horas difíceis podia apertar sua mão
Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino
Muito embora você sempre acha que eu ainda sou
Toda vez que te abraço e te beijo sem nada dizer
Você diz tudo que eu preciso escutar de você
12.4.10
De versão e arte
A prática de criar versões de textos provenientes de outras línguas tem o mérito de aproximar culturas, na medida em que as torna mais acessíveis aos que não têm acesso aos escritos, não dominam seus idiomas de origem ou mesmo não conhecem o trabalho feito em outros países.
Em se tratando de poesias e canções, esse trabalho de traduzir ou “versionar” é especialmente difícil, pois, se na tradução de textos em geral, procura-se ser o mais fiel possível ao conteúdo original, nas adaptações de versos - sejam de poesias ou canções -, por questões sobretudo de métrica, mudanças fazem-se necessárias, desde que não comprometam o contexto. Nesses casos, busca-se fugir a uma simples tradução literal (transcrição), com adaptações engenhosas (criação), mas sem se afastar do tema original, algo bem definido pelo neologismo “transcriação”. No caso das canções, almeja-se, ainda, manter a letra ajustada à melodia. Esse ajuste pode ser feito apenas pela sonoridade das palavras (mal) ou pela métrica como um todo (bem).
Quando a canção original é bem conhecida, o trabalho de tradução torna-se ainda mais delicado e difícil, pois é comum haver um estranhamento, quando a sonoridade já tão familiar de letra e música juntas é quebrada. Isso talvez explique o porquê de Yesterday (Lennon/McCartney), uma das canções mais gravadas de todos os tempos - cuja melodia, curiosamente, surgiu em um sonho de McCartney, como ele revela em sua biografia -, nunca ter recebido uma versão em português.
Por falar em Beatles, a Jovem Guarda, movimento surgido no Brasil por influência deles e de outros astros do rock de então, era bem servida de versões, aqui interpretadas por conjuntos como Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, The Fevers, entre outros. De lá pra cá, grandes compositores da nossa música têm se esmerado em versões de qualidade, que fazem jus ao termo transcriação e, nos últimos tempos, bandas de forró tudo-menos-pé-de-serra têm traduzido até pensamento.
Gilberto Gil, como se não bastasse ser especial na criação de suas próprias canções, é um exemplo de compositor competente também em versões. Em Só chamei porque te amo – versão para I just called to say I love you, de Stevie Wonder -, Gil acrescentou a esses citados objetivos de versões musicais um toque de regionalismo que, além de facilitar a decodificação da mensagem, deixa uma doce impressão: nem carnaval, nem São João, nenhum balão no céu, nem luar do sertão. A canção cita bons motivos para se procurar por alguém, apenas para dizer que nenhum deles ocorreu e, ao descartá-los, apresentar o motivo fundamental da busca: só chamei porque te amo. Sem mais explicações, a não ser a falta de motivo ou razão (quando a saudade vem, não tem explicação).
Em Não chore mais – versão para No woman, no cry, do repertório de Bob Marley -, Gil também fez uso do recurso de adaptação à realidade local, com referências à repressão da ditadura militar então vigente no Brasil (Amigos presos, amigos sumindo assim, pra nunca mais. Tais recordações, retratos do mal em si, melhor é deixar pra trás). Se na letra original o cenário é um jardim público em Trenchtown, Jamaica, a versão brasileira desloca-se para a grama do Aterro, no Rio de Janeiro. No fim, porém, a mensagem de esperança é a mesma: everything’s gonna be all right / tudo, tudo, tudo vai dar pé.
Milton Nascimento, durante temporada nos Estados Unidos, nos anos 70, escutou uma canção que falava sobre amigos que partiam. Inspirado nesta música, compôs outra (Unencounter, de seu disco Journey to dawn, de 1979), também em inglês, sobre o mesmo tema, em parceria com Fernando Brant. Flávio Venturini, que à época fazia parte do grupo 14 Bis, adorou a canção e quis gravá-la, mas achou que ela merecia uma versão brasileira. Brandt, então, traduziu a letra para o português. O resultado foi Canção da América, uma celebração à amizade que, como tal, transpôs fronteiras, rompeu limites, desfez distâncias, com um apelo universal que não carece de tradução: o que importa é ouvir a voz que vem do coração.
Em bom português, versões podem constituir grandes versos, sem os quais não haveria fascinação nem ternura. Não saberíamos o amor, doce mistério da vida, nem o sabor do gesto. Não entenderíamos a natureza humana nem a aquarela da vida. Não saberíamos, com Chaplin, simplesmente, sorrir*.
* Sorri (Charles Chaplin/G.Parson/J. Turner - versão: Braguinha)
Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Em se tratando de poesias e canções, esse trabalho de traduzir ou “versionar” é especialmente difícil, pois, se na tradução de textos em geral, procura-se ser o mais fiel possível ao conteúdo original, nas adaptações de versos - sejam de poesias ou canções -, por questões sobretudo de métrica, mudanças fazem-se necessárias, desde que não comprometam o contexto. Nesses casos, busca-se fugir a uma simples tradução literal (transcrição), com adaptações engenhosas (criação), mas sem se afastar do tema original, algo bem definido pelo neologismo “transcriação”. No caso das canções, almeja-se, ainda, manter a letra ajustada à melodia. Esse ajuste pode ser feito apenas pela sonoridade das palavras (mal) ou pela métrica como um todo (bem).
Quando a canção original é bem conhecida, o trabalho de tradução torna-se ainda mais delicado e difícil, pois é comum haver um estranhamento, quando a sonoridade já tão familiar de letra e música juntas é quebrada. Isso talvez explique o porquê de Yesterday (Lennon/McCartney), uma das canções mais gravadas de todos os tempos - cuja melodia, curiosamente, surgiu em um sonho de McCartney, como ele revela em sua biografia -, nunca ter recebido uma versão em português.
Por falar em Beatles, a Jovem Guarda, movimento surgido no Brasil por influência deles e de outros astros do rock de então, era bem servida de versões, aqui interpretadas por conjuntos como Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, The Fevers, entre outros. De lá pra cá, grandes compositores da nossa música têm se esmerado em versões de qualidade, que fazem jus ao termo transcriação e, nos últimos tempos, bandas de forró tudo-menos-pé-de-serra têm traduzido até pensamento.
Gilberto Gil, como se não bastasse ser especial na criação de suas próprias canções, é um exemplo de compositor competente também em versões. Em Só chamei porque te amo – versão para I just called to say I love you, de Stevie Wonder -, Gil acrescentou a esses citados objetivos de versões musicais um toque de regionalismo que, além de facilitar a decodificação da mensagem, deixa uma doce impressão: nem carnaval, nem São João, nenhum balão no céu, nem luar do sertão. A canção cita bons motivos para se procurar por alguém, apenas para dizer que nenhum deles ocorreu e, ao descartá-los, apresentar o motivo fundamental da busca: só chamei porque te amo. Sem mais explicações, a não ser a falta de motivo ou razão (quando a saudade vem, não tem explicação).
Em Não chore mais – versão para No woman, no cry, do repertório de Bob Marley -, Gil também fez uso do recurso de adaptação à realidade local, com referências à repressão da ditadura militar então vigente no Brasil (Amigos presos, amigos sumindo assim, pra nunca mais. Tais recordações, retratos do mal em si, melhor é deixar pra trás). Se na letra original o cenário é um jardim público em Trenchtown, Jamaica, a versão brasileira desloca-se para a grama do Aterro, no Rio de Janeiro. No fim, porém, a mensagem de esperança é a mesma: everything’s gonna be all right / tudo, tudo, tudo vai dar pé.
Milton Nascimento, durante temporada nos Estados Unidos, nos anos 70, escutou uma canção que falava sobre amigos que partiam. Inspirado nesta música, compôs outra (Unencounter, de seu disco Journey to dawn, de 1979), também em inglês, sobre o mesmo tema, em parceria com Fernando Brant. Flávio Venturini, que à época fazia parte do grupo 14 Bis, adorou a canção e quis gravá-la, mas achou que ela merecia uma versão brasileira. Brandt, então, traduziu a letra para o português. O resultado foi Canção da América, uma celebração à amizade que, como tal, transpôs fronteiras, rompeu limites, desfez distâncias, com um apelo universal que não carece de tradução: o que importa é ouvir a voz que vem do coração.
Em bom português, versões podem constituir grandes versos, sem os quais não haveria fascinação nem ternura. Não saberíamos o amor, doce mistério da vida, nem o sabor do gesto. Não entenderíamos a natureza humana nem a aquarela da vida. Não saberíamos, com Chaplin, simplesmente, sorrir*.
* Sorri (Charles Chaplin/G.Parson/J. Turner - versão: Braguinha)
Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
26.3.10
O que pode essas línguas
Na narração de um fato, seja real ou fictício, a comunicação ocorre de forma direta, ainda que de diversas maneiras. Mário Vargas Llosa afirma, em relação aos romances em geral, que a história não escrita representa a maior parte da história real, já que esta “cobre um terreno maior do que aquele que qualquer escritor – mesmo o mais profícuo e loquaz, com o menor pendor para a economia narrativa – seria capaz de cobrir em seu texto”. De fato, cada narrador pode ressaltar, em sua versão, diferentes aspectos do ambiente, características físicas, psicológicas ou o estado emocional dos personagens envolvidos no episódio narrado.
Na função de expressar sentimentos com exatidão, por sua vez, palavras são limitadas, por serem discretas, enquanto sentimentos são contínuos, o que faz com que não haja uma correspondência linear ou biunívoca entre eles. Dessa limitação, ou impossibilidade, é que surge a poesia, a metáfora, o sentido figurado e é justamente como instrumento de nossa mente criativa que as palavras encontram sua mais extraordinária aplicação.
Ao mesmo tempo, do lado dos que recebem a informação, as asas da imaginação desapropriam o sentido próprio, desfiguram o sentido figurado, enfim, ilimitam o que, loucamente, cada louca mente capta. O resultado é uma tradução eficaz, que transforma uma única língua-fonte (a mente criadora) em inúmeras línguas-alvo (as mentes receptoras).
No ramo da música, Construção, de Chico Buarque, é um exemplo concreto de onde se pode chegar com o uso de palavras bem dispostas, a começar do título da canção, de uma propriedade absoluta, ao denotar tanto a construção gramatical quanto a civil. Em Vai passar (Chico Buarque/Francis Hime), o título exprime o sentido de transitar, claramente expresso na letra (“vai passar nessa avenida um samba popular”, “o estandarte do sanatório geral vai passar”), mas também pode ser lido como deixar de existir, acabar, numa possível referência ao iminente fim da ditadura militar, na época em que a canção foi lançada (pode ser em sentido desfigurado, mas é como minha mentecapta mente capta).
Como admirador da arte de batizar – que trago até no nome - ou intitular, seja um livro, um filme, um disco, uma canção, uma rua, um bar, um artigo ou um simples e-mail, considero esta uma das etapas mais importantes e empolgantes da criação. Afinal, o título é a porta de entrada do conteúdo, ainda que não seja de todo indispensável (Nada nos impediria de ler um livro, assistir a um filme ou escutar uma música sem nome, a mensagem seria recebida da mesma forma. Da mesma forma, na linguagem falada, conseguiríamos nos comunicar sem a presença deles, mas a vida seria bem mais difícil e chata assim).
Por fim, não é incomum nome próprio ser comum (e nome comum ser impróprio). Nesse sentido, existe até uma piada, comum em Angola, nação africana de tantos contrastes sociais e vítima do neocolonialismo. Dois turistas, de férias no país, discutiam a diferença entre jacaré e crocodilo e discordavam sobre qual seria a denominação correta de um certo espécime que avistaram. Para desfazer a polêmica, consultaram um nativo angolano, apontando para o réptil: “Como vocês chamam, aqui, este animal, jacaré ou crocodilo?”, ao que o cidadão respondeu: “Nenhum dos dois. Aqui, a gente conhece-o como Lacoste”.
A função de dar nome é bem específica e seu praticante não precisa, necessariamente, ser o dono ou autor da coisa intitulada, tampouco produzir todo seu conteúdo. Basta ser criativo e, noutro plano, tal Caetano, gostar de se dedicar a criar confusões de prosódia e profusões de paródias*. Assim como café não costuma faiá, mouse pede mouse pad, forró pede serra e o Carrefour, digo, o baticum é da Benetton, não, da beira do mar. Ou da mesa do bar, talvez um Johann Sebastian Bar. E que o Chico Buarque de Holanda nos resgaste.
* Língua (Caetano Veloso)
Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.
Na função de expressar sentimentos com exatidão, por sua vez, palavras são limitadas, por serem discretas, enquanto sentimentos são contínuos, o que faz com que não haja uma correspondência linear ou biunívoca entre eles. Dessa limitação, ou impossibilidade, é que surge a poesia, a metáfora, o sentido figurado e é justamente como instrumento de nossa mente criativa que as palavras encontram sua mais extraordinária aplicação.
Ao mesmo tempo, do lado dos que recebem a informação, as asas da imaginação desapropriam o sentido próprio, desfiguram o sentido figurado, enfim, ilimitam o que, loucamente, cada louca mente capta. O resultado é uma tradução eficaz, que transforma uma única língua-fonte (a mente criadora) em inúmeras línguas-alvo (as mentes receptoras).
No ramo da música, Construção, de Chico Buarque, é um exemplo concreto de onde se pode chegar com o uso de palavras bem dispostas, a começar do título da canção, de uma propriedade absoluta, ao denotar tanto a construção gramatical quanto a civil. Em Vai passar (Chico Buarque/Francis Hime), o título exprime o sentido de transitar, claramente expresso na letra (“vai passar nessa avenida um samba popular”, “o estandarte do sanatório geral vai passar”), mas também pode ser lido como deixar de existir, acabar, numa possível referência ao iminente fim da ditadura militar, na época em que a canção foi lançada (pode ser em sentido desfigurado, mas é como minha mentecapta mente capta).
Como admirador da arte de batizar – que trago até no nome - ou intitular, seja um livro, um filme, um disco, uma canção, uma rua, um bar, um artigo ou um simples e-mail, considero esta uma das etapas mais importantes e empolgantes da criação. Afinal, o título é a porta de entrada do conteúdo, ainda que não seja de todo indispensável (Nada nos impediria de ler um livro, assistir a um filme ou escutar uma música sem nome, a mensagem seria recebida da mesma forma. Da mesma forma, na linguagem falada, conseguiríamos nos comunicar sem a presença deles, mas a vida seria bem mais difícil e chata assim).
Por fim, não é incomum nome próprio ser comum (e nome comum ser impróprio). Nesse sentido, existe até uma piada, comum em Angola, nação africana de tantos contrastes sociais e vítima do neocolonialismo. Dois turistas, de férias no país, discutiam a diferença entre jacaré e crocodilo e discordavam sobre qual seria a denominação correta de um certo espécime que avistaram. Para desfazer a polêmica, consultaram um nativo angolano, apontando para o réptil: “Como vocês chamam, aqui, este animal, jacaré ou crocodilo?”, ao que o cidadão respondeu: “Nenhum dos dois. Aqui, a gente conhece-o como Lacoste”.
A função de dar nome é bem específica e seu praticante não precisa, necessariamente, ser o dono ou autor da coisa intitulada, tampouco produzir todo seu conteúdo. Basta ser criativo e, noutro plano, tal Caetano, gostar de se dedicar a criar confusões de prosódia e profusões de paródias*. Assim como café não costuma faiá, mouse pede mouse pad, forró pede serra e o Carrefour, digo, o baticum é da Benetton, não, da beira do mar. Ou da mesa do bar, talvez um Johann Sebastian Bar. E que o Chico Buarque de Holanda nos resgaste.
* Língua (Caetano Veloso)
Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.
4.3.10
Rádio patrulha
Havia uma marchinha da década de 70 que dizia: “Viva o Zé Pereira / Que a ninguém faz mal / E viva a bebedeira / Nos dias de carnaval”. Tal música, porém, não era da década de 70 do século XX, mas do século XIX. Pois é, os tempos ideais do velho Raul Moraes também tinham desses sucessos. Tudo bem, carnaval é festa essencialmente popular e, como tal, deve ser mesmo uma "momarquia" democrática e, na medida do possível, agradar a todos.
Ainda que seja na base do beijo ou do rebolation, no quatríduo momesco, o povo quer apenas cair no passo e a vida gozar. Tanto que certas bocas - de ouvidos menos atentos - costumam, nessa época, ferir os nossos, levando o frevo às páginas policiais, ao cantarem assim a Evocação nº 1 de Nelson Ferreira: “Ferido pelo soldado, Guilherme Fenelon, cadê teus blocos famosos?”, sem prestarem tanta atenção ao que está sendo dito. Claro que clássico é clássico (como disse Drummond, “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno.”), mas não se deve exigir, por exemplo, que os mais jovens achem lindo ver o dia amanhecer com violões e pastorinhas mil (ainda que o seja), se isso não lhes emociona.
Seja ou não carnaval, música é algo que toca – e, mais do que isso, tem que tocar. Apenas certas canções (canções certas para uns, incertas para outros) têm esse dom, o que varia de pessoa para pessoa para Pessoa: “qualquer música, ah, qualquer / logo que me tire da alma / esta incerteza que quer / qualquer impossível calma”. A música que agrada aos ouvidos confunde-se um pouco com a realidade e a vivência de quem a escuta, o que torna quase impossível julgá-la com isenção. Há, ainda, uma busca por sintonia entre ritmo musical e ritmo de vida, o que explica por que, entre o vigor e ímpeto da juventude e a serenidade dos mais velhos, os sons vão diminuindo em volume e velocidade.
Patrulhamento musical (rádio patrulha) sempre existiu. A melhor política é desfazer-se de preconceitos ao escutar qualquer canção. Se, nesses termos, você apreciá-la, somente assim - e nesse ponto - faça valer a máxima de que gosto não se discute. Conforme atesta o crítico musical José Ramos Tinhorão em sua Pequena História da Música Popular, o maxixe e o samba-de-breque, por exemplo, eram considerados pela elite músicas de menor qualidade. Com o frevo, não foi diferente. Depois do frevo-de-rua, sua versão mais genuína e popular, foi que surgiu o de bloco, criação da classe média, que não queria se acabar de dançar, no meio do povo, o ritmo frenético das ruas. Hoje, os dois dividem espaços.
Tom Zé, em análise de trecho do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, comenta que, no Brasil, “aprecia-se uma espécie de culto no qual a inteligência, em vez de reunir os homens, os separa”. E completa: “Sérgio Buarque discute que, desde tempos imemoriais, o ato de pensar é exercido por nós, ibéricos, como se fosse um privilégio pessoal e classista. Isso dificulta o uso do pensamento como instrumento partilhado para a organização dos homens. Nós mesmos, que escrevemos em jornais, às vezes nos sentimos como ‘barõezinhos’”.
De fato, alguns indivíduos preferem segregar a agregar novos adeptos a seu exclusivíssimo clube dos que têm bom gosto. Para eles, se abrir demais, perde a graça e, nesse comportamento, pode estar embutido preconceito etário ou proletário. Alheio a esse patrulhamento – de modos e modas - e sem tantas satisfações a dar, os menos afortunados, ao menos nesse aspecto, são mais livres e, quando podem, divertem-se à vontade. É só comparar um concerto no teatro e um pagode na laje.
Caetano Veloso sempre procurou quebrar essa barreira subjetiva entre estilos musicais considerados de bom gosto ou não. Em Um frevo novo, provocou: “mete o cotovelo e vai abrindo o caminho” e ainda: “todo mundo na praça, muita gente sem graça no salão”. No auge do Tropicalismo, por ocasião da apresentação de Alegria, alegria no festival da Record, o cantor ressaltou assim sua simpatia pela liberdade de uso da guitarra na música brasileira: “No Rio de Janeiro, disseram: ‘Caetano vai usar guitarra numa música, quando chegar na Bahia vai tomar uma surra de berimbau’. O que eles não sabiam é que os baianos estão além.”.
Mantendo o tom, já que o assunto é a polêmica música boa x música ruim, vale ressaltar que Tom Zé, também tropicalista, em seu mais recente show, expõe impagável análise de um funk carioca (melhor ao vivo), desenvolvida com o intuito de confirmar informação, publicada em um jornal, de que seu disco Estudando a bossa sofrera influências desse ritmo. A propósito, um cara tão futurista, à frente do seu tempo e do tempo dos outros, só poderia mesmo ter nascido em Irará, futuro do futuro do verbo ir. Vamos atrás!
Certas Canções (Tunai / Milton Nascimento)
Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz?
Certa emoção me alcança
Corta-me a alma sem dor
Certas canções me chegam
Como se fosse o amor
Contos da água e do fogo
Cacos de vidas no chão
Cartas do sonho do povo
E o coração pro cantor
Vida e mais vida ou ferida
Chuva, outono, ou mar
Carvão e giz, abrigo
Gosto molhado no olhar
Calor que invade, arde, queima, encoraja
Amor que invade, arde, carece de cantar
Ainda que seja na base do beijo ou do rebolation, no quatríduo momesco, o povo quer apenas cair no passo e a vida gozar. Tanto que certas bocas - de ouvidos menos atentos - costumam, nessa época, ferir os nossos, levando o frevo às páginas policiais, ao cantarem assim a Evocação nº 1 de Nelson Ferreira: “Ferido pelo soldado, Guilherme Fenelon, cadê teus blocos famosos?”, sem prestarem tanta atenção ao que está sendo dito. Claro que clássico é clássico (como disse Drummond, “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno.”), mas não se deve exigir, por exemplo, que os mais jovens achem lindo ver o dia amanhecer com violões e pastorinhas mil (ainda que o seja), se isso não lhes emociona.
Seja ou não carnaval, música é algo que toca – e, mais do que isso, tem que tocar. Apenas certas canções (canções certas para uns, incertas para outros) têm esse dom, o que varia de pessoa para pessoa para Pessoa: “qualquer música, ah, qualquer / logo que me tire da alma / esta incerteza que quer / qualquer impossível calma”. A música que agrada aos ouvidos confunde-se um pouco com a realidade e a vivência de quem a escuta, o que torna quase impossível julgá-la com isenção. Há, ainda, uma busca por sintonia entre ritmo musical e ritmo de vida, o que explica por que, entre o vigor e ímpeto da juventude e a serenidade dos mais velhos, os sons vão diminuindo em volume e velocidade.
Patrulhamento musical (rádio patrulha) sempre existiu. A melhor política é desfazer-se de preconceitos ao escutar qualquer canção. Se, nesses termos, você apreciá-la, somente assim - e nesse ponto - faça valer a máxima de que gosto não se discute. Conforme atesta o crítico musical José Ramos Tinhorão em sua Pequena História da Música Popular, o maxixe e o samba-de-breque, por exemplo, eram considerados pela elite músicas de menor qualidade. Com o frevo, não foi diferente. Depois do frevo-de-rua, sua versão mais genuína e popular, foi que surgiu o de bloco, criação da classe média, que não queria se acabar de dançar, no meio do povo, o ritmo frenético das ruas. Hoje, os dois dividem espaços.
Tom Zé, em análise de trecho do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, comenta que, no Brasil, “aprecia-se uma espécie de culto no qual a inteligência, em vez de reunir os homens, os separa”. E completa: “Sérgio Buarque discute que, desde tempos imemoriais, o ato de pensar é exercido por nós, ibéricos, como se fosse um privilégio pessoal e classista. Isso dificulta o uso do pensamento como instrumento partilhado para a organização dos homens. Nós mesmos, que escrevemos em jornais, às vezes nos sentimos como ‘barõezinhos’”.
De fato, alguns indivíduos preferem segregar a agregar novos adeptos a seu exclusivíssimo clube dos que têm bom gosto. Para eles, se abrir demais, perde a graça e, nesse comportamento, pode estar embutido preconceito etário ou proletário. Alheio a esse patrulhamento – de modos e modas - e sem tantas satisfações a dar, os menos afortunados, ao menos nesse aspecto, são mais livres e, quando podem, divertem-se à vontade. É só comparar um concerto no teatro e um pagode na laje.
Caetano Veloso sempre procurou quebrar essa barreira subjetiva entre estilos musicais considerados de bom gosto ou não. Em Um frevo novo, provocou: “mete o cotovelo e vai abrindo o caminho” e ainda: “todo mundo na praça, muita gente sem graça no salão”. No auge do Tropicalismo, por ocasião da apresentação de Alegria, alegria no festival da Record, o cantor ressaltou assim sua simpatia pela liberdade de uso da guitarra na música brasileira: “No Rio de Janeiro, disseram: ‘Caetano vai usar guitarra numa música, quando chegar na Bahia vai tomar uma surra de berimbau’. O que eles não sabiam é que os baianos estão além.”.
Mantendo o tom, já que o assunto é a polêmica música boa x música ruim, vale ressaltar que Tom Zé, também tropicalista, em seu mais recente show, expõe impagável análise de um funk carioca (melhor ao vivo), desenvolvida com o intuito de confirmar informação, publicada em um jornal, de que seu disco Estudando a bossa sofrera influências desse ritmo. A propósito, um cara tão futurista, à frente do seu tempo e do tempo dos outros, só poderia mesmo ter nascido em Irará, futuro do futuro do verbo ir. Vamos atrás!
Certas Canções (Tunai / Milton Nascimento)
Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz?
Certa emoção me alcança
Corta-me a alma sem dor
Certas canções me chegam
Como se fosse o amor
Contos da água e do fogo
Cacos de vidas no chão
Cartas do sonho do povo
E o coração pro cantor
Vida e mais vida ou ferida
Chuva, outono, ou mar
Carvão e giz, abrigo
Gosto molhado no olhar
Calor que invade, arde, queima, encoraja
Amor que invade, arde, carece de cantar
24.1.10
Era do rádio (pena, não é mais)
Por maior que tenha sido o impacto do surgimento da internet em nossas vidas, imagino que o da televisão não tenha ficado muito atrás, guardadas as proporções devidas aos diferentes cenários tecnológicos das duas épocas. Ambas as mídias provocaram mudanças – de comportamento, de hábitos, de paradigmas - e, se a televisão, consolidada no Brasil em fins da década de 50, trouxe como resultado inerente o culto à imagem (os trejeitos de Elvis, a cabeleira dos Beatles, a minissaia de Wanderléa, só pra começar), a internet proporcionou interatividade e pulverização da informação.
Antes do surgimento da televisão, o maior apelo era a voz, o que talvez justifique, em parte, o excesso de impostação típico dos cantores da época. Os artistas eram contratados pelas rádios, onde se apresentavam e divulgavam seus trabalhos. Acesso a música e audiência concentrados em um único meio de comunicação justificaram o surgimento de títulos como rainha da voz - atribuído a Dalva de Oliveira - e concursos como rainha do rádio, que coroou, além de Dalva, intérpretes como Emilinha Borba, Marlene e Linda Batista. Além disso, havia uma profusão de grandes compositores, muitos deles oriundos das classes mais pobres, o que Chico Buarque descreveu como um tempo em que o cidadão, sobretudo o cantor, subia o morro para se abastecer de música.
Esse mundo curioso, de rica musicalidade e também inovador, conhecido como a era do rádio, serviu de pano de fundo para a minissérie Dalva e Herivelto – uma canção de amor, de Maria Adelaide Amaral, exibida, recentemente, pela Rede Globo, cujo tema foi a trajetória artística e amorosa do casal de músicos Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, companheiros por cerca de dez anos. O livro Minhas duas estrelas – uma vida com meus pais (Globo, 2009), de Ana Duarte e do cantor Pery Ribeiro, filho do casal, foi uma das fontes de pesquisa do trabalho.
Dores de amores sempre inspiraram compositores e deram o tom (o que talvez explique o fato de as notas musicais começarem em dó). Não foi diferente na era do rádio, época em que encontros e desencontros amorosos escaparam às quatro paredes (o peixe pro fundo do mar, não das redes) e, mais do que comentários no rádio e em revistas, renderam belas composições, como as de Herivelto Martins (Cabelos brancos, Caminhemos, Segredo), dedicadas, em boa parte (ou má, no caso dos desencontros), a Dalva de Oliveira, com quem formou o Trio de Ouro, junto com o cantor Nilo Chagas. O público acompanhava, atento e admirado, o surgimento dessas canções que retratavam o conturbado relacionamento do casal.
Dalva deu voz às canções de Herivelto e de outros compositores, alguns dos quais a ajudaram nas respostas às provocações musicadas do ex-amor. Com boa parte dos discos, à época, gravados no formato 78 rotações - que comportava poucas canções -, era comum os cantores lançarem vários trabalhos por ano, o que explica, em parte, o tamanho da discografia da rainha da voz (talento e popularidade, certamente, explicam a outra parte), composta por mais de setenta títulos e interpretações marcantes como Bandeira branca, Que será, Segredo, Ave Maria no morro que, mesmo bastante regravadas, são, ainda hoje, associadas à sua voz.
Maria Bethânia, cujos arroubos de interpretação sempre a aproximaram dos músicos de gerações anteriores, tinha Herivelto e Dalva como uns de seus compositores e intérpretes preferidos. Seus discos dos anos 70 incluíram, dele, as canções Bom dia*, Camisola do dia, Atiraste uma pedra e A Bahia te espera, esta última uma das mais belas exaltações àquela que ele chama de “cidade da tentação”, que mostrava a ligação do compositor com o candomblé. Sobre Dalva de Oliveira, Bethânia escreveu, em texto do disco Pássaro da manhã (1977): “... A Dalva tinha a coragem, o jeito de cantar no palco o que até então eu só tinha coragem e jeito de cantar dentro da minha casa”. A leitura do texto antecedia Há um Deus (Lupicínio Rodrigues), outrora gravada por Dalva.
Versos escritos na segunda pessoa gramatical (Rosa, Carinhoso, Orgulho) eram forte tendência entre os antigos compositores e Herivelto Martins foi um dos mestres dessa prática que, se por um lado denota aproximação e intimidade com o interlocutor, por outro rebusca os versos e distancia-os da linguagem coloquial, em que, na maior parte do país, o pronome tu é pouco utilizado. Ademais, “você atirou uma pedra no peito de quem só lhe fez tanto bem” não encerraria tanto sentimento numa mesma afirmação quanto os versos originais. O charme resultante, aliado a um certo ar romântico, poético, justifica essa tendência de uso da segunda pessoa ter perdurado até hoje, mesmo em menor frequência. “Tu não vales nada, mas eu gosto de ti”, por exemplo, ficaria mais suave, concordas?
* Bom dia (Herivelto Martins – Aldo Cabral)
Amanheceu, que surpresa
Me reservava a tristeza
Nessa manhã muito fria
Houve algo de anormal
Tua voz habitual
Não ouvi dizer bom dia
Teu travesseiro vazio
Provocou-me um arrepio
Levantei-me sem demora
E a ausência dos teus pertences
Me disse, não te convences
Paciência, ele foi embora
Nem sequer no apartamento
Deixaste um eco, um alento
Da tua voz tão querida
E eu concluí num repente
Que o amor é simplesmente
O ridículo da vida
Num recurso derradeiro
Corri até o banheiro
Pra te encontrar, que ironia
E que erro tu cometeste
Na toalha que esqueceste
Estava escrito bom dia
Antes do surgimento da televisão, o maior apelo era a voz, o que talvez justifique, em parte, o excesso de impostação típico dos cantores da época. Os artistas eram contratados pelas rádios, onde se apresentavam e divulgavam seus trabalhos. Acesso a música e audiência concentrados em um único meio de comunicação justificaram o surgimento de títulos como rainha da voz - atribuído a Dalva de Oliveira - e concursos como rainha do rádio, que coroou, além de Dalva, intérpretes como Emilinha Borba, Marlene e Linda Batista. Além disso, havia uma profusão de grandes compositores, muitos deles oriundos das classes mais pobres, o que Chico Buarque descreveu como um tempo em que o cidadão, sobretudo o cantor, subia o morro para se abastecer de música.
Esse mundo curioso, de rica musicalidade e também inovador, conhecido como a era do rádio, serviu de pano de fundo para a minissérie Dalva e Herivelto – uma canção de amor, de Maria Adelaide Amaral, exibida, recentemente, pela Rede Globo, cujo tema foi a trajetória artística e amorosa do casal de músicos Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, companheiros por cerca de dez anos. O livro Minhas duas estrelas – uma vida com meus pais (Globo, 2009), de Ana Duarte e do cantor Pery Ribeiro, filho do casal, foi uma das fontes de pesquisa do trabalho.
Dores de amores sempre inspiraram compositores e deram o tom (o que talvez explique o fato de as notas musicais começarem em dó). Não foi diferente na era do rádio, época em que encontros e desencontros amorosos escaparam às quatro paredes (o peixe pro fundo do mar, não das redes) e, mais do que comentários no rádio e em revistas, renderam belas composições, como as de Herivelto Martins (Cabelos brancos, Caminhemos, Segredo), dedicadas, em boa parte (ou má, no caso dos desencontros), a Dalva de Oliveira, com quem formou o Trio de Ouro, junto com o cantor Nilo Chagas. O público acompanhava, atento e admirado, o surgimento dessas canções que retratavam o conturbado relacionamento do casal.
Dalva deu voz às canções de Herivelto e de outros compositores, alguns dos quais a ajudaram nas respostas às provocações musicadas do ex-amor. Com boa parte dos discos, à época, gravados no formato 78 rotações - que comportava poucas canções -, era comum os cantores lançarem vários trabalhos por ano, o que explica, em parte, o tamanho da discografia da rainha da voz (talento e popularidade, certamente, explicam a outra parte), composta por mais de setenta títulos e interpretações marcantes como Bandeira branca, Que será, Segredo, Ave Maria no morro que, mesmo bastante regravadas, são, ainda hoje, associadas à sua voz.
Maria Bethânia, cujos arroubos de interpretação sempre a aproximaram dos músicos de gerações anteriores, tinha Herivelto e Dalva como uns de seus compositores e intérpretes preferidos. Seus discos dos anos 70 incluíram, dele, as canções Bom dia*, Camisola do dia, Atiraste uma pedra e A Bahia te espera, esta última uma das mais belas exaltações àquela que ele chama de “cidade da tentação”, que mostrava a ligação do compositor com o candomblé. Sobre Dalva de Oliveira, Bethânia escreveu, em texto do disco Pássaro da manhã (1977): “... A Dalva tinha a coragem, o jeito de cantar no palco o que até então eu só tinha coragem e jeito de cantar dentro da minha casa”. A leitura do texto antecedia Há um Deus (Lupicínio Rodrigues), outrora gravada por Dalva.
Versos escritos na segunda pessoa gramatical (Rosa, Carinhoso, Orgulho) eram forte tendência entre os antigos compositores e Herivelto Martins foi um dos mestres dessa prática que, se por um lado denota aproximação e intimidade com o interlocutor, por outro rebusca os versos e distancia-os da linguagem coloquial, em que, na maior parte do país, o pronome tu é pouco utilizado. Ademais, “você atirou uma pedra no peito de quem só lhe fez tanto bem” não encerraria tanto sentimento numa mesma afirmação quanto os versos originais. O charme resultante, aliado a um certo ar romântico, poético, justifica essa tendência de uso da segunda pessoa ter perdurado até hoje, mesmo em menor frequência. “Tu não vales nada, mas eu gosto de ti”, por exemplo, ficaria mais suave, concordas?
* Bom dia (Herivelto Martins – Aldo Cabral)
Amanheceu, que surpresa
Me reservava a tristeza
Nessa manhã muito fria
Houve algo de anormal
Tua voz habitual
Não ouvi dizer bom dia
Teu travesseiro vazio
Provocou-me um arrepio
Levantei-me sem demora
E a ausência dos teus pertences
Me disse, não te convences
Paciência, ele foi embora
Nem sequer no apartamento
Deixaste um eco, um alento
Da tua voz tão querida
E eu concluí num repente
Que o amor é simplesmente
O ridículo da vida
Num recurso derradeiro
Corri até o banheiro
Pra te encontrar, que ironia
E que erro tu cometeste
Na toalha que esqueceste
Estava escrito bom dia
11.1.10
Orações descoordenadas e insubordinadas para todos os períodos
“Graças ao acordo ortográfico, agora você pode escrever tranquilo.”
“Em tempos de Berlusconi, quem tem boca vaia Roma.”
“Pane na rede mundial trava línguas: o hacker ruiu o hub da rede em Roma.”
“Se nascêssemos maduros e morrêssemos crianças, a vida teria um outro sentido.”
“O Senado mergulha no mar de lama e nada. Nada como um peixe atrás do outro.”
“Navegar é preciso. Voar é impreciso.” (lei de Belchior)
“Preconceito é conceito ultrapassado. Ultrapasse-o.”
“Inspira, expira. Inspira, expira. Inspira, expira... A inspiração cessa quando o poeta expira.”
“O cinema nacional virou universal e a arte ficou na promessa.”
“Aproveite seu dia, antes que seja tarde e a vida anoiteça.”
“Quanto mais convivemos com pessoas simples, mais percebemos que não há nada menos terno do que alguém de terno.”
“Um sorriso vale mais que mil palavras, um abraço vale mais que o dicionário inteiro.”
“Para os adúlteros, tudo é uma questão de manter a amante quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.”
“Françamente, a vaga na Copa é da Irlanda!”
"- Segura o Sean! Amarra o Sean!... Tanto carnaval pra um assunto tão sério.”
“Oração do pré-sal: Fazei crescer nossos royalties, sem nos deixar cair a arrecadação. Em nome de São Paulo, do Rio, do Espírito Santo, amém.”
“Em tempos de Berlusconi, quem tem boca vaia Roma.”
“Pane na rede mundial trava línguas: o hacker ruiu o hub da rede em Roma.”
“Se nascêssemos maduros e morrêssemos crianças, a vida teria um outro sentido.”
“O Senado mergulha no mar de lama e nada. Nada como um peixe atrás do outro.”
“Navegar é preciso. Voar é impreciso.” (lei de Belchior)
“Preconceito é conceito ultrapassado. Ultrapasse-o.”
“Inspira, expira. Inspira, expira. Inspira, expira... A inspiração cessa quando o poeta expira.”
“O cinema nacional virou universal e a arte ficou na promessa.”
“Aproveite seu dia, antes que seja tarde e a vida anoiteça.”
“Quanto mais convivemos com pessoas simples, mais percebemos que não há nada menos terno do que alguém de terno.”
“Um sorriso vale mais que mil palavras, um abraço vale mais que o dicionário inteiro.”
“Para os adúlteros, tudo é uma questão de manter a amante quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.”
“Françamente, a vaga na Copa é da Irlanda!”
"- Segura o Sean! Amarra o Sean!... Tanto carnaval pra um assunto tão sério.”
“Oração do pré-sal: Fazei crescer nossos royalties, sem nos deixar cair a arrecadação. Em nome de São Paulo, do Rio, do Espírito Santo, amém.”
19.12.09
Temporal
No meu tempo, tudo tinha seu tempo
Mais cedo ou mais tarde
Hoje, meu futuro se apresenta
Já era. E agora?
Tenho uma morte inteira pela frente
Ontem, serei feliz, ao menos um segundo
Quando? Faz tempo
Depois de amanhã já é noite
Luto contra o tempo
Antes que seja tarde
Horas a fio, dia após dia, amiúde, sempre
Não perco tempo. É urgente
Hoje, porém, eu me rendo e peço
Antes tarde do que nunca
Por um momento esquecer quanto tempo me resta
E cada instante, enfim, viver eternamente
(Temporal - Paulo Bap)
Mais cedo ou mais tarde
Hoje, meu futuro se apresenta
Já era. E agora?
Tenho uma morte inteira pela frente
Ontem, serei feliz, ao menos um segundo
Quando? Faz tempo
Depois de amanhã já é noite
Luto contra o tempo
Antes que seja tarde
Horas a fio, dia após dia, amiúde, sempre
Não perco tempo. É urgente
Hoje, porém, eu me rendo e peço
Antes tarde do que nunca
Por um momento esquecer quanto tempo me resta
E cada instante, enfim, viver eternamente
(Temporal - Paulo Bap)
Tempo de reflexão. O novo milênio – futurista, cinematográfico, tão imaginado e esperado, decantado em músicas, citado em livros, tema de filmes - chegou e, num piscar de olhos, já se foi sua primeira década.
Tempo de relógio. O tempo é assim, absolutamente relativo. Devagar, quando o queremos rápido. Veloz, quando o queremos lento. Tempo integral, tempo instantâneo. Tão rápido que a unidade de tempo é segundo e não primeiro. Primeiro, o segundo, por fim, o infinito. Mas o que houve antes do primeiro segundo? Indefinitivamente, não sei.
Tempo de remediar. O tempo é remédio pra todos os males. Bem ou mal, tudo passa, é só dar tempo ao tempo. Certa pessoa, sempre que via alguém triste, costumava dizer: “não se preocupe, isso é só uma frase”, como quem diz “isso passa”. Queria dizer fase, mas, ao confundir, acertava (de fato, isso é só uma frase). O curioso é que se usasse o termo período, em vez de frase, o período – ou frase - manteria os dois sentidos – temporal e gramatical - e o equívoco passaria despercebido: “não se preocupe, isso é só um período”. Seja como for, uma fase, como uma frase, termina no ponto que a separa da seguinte.
Tempo de contradição. O tempo não para, é um paradoxo. O tempo não é temporário, mas passa. Pode ser passatempo, mas também contratempo. É passageiro, mas conduz. Expresso 2222 – “pra 2001 e 2 e tempo afora, até onde essa estrada do tempo vai dar”. Pra onde vamos e o que fazemos, nesse meio tempo entre o “há pouco” e o “a pouco”, depende de nós. Ainda está em tempo, sempre é tempo. Tempo é dinheiro, que se gasta, mas não se empresta. Tempo real. Não se compra nem se vende. Há tempo pra tudo, há tempo pra todos.
Tempo de mudar. O tempo de luta por igualdade deve ser, também, tempo de solidariedade. Todos iguais, mas não indiferentes. Individualidade não é individualismo. Ponha-se no seu lugar: ponha-se no meu lugar. O próximo sou eu, você é o próximo. Não perco meu tempo, eu acho. “Tempo rei, oh, tempo rei, transformai as velhas formas do viver”.
PS 1 - Citações musicais: Expresso 2222 e Tempo rei (Gilberto Gil)
PS 2 - Tempo de rir. Rir é contagiante, quer ver? (Destaque do portal Terra, como um dos melhores vídeos da década)
Oração ao Tempo (Caetano Veloso)
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
29.11.09
Os noventistas (ou os últimos poetas musicais do século XX)
Depois de duas décadas de ouro para a música brasileira, período em que surgiu com força a chamada MPB, o pop-rock deu as cartas nos anos 80. Trouxe talentos e méritos, mas também coisas de menor qualidade, como tudo que vem em excesso. Conquistou a preferência do público e uma quase exclusividade dos meios de comunicação, necessariamente nessa desordem, o que diminuiu bastante o espaço para outras boas novidades. Tudo isso, aliado ao peso de suceder a uma penca de cantores e compositores magníficos, fez com que uma certa geração pós-ditadura da MPB demorasse mais a pôr as manguinhas de fora e mostrasse sua cara apenas na década seguinte.
Do meu lado, em parte por decorrência natural do amadurecimento (vá lá, da idade), em parte por ter tido o privilégio de acompanhar, em tempo real, grandes lançamentos da nossa música, de tão preenchido, passei a fechar mais os tímpanos para novidades e, em consequência, demorar mais a assimilá-las. Com atenções merecidamente voltadas a esse museu de grandes novidades, do qual os grandes compositores da primeira geração da MPB eram peças principais, não foi de imediato que passei a apreciar novos talentos que surgiam.
Falo da turma de Cássia Eller, Moska, Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, Zélia Duncan e, não tão integrados a estes, mas contemporâneos e também desenvolvendo trabalhos de qualidade, Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. Alguns deles foram bastante ligados à turma dos anos 80 e, de certa forma, supriram lacuna deixada por Cazuza e Renato Russo. Como Cássia Eller, que gravou várias canções de Nando Reis (ex-Titãs) e Cazuza – é dele e Frejat sua interpretação de maior sucesso, Malandragem – e Moska, que à época fez parte do grupo Inimigos do Rei. Marisa Monte, que tem parcerias com Nando Reis e Arnaldo Antunes, mereceu destaque imediato em parte por também – e tão bem - romper a barreira entre MPB e pop-rock, entre Rosa de Pixinguinha e Comida dos Titãs.
Uma característica frequente nas composições desses noventistas, sobretudo de sua ala masculina, é o uso criativo do jogo de palavras, do qual são exemplos os seguintes versos: “Ah, Caicó arcaico / Em meu peito catolaico / Tudo é descrença e fé”, “Respeitem meus cabelos, brancos” (atenção para a vírgula), “Lágrimas de diamantes / à noite, lágrimas de diamantes / de dia lágrimas, à noite amantes”, “Gastei minha sandália havaiana / andando atrás dessa baiana / mas a baiana me vaiou / … / eu disse que vim do Cabo Verde / mas ela me achou imaturo / … / mand'ela vir, mand'ela aqui, mand'ela cá”, “Minha diva, meu divã / Minha manha, meu amanhã / Meu lá, minha lã / Minha paga, minha pagã / Meu velar, meu avelã”*.
Vozes femininas costumam falar de sentimentos com propriedade e, na geração que aflorou nos anos 90, elas vieram de mulheres que eram, também, compositoras, as quais conquistaram importante espaço ao colocarem em versos tanta sensibilidade: “Meu coração toda vez que te vê / quer gritar, se arriscar, sair cantando / me delatando pra todo mundo / pensa que está fora do alcance / ... / mas fecho os olhos então / e ele fica mudo / meu escuro é meu escudo / e silencioso é meu coração”, “Entre por essa porta agora / e diga que me adora / você tem meia hora / pra mudar a minha vida”, “Deixa eu dizer que te amo / deixa eu pensar em você / isso me acalma / me acolhe a alma / isso me ajuda a viver”**.
Entre Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte, apenas a primeira não compunha com assiduidade. Claro que as gerações anteriores, de época tão rica e fértil para a nossa música, já traziam um toque feminino nas composições (Rita Lee, Ângela Rô Rô, Marina Lima, Joyce, entre outras, para citar apenas as de duplo ofício), mas grandes cantoras, como Maria Bethânia, Elis Regina, Gal Costa, Elba Ramalho e Zizi Possi, eram, sobretudo, intérpretes.
Esta fusão de tendências das duas décadas anteriores representa bem o amadurecimento de uma geração que, nascida ou crescida durante a ditadura militar, desestimulada a pensar, expressar-se, a participar de movimentos e discussões por tantos anos, viu-se perdida quando, enfim, conquistou a liberdade, numa década que começou quando um sonho acabou – a morte de John Lennon - e acabou quando outro começou – a queda do muro de Berlim. Geração perdida e década perdida, por sinal, são designações recorrentes quando se fala dessa época, mas, parafraseando Gilberto Gil, uma semente de ilusão tem que morrer pra germinar. Estamos no tempo de colher os frutos.
* Trechos das canções: A prosa impúrpura do Caicó, Respeitem meus cabelos, brancos (Chico César), Lágrimas de diamantes (Moska), Mand'ela (Chico César e Zeca Baleiro) e Meu amanhã (Lenine).
** Trechos das canções: Toda vez (Zélia Duncan e Christian Oyens), Vambora (Adriana Calcanhotto) e Amor I love you (Marisa Monte e Carlinhos Brown)
Mais pérolas em vídeo: Zélia Duncan - Me revelar (Zélia Duncan e Christian Oyens), Chico César - À primeira vista (Chico César), Moska - Pensando em você (Moska), Adriana Calcanhotto - Mentiras (Adriana Calcanhotto), Marisa Monte - Paradeiro (Marisa Monte e Arnaldo Antunes), Cássia Eller - Por enquanto (Renato Russo), Zeca Baleiro - Quase nada (Zeca Baleiro e Alice Ruiz) e Lenine - Paciência (Lenine e Dudu Falcão).
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