As redes de televisão abertas, que já produziram bons programas no passado, têm se repetido, em sua maioria, em busca de uma audiência fácil e imediata, com poucas novidades interessantes. Além disso, noticiários e novelas gravitam em torno do eixo Rio-São Paulo, ignorando, de certa forma, o que não corresponde ao carioca-paulista way of life ou o que acontece no resto do país.
A pretexto de globalizar, pelo menos uma dessas emissoras tem o hábito de “neutralizar” o sotaque de seus artistas, cariocas ou não. Particularmente, o sotaque dos nordestinos é “suavizado” ou, quando se faz presente em séries e novelas cujas tramas acontecem na região, é retratado de forma caricata, pouco semelhante à real. Falando de caso que conheço, em Pernambuco, até programas de exibição local possuem apresentadores sem sotaque próprio do estado e mesmo os nativos são “domesticados”.
Diante desse quadro, uma outra emissora, a MTV, tem se destacado pela ousadia de colocar um nordestino – e mais importante, seu sotaque - como apresentador de programa: o cantor pernambucano China. Na Brasa (segunda a sexta, 20h30), a despeito de ser mais voltado ao público jovem, apresenta atrações interessantes também aos mais maduros. China começou a carreira como vocalista da banda Sheik Tosado, que chegou a se apresentar no Rock in Rio 3, em 2001. Hoje, além do programa televisivo, divide-se entre carreira solo e a banda Del Rey, onde interpreta canções de Roberto e Erasmo Carlos, junto com integrantes do grupo pernambucano Mombojó.
A MTV mudou, este ano, sua grade de programação, voltando-se um pouco ao formato inicial, de exibição de clipes (estranhamente reduzida num passado recente). Tem apresentado, também, vinhetas e campanhas com frases como: “A MTV é contra qualquer tipo de preconceito”, atitude louvável, em se tratando de emissora que tem como audiência um público essencialmente jovem, muitos deles adolescentes, com personalidade ainda em formação.
O maior destaque dessa nova fase da MTV é o programa musical Grêmio Recreativo, exibido sempre na última quinta-feira de cada mês, às 23h30. A atração é comandada pelo cantor e compositor Arnaldo Antunes, que recebe convidados. Após curto ensaio, os músicos apresentam-se ao vivo, todos juntos ou em grupos, interpretando canções de suas autorias. Estão previstos dez programas, sendo o último em dezembro próximo. Na edição deste mês de junho, que vai ao ar no próximo dia 30, a atração tem como convidados especiais Erasmo Carlos, Wanderléa, Vanessa da Mata e o supracitado China. Na edição seguinte (28/07), Marisa Monte, Adriana Calcanhoto e Jorge Mautner estarão presentes.
As três primeiras edições registraram momentos únicos, reunindo nova e velha geração, como o encontro entre Odair José, Paulo Miklos e Otto na segunda e os parceiros de Arnaldo Antunes - Marcelo Jeneci, Ortinho, Marina Lima e Pepeu Gomes - na terceira. Marina e Pepeu compuseram, com o anfitrião, Grávida (única parceria da dupla) e Alma, respectivamente, canções que fizeram parte do set list dessa edição e, certamente, estão entre as melhores composições deles.
Grávida* é bastante representativa do estilo de compor de Arnaldo Antunes e não poderia estar de fora de um programa comandado por ele. É uma canção que expressa a sensação de plenitude alcançada por quem concebe, gera e dá à luz algo num sentido mais amplo ou simplesmente observa o mundo com olhos mais atentos e sensíveis. Qualquer ser humano engravida, todos os dias, daquilo que está à sua volta. Toma à luz, absorve, alimenta, processa e dá à luz. E o que surge é resultado disso tudo, como a própria canção. Assim que, sem nunca terem engravidado no sentido estrito, a dupla de compositores pariu uma obra de arte.
Seguindo a trilha estranha aos olhos dos mais antigos, de criar fama a partir de postagens de vídeos no YouTube, outra figura carismática, PC Siqueira, foi descoberta pela MTV e escalada para o programa PC na TV (quinta-feira, 23h). O novo apresentador guarda certas semelhanças com o veterano e também carismático VJ Thunderbird, inclusive por fugir a certos padrões estéticos limitadores, seguidos, de modo geral, pelas emissoras de televisão. O programa, despretensioso, tem algumas besteiras, mas é divertido, bom para as horas vagas do cérebro.
Talvez para não ter que pagar mais direitos autorais, a televisão tem relegado a música, salvo exceções vindas de emissoras públicas e/ou diferenciadas - como as TV's Brasil e Cultura - ou de programas em horários pouco atrativos, como Som Brasil e Por toda minha vida, da Globo. Para quem teve o prazer de assistir, em horário dito nobre, a programas musicais insuperáveis, como a série Grandes Nomes ou Chico & Caetano, nos anos 80, torna-se difícil ficar entusiasmado com qualquer coisa, mas, ainda assim, é gratificante ver uma emissora que carrega música no nome concebê-la em vários sotaques, estilos, idades.
* Grávida (Arnaldo Antunes / Marina Lima)
Eu tô grávida
Grávida de um beija-flor
Grávida de terra
De um liquidificador
E vou parir um terremoto
Uma bomba, uma cor
Uma locomotiva a vapor, um corredor
Eu tô grávida
Esperando um avião
Cada vez mais grávida
Estou grávida de chão
E vou parir sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o sol dilatar
Dar à luz
Eu tô grávida
De uma nota musical
De um automóvel
De uma árvore de Natal
E vou parir uma montanha
Um cordão umbilical
Um anticoncepcional, um cartão postal
Eu tô grávida
Esperando um furacão
Um fio de cabelo, uma bolha de sabão
E vou parir sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o sol dilatar
Vou dar à luz
26.6.11
3.6.11
Um dia em 67
Há algum tempo, tive acesso a esta foto histórica (clique para ampliar) que, pelas figuras retratadas, encanta qualquer amante da música popular brasileira. Ao mesmo tempo, a imagem desperta curiosidade sobre que acontecimento tão especial teria provocado a reunião de tantos talentos (tente identificá-los e, ao final do texto, veja a lista dos ilustres figurantes da clássica foto*).
Soube, depois, por matéria de O Globo, que o registro aconteceu em 1967, num encontro na casa de Vinícius de Moraes, convocado pelo produtor musical João Araújo - pai de Cazuza e que viria a ser presidente da gravadora Som Livre -, com o objetivo de discutir o declínio da música carnavalesca. Discutia-se nem tanto a queda na qualidade das canções, mas na quantidade de lançamentos musicais ocasionada, no caso do Rio de Janeiro, por conta do crescimento das escolas de samba e seus sambas-enredo restritos ao desfile, em detrimento das marchinhas.
Nessa época, a falta de renovação começava a ocorrer, também, no Recife, por conta de fatores como o forte apego às tradições e a concentração econômica maior no eixo Rio-São Paulo, que contribuiu para o declínio do frevo e resultou, inclusive, no encerramento das atividades da Rozenblit, importante fábrica de discos local.
João Araújo diz que, até hoje, falta trilha sonora ao carnaval carioca: "Fui ver os blocos em Ipanema, era uma multidão impressionante, mas sem cantar. Não tinha música. Aí não é carnaval". Em Pernambuco, há música, mas não há renovação e, no caso da Bahia, cujo carnaval cresceu com o advento do trio elétrico e o incentivo de músicos conceituados como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Moraes Moreira e Armandinho, se a falta de renovação, hoje em dia, não é um problema, existem críticas com relação a qualidade e repetitividade de fórmulas em certas novas canções.
Recentemente, houve grande discussão sobre essa questão da má qualidade das músicas, por conta de críticas feitas por Rachel Sheherazade, à época apresentadora de um jornal local na TV Tambaú – PB e atual âncora do SBT Brasil. Apoiada por uns e criticada por outros, a apresentadora também questionou, com métodos jaborianos, outros aspectos da folia. Um blog parceiro, 3C1P, por meio do qual cheguei ao vídeo, afirmou, em texto sobre o assunto: "O carnaval é, sim, um momento diferente, de relaxamento daquele policiamento crítico do qual nós, pseudo-intelectuais de classe média, nos valemos para nos diferenciarmos do resto da massa inculta do país".
Concordei e comentei, na ocasião, que, além de o conceito do que é boa música ser relativo e patrulhamento não combinar com carnaval, festa essencialmente espontânea, essa diversidade já existia nos "carnavais de outrora", quando havia músicas de letras mais elaboradas, como "quanto riso, oh, quanta alegria / mais de mil palhaços no salão / arlequim está chorando pelo amor da colombina / no meio da multidão", mas também outras de letras mais simples, feitas apenas pra tirar o pé do chão mesmo, como "as águas vão rolar / garrafa cheia eu não quero ver sobrar / eu passo a mão na saca-saca-saca-rolha / e bebo até me acabar" ou "a-lá-lá-ô ôôô ôôô / mas que calo-ooo-oor".
Uma pergunta-chave, originadora do impasse, está no cerne da questão: o carnaval deve ser evento de massa ou restrito a grupos menores? A primeira opção, como o próprio nome diz, não se sustenta sem a participação... da massa, grupo muitas vezes, e ironicamente, sem tanto apego ao que se costuma chamar de cultura popular e, por isso, discriminado por formadores de opinião. Por outro lado, um maracatu tradicional como o Leão Coroado, com quase 150 anos de existência (a turma é da época do império, da escravidão, isso é muito significativo!), não tem o mesmo poder de atração sobre foliões, em sua maioria jovens, a não ser que vista uma capa pop, o que não faz nenhum sentido.
Nesta discussão entre o carnaval ser evento para muitos ou para poucos, há problemas, também, de ordem técnica, em relação ao alcance do som, que pode variar bastante entre aquele emitido por um trio elétrico, uma apresentação de palco, uma orquestra de frevo ou maracatu itinerante. Em suma, o conflito e, ao mesmo tempo, a solução está em procurar conciliar novo e antigo, vanguarda e tradição, popular e clássico. Afinal, blocos tradicionais são fundamentais, indispensáveis, mas usam, muitas vezes, linguagem e temas que podem soar estranhos aos mais jovens, que não se sentem representados por músicas que evocam o passado, os antigos carnavais.
Em Pernambuco, com a falta de renovação nos ritmos tradicionais, a modernidade no carnaval teve que vir por meio de sons a princípio alheios ao evento, mas que foram incorporados à festa. Um exemplo é o festival Rec-Beat, surgido no rastro do manguebeat, que, hoje, equilibra melhor a existência entre novo e antigo, como deve ser. Da mesma forma, se os atuais fenômenos de massa do carnaval baiano não agradam, lá também existem os cantores mais antigos, afoxés e blocos afro tradicionais, como o Ilê-Ayê.
A discussão provocada pelo encontro de 67 permanece atual, passadas quase cinco décadas. Se substituirmos música tradicional por norma culta, vejo semelhanças com a polêmica do livro adotado recentemente pelo MEC, "Por uma vida melhor", ou seja, não existe música boa ou ruim, mas adequada ou inadequada. Se a música tradicional (ou norma culta), de que costumo ser seguidor, fosse a única forma válida de comunicação, muitos estariam sujeitos ao mais profundo, injusto e gritante silêncio. Creio que a comunicação é muito mais, manifesta-se de várias formas e não devemos nos limitar a uma música (ou norma) oficial que, sejamos realistas, a maioria dos brasileiros não escutam (ou falam). Por uma vida melhor.
* 1 – Edu Lobo, 2 – Tom Jobim, 3 – Torquato Neto, 4 – Caetano Veloso, 5 - Capinan, 6 – Paulinho da Viola, 7 – Sidney Miller, 8 – Zé Ketti, 9 – Olívia Hime, 10 – Helena Gastal, 11 – Luís Eça, 12 – João Araújo, 13 – Dori Caymmi, 14 – Chico Buarque, 15 – Francis Hime, 16 – Nelson Motta, 17 – Não identificado, 18 – Vinícius de Moraes, 19 – Dircinha Batista, 20 – Luís Bonfá, 21 - Tuca, 22 – Braguinha
Leia também: Rádio patrulha e O perfeito e o imperfeito do subjetivo
Soube, depois, por matéria de O Globo, que o registro aconteceu em 1967, num encontro na casa de Vinícius de Moraes, convocado pelo produtor musical João Araújo - pai de Cazuza e que viria a ser presidente da gravadora Som Livre -, com o objetivo de discutir o declínio da música carnavalesca. Discutia-se nem tanto a queda na qualidade das canções, mas na quantidade de lançamentos musicais ocasionada, no caso do Rio de Janeiro, por conta do crescimento das escolas de samba e seus sambas-enredo restritos ao desfile, em detrimento das marchinhas.
Nessa época, a falta de renovação começava a ocorrer, também, no Recife, por conta de fatores como o forte apego às tradições e a concentração econômica maior no eixo Rio-São Paulo, que contribuiu para o declínio do frevo e resultou, inclusive, no encerramento das atividades da Rozenblit, importante fábrica de discos local.
João Araújo diz que, até hoje, falta trilha sonora ao carnaval carioca: "Fui ver os blocos em Ipanema, era uma multidão impressionante, mas sem cantar. Não tinha música. Aí não é carnaval". Em Pernambuco, há música, mas não há renovação e, no caso da Bahia, cujo carnaval cresceu com o advento do trio elétrico e o incentivo de músicos conceituados como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Moraes Moreira e Armandinho, se a falta de renovação, hoje em dia, não é um problema, existem críticas com relação a qualidade e repetitividade de fórmulas em certas novas canções.
Recentemente, houve grande discussão sobre essa questão da má qualidade das músicas, por conta de críticas feitas por Rachel Sheherazade, à época apresentadora de um jornal local na TV Tambaú – PB e atual âncora do SBT Brasil. Apoiada por uns e criticada por outros, a apresentadora também questionou, com métodos jaborianos, outros aspectos da folia. Um blog parceiro, 3C1P, por meio do qual cheguei ao vídeo, afirmou, em texto sobre o assunto: "O carnaval é, sim, um momento diferente, de relaxamento daquele policiamento crítico do qual nós, pseudo-intelectuais de classe média, nos valemos para nos diferenciarmos do resto da massa inculta do país".
Concordei e comentei, na ocasião, que, além de o conceito do que é boa música ser relativo e patrulhamento não combinar com carnaval, festa essencialmente espontânea, essa diversidade já existia nos "carnavais de outrora", quando havia músicas de letras mais elaboradas, como "quanto riso, oh, quanta alegria / mais de mil palhaços no salão / arlequim está chorando pelo amor da colombina / no meio da multidão", mas também outras de letras mais simples, feitas apenas pra tirar o pé do chão mesmo, como "as águas vão rolar / garrafa cheia eu não quero ver sobrar / eu passo a mão na saca-saca-saca-rolha / e bebo até me acabar" ou "a-lá-lá-ô ôôô ôôô / mas que calo-ooo-oor".
Uma pergunta-chave, originadora do impasse, está no cerne da questão: o carnaval deve ser evento de massa ou restrito a grupos menores? A primeira opção, como o próprio nome diz, não se sustenta sem a participação... da massa, grupo muitas vezes, e ironicamente, sem tanto apego ao que se costuma chamar de cultura popular e, por isso, discriminado por formadores de opinião. Por outro lado, um maracatu tradicional como o Leão Coroado, com quase 150 anos de existência (a turma é da época do império, da escravidão, isso é muito significativo!), não tem o mesmo poder de atração sobre foliões, em sua maioria jovens, a não ser que vista uma capa pop, o que não faz nenhum sentido.
Nesta discussão entre o carnaval ser evento para muitos ou para poucos, há problemas, também, de ordem técnica, em relação ao alcance do som, que pode variar bastante entre aquele emitido por um trio elétrico, uma apresentação de palco, uma orquestra de frevo ou maracatu itinerante. Em suma, o conflito e, ao mesmo tempo, a solução está em procurar conciliar novo e antigo, vanguarda e tradição, popular e clássico. Afinal, blocos tradicionais são fundamentais, indispensáveis, mas usam, muitas vezes, linguagem e temas que podem soar estranhos aos mais jovens, que não se sentem representados por músicas que evocam o passado, os antigos carnavais.
Em Pernambuco, com a falta de renovação nos ritmos tradicionais, a modernidade no carnaval teve que vir por meio de sons a princípio alheios ao evento, mas que foram incorporados à festa. Um exemplo é o festival Rec-Beat, surgido no rastro do manguebeat, que, hoje, equilibra melhor a existência entre novo e antigo, como deve ser. Da mesma forma, se os atuais fenômenos de massa do carnaval baiano não agradam, lá também existem os cantores mais antigos, afoxés e blocos afro tradicionais, como o Ilê-Ayê.
A discussão provocada pelo encontro de 67 permanece atual, passadas quase cinco décadas. Se substituirmos música tradicional por norma culta, vejo semelhanças com a polêmica do livro adotado recentemente pelo MEC, "Por uma vida melhor", ou seja, não existe música boa ou ruim, mas adequada ou inadequada. Se a música tradicional (ou norma culta), de que costumo ser seguidor, fosse a única forma válida de comunicação, muitos estariam sujeitos ao mais profundo, injusto e gritante silêncio. Creio que a comunicação é muito mais, manifesta-se de várias formas e não devemos nos limitar a uma música (ou norma) oficial que, sejamos realistas, a maioria dos brasileiros não escutam (ou falam). Por uma vida melhor.
* 1 – Edu Lobo, 2 – Tom Jobim, 3 – Torquato Neto, 4 – Caetano Veloso, 5 - Capinan, 6 – Paulinho da Viola, 7 – Sidney Miller, 8 – Zé Ketti, 9 – Olívia Hime, 10 – Helena Gastal, 11 – Luís Eça, 12 – João Araújo, 13 – Dori Caymmi, 14 – Chico Buarque, 15 – Francis Hime, 16 – Nelson Motta, 17 – Não identificado, 18 – Vinícius de Moraes, 19 – Dircinha Batista, 20 – Luís Bonfá, 21 - Tuca, 22 – Braguinha
Leia também: Rádio patrulha e O perfeito e o imperfeito do subjetivo
22.5.11
Sexo, drogas e palavrões
Na virada para a década de 80, depois de um período em que prevaleceu a música de protesto e com a iminente brisa da democracia, as críticas políticas perderam força e as canções mudaram um pouco o foco. O gostinho da liberdade era, então, algo novo para toda uma geração que, sedenta por degustá-la, passou a atirar para todos os lados, que não o político, a começar de sexo e drogas, temas considerados menos leves, mesmo no rock’n roll. Aspecto positivo, a liberdade de expressão, prato principal, veio acompanhada de maior tolerância a variações de comportamento e aceitação de hábitos divergentes daqueles tomados como padrão (no que ainda temos o que aprender).
No tocante às drogas, por exemplo, a apologia à maconha causou polêmica, ao ganhar vez e voz com a música O mal é o que sai da boca do homem (Pepeu Gomes / Baby Consuelo / Galvão), concorrente do festival MPB 80, da Rede Globo, de versos diretos, algo pouco comum para uma geração acostumada a captar mensagens subliminares, repletas de sutilezas: “Você pode fumar baseado, baseado em que você pode fazer quase tudo / Contanto que você possua, mas não seja possuído”.
Já no âmbito do sexo, o decreto vale-tudo de Tim Maia aboliu a cláusula restritiva de que “só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher” e foi dada uma nova ordem por Lulu Santos – “consideramos justa toda forma de amor” - e Marina Lima, em Difícil: “Eu disse não, ela não ouvia / Mandei um sim, logo serviu / Então pensei, ela é bela, por que não com ela?”, onde os termos “louca” e “pouca” (“... alguém lá no início me aplicou / e me fez louca, me fez pouca, me fez o que sou, difícil”) desfaziam possíveis dúvidas a respeito do sexo do personagem declarante.
O “nós duas” do amor outrora censurado de Bárbara (Chico Buarque) escancarou-se, também, em Tola foi você (Ângela Rô Rô, 1979), por meio da comunhão das palavras “tola” e “toda”: “Tola foi você ao me abandonar, desprezando tanto amor que eu tinha a dar / … / Coração aberto, felicidade perto, sou toda amor”.
A libido também andou solta com o grupo Ultraje a Rigor, que, ironizando a censura e a repressão sexual, brincava com ambos os temas: “Ainda bem que eu não tô na TV, senão ia ter que cortar o sexo! Como é que eu fico sem sexo?”. A afirmação "eu gosto de mulher" fazia contraponto a "eu gosto de meninos e meninas"*, do contemporâneo Legião Urbana. Liberdade sexual, em tempos de Camisa de Vênus, em oposição a outro tipo de opressão, não mais política, surgida com a descoberta da AIDS.
É dessa época, também, a primeira música que lembro de ter escutado a incluir palavrões entre seus versos: Faroeste caboclo (Renato Russo), que também inovou em tamanho da letra e duração - mais de nove minutos - e conta uma história que será tema de filme em breve (por falar em filme, Vamos fazer um filme, do mesmo autor, também tinha uma palavrinha até então proibida). Havia outras, do Camisa de Vênus, do Ultraje a Rigor, bandas que colocaram palavrões também em títulos e refrãos de algumas canções, como $#%@!%*#, sem falar nos bichos escrotos dos Titãs.
Mudanças de um período só são possíveis por conta do que vem antes e, nesse aspecto, os anos 80 – fruto de alheamento político, difícil acesso a informação e crise financeira, tempo de liberdade sexual imergente, democracia emergente, liberdade de ideias, cores, cabelos e trajes (se agora temos o restart, ali foi o start) e, ao mesmo tempo, semente de conquistas futuras como as que ora discutimos - só poderiam ter acontecido naquele momento mesmo.
Sem perder sua peculiar rebeldia, mas também sem tanto motivo ou motivação para protestos políticos, a juventude da época apenas redirecionou o espírito contestador para assuntos comportamentais. E toda essa forma controversa de abordar tais assuntos representou mais um traço de liberação e afirmação do que de apelação. Iniciava, ali, a temporada de colheita dos frutos do “é proibido proibir” que, doces ou azedos, puderam ser, enfim, saboreados à vontade.
* Meninos e meninas (Renato Russo / Dado Villa-Lobos / Marcelo Bonfá)
Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?
Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?
Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
No tocante às drogas, por exemplo, a apologia à maconha causou polêmica, ao ganhar vez e voz com a música O mal é o que sai da boca do homem (Pepeu Gomes / Baby Consuelo / Galvão), concorrente do festival MPB 80, da Rede Globo, de versos diretos, algo pouco comum para uma geração acostumada a captar mensagens subliminares, repletas de sutilezas: “Você pode fumar baseado, baseado em que você pode fazer quase tudo / Contanto que você possua, mas não seja possuído”.
Já no âmbito do sexo, o decreto vale-tudo de Tim Maia aboliu a cláusula restritiva de que “só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher” e foi dada uma nova ordem por Lulu Santos – “consideramos justa toda forma de amor” - e Marina Lima, em Difícil: “Eu disse não, ela não ouvia / Mandei um sim, logo serviu / Então pensei, ela é bela, por que não com ela?”, onde os termos “louca” e “pouca” (“... alguém lá no início me aplicou / e me fez louca, me fez pouca, me fez o que sou, difícil”) desfaziam possíveis dúvidas a respeito do sexo do personagem declarante.
O “nós duas” do amor outrora censurado de Bárbara (Chico Buarque) escancarou-se, também, em Tola foi você (Ângela Rô Rô, 1979), por meio da comunhão das palavras “tola” e “toda”: “Tola foi você ao me abandonar, desprezando tanto amor que eu tinha a dar / … / Coração aberto, felicidade perto, sou toda amor”.
A libido também andou solta com o grupo Ultraje a Rigor, que, ironizando a censura e a repressão sexual, brincava com ambos os temas: “Ainda bem que eu não tô na TV, senão ia ter que cortar o sexo! Como é que eu fico sem sexo?”. A afirmação "eu gosto de mulher" fazia contraponto a "eu gosto de meninos e meninas"*, do contemporâneo Legião Urbana. Liberdade sexual, em tempos de Camisa de Vênus, em oposição a outro tipo de opressão, não mais política, surgida com a descoberta da AIDS.
É dessa época, também, a primeira música que lembro de ter escutado a incluir palavrões entre seus versos: Faroeste caboclo (Renato Russo), que também inovou em tamanho da letra e duração - mais de nove minutos - e conta uma história que será tema de filme em breve (por falar em filme, Vamos fazer um filme, do mesmo autor, também tinha uma palavrinha até então proibida). Havia outras, do Camisa de Vênus, do Ultraje a Rigor, bandas que colocaram palavrões também em títulos e refrãos de algumas canções, como $#%@!%*#, sem falar nos bichos escrotos dos Titãs.
Mudanças de um período só são possíveis por conta do que vem antes e, nesse aspecto, os anos 80 – fruto de alheamento político, difícil acesso a informação e crise financeira, tempo de liberdade sexual imergente, democracia emergente, liberdade de ideias, cores, cabelos e trajes (se agora temos o restart, ali foi o start) e, ao mesmo tempo, semente de conquistas futuras como as que ora discutimos - só poderiam ter acontecido naquele momento mesmo.
Sem perder sua peculiar rebeldia, mas também sem tanto motivo ou motivação para protestos políticos, a juventude da época apenas redirecionou o espírito contestador para assuntos comportamentais. E toda essa forma controversa de abordar tais assuntos representou mais um traço de liberação e afirmação do que de apelação. Iniciava, ali, a temporada de colheita dos frutos do “é proibido proibir” que, doces ou azedos, puderam ser, enfim, saboreados à vontade.
* Meninos e meninas (Renato Russo / Dado Villa-Lobos / Marcelo Bonfá)
Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?
Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?
Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
19.4.11
Parabéns, meu rei
Artistas envelhecem (não deveriam). Sobretudo os nossos artistas. Aqueles que nos pareciam eternos, que embalaram nossos sonhos e aflições juvenis. Com quem tínhamos um encontro marcado, todo ano, quando éramos presenteados com os frutos de seus trabalhos, obras que transcenderam limitações de tempo e eternizaram-se. E eles envelhecem em público, despudoradamente, na nossa cara. Suas rugas, cabelos brancos e demais marcas do tempo são todas de domínio público, sem direitos autorais.
A geração de ouro da MPB surgida nos anos 60 está chegando aos 70. Nossa majestade Roberto Carlos é o primeiro da fila e chega a essa idade hoje. Depois dele, vêm Chico Buarque, Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Ney Matogrosso e muitos outros. Pensando bem (amanhã eu vou trabalhar), comparando-os com setentões de duas décadas atrás (Nelson Gonçalves, Carlos Galhardo, Orlando Silva) -, os novos velhos nem parecem ter envelhecido tanto assim. Afinal, a quebra de padrões surgida no final dos anos 50 - mudança de voz, figurino, aparência, estilo de interpretação e musical - fez com que o que veio antes parecesse bem mais antigo aos olhos de quem chegou ao mundo depois.
Não devemos discutir qualidade musical, se “nossas” músicas são melhores, até porque seríamos bastante suspeitos para defendê-las e também porque é legítimo cada geração preferir as suas. Não obstante, a despeito de, hoje em dia, as canções de Roberto e Erasmo Carlos serem vistas por muitos como bregas ou melosas, se pegarmos algum sucesso passado da dupla que faça uso de linguajar próprio da juventude e/ou fale sobre conflitos próprios dessa faixa etária, percebe-se que cairia perfeitamente na voz de alguma banda atual (afinal, o perfil do jovem é atemporal).
É o caso da ousada Quero que vá tudo pro inferno, sucesso estrondoso de 1965, As curvas da estrada de Santos (“... se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo, eu piso mais fundo, corrijo num segundo, não posso parar”) e Sua estupidez, entre tantas outras. Todos estão surdos é outro exemplo de que falar a mesma língua é passo básico para uma boa comunicação. A canção, de mensagem religiosa, retomou o sucesso, duas décadas depois, ao ser regravada por Chico Science & Nação Zumbi.
Nos pós-rebeldes anos 70, já mais “comportado”, Roberto Carlos continuou falando aos jovens, entre uma e outra canção de amor, hoje consideradas “caretas”. Logo no início da década, numa canção que nem é das mais conhecidas, À janela* (1972), falou direto a essa turma, ao tratar do dilema entre sair de casa ou não, muito embora o bom-mocismo da nova fase do rei tenha feito com que, na música, ele optasse pelo não.
Mesmo aqueles que dizem não gostar de RC deparam-se, eventualmente, com seus cantores e grupos preferidos bebendo dessa fonte. Quando a banda Jota Quest regravou Além do horizonte, cerca de duas décadas depois da versão original – a qual causou surpresa pelo uso do termo “frescura” em sua letra (“... bronzear o corpo todo sem censura / gozar a liberdade de uma vida sem frescura”) -, muitos pensaram tratar-se de música nova do grupo.
Tem canções de nossa época que já escutamos tanto que nem imaginamos a possibilidade de alguém não conhecer. Um dia desses, porém, conversei com uma jovem que disse não conhecer nenhuma música do cantor e compositor Lobão. Respondi, com toda certeza e convicção, que ela conhecia, sim e cantarolei logo a mais conhecida dele (Me chama), crente que estava abafando. Qual o quê! A resposta foi a mais absoluta indiferença.
Aproveitando o susto - e tentando refazer-me dele -, logo abordei outros jovens, pedindo que me dissessem alguma música de RC que conhecessem. Foram citadas Calhambeque e 120... 150... 200 km por hora, fora as mais óbvias, mas não menos belas Como é grande o meu amor por você, Detalhes e Emoções. Resultado da enquete, sem margem de erro, para mais, para menos, nem para mais ou menos: artistas envelhecem, músicas não. E algumas são eternas.
* À janela (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
Da janela o horizonte
A liberdade de uma estrada eu posso ver
O meu pensamento voa livre em sonhos
Pra longe de onde estou
Eu às vezes penso até onde essa estrada
Pode levar alguém
Tanta gente já se arrependeu e eu
Eu vou pensar, eu vou pensar
Quantas vezes eu pensei sair de casa
Mas eu desisti
Pois eu sei lá fora eu não teria
O que eu tenho agora aqui
Meu pai me dá conselhos
Minha mãe vive falando sem saber
Que eu tenho meus problemas
E que às vezes só eu posso resolver
Coisas da vida
Choque de opiniões
Coisas da vida
Coisas da vida
Novamente eu penso ir embora
Viver a vida que eu quiser
Caminhar no mundo enfrentando
Qualquer coisa que vier
Penso andar sem rumo
Pelas ruas, pela noite sem pensar
No que vou dizer em casa
Nem satisfações a dar
Penso duas vezes me convenço
Que aqui é o meu lugar
Lá fora às vezes chove
E é quase certo que eu vou querer voltar
A noite é sempre fria
Quando não se tem um teto com amor
E esse amor eu tenho mas me esqueço
Às vezes de lhe dar valor
Coisas da vida
Choque de opiniões
Coisas da vida
Coisas da vida
Tudo tem seu tempo
E uma vida inteira eu tenho pra viver
E nessa vida é necessário a gente
Procurar compreender
Coisas que aborrecem
Muitas vezes acontecem por amor
E esse amor eu tenho esquecido às vezes
De lhe dar valor
2.4.11
Música política brasileira
Algumas amostras de pitadas de tempero político no menu da música brasileira
Por conta da esporadicidade de eleições e da censura aos meios de comunicação no Brasil, após o golpe militar que completou, esta semana, 47 anos, os comícios – eventos, hoje em dia, sem graça e quase extintos, frutos de campanhas políticas mais insossas e menos empolgantes -, tinham, então, alguma graça. Havia uma divisão clara entre os que apoiavam ou não a dita desdita, entre esquerda e direita, o que contribuía para que, partindo da oposição, esses eventos se tornassem, ao mesmo tempo, uma espécie de grito de protesto e um programa de domingo. Era, também, uma época de muita força na música popular brasileira, o que proporcionou uma junção de política com música, cujas afinidades eram visíveis até nas siglas que as representavam, MDB e MPB.
As primeiras eleições diretas para governador durante e logo após o fim da ditadura e a campanha pelas diretas pra presidente renderam memoráveis comícios, com a presença de artistas de peso. Além das músicas de protesto, os programas eleitorais contavam com versões e jingles empolgantes. Em 1986, a campanha de Miguel Arraes para o governo de Pernambuco teve como música de fundo uma versão de Tô voltando, interpretada por Teca Calazans: “Olha nos olhos do povo e vai notando que um brilho novo está voltando...”. E um repente fazia referência ao fato de ele ter sido deposto, por ocasião do golpe militar: “Volta Arraes ao Palácio das Princesas, vai entrar pela porta que saiu”. Emocionante.
No entanto, nem só de jingles e suas mensagens diretas vivia a política de misturar música com política. Uma canção dos anos 70, A tonga da mironga do kabuletê (Vinícius e Toquinho), por exemplo, guarda, até hoje, um certo folclore em torno de sua letra: “... Vou lhe rogar uma praga, eu vou é mandar você pra tonga da mironga do kabuletê”. Correm duas versões a respeito do significado da expressão que a intitula.
Uma das versões diz que não significa nada, trata-se apenas de uma junção aleatória de palavras de origem africana e outra diz tratar-se de um palavrão, que não cabe, aqui, citar e que, na música, teria como alvo o governo militar. Toquinho já disse, em entrevista na qual ratificou a versão do palavrão, que a expressão fora escutada pela então esposa de Vinícius, Gessy, no Mercado Modelo, em Salvador. De um jeito ou de outro, creio que o que menos interessou à dupla foi averiguar a origem ou significado daquilo.
Outra mostra de que o cunho político que envolvia algumas canções era, por vezes, camuflado é Sem fantasia, uma das obras-primas de Chico Buarque, composta para a peça Roda-viva, de sua autoria, com direção de Zé Celso. A peça falava da ascensão e queda de um cantor popular, manipulado e controlado pela indústria cultural, para atender aos gostos do mercado, numa analogia ao regime militar vigente. Lutando contra os efeitos negativos dessa manipulação de sua vida pessoal, o cantor, nessa música, troca confidências e procura redimir-se com a mulher amada. Em cada trecho, um fala ao outro e as duas estrofes, como suas almas gêmeas, seguem em total harmonia, até se encontrarem, ao final da canção.
Por fim, outra história pouco conhecida envolve a canção Companheiro*, composta no inicio dos anos 70, tema de abertura da atual novela das seis da Globo, Araguaia, escolhida entre centenas de candidatas. Mesmo não tendo sido feita para esse fim, sua mensagem de força, esperança e otimismo terminou por transformá-la em um dos “hinos” daqueles que lutaram na guerrilha do Araguaia, alguns deles desaparecidos até hoje. Recentemente, um dos sobreviventes escreveu uma bonita carta para o compositor Tibério Gaspar (Sá Marina, BR-3), confirmando o fato.
Junto a documentos, fotos, depoimentos, reportagens e tudo mais que viabiliza o registro histórico dos acontecimentos, a música é uma das formas mais acessíveis, eficientes e agradáveis de contá-los, a ponto de alguma sempre nos vir à mente, ao lembrarmos de fatos, pessoas, lugares, assuntos ou meras palavras. E é assim que vamos traçando nossa trilha sonora pelos caminhos da vida.
* Companheiro (Naire / Tibério Gaspar)
Vai amigo
Não há perigo que hoje possa assustar
Não se iluda
Que nada muda se você não mudar
Ponha alguma coisa na sacola
Não esqueça a viola
Mas esqueça o que puder
E cante que é bom viver
Rasgue as coisas velhas da lembrança
Seja um pouco de criança
Faça tudo o que quiser
E cante que é bom viver
Por conta da esporadicidade de eleições e da censura aos meios de comunicação no Brasil, após o golpe militar que completou, esta semana, 47 anos, os comícios – eventos, hoje em dia, sem graça e quase extintos, frutos de campanhas políticas mais insossas e menos empolgantes -, tinham, então, alguma graça. Havia uma divisão clara entre os que apoiavam ou não a dita desdita, entre esquerda e direita, o que contribuía para que, partindo da oposição, esses eventos se tornassem, ao mesmo tempo, uma espécie de grito de protesto e um programa de domingo. Era, também, uma época de muita força na música popular brasileira, o que proporcionou uma junção de política com música, cujas afinidades eram visíveis até nas siglas que as representavam, MDB e MPB.
As primeiras eleições diretas para governador durante e logo após o fim da ditadura e a campanha pelas diretas pra presidente renderam memoráveis comícios, com a presença de artistas de peso. Além das músicas de protesto, os programas eleitorais contavam com versões e jingles empolgantes. Em 1986, a campanha de Miguel Arraes para o governo de Pernambuco teve como música de fundo uma versão de Tô voltando, interpretada por Teca Calazans: “Olha nos olhos do povo e vai notando que um brilho novo está voltando...”. E um repente fazia referência ao fato de ele ter sido deposto, por ocasião do golpe militar: “Volta Arraes ao Palácio das Princesas, vai entrar pela porta que saiu”. Emocionante.
No entanto, nem só de jingles e suas mensagens diretas vivia a política de misturar música com política. Uma canção dos anos 70, A tonga da mironga do kabuletê (Vinícius e Toquinho), por exemplo, guarda, até hoje, um certo folclore em torno de sua letra: “... Vou lhe rogar uma praga, eu vou é mandar você pra tonga da mironga do kabuletê”. Correm duas versões a respeito do significado da expressão que a intitula.
Uma das versões diz que não significa nada, trata-se apenas de uma junção aleatória de palavras de origem africana e outra diz tratar-se de um palavrão, que não cabe, aqui, citar e que, na música, teria como alvo o governo militar. Toquinho já disse, em entrevista na qual ratificou a versão do palavrão, que a expressão fora escutada pela então esposa de Vinícius, Gessy, no Mercado Modelo, em Salvador. De um jeito ou de outro, creio que o que menos interessou à dupla foi averiguar a origem ou significado daquilo.
Outra mostra de que o cunho político que envolvia algumas canções era, por vezes, camuflado é Sem fantasia, uma das obras-primas de Chico Buarque, composta para a peça Roda-viva, de sua autoria, com direção de Zé Celso. A peça falava da ascensão e queda de um cantor popular, manipulado e controlado pela indústria cultural, para atender aos gostos do mercado, numa analogia ao regime militar vigente. Lutando contra os efeitos negativos dessa manipulação de sua vida pessoal, o cantor, nessa música, troca confidências e procura redimir-se com a mulher amada. Em cada trecho, um fala ao outro e as duas estrofes, como suas almas gêmeas, seguem em total harmonia, até se encontrarem, ao final da canção.
Por fim, outra história pouco conhecida envolve a canção Companheiro*, composta no inicio dos anos 70, tema de abertura da atual novela das seis da Globo, Araguaia, escolhida entre centenas de candidatas. Mesmo não tendo sido feita para esse fim, sua mensagem de força, esperança e otimismo terminou por transformá-la em um dos “hinos” daqueles que lutaram na guerrilha do Araguaia, alguns deles desaparecidos até hoje. Recentemente, um dos sobreviventes escreveu uma bonita carta para o compositor Tibério Gaspar (Sá Marina, BR-3), confirmando o fato.
Junto a documentos, fotos, depoimentos, reportagens e tudo mais que viabiliza o registro histórico dos acontecimentos, a música é uma das formas mais acessíveis, eficientes e agradáveis de contá-los, a ponto de alguma sempre nos vir à mente, ao lembrarmos de fatos, pessoas, lugares, assuntos ou meras palavras. E é assim que vamos traçando nossa trilha sonora pelos caminhos da vida.
* Companheiro (Naire / Tibério Gaspar)
Vai amigo
Não há perigo que hoje possa assustar
Não se iluda
Que nada muda se você não mudar
Ponha alguma coisa na sacola
Não esqueça a viola
Mas esqueça o que puder
E cante que é bom viver
Rasgue as coisas velhas da lembrança
Seja um pouco de criança
Faça tudo o que quiser
E cante que é bom viver
21.3.11
Músicas de hoje
Hoje é período de tempo curto, mas, ao mesmo tempo, bastante presente em nossa vida, sobre o qual cabe gastarmos o tempo de hoje discorrendo. É o tempo em que tudo, de fato, acontece, é quando sentimos, vivemos. E como a música, ou a arte em geral, é uma forma de comunicação e expressão de sentimentos, é natural que muitas canções falem do hoje, seja em sentido amplo ou estrito, ressaltando seus aspectos positivos ou negativos, indo do sonho (“Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito que eu sonhei em toda a minha vida”) ao pesadelo (“Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo”, “Hoje eu sonhei contigo e caí da cama”), em alguns acordes.
Algumas dessas músicas descrevem sensações de solidão (“Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia”, “Hoje é o dia, eu quase posso tocar o silêncio”, “Hoje contei pras paredes coisas do meu coração”). Outras traduzem sentimentos associados à ausência, falta ou perda de algo, seja do tempo passado (“Hoje os meus domingos são doces recordações / daquelas tardes de guitarras, sonhos e emoções”), pessoa (“Hoje o samba saiu procurando você”, “... E hoje ninguém mais fala do seu bandolim. Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim”) ou lugar (“Hoje eu mando um abraço pra ti, pequenina”, onde pequenina faz referência à Paraíba).
Abro um parêntese para comentar uma dúvida que me veio à memória, ao reproduzir, no parágrafo anterior, os versos de Quem te viu, quem te vê, de Chico Buarque: o samba saiu (e estava procurando você) ou ele “saiu procurando” (você)? A dúvida adveio do fato de não haver vírgula na letra oficial (que nem estou certo se caberia, no primeiro caso). Mesmo sem ela, sempre imaginei a primeira concepção como a correta, talvez sugestionado pela pausa melódica associada a este trecho, entre “saiu” e “procurando”, sempre preenchida por um laralaiá (ou mesmo pelo final, que diz apenas: “hoje o samba saiu”).
Outro belo e triste samba (Fazer o quê? Pra alegria de nossos ouvidos, desde que o samba é samba, a tristeza é senhora, como diz Caetano) a evocar, no hoje, o tempo passado é Quantas lágrimas (“Mas hoje em dia eu não tenho mais a alegria dos tempos atrás”), gravado por Cristina Buarque, nos anos 70. Já em Asa Branca, o personagem lamenta, ao mesmo tempo, a falta da chuva e do sertão (“Hoje longe, muitas léguas, numa triste solidão, espero a chuva cair de novo, pra mim voltar pro meu sertão”) e ainda da pessoa amada, Rosinha, a quem recomenda: “guarda contigo meu coração”.
Para dias difíceis, em que nada parece funcionar e o hoje parece interminável, sempre tivemos à mão trilha sonora de primeira, seja em assuntos políticos - “Nos dias de hoje, é bom que se proteja”, “Hoje você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão” - ou existenciais - “Hoje trago em meu corpo as marcas do meu tempo”, “Eu que tinha tudo, hoje estou mudo, estou mudado”, “Hoje não colho mais as flores de maio”, “Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito”, “Hoje só acredito no pulsar das minhas veias”, “Hoje a noite não tem luar”, “Hoje não ligo a tv nem mesmo pra ver o Jô”. Mas nada como um dia após o outro...
Por meio de canções que renovam as esperanças, trazem paz de espírito ou mostram o hoje como prenúncio de um amanhã melhor, também estamos bem servidos musicalmente: “Hoje a poesia veio ao meu encontro”, “Hoje só tua presença vai me deixar feliz”, “Hoje nasceu novo sol no meu peito”, “Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe”, “Hoje é festa lá no meu apê, pode aparecer”, “Hoje eu quero que as buzinas toquem flauta-doce”, “Hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado”, “Hoje eu quero a paz de criança dormindo”, “Hoje eu só quero que o dia termine bem”, “É hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar”.
Em se tratando de paz de espírito, por sinal, meu xará da viola descreveu muito bem esse tipo de momento, agradável pela simplicidade e, ao mesmo tempo, responsável por proporcionar uma alegria que se quer eternizar, que faz esquecer certas dores por um instante: “Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos, para ver as meninas e nada mais nos braços” *. A música fala, justamente, desses fragmentos de tempo efêmeros, mas suficientes para melhorarem nossas vidas. Momento finito a sugerir um samba sobre o infinito, do tamanho do amor literalmente perdido (“eu não me lembro mais quem me deixou assim”), reencontrado, de outra forma, numa pausa de mil compassos. Por hoje é só.
Excertos de letras das canções: A guerra dos meninos (Roberto Carlos / Erasmo Carlos), Poema (Cazuza / Frejat), Não sonho mais (Chico Buarque), Sempre não é todo dia (Oswaldo Montenegro / Mongol), Tudo que vai (Dado Villa-Lobos / Alvin L. / Tony Platão), Amor I love you (Marisa Monte / Carlinhos Brown), Jovens tardes de Domingo (Roberto Carlos / Erasmo Carlos), Quem te viu quem te vê (Chico Buarque), Naquela mesa (Sérgio Bittencourt), Paraíba (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira), Quantas lágrimas (Manacéia), Asa branca (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira), Cartomante (Ivan Lins / Vítor Martins), Apesar de você (Chico Buarque), Hoje (Taiguara), Meu mundo e nada mais (Guilherme Arantes), Sapato velho (Mú Carvalho / Cláudio Nucci / Paulinho Tapajós), Samba do grande amor (Chico Buarque), Noturno (Graco / Caio Sílvio), Hoje a noite não tem luar (versão: Carlos Colla), Nuvem negra (Djavan), Viagem (Paulo César Pinheiro / João de Aquino), Só hoje (Rogério Flausino / Fernanda Mello), Êxtase (Guilherme Arantes), Tocando em frente (Almir Satter / Renato Teixeira), Festa no apê (versão: Gessé Filho), Sem mandamentos (Oswaldo Montenegro), Telegrama (Zeca Baleiro), A noite do meu bem (Dolores Duran), Simples desejo (Jair Oliveira / Daniel Carlomagno), É hoje (Didi / Mestrinho), Para ver as meninas (Paulinho da Viola).
* Para ver as meninas (Paulinho da Viola)
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Marisa Monte - Para ver as meninas
Algumas dessas músicas descrevem sensações de solidão (“Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia”, “Hoje é o dia, eu quase posso tocar o silêncio”, “Hoje contei pras paredes coisas do meu coração”). Outras traduzem sentimentos associados à ausência, falta ou perda de algo, seja do tempo passado (“Hoje os meus domingos são doces recordações / daquelas tardes de guitarras, sonhos e emoções”), pessoa (“Hoje o samba saiu procurando você”, “... E hoje ninguém mais fala do seu bandolim. Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim”) ou lugar (“Hoje eu mando um abraço pra ti, pequenina”, onde pequenina faz referência à Paraíba).
Abro um parêntese para comentar uma dúvida que me veio à memória, ao reproduzir, no parágrafo anterior, os versos de Quem te viu, quem te vê, de Chico Buarque: o samba saiu (e estava procurando você) ou ele “saiu procurando” (você)? A dúvida adveio do fato de não haver vírgula na letra oficial (que nem estou certo se caberia, no primeiro caso). Mesmo sem ela, sempre imaginei a primeira concepção como a correta, talvez sugestionado pela pausa melódica associada a este trecho, entre “saiu” e “procurando”, sempre preenchida por um laralaiá (ou mesmo pelo final, que diz apenas: “hoje o samba saiu”).
Outro belo e triste samba (Fazer o quê? Pra alegria de nossos ouvidos, desde que o samba é samba, a tristeza é senhora, como diz Caetano) a evocar, no hoje, o tempo passado é Quantas lágrimas (“Mas hoje em dia eu não tenho mais a alegria dos tempos atrás”), gravado por Cristina Buarque, nos anos 70. Já em Asa Branca, o personagem lamenta, ao mesmo tempo, a falta da chuva e do sertão (“Hoje longe, muitas léguas, numa triste solidão, espero a chuva cair de novo, pra mim voltar pro meu sertão”) e ainda da pessoa amada, Rosinha, a quem recomenda: “guarda contigo meu coração”.
Para dias difíceis, em que nada parece funcionar e o hoje parece interminável, sempre tivemos à mão trilha sonora de primeira, seja em assuntos políticos - “Nos dias de hoje, é bom que se proteja”, “Hoje você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão” - ou existenciais - “Hoje trago em meu corpo as marcas do meu tempo”, “Eu que tinha tudo, hoje estou mudo, estou mudado”, “Hoje não colho mais as flores de maio”, “Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito”, “Hoje só acredito no pulsar das minhas veias”, “Hoje a noite não tem luar”, “Hoje não ligo a tv nem mesmo pra ver o Jô”. Mas nada como um dia após o outro...
Por meio de canções que renovam as esperanças, trazem paz de espírito ou mostram o hoje como prenúncio de um amanhã melhor, também estamos bem servidos musicalmente: “Hoje a poesia veio ao meu encontro”, “Hoje só tua presença vai me deixar feliz”, “Hoje nasceu novo sol no meu peito”, “Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe”, “Hoje é festa lá no meu apê, pode aparecer”, “Hoje eu quero que as buzinas toquem flauta-doce”, “Hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado”, “Hoje eu quero a paz de criança dormindo”, “Hoje eu só quero que o dia termine bem”, “É hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar”.
Em se tratando de paz de espírito, por sinal, meu xará da viola descreveu muito bem esse tipo de momento, agradável pela simplicidade e, ao mesmo tempo, responsável por proporcionar uma alegria que se quer eternizar, que faz esquecer certas dores por um instante: “Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos, para ver as meninas e nada mais nos braços” *. A música fala, justamente, desses fragmentos de tempo efêmeros, mas suficientes para melhorarem nossas vidas. Momento finito a sugerir um samba sobre o infinito, do tamanho do amor literalmente perdido (“eu não me lembro mais quem me deixou assim”), reencontrado, de outra forma, numa pausa de mil compassos. Por hoje é só.
Excertos de letras das canções: A guerra dos meninos (Roberto Carlos / Erasmo Carlos), Poema (Cazuza / Frejat), Não sonho mais (Chico Buarque), Sempre não é todo dia (Oswaldo Montenegro / Mongol), Tudo que vai (Dado Villa-Lobos / Alvin L. / Tony Platão), Amor I love you (Marisa Monte / Carlinhos Brown), Jovens tardes de Domingo (Roberto Carlos / Erasmo Carlos), Quem te viu quem te vê (Chico Buarque), Naquela mesa (Sérgio Bittencourt), Paraíba (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira), Quantas lágrimas (Manacéia), Asa branca (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira), Cartomante (Ivan Lins / Vítor Martins), Apesar de você (Chico Buarque), Hoje (Taiguara), Meu mundo e nada mais (Guilherme Arantes), Sapato velho (Mú Carvalho / Cláudio Nucci / Paulinho Tapajós), Samba do grande amor (Chico Buarque), Noturno (Graco / Caio Sílvio), Hoje a noite não tem luar (versão: Carlos Colla), Nuvem negra (Djavan), Viagem (Paulo César Pinheiro / João de Aquino), Só hoje (Rogério Flausino / Fernanda Mello), Êxtase (Guilherme Arantes), Tocando em frente (Almir Satter / Renato Teixeira), Festa no apê (versão: Gessé Filho), Sem mandamentos (Oswaldo Montenegro), Telegrama (Zeca Baleiro), A noite do meu bem (Dolores Duran), Simples desejo (Jair Oliveira / Daniel Carlomagno), É hoje (Didi / Mestrinho), Para ver as meninas (Paulinho da Viola).
* Para ver as meninas (Paulinho da Viola)
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Marisa Monte - Para ver as meninas
17.2.11
Orações descoordenadas e insubordinadas para todos os períodos – terceira edição
(Não se preocupe, isso passa, é só uma frase)
"A permanência de Mubarak no Egito poderia custar Cairo."
"Aprenda inglês voando. Primeira lição: 'The overbook is on the table'."
"Paradoxo: em tempos de regime ditatorial em busca de um corpo perfeito, vivemos em coma induzido: 'coma... coma... coma... coma... coma...'"
"Não sei o que ler. Não sei o que li. Não sei o que lá. Apenas lerei, pois ler é a lei. Não me livro do livro."
"Conviver: arte de transformar eu em nós e nós em laços."
"Música é algo que toca."
"Versado em prosa, prosaico em verso e vice-versa. Depende do contexto. Ou da conversa."
"Oxítona, paroxítona, proparoxítona, não importa. É tudo proparoxítona."
"Promissória é dívida. Promessa é dúvida. Mas pode ser dádiva."
"Se beber, não digira. Se bebê, não dirija."
"Não é incomum nome próprio ser comum nem nome comum ser impróprio."
"Do meu pai herdei a letra, da minha mãe, a melodia e a canção em que me fiz é nota triste, sem harmonia."
"Tem hora pra orar? Ora, enquanto o crente ora ora, ora não, o ateu não ora hora nenhuma."
"Sem rumo, no percurso solitário pelas ruas da vida, um pensamento me conduz por piedade: conselheiro a guiar é caminho que leva a boa viagem."
"Tira-gosto não se discute."
"A nossos analistas (que pouco falam, que não me ouçam): quem paga pelo silêncio de outro ou tem culpa no cartório ou no divã."
"Contei as perdas, perdi a conta. Conte comigo, pedi por conta."
"Meu alter ego não é egoísta. Segundo ele, primeiro eu, segundo ele."
"O homo sapiens saiu da caverna há bastante tempo, mas o hetero continua com um preconceito da idade da pedra."
"Os números falam por si, exceto os irracionais. Esses não contam."
"Quem dá ouvido a intrigas é testemunha auricular de que, nesses casos, é melhor olvidar o ouvido."
"Fique de OLHO no que chega a seus OUVIDOS, VISTO que pode ser uma ideia BRILHANTE."
"Carnaval, pra mim, é sagrado: os de dentro mãozinhas ao céu, os de fora ao deus-dará e no meio o cordeiro, que es(x)pia os pecados do mundo."
"Revelação de que os EUA infectaram com doenças sexualmente transmissíveis, às escondidas, 1500 cidadãos da Guatemala comprova: EUA têm mala."
"Complexo de alemão é nazismo, praticado por policias truculentos, que juntam inocentes e culpados, como alemães juntam palavras."
"O papa não costuma vestir a camisinha do bom senso."
"Todo mundo tem seus próprios 'wikileaks'. O meu é que Cristina Kirchner é uma viúva charmosa."
"Quanto à diplomacia, Assange WikiLeaks foi preso por expor os documentos. Mas ao desnudar a americana ou ao não usar camisinha com a sueca?"
"Loucura, política salarial vira congresso de cabeça pra baixo: o teto virou piso!"
"Seguindo conselho da antecessora Marta Suplicy, futuro ministro do turismo sexual relaxou e gozou, em motel maranhense, com recursos púbicos."
"A permanência de Mubarak no Egito poderia custar Cairo."
"Aprenda inglês voando. Primeira lição: 'The overbook is on the table'."
"Paradoxo: em tempos de regime ditatorial em busca de um corpo perfeito, vivemos em coma induzido: 'coma... coma... coma... coma... coma...'"
"Não sei o que ler. Não sei o que li. Não sei o que lá. Apenas lerei, pois ler é a lei. Não me livro do livro."
"Conviver: arte de transformar eu em nós e nós em laços."
"Música é algo que toca."
"Versado em prosa, prosaico em verso e vice-versa. Depende do contexto. Ou da conversa."
"Oxítona, paroxítona, proparoxítona, não importa. É tudo proparoxítona."
"Promissória é dívida. Promessa é dúvida. Mas pode ser dádiva."
"Se beber, não digira. Se bebê, não dirija."
"Não é incomum nome próprio ser comum nem nome comum ser impróprio."
"Do meu pai herdei a letra, da minha mãe, a melodia e a canção em que me fiz é nota triste, sem harmonia."
"Tem hora pra orar? Ora, enquanto o crente ora ora, ora não, o ateu não ora hora nenhuma."
"Sem rumo, no percurso solitário pelas ruas da vida, um pensamento me conduz por piedade: conselheiro a guiar é caminho que leva a boa viagem."
"Tira-gosto não se discute."
"A nossos analistas (que pouco falam, que não me ouçam): quem paga pelo silêncio de outro ou tem culpa no cartório ou no divã."
"Contei as perdas, perdi a conta. Conte comigo, pedi por conta."
"Meu alter ego não é egoísta. Segundo ele, primeiro eu, segundo ele."
"O homo sapiens saiu da caverna há bastante tempo, mas o hetero continua com um preconceito da idade da pedra."
"Os números falam por si, exceto os irracionais. Esses não contam."
"Quem dá ouvido a intrigas é testemunha auricular de que, nesses casos, é melhor olvidar o ouvido."
"Fique de OLHO no que chega a seus OUVIDOS, VISTO que pode ser uma ideia BRILHANTE."
"Carnaval, pra mim, é sagrado: os de dentro mãozinhas ao céu, os de fora ao deus-dará e no meio o cordeiro, que es(x)pia os pecados do mundo."
"Revelação de que os EUA infectaram com doenças sexualmente transmissíveis, às escondidas, 1500 cidadãos da Guatemala comprova: EUA têm mala."
"Complexo de alemão é nazismo, praticado por policias truculentos, que juntam inocentes e culpados, como alemães juntam palavras."
"O papa não costuma vestir a camisinha do bom senso."
"Todo mundo tem seus próprios 'wikileaks'. O meu é que Cristina Kirchner é uma viúva charmosa."
"Quanto à diplomacia, Assange WikiLeaks foi preso por expor os documentos. Mas ao desnudar a americana ou ao não usar camisinha com a sueca?"
"Loucura, política salarial vira congresso de cabeça pra baixo: o teto virou piso!"
"Seguindo conselho da antecessora Marta Suplicy, futuro ministro do turismo sexual relaxou e gozou, em motel maranhense, com recursos púbicos."
29.1.11
Os melhores discos dos últimos tempos da última década
Coroada com a histórica eleição de nossa primeira presidenta e com a escolha de Ana Hollanda, irmã de Chico Buarque, pra ministra da cultura, entre outras mulheres, a primeira década do século XXI parece ter sido essencialmente feminina, também, na música.Sem esforço, lembramos de várias cantoras que despontaram nesse período, como Ana Carolina, Teresa Cristina, Maria Rita, Mônica Salmaso, Vanessa da Mata, Luíza Possi, Céu, Ceumar, Mart'nália, Roberta Sá, Fernanda Takai (versão solo), Ana Cañas, Maria Gadú (mais: Pitty, Cláudia Leitte, Mallu Magalhães). Não abrindo nem fechando parênteses, gosto de quase todas. Já os nomes masculinos na mídia foram poucos (Vander Lee, a turma da Trama) e mais restritos a grupos de rock: Detonautas, NX Zero, CPM 22.
Seguindo a linha de sucesso editorial do momento, dos n livros, discos ou filmes que você deve ler, ouvir ou assistir antes de morrer (título engraçado, parece até que as obras são tão ruins, que você morrerá ao escutá-las), proponho, então, a lista dos dez discos da última década que você deve escutar antes de morrer, ou ainda, inspirado nos Titãs, a lista dos melhores discos dos últimos tempos da última década.
Considerando apenas discos de inéditas, em minha lista, talvez conservadora, certamente incompleta e sem pretensões de ser definitiva, onde, curiosamente, faltam os tais nomes da última década (não por falta de novos talentos - evoé jovens à vista -, mas pela qualidade dos anteriores), certamente entrariam, necessariamente nessa desordem: Pelo sabor do gesto (Zélia Duncan), Porque não tínhamos bicicleta (Flávio Venturini), Tudo novo de novo (Paulinho Moska), Qualquer (Arnaldo Antunes), Qual o assunto que mais lhe interessa (Elba Ramalho), Pietá (Milton Nascimento), Cê (Caetano Veloso), Carioca (Chico Buarque), Ventura (Los Hermanos) e Infinito particular (Marisa Monte).
No melhor estilo Chico, Carioca traz versos como: “Dura a vida alguns instantes, porém mais do que o bastante, quando cada instante é sempre”, “Ela faz cinema, ela é assim, nunca será de ninguém, porém eu não sei viver sem e FIM” e “O sol ensolarará a estrada dela”, onde a conjugação verbal entoa um larará gostoso. Chico, que já fizera música pra Deus e o mundo, fez, dessa vez, pra um filho de Deus, em suas palavras. Interessante que, para compor Ode aos ratos, ele consultou o amigo Paulo Vanzolini, sobre a veracidade de os ratos terem o nariz frio (Vanzolini, compositor de Ronda e Volta por cima, além de músico, é zoólogo, formado em medicina) e recebeu como resposta, em referência a suas canções: “Você mente tanto pra mulher, minta pra rato, também”.
Pelo sabor do gesto, de Zélia Duncan, é um esmerado trabalho, do projeto gráfico às composições, que reúne parcerias da cantora com alguns de seus contemporâneos, como Chico César, Moska, Zeca Baleiro, John Ulhoa (Pato Fu) e com novos compositores, como Marcelo Jeneci, co-autor de Todos os verbos que, no show, vem acompanhada de história tão bonita quanto a música. A faixa-título, versão de canção do musical francês Les chansons d'amour, fala do amor expresso em sua forma mais pura, que carece de palavras e revela-se, delicadamente, em gestos: “Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto / Te empresto da maçã, vai junto o coração / Esquece o que eu não fiz / Te sirvo o bom da festa / De um jeito mais feliz”. E ainda tem regravação de Ambição, de Rita Lee.
Porque não tínhamos bicicleta, de Flávio Venturini, não precisaria mais do que uma faixa para estar na lista: Céu de Santo Amaro *, que tem como melodia uma composição de Johann Sebastian Bach. A música já havia recebido letra (If you could remember), em canção gravada pelo cantor Jessé que, nos anos 70, seguindo tendência da época, ainda cantava em inglês, usando o nome artístico Tony Stevens. O interessante, ao compararmos as duas versões, If you could remember e Céu de Santo Amaro, é que, por não ser uma delas versão da outra – caso em que se costuma manter a mesma disposição das sílabas dentro do compasso da melodia -, mas sim duas letras construídas em cima de uma mesma música instrumental, não é tão clara essa percepção de tratar-se da mesma melodia.
Venturini, que talvez nem saiba dessa outra versão, escreveu a sua na cidade de Santo Amaro da Purificação (BA), após escutar, em festa local, a interpretação de um violonista espanhol para a música de Bach, “numa bela noite de lua de janeiro”, como afirma em seu site oficial. Para completar o encanto de tão sublimes letra, música e arranjo, Venturini convidou Caetano Veloso, filho da terra e dono de uma das mais belas vozes brasileiras, para dividir com ele os vocais, na gravação para o disco. Estava pronta uma das melhores canções da década, que Maria Bethânia, em seu show Tempo, Tempo, Tempo, Tempo (2005), casou perfeitamente com Soneto de Fidelidade (Vinícius de Moraes), sem nenhuma pena de nós. ** E vocês, que discos ou músicas escolheriam?
* Céu de Santo Amaro (J. S. Bach / Adaptação - letra e arranjo: Flávio Venturini)
Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu
Com ela veio a paz
Toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você
Meu amor vou lhe dizer
Quero você com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração
Só quer bater por ti
E eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
A força desse amor nos invadiu
Então, veio a certeza de amar você
**
14.1.11
Fico com o disco do Pixinguinha, sim!
Ao pensar sobre a música da década passada, a primeira lembrança que me vem à mente é a mudança pela qual passou o modo como a consumimos, partindo da mídia física para o arquivo digital. Se música é alimento, antes o prato já vinha pronto. A receita era juntar dez ou doze itens, embalar e colocar à venda. Agora, os ingredientes musicais precisam ser selecionados por nós, consumidores e, diante disso, a geração que já era mais madura no início dos anos 00, acostumada a ter comida na boquinha durante sua formação musical, vive, hoje, meio à deriva, nesses mares nunca dantes navegados, tendo que correr atrás.
A época em que mais se consome e absorve informações, ou pelo menos quando se está mais aberto a absorvê-las, é durante a juventude e uma mudança no modelo de reprodução musical ocorrida ainda nessa fase da vida é sempre melhor assimilada do que na maturidade. E ainda que essa geração a que me refiro - e à qual pertenço - também já tenha vivenciado alguma mudança, ela ocorreu apenas na embalagem do produto (de LP para CD), não na forma de entrega.
Analisando de forma simplista as duas transformações, primeiro o disco diminuiu de tamanho e perdeu o lado B, depois se desintegrou em objetos virtuais não identificados, soltos no ar, como discos voadores, sem arte-final, capa ou encarte e mesmo sem ficha técnica, muitas vezes. Trocando em miúdos, a revolução atual foi mais crítica (mas fico com o disco do Pixinguinha).
A era de ouro do CD foi a década de 90 (assim como o boom da internet, década importante essa). Lembro minha primeira refeição nesse formato, que recebi como presente de amigo-secreto, no natal de 1993: O canto da cidade, Daniela Mercury (era auge, também, da axé music). Até então, o que mais se aproximava do hábito de copiar ou baixar músicas era ficar com um gravador a postos e esperar a canção desejada tocar em nossa rádio preferida, para então apertar a tecla REC do aparelho. Missão árdua a exigir alerta máximo, é fácil imaginar por que hoje eu escolheria, como fundo musical ideal para a ocasião, Ana Carolina: “a canção tocou na hora errada...”. Sem falar que, muitas vezes, o locutor falava antes de a canção terminar, colocando todo o trabalho a perder.
Se a facilidade de reprodução de CD’s fez crescer a pirataria, o surgimento do MP3, a popularização da internet e seus downloads acabaram de decretar o declínio dessa mídia (agora, cantores ganham dinheiro mesmo é com shows, o que talvez explique o fato de artistas estrangeiros, cada vez mais, virem aportando em nosso país, em cidades fora do eixo Rio-São Paulo). Como resultado, vimos lojas de discos tradicionais calarem a voz, como a Vivace (Recife) e, no último dia do ano passado, a Modern Sound (Rio de Janeiro). Hoje, os locais que ainda resistem são, em sua maioria, aqueles não exclusivamente voltados ao comércio de CD's - grandes livrarias, lojas de departamento e supermercados - ou de público específico.
Assim como os discos, o mundo gira e sobretudo quem tem parentes adolescentes percebe que, ao menos para esse público, o fim do CD já é realidade, está na agulha. Quanto aos mais velhos, estes devem continuar consumindo discos que, com o passar do tempo, devem virar objeto de colecionadores, saudosistas e aficionados, como acontece com os LP's, hoje em dia, que continuam sendo lançados e têm público cativo. É o ciclo da vida. Se antes precisávamos de um cômodo da casa para dispor todos os nossos livros e discos, hoje eles cabem na palma da nossa mão. Trocamos o cômodo pela comodidade: a tecnologia atual coloca a antiga no bolso (mas ainda fico com o disco do Pixinguinha).
Com a pulverização da música proporcionada pela internet, o acesso a novas canções tornou-se, ao mesmo tempo, fácil e difícil. Fácil porque, em vez de depender apenas de programações de rádio e tv como aperitivo para escutá-las, conhecê-las, saboreá-las, antes de partir para o prato principal, à la carte - o CD -, passou-se a contar com o grande, democrático e sortido self-service da internet, com infinitas opções para abrir o apetite, que dispensam sugestões do chef e jabás. Difícil pelo mesmo motivo: sem o outrora prato principal, não se faz uma refeição completa, belisca-se uma coisinha aqui e outra ali, apenas.
Embora ainda desafeito a esse novo modus vivendi, reconheço que, independentemente do formato (e do disco do Pixinguinha), a essência disso tudo - a música - permanecerá e, para apreciá-la, sempre precisaremos apenas dos ouvidos. Mas mudando o disco, eu ia falar da música da década passada. Fica pra próxima (vez, não década).
1.12.10
Nossa imagem na tela grande
"Minha relação com a morte continua a mesma: sou radicalmente contra" (Woody Allen)
Neurose, designação genérica para os males da psique humana, é uma espécie de virose da cabeça, contra a qual o organismo deve reagir com pensamentos e ideias alternativas, os anticorpos da alma. Dando uma de psicólogo (e várias de neurótico), creio que um dos métodos eficazes de cura desses males é ver-se no espelho; é, paradoxalmente, saltar fora de si para, enfim, poder enxergar-se por dentro, em seus recantos mais íntimos; é fazer-se desindivíduo, para poder entender, aceitar, questionar suas individualidades. Nesses atos, ninguém representa papel mais importante que a arte, seja ela a quinta, a sexta ou a sétima.
E é da sétima que vem um dos melhores criadores de arte como imitação da vida. O cineasta nova-iorquino Woody Allen que, em cerca de quatro décadas, dirigiu dezenas de filmes e atuou em vários deles. Uma produtividade compulsiva, quase neurótica, de periodicidade praticamente anual (vem aí, em 2011, Midnight in Paris).
O mais importante em seus filmes são os diálogos, o uso da palavra. A imagem, o enredo, a história, o roteiro do filme assumem papel coadjuvante (a palavra como texto e todo o resto como pretexto). Assim, ele se permite encenar, de forma inteligente e criativa, as situações mais esdrúxulas e improváveis, tudo em prol da palavra, ator principal. Talvez por isso, ele consiga transitar tão bem entre filmes policiais, romances e comédias de costumes, ou ainda, misturar esses temas e assuntos tão diversos com maestria. Em Melinda e Melinda (2004), ele até brinca com isso, transportando essa sua habilidade para os personagens do filme, quatro amigos que discutem um desenrolar dramático e outro cômico para um enredo inicial proposto por um deles.
Como também brinca em O escorpião de Jade (2001), muito bom, em que o personagem principal é hipnotizado ao escutar certa palavra (Madagascar) e volta ao estado normal ao escutar outra (Constantinopla). Artifício curioso e simbologia perfeita, em se tratando de um cineasta que nos prende e hipnotiza simplesmente com a palavra, aquilo que tanto preza.
Seu dom de transformar simples situações e diálogos em cenas antológicas, as quais sempre nos levam a reflexões com leveza e inteligência, explica, também, como ele consegue se manter em destaque e agradar por tantos anos ininterruptos. Em Match point (2005), a partir de uma cena inicial digna de gênio - e que retorna, redonda, noutra parte do filme -, Woody Allen faz analogia entre o destino e uma bola de tênis que, ao tocar na rede, pode cair pra um ou outro lado, mudando o rumo do jogo. Já no recente e interessante Tudo pode dar certo (2009), ele conta a história de um senhor pedante e convencido, com complexo de superioridade e, por conseguinte, sem nenhuma paciência para a “mediocridade” de seus (des)semelhantes.
Tudo é permitido em sua imaginação sem limites, que cria situações interessantes, como em A rosa púrpura do Cairo (1985), o primeiro a que assisti, em que o personagem de um filme romântico sai da tela do cinema pra viver uma história de amor com uma moça solitária, que assistia inúmeras vezes a esse filme. Ou em Édipo arrasado, um dos Contos de Nova York (1989), em que a figura materna assume magistral representação, assumindo as proporções que possui aos olhos do filho, que passa a vê-la, onipresente, nos céus da cidade, a expor toda sua vida íntima.
Seus personagens expõem, de várias e criativas formas, nossos defeitos, neuroses, excentricidades e idiossincrasias. E quando quem representa o papel é ele próprio, o resultado torna-se ainda mais eficaz, dada a sua perfeita caracterização do ser neurótico. Como em Noivo neurótico, noiva nervosa (1977) – seu filme mais premiado - e Zelig (1983). Não sei se de médico, talvez de louco, mas certamente de Zelig todo mundo tem um pouco. Também como ator, em Scoop – o grande furo (2007), está divertidíssimo no papel de um mágico que, em uma de suas divertidas autoanálises, atribui à extrema ansiedade o fato de não engordar.
Por esses dias, o cineasta vem sendo lembrado por dois motivos. O primeiro é seu mais novo filme, Você vai conhecer o homem de seus sonhos, que nos faz refletir sobre a ideia de que a ilusão é melhor do que qualquer remédio e cuja ironia começa do título, que tanto pode representar um ser vivo do sexo masculino, como a figura da morte, o que fica mais claro no título original em inglês (You will meet a tall dark stranger). O segundo motivo é seu aniversário de 75 anos, a ser comemorado hoje, 1º de dezembro. Acontecimentos que eu, neurótico e simpático a efemérides, não poderia deixar de reverenciar. Woody Allen explica.
Neurose, designação genérica para os males da psique humana, é uma espécie de virose da cabeça, contra a qual o organismo deve reagir com pensamentos e ideias alternativas, os anticorpos da alma. Dando uma de psicólogo (e várias de neurótico), creio que um dos métodos eficazes de cura desses males é ver-se no espelho; é, paradoxalmente, saltar fora de si para, enfim, poder enxergar-se por dentro, em seus recantos mais íntimos; é fazer-se desindivíduo, para poder entender, aceitar, questionar suas individualidades. Nesses atos, ninguém representa papel mais importante que a arte, seja ela a quinta, a sexta ou a sétima.
E é da sétima que vem um dos melhores criadores de arte como imitação da vida. O cineasta nova-iorquino Woody Allen que, em cerca de quatro décadas, dirigiu dezenas de filmes e atuou em vários deles. Uma produtividade compulsiva, quase neurótica, de periodicidade praticamente anual (vem aí, em 2011, Midnight in Paris).
O mais importante em seus filmes são os diálogos, o uso da palavra. A imagem, o enredo, a história, o roteiro do filme assumem papel coadjuvante (a palavra como texto e todo o resto como pretexto). Assim, ele se permite encenar, de forma inteligente e criativa, as situações mais esdrúxulas e improváveis, tudo em prol da palavra, ator principal. Talvez por isso, ele consiga transitar tão bem entre filmes policiais, romances e comédias de costumes, ou ainda, misturar esses temas e assuntos tão diversos com maestria. Em Melinda e Melinda (2004), ele até brinca com isso, transportando essa sua habilidade para os personagens do filme, quatro amigos que discutem um desenrolar dramático e outro cômico para um enredo inicial proposto por um deles.
Como também brinca em O escorpião de Jade (2001), muito bom, em que o personagem principal é hipnotizado ao escutar certa palavra (Madagascar) e volta ao estado normal ao escutar outra (Constantinopla). Artifício curioso e simbologia perfeita, em se tratando de um cineasta que nos prende e hipnotiza simplesmente com a palavra, aquilo que tanto preza.
Seu dom de transformar simples situações e diálogos em cenas antológicas, as quais sempre nos levam a reflexões com leveza e inteligência, explica, também, como ele consegue se manter em destaque e agradar por tantos anos ininterruptos. Em Match point (2005), a partir de uma cena inicial digna de gênio - e que retorna, redonda, noutra parte do filme -, Woody Allen faz analogia entre o destino e uma bola de tênis que, ao tocar na rede, pode cair pra um ou outro lado, mudando o rumo do jogo. Já no recente e interessante Tudo pode dar certo (2009), ele conta a história de um senhor pedante e convencido, com complexo de superioridade e, por conseguinte, sem nenhuma paciência para a “mediocridade” de seus (des)semelhantes.
Tudo é permitido em sua imaginação sem limites, que cria situações interessantes, como em A rosa púrpura do Cairo (1985), o primeiro a que assisti, em que o personagem de um filme romântico sai da tela do cinema pra viver uma história de amor com uma moça solitária, que assistia inúmeras vezes a esse filme. Ou em Édipo arrasado, um dos Contos de Nova York (1989), em que a figura materna assume magistral representação, assumindo as proporções que possui aos olhos do filho, que passa a vê-la, onipresente, nos céus da cidade, a expor toda sua vida íntima.
Seus personagens expõem, de várias e criativas formas, nossos defeitos, neuroses, excentricidades e idiossincrasias. E quando quem representa o papel é ele próprio, o resultado torna-se ainda mais eficaz, dada a sua perfeita caracterização do ser neurótico. Como em Noivo neurótico, noiva nervosa (1977) – seu filme mais premiado - e Zelig (1983). Não sei se de médico, talvez de louco, mas certamente de Zelig todo mundo tem um pouco. Também como ator, em Scoop – o grande furo (2007), está divertidíssimo no papel de um mágico que, em uma de suas divertidas autoanálises, atribui à extrema ansiedade o fato de não engordar.
Por esses dias, o cineasta vem sendo lembrado por dois motivos. O primeiro é seu mais novo filme, Você vai conhecer o homem de seus sonhos, que nos faz refletir sobre a ideia de que a ilusão é melhor do que qualquer remédio e cuja ironia começa do título, que tanto pode representar um ser vivo do sexo masculino, como a figura da morte, o que fica mais claro no título original em inglês (You will meet a tall dark stranger). O segundo motivo é seu aniversário de 75 anos, a ser comemorado hoje, 1º de dezembro. Acontecimentos que eu, neurótico e simpático a efemérides, não poderia deixar de reverenciar. Woody Allen explica.
27.11.10
Castelo de cartas
* Aos jovens de bem que também vivem nos morros, favelas e complexos - à margem, não marginais -, igualmente vítimas da complexa violência nas cidades, inclusive policial.
Estão desenhando meu próprio destino
Com tinta bem forte pra não apagar
Com o sangue daqueles que vejo morrendo
Na porta de casa e não posso evitar
Liberdade que tenho de nada me serve
Na favela é assim, meu futuro é incerto
Não tenho comida, não tenho presente
Ninguém quer saber como tenho passado
Menino de rua, sigo minha sina
Lutar por trabalho, escola, comida
Luta desigual, onde vence o mais forte
É este o presente que ganho da vida
Meu irmão lá de baixo, este teve mais sorte
Morando na praia, vivendo de brisa
Se aprendo com a vida lidando com a morte
No final, nada muda: eu morro, ele, casa
Mas é meu irmão, não se pode negar
Afastado de mim pela sociedade
Não quero disputa, quero o meu lugar
E lutar pra que seja um lugar de verdade
Verdade que eu quero deixar pro meu filho
Que é a minha coroa, meu trono, castelo
Um castelo de cartas onde eu sou o rei
E onde um dia ele seja um príncipe com sorte
(Castelo de cartas - Paulo Bap, 2000)
(Castelo de cartas - Paulo Bap, 2000)
11.11.10
Sentido cidade-subúrbio
“O amor é feito capim, mas veja que absurdo, a gente planta, ele cresce, aí vem uma vaca e acaba tudo” (Rodrigo Mell / Elvis Pires)
Impelido a expelir todo ar de superioridade que porventura pudesse correr debaixo do meu nariz, sempre busquei dar ouvidos ao que “vem debaixo e me atinge”, àquilo que não sei, mas quero saber e não tenho raiva de quem sabe. Um estilo musical que, embalado com diferentes rótulos, do cafona ao brega, queira ou não, tem embalado nossos ouvidos ao longo do tempo e não pode ser ignorado. Mesmo assim, e supondo conhecer uma boa quantidade de músicas brasileiras, percebo, impressionado, o mundo à parte das canções que, geralmente restritas à periferia das cidades, rompem a barreira do som, levadas pelas carrocinhas de cd’s, que as transportam a outros habitat’s (como a citada acima, que escutei outro dia, na praia).
Sob outro aspecto, que não o social, por vezes, chama-se de brega tudo aquilo que parece vir repleto de exagero sentimental, preferencialmente de forma pouco ortodoxa em relação à cartilha tradicional. Nesse ponto, os conceitos de brega e romântico aproximam-se. Lembrando Fernando Pessoa, todas as cartas de amor, todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas. Já nos versos de Caetano Veloso, ser romântico é cantar somente o que não pode mais se calar. Outras vezes, ainda, o termo brega é confundido com antigo, o que torna o rótulo transitório. Qualquer que seja o conceito, temos todos um lado brega, que não resiste a sair cantarolando músicas verdadeiramente populares.
É próprio do ser humano procurar seguir um comportamento padrão e evitar se distanciar muito daquilo que é definido como convencional, desde que o padrão e o convencional, aí, sejam aqueles determinados por seus iguais, num círculo vicioso e retroalimentado. Algo que o diferencie ou destaque perante os demais, como se existisse um padrão A e um padrão B, divisão, em geral, definida pelo lado A. Enfim, uma busca por ser igual aos iguais, mas diferente dos diferentes.
Ainda que próprio da natureza humana, no ramo musical, esse pensamento delineou-se de forma mais clara entre os anos 60 e 70. Uma das demonstrações disso foi o surgimento, nesse período, da sigla MPB para designar uma música diferenciada, curiosamente denominada música popular brasileira (se bem que o popular, aí, está em oposição a erudito). Era época de mudanças, em que a polarização entre correntes políticas refletiu-se, também, na música. De um lado, canções de protesto, nacionalismo, de outro, Tropicalismo, guitarras elétricas. De um lado, a Bossa Nova dos universitários e intelectuais, do outro a Jovem Guarda da juventude despolitizada, um dos pilares do estilo que viria a ser caracterizado como brega.
Nessa época, popularizou-se o rótulo de cafona, para designar o mau gosto e, por conseguinte, cantores e músicas consideradas de qualidade inferior. Vem daí minha primeira referência desse estilo de música: Eu não sou cachorro não, de Waldick Soriano, que virou até título de livro sobre o tema. O compositor Paulo Sérgio Valle, autor de O cafona, tema de novela de mesmo nome da Globo, ironicamente, representou um caso emblemático de trânsito livre entre os diversos caminhos musicais: compôs Viola enluarada e Preciso aprender a ser só, com o irmão Marcos Valle, Sábado e Evidências, com José Augusto.
Nos anos 70, multiplicaram-se os fenômenos (Amado Batista, Odair José, Fernando Mendes) de uma música que, livre de qualquer patrulhamento ou direcionamento por parte da intelligentsia, ou burritsia, transbordava temas passionais, dramáticos, bizarros, de que O fruto do nosso amor é exemplo clássico: “No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça, eu via você sofrendo a sorrir. E seu sorriso aos poucos se desfazendo, então vi você morrendo, sem poder me despedir”. Outras honravam discriminados ou excluídos, como empregadas domésticas (Deixa essa vergonha de lado*), prostitutas (“Eu vou tirar você desse lugar / Eu vou levar você pra ficar comigo / E não interessa o que os outros vão pensar”), cadeirantes (Cadeira de rodas) e anônimos (A desconhecida).
Nos anos 80, o cafona virou brega e aquela avacalhação positiva da época, da qual Chacrinha foi a melhor representação, provocou uma rearrumação e juntou tudo num só caldeirão: o brega invadiu as fm’s. Vieram, em seguida, como uma avalanche, o pagode, o forró estilizado e o sertanejo, variações mais simplificadas, em letra e melodia, dos tradicionais samba, forró pé-de-serra e música caipira. O amor permanecia como tema central, a cicatrizar cotovelos doloridos, por meio de canções como Não aprendi dizer adeus e Nuvem de lágrimas (sucessos de Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó), em shows caros e bem produzidos.
Não tardou a se tentar nova separação, inclusive no dial, torcido junto com o nariz dos descontentes. Além disso, de lá pra cá, a pirataria - que não se restringe à camada menos favorecida da população -, a despeito de seus aspectos negativos, teve o mérito de tornar o mercado de discos mais acessível a esse grupo, tornando-se, para os sem-internet, uma alternativa aos downloads em banda larga. Surgiu, então, uma espécie de brega do b, um mercado paralelo, reivindicando de volta para si o que fora apropriado por ouvidos medianos (de classe média), frequentadores dos caros hall's da vida.
O conceito de brega na música, vale salientar, engloba não apenas a canção, mas também o intérprete - sua voz, postura, vestuário e o que mais possa ser objeto de comparação, ou seja, tudo. E tudo depende da maneira como se vê, o que explica como uma mesma canção pode ser recebida de maneiras diferentes, quando interpretada por nomes da MPB ou por cantores mais populares. A elite narcisista acha feio o que não é espelho.
Obs.: Escute aqui outro clássico do cancioneiro brega: Prometemos não chorar (Barros de Alencar), com destaque para o imenso esnobismo do personagem e o barulhinho da xícara em “- seu café está esfriando”.
* Deixe essa vergonha de lado (Odair José / Andreia Teixeira)
Eu já sei que nessa casa onde você diz morar
Onde todo dia no portão eu venho lhe esperar
Não é a sua casa
Eu já sei que o seu quarto fica lá no fundo
E que se você pudesse fugia desse mundo
E nunca mais voltava
Eu já sei que esse garoto que você leva pra brincar
E que todo dia na escola você vai buscar
Não é o seu irmão
Ele é filho dessa gente importante
E às vezes também é seu por um instante
Apenas dentro do seu coração
Deixe essa vergonha de lado
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
não vai modificar o meu amor
Eu já sei por que você não me convida pra entrar
E se falo nessas coisas você procura disfarçar
Fingindo não entender
Eu já sei por que você não me apresenta aos seus pais
Eu entendo a razão de tudo isso que você faz
É medo de me perder
Eu já sei que na verdade nada disso você quis
você simplesmente pensou em ser feliz
Aí não quis dizer
Mas você de uma coisa pode ter certeza
O amor que você tem por mim é a maior riqueza
Que eu preciso ter
Impelido a expelir todo ar de superioridade que porventura pudesse correr debaixo do meu nariz, sempre busquei dar ouvidos ao que “vem debaixo e me atinge”, àquilo que não sei, mas quero saber e não tenho raiva de quem sabe. Um estilo musical que, embalado com diferentes rótulos, do cafona ao brega, queira ou não, tem embalado nossos ouvidos ao longo do tempo e não pode ser ignorado. Mesmo assim, e supondo conhecer uma boa quantidade de músicas brasileiras, percebo, impressionado, o mundo à parte das canções que, geralmente restritas à periferia das cidades, rompem a barreira do som, levadas pelas carrocinhas de cd’s, que as transportam a outros habitat’s (como a citada acima, que escutei outro dia, na praia).
Sob outro aspecto, que não o social, por vezes, chama-se de brega tudo aquilo que parece vir repleto de exagero sentimental, preferencialmente de forma pouco ortodoxa em relação à cartilha tradicional. Nesse ponto, os conceitos de brega e romântico aproximam-se. Lembrando Fernando Pessoa, todas as cartas de amor, todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas. Já nos versos de Caetano Veloso, ser romântico é cantar somente o que não pode mais se calar. Outras vezes, ainda, o termo brega é confundido com antigo, o que torna o rótulo transitório. Qualquer que seja o conceito, temos todos um lado brega, que não resiste a sair cantarolando músicas verdadeiramente populares.
É próprio do ser humano procurar seguir um comportamento padrão e evitar se distanciar muito daquilo que é definido como convencional, desde que o padrão e o convencional, aí, sejam aqueles determinados por seus iguais, num círculo vicioso e retroalimentado. Algo que o diferencie ou destaque perante os demais, como se existisse um padrão A e um padrão B, divisão, em geral, definida pelo lado A. Enfim, uma busca por ser igual aos iguais, mas diferente dos diferentes.
Ainda que próprio da natureza humana, no ramo musical, esse pensamento delineou-se de forma mais clara entre os anos 60 e 70. Uma das demonstrações disso foi o surgimento, nesse período, da sigla MPB para designar uma música diferenciada, curiosamente denominada música popular brasileira (se bem que o popular, aí, está em oposição a erudito). Era época de mudanças, em que a polarização entre correntes políticas refletiu-se, também, na música. De um lado, canções de protesto, nacionalismo, de outro, Tropicalismo, guitarras elétricas. De um lado, a Bossa Nova dos universitários e intelectuais, do outro a Jovem Guarda da juventude despolitizada, um dos pilares do estilo que viria a ser caracterizado como brega.
Nessa época, popularizou-se o rótulo de cafona, para designar o mau gosto e, por conseguinte, cantores e músicas consideradas de qualidade inferior. Vem daí minha primeira referência desse estilo de música: Eu não sou cachorro não, de Waldick Soriano, que virou até título de livro sobre o tema. O compositor Paulo Sérgio Valle, autor de O cafona, tema de novela de mesmo nome da Globo, ironicamente, representou um caso emblemático de trânsito livre entre os diversos caminhos musicais: compôs Viola enluarada e Preciso aprender a ser só, com o irmão Marcos Valle, Sábado e Evidências, com José Augusto.
Nos anos 70, multiplicaram-se os fenômenos (Amado Batista, Odair José, Fernando Mendes) de uma música que, livre de qualquer patrulhamento ou direcionamento por parte da intelligentsia, ou burritsia, transbordava temas passionais, dramáticos, bizarros, de que O fruto do nosso amor é exemplo clássico: “No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça, eu via você sofrendo a sorrir. E seu sorriso aos poucos se desfazendo, então vi você morrendo, sem poder me despedir”. Outras honravam discriminados ou excluídos, como empregadas domésticas (Deixa essa vergonha de lado*), prostitutas (“Eu vou tirar você desse lugar / Eu vou levar você pra ficar comigo / E não interessa o que os outros vão pensar”), cadeirantes (Cadeira de rodas) e anônimos (A desconhecida).
Nos anos 80, o cafona virou brega e aquela avacalhação positiva da época, da qual Chacrinha foi a melhor representação, provocou uma rearrumação e juntou tudo num só caldeirão: o brega invadiu as fm’s. Vieram, em seguida, como uma avalanche, o pagode, o forró estilizado e o sertanejo, variações mais simplificadas, em letra e melodia, dos tradicionais samba, forró pé-de-serra e música caipira. O amor permanecia como tema central, a cicatrizar cotovelos doloridos, por meio de canções como Não aprendi dizer adeus e Nuvem de lágrimas (sucessos de Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó), em shows caros e bem produzidos.
Não tardou a se tentar nova separação, inclusive no dial, torcido junto com o nariz dos descontentes. Além disso, de lá pra cá, a pirataria - que não se restringe à camada menos favorecida da população -, a despeito de seus aspectos negativos, teve o mérito de tornar o mercado de discos mais acessível a esse grupo, tornando-se, para os sem-internet, uma alternativa aos downloads em banda larga. Surgiu, então, uma espécie de brega do b, um mercado paralelo, reivindicando de volta para si o que fora apropriado por ouvidos medianos (de classe média), frequentadores dos caros hall's da vida.
O conceito de brega na música, vale salientar, engloba não apenas a canção, mas também o intérprete - sua voz, postura, vestuário e o que mais possa ser objeto de comparação, ou seja, tudo. E tudo depende da maneira como se vê, o que explica como uma mesma canção pode ser recebida de maneiras diferentes, quando interpretada por nomes da MPB ou por cantores mais populares. A elite narcisista acha feio o que não é espelho.
Obs.: Escute aqui outro clássico do cancioneiro brega: Prometemos não chorar (Barros de Alencar), com destaque para o imenso esnobismo do personagem e o barulhinho da xícara em “- seu café está esfriando”.
* Deixe essa vergonha de lado (Odair José / Andreia Teixeira)
Eu já sei que nessa casa onde você diz morar
Onde todo dia no portão eu venho lhe esperar
Não é a sua casa
Eu já sei que o seu quarto fica lá no fundo
E que se você pudesse fugia desse mundo
E nunca mais voltava
Eu já sei que esse garoto que você leva pra brincar
E que todo dia na escola você vai buscar
Não é o seu irmão
Ele é filho dessa gente importante
E às vezes também é seu por um instante
Apenas dentro do seu coração
Deixe essa vergonha de lado
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
não vai modificar o meu amor
Eu já sei por que você não me convida pra entrar
E se falo nessas coisas você procura disfarçar
Fingindo não entender
Eu já sei por que você não me apresenta aos seus pais
Eu entendo a razão de tudo isso que você faz
É medo de me perder
Eu já sei que na verdade nada disso você quis
você simplesmente pensou em ser feliz
Aí não quis dizer
Mas você de uma coisa pode ter certeza
O amor que você tem por mim é a maior riqueza
Que eu preciso ter
31.10.10
Dedicado a você
Não obstante as musas inspiradoras, reais ou não, citadas em algumas homenagens nomeadas, sobre quem já escrevi em outra ocasião (A esses seres humanos), a música, na maioria das vezes, procura ser o mais genérica possível. Talvez para permitir que as diferentes pessoas que a escutam apropriem-se de seus versos de acordo com suas próprias experiências de vida.
Para atingir tal fim, por vezes, faz uso de pronomes pessoais, para gerar citações impessoais. Assim, em Eu e ela, do repertório de Roberto Carlos, Ela e eu, de Caetano Veloso, Eu te amo, de Chico Buarque e Tom Jobim ou Odeio você, também de Caetano, os pronomes podem representar qualquer um de nós. Outras vezes, a canção faz uso de pronome possessivo, que também permite apropriação, o que faz com que As minhas meninas, de Chico, Sua estupidez, de Roberto ou Nosso estranho amor, de Caetano, possam ser de qualquer um.
Há, também, homenagens implícitas, de destinatário definido, mas que, por também não citarem nomes, adquirem o mesmo caráter genérico das anteriores. É assim Fera ferida e Do fundo do meu coração, que Roberto compôs quando estava em processo de separação num casamento. Também no ramo da separação, Gilberto Gil compôs, para a ex-esposa Sandra, uma das mais belas declarações de amor findo, Drão (O amor da gente é como um grão, uma semente de ilusão, tem que morrer pra germinar).
Ao ator River Phoenix, que este ano completaria 40 anos, Milton Nascimento dedicou uma também bela canção cujo título era o próprio nome do homenageado, o qual morreu pouco depois, aos 23 anos (Como teu nome diferente / Uma paisagem nos induz / Uma paisagem de inocência / Mas que se sabe e que conduz. / Conduz agora este momento / O pensamento e os olhos meus / brilhando de emoção e grato / alguém que só te conheceu num filme que viu tantas vezes / Este poema aconteceu). Fernando Brandt, Márcio e Lô Borges, companheiros de Milton no Clube da Esquina, fizeram, para Lennon e McCartney, Para Lennon e McCartney.
Nando Reis compôs All Star, para Cássia Eller, que também a gravou (Estranho é gostar tanto do seu all star azul / Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras / Satisfeito sorri / Quando chego ali / E entro no elevador / Aperto o 12 que é o seu andar / Não vejo a hora de te reencontrar / E continuar aquela conversa / Que não terminamos ontem / Ficou pra hoje). Temos, também, referências e citações múltiplas, como a Festa de arromba de Roberto e Erasmo, que reverencia a turma da Jovem Guarda ou a homenagem de Chico, Para todos, dedicada a seus colegas músicos.
Na categoria a finados, lembro de outro trabalho afinado: Um ser de luz, composta por Paulo César Pinheiro (com João Nogueira e Mauro Duarte), após perder a esposa Clara Nunes (E ela se foi pra cantar / Para além do luar / Onde moram as estrelas / E a gente fica a lembrar / Vendo o céu clarear / Na esperança de vê-la, sabiá / Sabiá / Que falta faz tua alegria / Sem você / meu canto agora é só melancolia).
Dos compositores da MPB, Caetano é um dos mais atuantes nessa bela arte de prestar homenagem por meio de canções. Em sua lista, constam Rapte-me camaleoa, para Regina Casé; Leãozinho, para Dadi, ex-integrante dos grupos Novos Baianos e A Cor do Som (o músico também foi uma espécie de quarto tribalista e é pai de André Carvalho, compositor de Tudo diferente, sucesso na voz de Maria Gadú); Escândalo, para Ângela Rô Rô, linda e sensível homenagem da qual quem acompanhou a forma como a mídia tratava os “escândalos” da cantora, décadas atrás, entende cada palavra (Rompe a manhã da luz em fúria a arder / Dou gargalhada, dou dentada na maça da luxúria pra quê? / Se ninguém tem dó, ninguém entende nada / O grande escândalo sou eu, aqui, só). E mais: Tigresa e Trem das cores, para a atriz Sônia Braga, esta última uma encantadora descrição de viagem, em que nós, ouvintes, seguimos junto.
É comum perpetuarmos certos erros de escuta de canções e alguns deles, quando cometidos por grande número de pessoas, tornam-se até clássicos, como a famosa troca compulsiva de biquíni, em Noite do prazer, de Cláudio Zoli, em que, em vez de “tocando B. B. King sem parar”, muitos cantavam “trocando de biquíni sem parar”).
A esse respeito, cabe observação curiosa sobre Tigresa. Depois de quase três décadas escutando-a, notei, alertado por um amigo, parte engraçada da letra, para a qual, até então, não tinha atinado, que nem Gabriela, quando veio pra esse mundo: “as garras da felina me marcaram o coração, mas as besteiras de menina que ela disse, não”. Faltava, na minha escuta, a percepção da vírgula antes do não (determinada, eu acho, pela elipse sintática presente na oração) e, por isso, eu entendia a mensagem como se ela, a tigresa ou felina, dissesse não às besteiras de menina e não que era ela quem dizia as besteiras, as quais, por sua vez, não marcavam o coração do leão. Meu entendimento, porém, soava meio sem sentido, até porque, se fosse esse o caso, a frase estaria mal construída.
Dedicar a alguém o fruto do nosso trabalho é algo de uma generosidade e delicadeza ímpar que, no caso particular da música, ou da arte em geral, ainda tem o mérito do compartilhamento com o público e, muitas vezes, pode ficar para a posteridade. Dedicado a você* é nome de uma música de Dominguinhos e Nando Cordel, mais uma da dupla que nos legou várias belas canções. O pronome ‘você’, do título, expande o universo alvo da letra da música ao infinito – ou a todas as pessoas -, mas, ao mesmo tempo, restringe-o ao particular – ao pessoal, como o próprio pronome: simplesmente dedicado a você. Seja você quem for, seja o que Deus quiser.
*Dedicado a você (Dominguinhos/Nando Cordel)
Vem, se eu tiver você no meu prazer
Se eu pudesse ficar com você
Todo o momento, em qualquer lugar
Ah! Se no desejo você fosse o amor
Durante o frio fosse o calor
Na minha lua, você fosse o mar
Vem, meu coração se enfeitou de céu
Se embebedou na luz do teu olhar
Queria tanto ter você aqui
Ah! Se teu amor fosse igual ao meu
Minha paixão ia brilhar e eu
Completamente ia ser feliz
Para atingir tal fim, por vezes, faz uso de pronomes pessoais, para gerar citações impessoais. Assim, em Eu e ela, do repertório de Roberto Carlos, Ela e eu, de Caetano Veloso, Eu te amo, de Chico Buarque e Tom Jobim ou Odeio você, também de Caetano, os pronomes podem representar qualquer um de nós. Outras vezes, a canção faz uso de pronome possessivo, que também permite apropriação, o que faz com que As minhas meninas, de Chico, Sua estupidez, de Roberto ou Nosso estranho amor, de Caetano, possam ser de qualquer um.
Há, também, homenagens implícitas, de destinatário definido, mas que, por também não citarem nomes, adquirem o mesmo caráter genérico das anteriores. É assim Fera ferida e Do fundo do meu coração, que Roberto compôs quando estava em processo de separação num casamento. Também no ramo da separação, Gilberto Gil compôs, para a ex-esposa Sandra, uma das mais belas declarações de amor findo, Drão (O amor da gente é como um grão, uma semente de ilusão, tem que morrer pra germinar).
Ao ator River Phoenix, que este ano completaria 40 anos, Milton Nascimento dedicou uma também bela canção cujo título era o próprio nome do homenageado, o qual morreu pouco depois, aos 23 anos (Como teu nome diferente / Uma paisagem nos induz / Uma paisagem de inocência / Mas que se sabe e que conduz. / Conduz agora este momento / O pensamento e os olhos meus / brilhando de emoção e grato / alguém que só te conheceu num filme que viu tantas vezes / Este poema aconteceu). Fernando Brandt, Márcio e Lô Borges, companheiros de Milton no Clube da Esquina, fizeram, para Lennon e McCartney, Para Lennon e McCartney.
Nando Reis compôs All Star, para Cássia Eller, que também a gravou (Estranho é gostar tanto do seu all star azul / Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras / Satisfeito sorri / Quando chego ali / E entro no elevador / Aperto o 12 que é o seu andar / Não vejo a hora de te reencontrar / E continuar aquela conversa / Que não terminamos ontem / Ficou pra hoje). Temos, também, referências e citações múltiplas, como a Festa de arromba de Roberto e Erasmo, que reverencia a turma da Jovem Guarda ou a homenagem de Chico, Para todos, dedicada a seus colegas músicos.
Na categoria a finados, lembro de outro trabalho afinado: Um ser de luz, composta por Paulo César Pinheiro (com João Nogueira e Mauro Duarte), após perder a esposa Clara Nunes (E ela se foi pra cantar / Para além do luar / Onde moram as estrelas / E a gente fica a lembrar / Vendo o céu clarear / Na esperança de vê-la, sabiá / Sabiá / Que falta faz tua alegria / Sem você / meu canto agora é só melancolia).
Dos compositores da MPB, Caetano é um dos mais atuantes nessa bela arte de prestar homenagem por meio de canções. Em sua lista, constam Rapte-me camaleoa, para Regina Casé; Leãozinho, para Dadi, ex-integrante dos grupos Novos Baianos e A Cor do Som (o músico também foi uma espécie de quarto tribalista e é pai de André Carvalho, compositor de Tudo diferente, sucesso na voz de Maria Gadú); Escândalo, para Ângela Rô Rô, linda e sensível homenagem da qual quem acompanhou a forma como a mídia tratava os “escândalos” da cantora, décadas atrás, entende cada palavra (Rompe a manhã da luz em fúria a arder / Dou gargalhada, dou dentada na maça da luxúria pra quê? / Se ninguém tem dó, ninguém entende nada / O grande escândalo sou eu, aqui, só). E mais: Tigresa e Trem das cores, para a atriz Sônia Braga, esta última uma encantadora descrição de viagem, em que nós, ouvintes, seguimos junto.
É comum perpetuarmos certos erros de escuta de canções e alguns deles, quando cometidos por grande número de pessoas, tornam-se até clássicos, como a famosa troca compulsiva de biquíni, em Noite do prazer, de Cláudio Zoli, em que, em vez de “tocando B. B. King sem parar”, muitos cantavam “trocando de biquíni sem parar”).
A esse respeito, cabe observação curiosa sobre Tigresa. Depois de quase três décadas escutando-a, notei, alertado por um amigo, parte engraçada da letra, para a qual, até então, não tinha atinado, que nem Gabriela, quando veio pra esse mundo: “as garras da felina me marcaram o coração, mas as besteiras de menina que ela disse, não”. Faltava, na minha escuta, a percepção da vírgula antes do não (determinada, eu acho, pela elipse sintática presente na oração) e, por isso, eu entendia a mensagem como se ela, a tigresa ou felina, dissesse não às besteiras de menina e não que era ela quem dizia as besteiras, as quais, por sua vez, não marcavam o coração do leão. Meu entendimento, porém, soava meio sem sentido, até porque, se fosse esse o caso, a frase estaria mal construída.
Dedicar a alguém o fruto do nosso trabalho é algo de uma generosidade e delicadeza ímpar que, no caso particular da música, ou da arte em geral, ainda tem o mérito do compartilhamento com o público e, muitas vezes, pode ficar para a posteridade. Dedicado a você* é nome de uma música de Dominguinhos e Nando Cordel, mais uma da dupla que nos legou várias belas canções. O pronome ‘você’, do título, expande o universo alvo da letra da música ao infinito – ou a todas as pessoas -, mas, ao mesmo tempo, restringe-o ao particular – ao pessoal, como o próprio pronome: simplesmente dedicado a você. Seja você quem for, seja o que Deus quiser.
*Dedicado a você (Dominguinhos/Nando Cordel)
Vem, se eu tiver você no meu prazer
Se eu pudesse ficar com você
Todo o momento, em qualquer lugar
Ah! Se no desejo você fosse o amor
Durante o frio fosse o calor
Na minha lua, você fosse o mar
Vem, meu coração se enfeitou de céu
Se embebedou na luz do teu olhar
Queria tanto ter você aqui
Ah! Se teu amor fosse igual ao meu
Minha paixão ia brilhar e eu
Completamente ia ser feliz
17.10.10
Uma vida que terminou aos 40
“A vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro” (John Lennon)
No último dia 9 de outubro, John Lennon* teria completado 70 anos. Morreu aos 40, há 30, em 80. Datas redondas. A geração que cresceu nos anos 80, após sua morte, não acompanhou a beatlemania, mas viveu a comoção provocada por seu assassinato, quando pôde entender melhor seu valor para a música em nosso planeta, devido a um novo momento de grande exposição do cantor na mídia, ocasionada pelo fato. Essa geração, que descobriu o sonho depois que o sonho acabou, percebeu que o mundo era redondo como os óculos de Lennon.
A morte prematura deixa uma sensação desagradável de falta, de algo por fazer ou que não pôde ser concluído. Música interrompida no meio da execução. No caso de Lennon, além de precoce, uma morte estúpida, que expôs, da pior forma, como ocorrera com Luther King e Gandhi, a fragilidade da utopia pacifista que ele pregava em seu trabalho, suas canções. Com o fim dos Beatles no auge do sucesso, as especulações e desejos de uma volta do grupo permaneceram por toda a década de 70 e o tiro disparado contra Lennon foi uma espécie de tiro de misericórdia, também nesse aspecto. O fim do sonho de toda uma geração.
Um ano antes, com o sonho ainda possível, o cantor Belchior compôs Comentário a respeito de John, que dizia: “João, o tempo andou mexendo com a gente, sim. John, eu não esqueço, a felicidade é uma arma quente”. No mesmo ano, o compositor mineiro Tavito, da turma do Clube da Esquina, que recebeu nítida influência dos Beatles, cantava, em Rua Ramalhete (Tavito / Ney Azambuja), sobre os rapazes de Liverpool: “Será que algum dia eles vem aí, cantar as canções que a gente quer ouvir?”. A resposta sombria não tardou a chegar.
Desde então, homenagens a Lennon sucederam-se, algumas em forma de música. Em 1981, a cantora Simone gravou, no disco Amar, Naquela noite com Yoko (Sueli Costa / Abel Silva). Na letra, o compositor falava do impacto emocional que lhe provocara a morte de Lennon, cuja falta era comparada a um pedaço de sua vida que se ia: “E a cada passo eu chorava, e a cada passo sentia que, de minhas veias, um pouco mais de vida escorria”. A citação explícita a Yoko, longe de apenas servir pra rimar com louco, parecia mais uma tentativa de unir-se, na dor, àquela que sempre fora olhada de viés pelos fãs dos Beatles (o mesmo olhar que, reza a lenda, Paul McCartney lhe dirigia, ao cantar o refrão: “get back to where you once belonged” - volte pro lugar de onde veio).
Na mesma época, os outros ex-beatles gravaram, juntos, All those year ago, de George Harrison, mais um tributo a John Lennon. Duas outras homenagens partiram do cantor britânico Elton John. Com o parceiro Bernie Taupin, Elton compôs, pouco depois da morte de Lennon, Empty garden, em que compara a vida na ausência do amigo com um jardim vazio: “a gardener like that one, no one can replace”** - um jardineiro assim, ninguém pode substituir (seu grito, "hey, hey, Johnny", é de cortar o coração). Sozinho, Elton compôs, também, para Lennon, a música instrumental The man who never died.
Além de um nome em comum, uma grande amizade unia Elton John e John Lennon. A última aparição de Lennon em palco foi em 1974, num show do amigo, com quem cantou algumas músicas, entre elas Lucy in the sky with diamonds, clássico dos Beatles. Curioso lembrar que o título dessa canção surgiu de um desenho escolar de Julian Lennon, filho de John, para a colega Lucy, sendo as iniciais LSD uma mera e feliz coincidência, segundo relato de Paul McCartney, citado em Many years from now, sua biografia autorizada, escrita pelo amigo Barry Milles (a canção também foi sucesso na voz de Elton, assim como One day at a time, da carreira solo de Lennon***).
Os anos 60 foram, de fato, revolucionários, inovadores e, se tivessem ocorrido hoje, cinco décadas depois, ainda o seriam. Paul McCartney afirmou, em 1994, também em depoimento a Many years from now: “... Não dá mesmo para acreditar que já faz trinta anos desde a década de 60. … Sinto que os anos 60 estão para chegar. Que estamos numa espécie de dobra temporal e que eles ainda estão para acontecer. … Eles me parecem um período mais no futuro que no passado”. Claro que essa década foi fruto do que veio antes, como a arte vanguardista do pós-guerra, da qual, por sinal, Yoko Ono fez parte, o que, de certa forma, fecha um ciclo.
O livro John Lennon – A vida, de Philip Norman, mostra o biografado como uma personalidade conflituosa, “violenta e carinhosa, perspicaz e ingênua, marcada em igual medida pela genialidade e pela extrema insegurança”, conforme texto de contra-capa da publicação. O cantor, que cresceu afastado dos pais, criado por uma tia, desde os seis anos, perdeu a mãe aos dezessete, no momento em que se reaproximava dela. A ausência deles em sua vida é retratada na autobiográfica canção Mother, de sua carreira solo (Mother, you had me / But I never had you / I wanted you / But you didn't want me / ... / Father, you left me / But I never left you / I needed you / But you didn't need me / So I just got to tell you / Goodbye).
O fim do grupo, atribuído, no calor do momento, à influência de Yoko Ono sobre o marido, parece ter tido, na verdade, o mesmo motivo do fim de qualquer banda: a necessidade dos integrantes de mais espaço pra suas ideias. Olhando por esse aspecto, os Beatles, maior fenômeno da música pop mundial, que descobriu a receita do sucesso, seja com canções e arranjos sublimes, seja com músicas comerciais e de letras fáceis, contando com músicos e compositores de qualidade, dois deles disputando a liderança do grupo, até que duraram bastante.
* Veja trecho de documentário sobre Lennon, em inglês (16’)
** Elton John - Empty Garden
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A morte prematura deixa uma sensação desagradável de falta, de algo por fazer ou que não pôde ser concluído. Música interrompida no meio da execução. No caso de Lennon, além de precoce, uma morte estúpida, que expôs, da pior forma, como ocorrera com Luther King e Gandhi, a fragilidade da utopia pacifista que ele pregava em seu trabalho, suas canções. Com o fim dos Beatles no auge do sucesso, as especulações e desejos de uma volta do grupo permaneceram por toda a década de 70 e o tiro disparado contra Lennon foi uma espécie de tiro de misericórdia, também nesse aspecto. O fim do sonho de toda uma geração.
Um ano antes, com o sonho ainda possível, o cantor Belchior compôs Comentário a respeito de John, que dizia: “João, o tempo andou mexendo com a gente, sim. John, eu não esqueço, a felicidade é uma arma quente”. No mesmo ano, o compositor mineiro Tavito, da turma do Clube da Esquina, que recebeu nítida influência dos Beatles, cantava, em Rua Ramalhete (Tavito / Ney Azambuja), sobre os rapazes de Liverpool: “Será que algum dia eles vem aí, cantar as canções que a gente quer ouvir?”. A resposta sombria não tardou a chegar.
Desde então, homenagens a Lennon sucederam-se, algumas em forma de música. Em 1981, a cantora Simone gravou, no disco Amar, Naquela noite com Yoko (Sueli Costa / Abel Silva). Na letra, o compositor falava do impacto emocional que lhe provocara a morte de Lennon, cuja falta era comparada a um pedaço de sua vida que se ia: “E a cada passo eu chorava, e a cada passo sentia que, de minhas veias, um pouco mais de vida escorria”. A citação explícita a Yoko, longe de apenas servir pra rimar com louco, parecia mais uma tentativa de unir-se, na dor, àquela que sempre fora olhada de viés pelos fãs dos Beatles (o mesmo olhar que, reza a lenda, Paul McCartney lhe dirigia, ao cantar o refrão: “get back to where you once belonged” - volte pro lugar de onde veio).
Na mesma época, os outros ex-beatles gravaram, juntos, All those year ago, de George Harrison, mais um tributo a John Lennon. Duas outras homenagens partiram do cantor britânico Elton John. Com o parceiro Bernie Taupin, Elton compôs, pouco depois da morte de Lennon, Empty garden, em que compara a vida na ausência do amigo com um jardim vazio: “a gardener like that one, no one can replace”** - um jardineiro assim, ninguém pode substituir (seu grito, "hey, hey, Johnny", é de cortar o coração). Sozinho, Elton compôs, também, para Lennon, a música instrumental The man who never died.
Além de um nome em comum, uma grande amizade unia Elton John e John Lennon. A última aparição de Lennon em palco foi em 1974, num show do amigo, com quem cantou algumas músicas, entre elas Lucy in the sky with diamonds, clássico dos Beatles. Curioso lembrar que o título dessa canção surgiu de um desenho escolar de Julian Lennon, filho de John, para a colega Lucy, sendo as iniciais LSD uma mera e feliz coincidência, segundo relato de Paul McCartney, citado em Many years from now, sua biografia autorizada, escrita pelo amigo Barry Milles (a canção também foi sucesso na voz de Elton, assim como One day at a time, da carreira solo de Lennon***).
Os anos 60 foram, de fato, revolucionários, inovadores e, se tivessem ocorrido hoje, cinco décadas depois, ainda o seriam. Paul McCartney afirmou, em 1994, também em depoimento a Many years from now: “... Não dá mesmo para acreditar que já faz trinta anos desde a década de 60. … Sinto que os anos 60 estão para chegar. Que estamos numa espécie de dobra temporal e que eles ainda estão para acontecer. … Eles me parecem um período mais no futuro que no passado”. Claro que essa década foi fruto do que veio antes, como a arte vanguardista do pós-guerra, da qual, por sinal, Yoko Ono fez parte, o que, de certa forma, fecha um ciclo.
O livro John Lennon – A vida, de Philip Norman, mostra o biografado como uma personalidade conflituosa, “violenta e carinhosa, perspicaz e ingênua, marcada em igual medida pela genialidade e pela extrema insegurança”, conforme texto de contra-capa da publicação. O cantor, que cresceu afastado dos pais, criado por uma tia, desde os seis anos, perdeu a mãe aos dezessete, no momento em que se reaproximava dela. A ausência deles em sua vida é retratada na autobiográfica canção Mother, de sua carreira solo (Mother, you had me / But I never had you / I wanted you / But you didn't want me / ... / Father, you left me / But I never left you / I needed you / But you didn't need me / So I just got to tell you / Goodbye).
O fim do grupo, atribuído, no calor do momento, à influência de Yoko Ono sobre o marido, parece ter tido, na verdade, o mesmo motivo do fim de qualquer banda: a necessidade dos integrantes de mais espaço pra suas ideias. Olhando por esse aspecto, os Beatles, maior fenômeno da música pop mundial, que descobriu a receita do sucesso, seja com canções e arranjos sublimes, seja com músicas comerciais e de letras fáceis, contando com músicos e compositores de qualidade, dois deles disputando a liderança do grupo, até que duraram bastante.
* Veja trecho de documentário sobre Lennon, em inglês (16’)
** Elton John - Empty Garden
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