29.3.07

Anos 80: o paradoxo estendido na areia



Com Eduardo e Mônica perto de completarem bodas de prata, vale a pena recordar o que acontecia quando eles se conheceram. Aquela festa estranha, com gente esquisita, não tinha uma trilha musical tão inovadora em termos de sonoridade, mas tornou-se uma identidade, imagem da juventude da época. Uma imagem tosca, mas real, talvez a única possível, diante das circunstâncias.

Tudo começou com Evandro Mesquita que, vindo do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, trouxe a linguagem teatral à sua banda Blitz, suas apresentações em palco e suas canções, a partir de “Você não soube me amar” que, em 1982, abriu as portas para o denominado BRock. Do grupo de teatro, também fazia parte a camaleoa Regina Casé. Da banda, Lobão e a carioca Fernanda Abreu. Marina Lima, Ritchie e Lulu Santos chegaram sozinhos, os dois últimos vindos de um grupo não muito conhecido, de nome Vímana, junto com Lobão. Num cantinho, meio deslocada, uma turma fazia uma festinha paralela: 14 Bis, Boca Livre e Roupa Nova.

Sem microcomputador, internet, telefone celular, CD e MP3, a informação era menos acessível. A televisão acabava de entrar na era dos vídeo-clips e as bandas de sucesso tocavam na rádio Fluminense e no Circo Voador, ambos no Rio de Janeiro, e apresentavam-se em programas de auditório como o Cassino do Chacrinha, da Rede Globo. Rolava de tudo: Miquinhos Amestrados, Abóboras Selvagens, Kid Abelha, Kid Vinil, Absyntho, Herva Doce, Sempre Livre, Camisa de Vênus. Difícil descrever, por exemplo, a loucura que era a apresentação dos Titãs, com seus oito integrantes se espalhando pelo pequeno palco em performances alucinantes, em meio à gritaria do auditório, estripulias de Chacrinha, toques de sirene e requebros das chacretes.

O Rock in Rio I, ocorrido em janeiro de 1985, ajudou a consolidar o BRock como algo rentável para as gravadoras e, por conseqüência, a disseminar o surgimento de bandas que apareciam por todas as bandas, de qualidade ou não. Mesmo não fazendo parte de suas atrações, os grupos Titãs, Legião Urbana, Ultraje a Rigor e RPM alcançaram um maior destaque após o festival, o qual ajudou, também, a alavancar a carreira de grupos que já se destacavam, como Kid Abelha, Blitz, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, este último protagonista de um de seus melhores momentos, quando Cazuza cantou, abraçado à bandeira brasileira, “Pro dia nascer feliz”. Era o dia da votação que elegeria Tancredo Neves presidente da república.

Nas escolas, na década anterior, os filhos da “revolução” cresciam tendo aulas de “moral e cívica”, que reverenciavam “nossos” presidentes. O movimento estudantil não tinha mais força, as manifestações culturais eram censuradas, a televisão deixava-nos burros, muito burros demais. Todo esse cerceamento de liberdade teve conseqüências na formação intelectual dessa geração perdida, que parecia de outro mundo, uns aliens alienados, que não tinham outra cara pra mostrar. Eram o fruto de todo esse lixo, “toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer”. Não havia outra saída: “vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

Na década de 80, enfim, o sinal fechado do período de repressão tornou a abrir. Em 1979, veio a Lei da Anistia e em 1982, eleições diretas para governador, embora ainda não para presidente (Diretas já já). “Eu vejo a vida melhor no futuro”. Porém, o que fazer com essa senhora liberdade, que abria suas asas sobre nós? Que caminho seguir? Não sabíamos lidar com isso.

Por outro lado, se a política caminhava em direção a uma maior abertura, a liberdade sexual trilhava o caminho inverso: “meu prazer agora é risco de vida”. Frutos da revolução sexual dos anos 60, os jovens de então depararam-se com um vírus desconhecido, o qual, por ter sido, a princípio, entendido de maneira equivocada como exclusividade de homossexuais e africanos, alastrou-se rapidamente, resultado da filosofia egoísta dos “sem-risco”: “se não seremos atingidos, por que nos preocuparmos?”. Hoje, paga-se o preço por esse descaso.

Alienados, desiludidos, sem posições políticas definidas, “cansados de correr na direção contrária”, a seu jeito, os jovens protestavam: “indecente é você ter que ficar despido de cultura”, “as ilusões estão todas perdidas”, “os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito”, “meu partido é um coração partido”, “minha metralhadora cheia de mágoas”, “meu cartão de crédito é uma navalha”, “ideologia, eu quero uma pra viver”, “a gente não sabemos escolher presidente”, “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”. Que país é esse?

Outros, em crise de identidade, apenas experimentavam o inédito prazer de comprar um disco e gostar de uma banda da qual seus pais não gostavam, que tivesse suas caras. Como rebeldes sem causa (“como é que eu vou crescer, sem ter com quem me rebelar?”), querendo negar os preceitos de Belchior de que “nossos ídolos ainda são os mesmos” e que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Como eles, queríamos nos sentir capazes de produzir algo de valor e não mais ter que repetir: “a gente somos inútil”.

Até que não nos saímos tão mal e, em meio ao lixo que cuspimos, pudemos garimpar e encontrar belas poesias expelidas por Cazuza, Renato Russo e Júlio Barroso, que poderiam ter feito muito mais, não fosse o destino tão cruel ao dizimar algumas das principais cabeças dessa geração (Herbert Vianna escapou por pouco). Outros talentos, porém, sobreviveram: Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulinho Moska, que à época rondava o lixo com música barata, junto com os Inimigos do Rei, entre outros.

O alívio definitivo e a certeza de que a década não fora perdida veio, então, quando escutamos Gal Costa, Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Luiz Melodia cantando Cazuza, Chico Buarque cantando com Paula Toller, Tom Jobim com Marina Lima e Gilberto Gil cantando e compondo com os Paralamas do Sucesso, assim como exaltando o que acontecia, em seu “Roque santeiro – o rock”. O paradoxo estendido nas areias escaldantes, então, desfez-se, junto com um mar de dúvidas. Descobrimos, enfim, que poderíamos gostar desses expoentes da nossa geração sem romper com nossos grandes e insubstituíveis ídolos, os mesmos de nossos pais. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido.



Roque santeiro - o rock (Gilberto Gil)

Outrora, só cabeludo
Agora, o menino é tudo de novo no front
Outrora, só rebeldia
Agora, soberania na noite neon

Outrora, mera fumaça
Agora, fogo da raça, fogoso rapaz
Outrora, mera ameaça
Agora, exige o direito ao respeito dos pais

E tem mais, e tem mais, e tem mais

Outrora, arraia miúda
Agora, lobão de boca bem grande a gritar
Outrora, pirado e louco
Agora, poucos insistem em negar-lhe o lugar

Outrora, frágil autorama
Agora, três paralamas de grande carreta de som
Outrora, simples bermuda
Agora, ultravestidos de elegante ultraje a rigor

E o amor, e o amor, e o amor

Só quem não amar os filhos
Vai querer dinamitar os trilhos da estrada
Onde passou passarada
Passa agora a garotada, destino ao futuro

Deixa ele tocar o rock
Deixa o choque da guitarra tocar o santeiro
Do barro do motocross
Quem sabe ele molde um novo santo padroeiro

Outrora, o seio materno
Agora, o meio da rua, na lua, nas novas manhãs
Outrora, o céu e o inferno
Agora, o saber eterno do velho sonho dos titãs

Outrora, o reino do Pai
Agora, o tempo do Filho com seu novo canto
Outrora, o Monte Sinai
Agora, sinais da nave do Espírito Santo

E o encanto, e o encanto, e o encanto

8.3.07

A esses seres humanos

A Amélia, mulher de verdade, que me deixou saudade. A Geni, que não é de verdade, mas é um poço de bondade. A Bárbara, que amar nunca é demais. A Conceição, de quem me lembro muito bem. A Marina, de quem estou de mal. À tigresa, de íris cor de mel. A Carolina, menina bem difícil de esquecer, de olhos fundos, que não viu o tempo passar na janela porque foi pro samba, pra dançar o xenhenhém.

A Dindi, que não sabe o bem que lhe quero. A Beatriz, que não me deixa entrar na sua vida. À deusa da minha rua, à dona da minha cabeça. À preta, pretinha, à pérola negra, à magrelinha. À malandrinha, rainha dos meus sonhos, que demorou, mas chegou e minha vida transformou. À moça bonita, à mais bonita. A essa mulher, àquela mulher. À violeira, caprichosa e nordestina, à paraíba masculina. À namorada: a minha, a de um amigo meu ou a que tem namorada.

A Luciana, sorriso de menina, nos olhos de mar. A Madalena, meu bem querer, que foi pro mar e me deixou a ver navios. À morena dos olhos d’água, que não tira os seus olhos do mar, nem vê que a vida ainda vale o sorriso que eu tinha pra lhe dar, mas a Rita levou. A Rita que levou meu sorriso e a Irene que o trouxe de volta.

A Rosa, Rosinha, de quem me recordo, olhando a chuva, que guarda consigo meu coração e embora divina e graciosa, e com andar de moça prosa, ou talvez por isso, arrasa o meu projeto de vida (eu, hein, Rosa!). À Maria vai com as outras, à Maria de verdade. A Maria, que mistura a dor e a alegria, que ri quando deve chorar e não vive, apenas agüenta. Que sobe o morro e não se cansa, lata d’água na cabeça e uma força que nunca seca.

A Eva, que me dá força pra viver e me abraça por um instante. A Iolanda, com quem quero morrer e ficar, eternamente. À morena de Angola ou a tropicana. A Tereza da praia, que não é de ninguém. À moça bonita da praia de Boa Viagem, à morena de Itapoã, à garota de Ipanema. Às mulheres de Atenas, que têm medo apenas. À bailarina que não tem. À mulher de fases. Às três meninas do Brasil, de simpatia mulata. À menina veneno, que tem um jeito sereno. À menina do Lido, que eu conheço não sei de onde. À alegre menina, a quem chamei de rainha. À pobre menina, que não tem ninguém. À menina que mora na ladeira e à que carreguei no colo.

A você, que não está entendendo nada do que eu digo, a você, que tirou partido de mim, a você, que não serve pra mim, a você, que é tudo pra mim, a você, que precisa saber de mim, a você que eu não conheço mais.

A Kátia Flávia, Anna Júlia, Lady Laura, Sá Marina, titia Amélia, Adelaide, Alice, Camila, Diana, Anália, Dora, Maricotinha, Laura, Helena, Vera, Solange, Sandra, Sílvia, Lígia, Lia, Tereza, Luzia, Luíza, Sandra Rosa Madalena, Clara, Ana e quem mais chegar.

Às mulheres de João, de vida e morte severinas: Juliana, de José e João; Maria Lúcia, de Jeremias e João; Joana, que errou de João. Às mulheres de todas as cores, de várias idades e muitos amores. Enfim, à mulher, sempre mulher, este ser superior, sempre a me ensinar como ser humano e não como ser vivo, minha eterna admiração.



A força que nunca seca (Chico César / Vanessa da Mata)

Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
Que faz o equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta
Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força que nunca seca
Pra água que é tão pouca