29.10.09

Sem perder a ternura



Nos anos 70, quando vários países latino-americanos viviam em regime de ditadura, artistas dessas nações decidiram enfrentar seus problemas comuns cantando e compondo canções de protesto e, principalmente, unindo esforços e promovendo uma integração da região através da música. Seguindo o estilo agridoce da chilena Violeta Parra, Pablo Milanéz e Mercedes Sosa foram alguns desses artistas e, no Brasil, Chico Buarque e Milton Nascimento.

O Brasil, devido a fatores como língua diferente e maior extensão territorial, além de uma rica cultura, sempre tendeu a isolar-se dos países vizinhos e esses cantores foram dos poucos que conseguiram quebrar essa barreira. No momento em que lamentamos a perda de um dos ícones dessa música latino-americana e uma de suas mais belas vozes - a cantora argentina Mercedes Sosa -, louvar o papel social que eles desempenharam por meio do canto, sem perder a ternura, faz-se mais do que necessário.

A integração de seus cantos refletia a certeza de que, em se tratando de respeito aos direitos humanos, solidariedade, tolerância, luta contra preconceitos e injustiças sociais, desmancham-se fronteiras e não existem pátrias, apenas pessoas. Todos irmãos, em busca de liberdade, como cantou Mercedes em Venas abiertas* (Mario Schajris/Leo Sujatovich) ou em Los hermanos (Atahualpa Yupanqui): "Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / En el valle, la montaña, / En la pampa y en el mar / Cada cual con sus trabajos / Con sus sueños cada cual / Con la esperanza delante / Con los recuerdos detras / … / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Y una hermana muy hermosa / Que se llama libertad".

Numa época em que a liberdade se fez restrita, a juventude, por natureza já identificada com o tema, sentiu-se ainda mais atraída por ele. Os jovens reconheciam-se como peças importantes da história, nos versos de Coração de estudante (Milton Nascimento / Wagner Tiso): "Já podaram seus momentos / desviaram seu destino / seu sorriso de menino / quantas vezes se escondeu / mas renova-se a esperança / nova aurora a cada dia / e há que se cuidar do broto / pra que a vida nos dê flor e fruto" ou Me gustan los estudiantes (Violeta Parra): "Que vivan los estudiantes / jardín de nuestra alegría / son aves que no se asustan / de animal ni policía / Y no le asustan las balas / ni el ladrar de la jauría".

A voz de Mercedes Sosa soava como um lamento triste, mas não resignado e com uma força que parecia apenas encontrar explicação no título de um de seus discos - Traigo un pueblo en mi voz -, tirado de canção de seu repertório. A luta contra um imperialismo que favorecia governos de exceção em nosso continente fez crescer em seu povo um forte sentimento de latinidade e busca das raízes, o que ia ao encontro do trabalho da cantora, já desde o início comprometido com o canto popular e a música de raiz. As canções de protesto justificaram-se por esse mesmo contexto, mas a música de Mercedes Sosa foi mais além e também cantou o amor, em suas várias fases.

O amor em plenitude, como em Volver a los 17 (Violeta Parra), com Milton Nascimento: "Volver a los diecisiete después de vivir un siglo / Es como descifrar signos sin ser sabio competente / Volver a ser de repente tan frágil como un segundo / Volver a sentir profundo como un niño frente a dios / Eso es lo que siento yo en este instante fecundo / … / El amor es torbellino de pureza original / Hasta el feroz animal susurra su dulce trino / Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros / El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño / Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero".

Ou o amor sereno, como em Años (Pablo Milanéz), com Fagner: "El tiempo pasa / Nos vamos poniendo viejos / Yo el amor no lo reflejo como ayer / En cada conversación / Cada beso cada abrazo / Se impone siempre un pedazo / De razón / … / A todo dices que sí / A nada digo que no / Para poder construir / Esta tremenda armonía / Que pone viejo los corazones".

Se a arte une os povos, a música, dentre todas as suas formas, é a mais propícia a sentimentos de irmandade e união. Onde há música, há harmonia. Enquanto num evento esportivo a plateia divide-se, na música há um despertar conjunto de sentimentos que, no caso dessas linhas tortas da nossa história, mais uma vez, se não pôde mudar o rumo dos acontecimentos, certamente eternizou lembranças, celebrou conquistas, registrou momentos, abrandou dores, aliviou pesares e contribuiu para que a definitiva noite não se instalasse em Latinoamérica.

Obs.: Cancioneros.com é uma página sobre cantores da América Latina de várias gerações, da chilena Violeta Parra ao uruguaio Jorge Drexler, com informações como discografia e letras de músicas, bem como artigos e livros ligados ao tema. 

Os vídeos de algumas das canções citadas neste texto podem ser assistidos em: http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1328798-7085,00.html



* Venas abiertas (Mario Schajris-Leo Sujatovich)

America latina
Tiene que ir de la mano
Por un sendero distinto
Por un camino mas claro
Sus hijos ya no podremos
Olvidar nuestro pasado
Tenemos muchas heridas
Los latinoamericanos
  
Vivimos tantas pasiones
 Con el correr de los años
Somos de sangre caliente
Y de sueños postergados
Yo quiero que estemos juntos
Porque debemos cuidarnos
Quien nos lastima no sabe
Que somos todos hermanos
  
Y nadie va a quedarse a un lado
Nadie mirara al costado
Tiempo de vivir
Tiempo de vivir
Nada de morir
Vamos a buscar lo que deseamos
Nadie va a quedarse a un lado
Pronto ha de llegar
Tiempo de vivir
  
Nada nos regalaron
Hemos pagado muy caro
Quien se equivoca y no aprende
Vuelve a estar equivocado
Tenemos venas abiertas
Corazones castigados
Somos fervientemente
Latinoamericanos  
  
Y cuando vengan los dias
Que nosotros esperamos
Con todas las melodias
Haremos un solo canto
El cielo sera celeste
Los vientos habran cambiado
Y nacera un nuevo tiempo
Latinoamericano

2.10.09

Confidências mineiras


Enquanto no âmbito de nosso microuniverso - sobretudo nas grandes cidades - vivemos enclausurados, pouco interagindo com o próximo, no mundo globalizado rompemos barreiras e limitações de distância, num paradoxo que tem tornado o mundo cada vez mais uniforme e com menos peculiaridades regionais. Nesse cenário, recebemos mais influências de uma antena parabólica ou de um modem 3G do que de um vizinho de porta, um transeunte do bairro, um zé da praça ou um amigo da esquina.

As esquinas das cidades resgatam esse sentido de algo familiar, próximo, um ponto de encontro, ao mesmo tempo em que remetem a uma ideia de passagem, multiplicidade de caminhos, transitoriedade, alternativas, fim e começo, diferentes pontos de vista. Num lugar qualquer de Belo Horizonte, músicos criaram, na década de 70, o Clube da Esquina que, se não era um clube real, traduzia no nome todo esse espírito, bastante apropriado. O encontro desses jovens músicos resultou em dois discos, Clube da Esquina (1972) e Clube da Esquina 2 (1978).

Nesses trabalhos coletivos, Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes revezaram-se nos vocais e instrumentos, contando com a parceria de Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Márcio Borges na maioria das composições, com um excelente time de instrumentistas, entre eles Toninho Horta e, ainda, com arranjos de Wagner Tiso e Eumir Deodato.

As canções tinham forte apelo instrumental, marca registrada do grupo. Algumas tinham melodias iguais para letras diferentes, outras eram puramente instrumentais e duas delas - Cais e Um gosto de sol* – possuíam uma mesma passagem melódica, bem conhecida. Era como se a mensagem estivesse mais no som do que nas letras e aquele, disposto em linhas melódicas bem trabalhadas e não triviais, precisasse ser mais enfatizado.

De fato, as letras suscitavam reflexões (Maria, Maria e Nada será como antes são bons exemplos), mas, em boa parte, não continham mensagens lineares, diretas ou claras, o que, de certa forma, aproximava-os, ainda que por estilos bem diferentes, de seus contemporâneos Secos & Molhados, Raul Seixas e Novos Baianos. Ivan Vilela, músico e professor da USP, em artigo publicado no museu virtual Clube da Esquina, observa que, nas letras das canções, "pouco se encontra da estrutura de romance ou de narrativas, histórias ou situações das quais se pode tirar alguma moral ou mensagem".

A ideia de transitoriedade revela-se, nas canções, em temas como dia e noite, manhã e tarde, lua e estrela, sol e chuva, estrada e terra, vento e poeira, mar e rio, céu e chão. Luzes, paisagens, sonhos e cidades - saídas e bandeiras, sonho virando terra, pedra virando corpo, um girassol da cor do seu cabelo. Outra característica é a celebração ao amor e à amizade.

Crescia, à época, a ligação entre músicos da América Latina, e Milton foi personagem fundamental nesse processo. No primeiro Clube da Esquina, a canção Os povos, dele e de Márcio Borges, é dedicada à juventude consciente da Venezuela. No segundo disco, Chico Buarque divide os vocais com Milton, em uma adaptação sua a Canción por la unidad latinoamericana, de Pablo Milanés. O coração americano é exaltado, também, em San Vicente (Milton Nascimento / Fernando Brant). Havia, também, a influência dos Beatles.

Como os sonhos não envelhecem, vieram discípulos como Flávio Venturini (que também fez parte do Clube da Esquina 2) e Samuel Rosa (Skank), que, em parceria com Lô Borges, compôs, recentemente, a bela Dois Rios. Em 1996, Márcio Borges, um dos sócios do clube, escreveu o livro "Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina". Histórias de um grupo de jovens que fez a música brasileira renascer e dobrar a esquina, tendo à frente um cara que iniciou a trajetória com travessia, tem na voz um instrumento e no nome a palavra nascimento.

"Se Deus cantasse, cantaria com a voz de Milton Nascimento" (Elis Regina)



* Um gosto de sol (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos)

Alguém que vi de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa
Como uma pêra se esquece
Dormindo numa fruteira
Como adormece o rio
Sonhando na carne da pêra
O sol na sombra se esquece
Dormindo numa cadeira

Alguém sorriu de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou o riso que eu tinha
E esqueci entre os dentes
Como uma pêra se esquece
Sonhando numa fruteira

5.9.09

Baião de dois

Salve o compositor popular. Se aquele que se presta a esta ocupação e anima a festa imodesta da nossa música, como exaltado por Caetano Veloso, sempre foi um espécime pouco conhecido, com o advento do MP3 e a consequente desmaterialização do disco, tornou-se quase uma incógnita. A equação fica mais fácil quando as parcerias são constantes ou frequentes, como João Bosco e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vítor Martins, Milton Nascimento e Fernando Brandt, Roberto e Erasmo Carlos, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Ainda assim, o destaque é maior para os também cantores.

Informações sobre esses ilustres desconhecidos - ou menos conhecidos -, os compositores, são sempre interessantes e bem-vindas e é a isso que se propõe o documentário O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira (Baile perfumado, Cartola - música para os olhos), sobre o compositor, deputado federal (!) e advogado cearense Humberto Teixeira, parceiro de Gonzagão. A produção é da atriz carioca Denise Dummont, conhecida de quem já passou dos 30 anos, por já ter feito parte do elenco da Rede Globo de Televisão, em tempos idos.

O título poético vem de depoimento de Teixeira, em que ele dizia gostar de ficar em casa, engarrafando nuvens. O filme foi lançado em meio às homenagens em memória dos 30 anos – completados em 2009 -, da morte do compositor, conhecido como o doutor do baião, referência ao estilo que criou junto com Luiz Gonzaga, o rei do baião. Este, por sua vez, também vem recebendo homenagens, em memória dos 20 anos de sua morte. A dupla compôs grandes clássicos do nosso cancioneiro, músicas belíssimas como Assum preto*, Qui nem jiló, Estrada de Canindé, Juazeiro e Asa branca, o hino do nordeste independente imaginado pelos compositores Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova.

Ainda que tenha como motivação maior e principal mérito mostrar a importância do doutor do baião para a música brasileira, o filme aborda, também, aspectos pessoais de sua vida, centrados no relacionamento entre ele e Denise Dummont, pai e filha. Quando se separou de Teixeira, a mãe de Denise foi morar nos Estados Unidos e a atriz ficou morando com o pai que, contrário a sua carreira artística, não permitiu que ela usasse seu sobrenome. Diferenças de ideias e valores provocaram um certo distanciamento entre eles, superado ao longo do tempo de convivência. Além do estigma do nordestino, de ter costumes conservadores, o pai levava para casa, também, o estigma do compositor, de ser sujeito pouco conhecido.

Relações humanas conflituosas costumam render bons enredos de filmes, sejam eles de ficção ou baseados em fatos reais. Expõem-se os dramas e, ao apagar das luzes, o público, paciente, transforma sessão de cinema em sessão de análise. Quando uma das partes envolvidas nesse conflito participa da criação da obra, os efeitos terapêuticos especiais transpõem a tela e a projeção cinematográfica serve de expurgo às projeções psicanalíticas de seus próprios criadores, em suas relações. Quando tais relações envolvem, do outro lado, artistas ou pessoas públicas em geral, aumentam o interesse e a curiosidade. Exemplo recente foi Maysa – Quando fala o coração, série televisual dirigida por Jayme Monjardim, filho da cantora.


Para o público, O homem que engarrafava nuvens também é uma terapia no aspecto musical. Uma análise poético-musical coletiva, com apresentação de canções e depoimentos que ressaltam a importância do baião para a música popular brasileira, confirmando a versão de Gilberto Gil, de que ele vem de baixo do barro do chão, e mostrando onde chegou, do outro lado do mundo, graças a Gonzaga e Teixeira. Gil, como tantos outros, é admirador e seguidor do trabalho da dupla, responsável, segundo ele, por uma revolução em sua vida: “Quando ouvi essas coisas fiquei louco, estou louco até hoje”. “São as grandes famílias reais musicais brasileiras, duas dinastias, a do samba e a do baião”, afirma ele, também, em depoimento ao filme.

Caetano, outro admirador da dupla, homenageou Humberto Teixeira, o saudoso poeta, em sua canção Terra, do disco Muito, de 1978: “mando um abraço pra ti, pequenina, como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a Paraíba”, em que faz referência ao trecho “hoje eu mando um abraço pra ti, pequenina”, da canção Paraíba, dos criadores do baião.

Tocando fundo e descrevendo tão bem a alma do brasileiro nordestino, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira sempre fizeram valer a máxima, criada por eles, de que “se o baião é bom sozinho, que dirá baião de dois”. E que dois. Ou, como diria uma saudosa tia, que ambos!



* Assum preto (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)

Tudo em vorta é só beleza
Sol de abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor

Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió

Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá

Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus

13.8.09

Poesia e música - relações íntimas de um par perfeito

A canção está chegando ao fim? Letra de música é poesia? Qualquer amante dessas duas formas de expressão – canção e poesia - já se deparou com tais questionamentos, cuja melhor resposta é não haver resposta. Trata-se do tipo de discussão clássica em que a conclusão é o que menos importa. Uma nova oportunidade de discussão – sem conclusão - desses temas foi criada por meio do documentário Palavra Encantada, de Helena Solberg e Márcio Debellian, que analisa a relação entre poesia e música, por meio de depoimentos de Adriana Calcanhoto, Chico Buarque, Maria Bethânia, Lenine, Martinho da Vila, Luiz Tatit, José Miguel Wisnik, Zélia Duncan, Tom Zé, entre outros.

Pra começo de conversa, o compositor Paulo César Pinheiro, um dos grandes poetas do nosso cancioneiro que, em Poder da criação, descreve a arte de compor ("Não, ninguém faz samba só porque prefere. Força nenhuma no mundo interfere sobre o poder da criação. Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito. Nem se refugiar em lugar mais bonito, em busca da inspiração"), afirma, no filme, que não há como negar que Chico Buarque é poeta.

O próprio Chico, por sua vez, afirma que não (ou nega que sim) e não é por modéstia. Diz que escreve letras direcionadas para a música, palavras que só estão ali por causa dela, que dançam conforme a música e cita como exemplo a letra da canção Uma palavra, de sua autoria, em que a palavra palavra repete-se, ao final de vários versos, por exigência da melodia ("Palavra prima / Uma palavra só, a crua palavra / Que quer dizer tudo / Anterior ao entendimento, palavra / Palavra viva, palavra com temperatura, palavra / Que se produz muda / Feita de luz mais que de vento, palavra").

Esse fenômeno pelo qual passa o letrista - e não o poeta – tem outro exemplo claro, que ora me vem à mente: o caso Romaria, de Renato Teixeira. Um dos melhores versos dessa canção, imortalizada por Elis Regina, foi feito por exigência da melodia. O compositor não conseguia concluir uma estrofe e só após um longo tempo chegou à solução, ao repetir três vezes a expressão final, encaixando letra e música: "como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar". Pura poesia, não poderia ter ficado melhor.

Ao falar da repercussão da Bossa Nova em sua geração, Chico afirma que, ao conversar com pessoas de gerações posteriores, costuma constatar que elas não sofreram tamanho impacto, por já terem pegado o bonde andando e estarem acostumados com aquele tipo de som, não mais uma novidade. É como penso, sempre que me vejo dividido entre a admiração por esse estilo e uma certa frustração por não sentir todo seu impacto, representado, sobretudo, pela bela canção Chega de saudade, pela voz dos intérpretes e pela batida de violão de João Gilberto. O maior mérito estava nas mudanças de padrões, coisas que só quem escutou no rádio Sílvio Caldas ou Orlando Silva seguidos de João Gilberto ou Tom Jobim pôde entender.

Poesia agrada a alguns, música instrumental, a outros, mas ambas estão longe de serem unanimidade. É na canção popular que essas duas partes - representadas por letra e melodia -, juntam-se e atingem seu maior público. Alguns poetas até enveredam para esse ramo - como Vinícius de Moraes – ou são tragados por ele, em parcerias como Chico e João Cabral (que não gostava de música); Fagner e Ferreira Gullar ou Cecília Meireles. Maria Bethânia recita poesias antes de canções - momentos sublimes, como Soneto de fidelidade seguido de Céu de Santo Amaro - e Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) aproxima a poesia de João Cabral de um público mais jovem, que costuma recitar de cor, junto com ele, versos do poeta.

Por outro lado, ao juntar-se letra e música, a mensagem contida naquela, muitas vezes, passa despercebida. É o caso, por exemplo, de uma poesia que Antônio Cícero recita no filme, feita por ele para seu pai, que se transformou numa canção gravada por sua irmã Marina Lima, na década de 90: Eu vi o rei *. Poeta de uma geração mais nova, Cícero nunca imaginou que suas poesias se prestariam para compor uma canção - nem as escrevia com essa intenção - até ser estimulado por Marina, sua parceira em várias músicas.

Além de imagens históricas - como uma impagável entrevista com Caetano Veloso, após sua interpretação de Alegria, alegria, num dos festivais da TV Record -, os depoimentos enriquecem o filme. Lenine atribui à miscigenação o fato de estarmos à frente dos europeus na música popular. Ferréz comenta a forte ligação entre rap e repente (até fonética, como acabo de perceber) ou cordel, estes, por sua vez, reverenciados por Arnaldo Antunes, mestre das meias palavras, não as que dissimulam, mas as que bastam ao bom entendedor. Tom Zé exalta o rico e singular jeito de falar do sertanejo, sobretudo o iletrado, que faz da audição sua antena parabólica. Fala, ainda, das deliciosas ousadias de Dorival Caymmi em suas canções.

Jovens baixam músicas pela internet, lojas de disco rareiam: mudaram os paradigmas. Completa o quadro a natural diminuição das possibilidades de músicas – indutora da idéia de que "no meu tempo elas eram melhores" - o que, como diz José Miguel Wisnik, não significa que a canção esteja chegando ao fim, muito menos no Brasil, onde, segundo ele, criou-se uma música popular forte que, ao unir a leveza das canções a poesia de qualidade, conquistou um público cativo. O tema dá margem a vários filmes e Palavra (En)cantada poderia ser como Sexta-feira 13, que chega à parte 12 em 2009. Afinal, a canção é como Jason, personagem principal deste filme: quando se supõe seu desaparecimento, ela ressurge, com força.



* Eu vi o rei (Marina Lima /Antônio Cícero)
Eu vi o rei chegar

Um rei assim
Que não escuta bem
Que adora luz
Mas não vê ninguém
Prefere olhar
O horizonte, o céu
Longe daqui
é tudo seu

Seu sangue azul
Ninguém diz de onde vem
De que sertão
De que mar, que além
E para nós
Ele jamais se abriu
Só uma vez
Quando partiu

Um rei assim
Cultiva solidão
Sombria flor
No coração
E claro é
Que o pêndulo do amor
Às vezes vai
Até a dor

Devo dizer
Que eu não sofri demais
Mas devo dizer
Que acordei
Mesmo sem ser
Tudo que eu imaginei
Devo dizer
Que eu o amei

Eu vi o rei chegar

16.7.09

Conversa com verso - 2009.1

Primeiro, vamos dar vivas a um caboclo brasileiro, figura simples e bacana, que faria noventa anos daqui a algumas semanas. É Jackson do Pandeiro, coqueiro das terras paraibanas, gênio do cancioneiro brasileiro, ritmista inovador e ligeiro, que pôs pra cantar o país inteiro e eternizou uma porção de música bacana, como Sebastiana e o sambinha Chiclete com banana*, que ironiza a invasão americana em nosso terreiro.

Outro Jackson, este não do pandeiro nem brasileiro, nascido em Indiana, em terra norte-americana, sucesso aqui e no estrangeiro, deixou seus fãs em desespero, ao perder a vida tão ligeiro. Michael parecia um doidivanas, mas era figura humana, mesmo com uma ou outra atitude leviana, como o caso derradeiro do abacaxi que quis deixar pra Diana, de tomar conta de seus herdeiros.

Os dois Jackson, o segundo e o primeiro, podem agora compartilhar o tal batuque brasileiro, como decantado pelo primeiro, no tal sambinha que deu ibope, do Chuí ao Oiapoque. É o rei do coco e o rei do pop, num tiru-riru-bop-bip-bop, misturando samba com rock, Paraíba com Nova York, rala-bucho com moonwalk, cantando Ben ligeiro, no compasso do pandeiro.

Com tudo a Temer na Câmara e procurando Sarney pra se coçar no Senado, o negócio ficou complicado. Passagem aérea pra deputado e apadrinhado, excesso de empregado no Senado, tudo com cargo comissionado, bem remunerado, tratando o público como privado. O ardil é completo e a parente. É decreto discreto, descrédito consignado, ato secreto beneficiando filho e neto, namorado, cunhado, afilhado. Aparentado pra todo lado, todo o mundo quieto, com bico calado, feito menino levado quando faz algo errado.

O prejuízo é concreto, não pode ser desprezado e a gente deve ficar ligado em qualquer ato abjeto, que possa ser objeto de questionamento direto ou investigado por ser incorreto. Com ou sem foro privilegiado, se o culpado não é cassado, se Agaciel é agraciado, o país fica desmoralizado e o Senado taxado de casa dos horrores é o resultado.

O vírus H1N1, ao que parece, não é pior que o da gripe comum, cujo mal é quase nenhum e não merece a alcunha de espanhola do século XXI, já que a proporção entre quem padece e quem falece é de duzentos pra um. Mas o cidadão comum não esquece que o vírus virou pandemia pra OMS e faz prece pra que ela diminua o stress e confesse que o risco do H1N1 é nenhum, ou quase nenhum, se não o pânico cresce e o pandemônio recrudesce, enquanto a pandemia permanece.

Fernando Lugo, vulgo super-pai, entrou nos anais da sociedade do Paraguai e de lá não sai mais. Com tantos DNA’s iguais, virou pai de aluguel e convocou nos jornais: criancinhas a Lugo. Não o julgo, mas daqui a um pouco mais, todo meu Paraguai vai chamá-lo de papai, e ele, como bispo e político, vai ficar sob o jugo de episco-pais que substituem votos de castidade por votos eleitorais.

Enquanto isso, na desunião européia, dividido em suas relações exteriores, Sarkozy levou Berlusconi na Bruni e foi mandado à Merkel por um Zapatero que nunca viu mais Gordon.



* Chiclete com banana (Gordurinha)

Eu só ponho bip-bop no meu samba
Quando o Tio Sam pegar o tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele aprender que o samba não é rumba

Aí eu vou misturar
Miami com Copacabana
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim

Turiru-riru-riru bop-bip-bop-bip-bop
Quero ver a grande confusão
Turiru-riru-riru bop-bip-bop-bip-bop
É o samba-rock meu irmão

Mas em compensação
Eu quero ver um boogie-woogie
De pandeiro e violão
Eu quero ver o Tio Sam de frigideira
Numa batucada brasileira

3.7.09

É isso...

“Cure o mundo, faça dele um lugar melhor pra você, pra mim e pra toda a raça humana” (Michael Jackson)

É fácil externar apreço por um artista depois que ele morre. Em tais situações, é comum até o surgimento de admiradores de última hora. A relação das pessoas da minha faixa etária com Michael Jackson, porém, é antiga ou de primeira hora, algo que quem nos é contemporâneo pode entender melhor. Os pouco mais novos só acompanharam sua trajetória a partir da fase de super-mega astro pop dos anos 80. Os muito mais novos, nem isso, conheceram apenas suas excentricidades, transformações visuais e escândalos que mudaram as folhas em que costumava aparecer nos jornais, de cultura e entretenimento para páginas policiais e de fofocas.

Na década de 60, sobretudo nos Estados Unidos, os negros começaram a conquistar importantes direitos, em boa parte graças ao ativista político Marthin Luther King. Crescia, entre eles, um orgulho racial que os permitia valorizar suas características e sua cultura. Eles saíam às ruas com roupas e ornamentos típicos e exibiam toda a beleza de seus cabelos em cortes (ou falta deles) à época chamados de black power. Foi nesse cenário – ou por causa dele, ou ainda, junto com ele - que surgiu, naquele país, uma gravadora – a Motown Records -, que contratava apenas músicos negros para o seu elenco, entre eles Diana Ross, Marvin Gaye, Stevie Wonder e um grupo de cinco irmãos, que formavam o conjunto Jackson Five, do qual fazia parte Michael Jackson.

No início dos anos 70, vivia-se ainda os efeitos, embora já mais rarefeitos, da beatlemania e do movimento hippie. Eu e meus irmãos, ainda crianças e de idades próximas um do outro, éramos, como os rapazes de Liverpool, em número de quatro e usávamos seus mesmos cortes de cabelo (ou falta deles). Mas os Beatles não eram, exatamente, da nossa geração, tanto que só me dei conta da importância deles para a música mundial quando John Lennon faleceu, em 1980. Pouco antes, em 1977, tinha-se ido, também, Elvis Presley, este ainda mais distante de nós, que o conhecíamos apenas dos - à época já antigos - filmes que protagonizara, exibidos em sessões da tarde da TV.

Os jovens de Indiana, por sua vez, eram ídolos contemporâneos nossos, nós crianças, eles adolescentes. Os Jackson Five eram tão famosos que inspiraram um desenho animado na TV, em que os garotos viviam aventuras, entre um e outro número musical a que assistíamos vidrados. Não podíamos ter seus cabelos black power, mas os admirávamos, sobretudo o caçula Michael, simpático e de bela voz, que logo se destacou e passou a seguir carreira solo.

Ben (tema de filme homônimo sobre um garoto solitário que não recebe atenção dos pais e torna-se amigo de um rato a quem chamava Ben), Music and me, Happy e One day in your life foram grandes sucessos da década de 70, quando cinco dos dez discos dessa fase de sua carreira foram lançados. Em Off the wall (1979), já maior de idade, o cantor captou um pouco da onda “disco” do momento e começou a se transformar num grande astro.

Já na década de 80, Michael Jackson lançou o álbum mais vendido de todos os tempos – Thriller, de 1982. Tudo o que fez nessa década obteve êxito, como as parcerias com Paul McCartney (The girl is mine e Say, say, say) e Lionel Richie (We are the world), esta última gravada por um grupo de cantores, num projeto de autoria dos dois compositores, denominado USA for Africa, que tinha como objetivo ajudar as vítimas da fome naquele continente e chamar atenção para o problema.

Graças a sua performance nos palcos, virou febre, também, o passo batizado de moonwalk, que considero, até hoje, uma das coisas mais impressionantes feitas em termos de coreografia e dança, sobretudo por parecer desafiar as leis da física. Michael inovou, também, na linguagem dos videoclipes, transformando-os em bem produzidos filmes de micro-metragem.

Após o sucesso estrondoso de Thriller, alguns fãs de primeira hora passaram a esconder a admiração pelo cantor, que passou a ser visto por muitos como representante de uma cultura consumista que nos queria ser imposta pelos Estados Unidos, entre McDonald’s e Coca-Colas. Ao mesmo tempo, eu e meus irmãos recebíamos, em casa, influências positivas de nosso pai, que não era comedor de criancinhas (Michael também não), mas possuía idéias progressistas. Diante disso, depois que um de meus irmãos comprou esse disco, passei a ameaçá-lo com um “vou dizer a papai”, numa brincadeira em que punha como inconciliável sua admiração por um e outro.

Há dois meses, portanto antes da morte do cantor, dei-lhe a oportunidade de acertar contas com o passado ao presenteá-lo com edição comemorativa dos 25 anos de lançamento de Thriller, quando ele pôde, enfim, revelar minha chantagem e seu pecado a nosso pai, que nos “perdoou” e achou muita graça.

A figura frágil que queria ser eternamente criança se foi, antes de iniciar sua nova turnê, “This is it”. É isso. Seus traumas de infância, aliados à tentativa frustrada de ser o que se esperava dele – e por esse aspecto, todos nós matamos Michael Jackson -, levaram-no à negação ou tentativas de desconstrução da própria imagem, o que culminou com a destruição de sua própria vida. Cada um sabe de seus motivos e, como já foi dito, de perto, ninguém é normal. É a natureza humana, assim que ela nos faz.

22.6.09

São João no Nordeste
(ou de como filósofo grego caiu no forró)



Um violeiro buscava
Inspiração pra um tema
Quando num sonho encontrou
A solução do problema
Uma questão matemática
Que envolvia um teorema

Uma figura geométrica
Do teorema complicado
Que também servia de nome
A instrumento bem usado
Deu ao cordel forma e métrica
Como ele havia sonhado

Assim então essa história
Nesses versos se propaga
Conta a estranha ligação
Do triângulo de Pitágoras
Com a zabumba e a sanfona
Do forró de Luiz Gonzaga

Zabumba e sanfona a sós
Queriam mais um ao lado
O Triângulo das Bermudas
Não deu conta do recado
Eis que surge o de Pitágoras
Que se mostra interessado

O triângulo amoroso
Deixou a coisa confusa
Co’os quadrados dos catetos
E uma tal de hipotenusa
De um lado dois cabra-macho
Do outro uma bela musa

A zabumba e a sanfona
Enfim desataram o nó
Reverteram o teorema
Resolveram o quiproquó
Se juntaram ao triângulo
Formataram o forró

Seu Pitágoras que né besta
Nem ligou pra confusão
Veio s’imbora pro Nordeste
Dançar forró e baião
Largou teoremas e teses
Pra viver de curtição

O filósofo entendido
De álgebra e geometria
Encontrou bela morena
Como há tempo ele não via
Se enxeriu pra tal menina
Todo cheio de ousadia

Veio com prosa esquisita
Pra levar a cabo a trama
Enrolou a língua toda
Pra impressionar a dama
E deixou a boca cheia
De alfa beta delta gama

A morena que sabia
Da tenção do camarada
Se esquivou como podia
De tão ilustre cantada
E sem mais nem meio mais
Respondeu indignada

Disse a ele meu senhor
Você tá falando grego
Eu não sou mulé de Atenas
E já tenho meu chamego
Pare co’essa gritaria
Não perturbe meu sossego

Alfa beta delta gama
Essas damas não conheço
A verdade é que o senhor
Não sabe da missa um terço
Eu já sou comprometida
Não espere meu apreço

Em todo caso o senhor
Está bem acompanhado
Leve as quatro raparigas
Pra aprender forró e xaxado
E me deixe aqui em paz
Com meu caro namorado

Grego gringo gaguejou
Sem saber o que dizer
Deixou a dama de lado
Procurou o que fazer
Foi atrás de um sanfoneiro
Com o intuito de aprender

Paciente, o sanfoneiro
Começou a preleção
Ensinou ao calculista
A origem do São João
E de como aquela gente
Tinha tanta animação

Nosso povo nordestino
Carrega uma triste sina
Há uma época do ano
Em que a seca predomina
Não chove nem um pouquinho
Quando chove é chuva fina

Como lá na sua terra,
Aqui há também guerreiro
A batalha é constante
De janeiro a janeiro
E o povo é, mesmo na luta,
Simpático e hospitaleiro

Parece tragédia grega
A labuta nordestina
Sofre planta, gado, gente
Angústia que só termina
Quando a chuva anuncia
Tempo de festa junina

A chegada da colheita
Diminui essa agonia
E o São João é o festejo
Que traduz essa alegria
Disse ele com orgulho
Ao ilustre que o ouvia

Foi aí que o estrangeiro
Concluiu aliviado
Que o triângulo desertor
Tava aqui bem empregado
E foi por uma causa justa
Que fugiu pra esses lados

Sua musa hipotenusa
Quis saber seu paradeiro
Chegou em Minas Gerais
Quando veio do estrangeiro
E encontrou um novo amor
O Triângulo Mineiro

Os catetos endoidaram
Co’o desfecho dessa história
Chamaram profissional
Pra ajudar na luta inglória
O cabra era especialista
Em análise combinatória

A análise surtiu efeito
E os doidos tiveram alta
Mais sugestões do doutor
Quiseram obter sem falta
Fazer dupla de forró
Virou o assunto em pauta

Os dois criaram conjunto
Pra se apresentar aqui
Só faltava achar um nome
Que vieram a sugerir
E à bandinha de forró
Chamaram Cateto em Si

À quadrilha de São João
Convidaram o grego culto
Pois se a ordem dos fator
Não altera o produto,
Se tem matuto doutor
Pode ter doutor matuto

Tirou-se a prova dos nove
Provou-se por a mais bê
O São João do Nordeste
É difícil de esquecer
E pra gregos e troianos
É bonito de se ver

Clamou aos deuses do Olimpo
O grego, então, fascinado
Pedindo que protegessem
Esse povo abençoado
E descreveu com detalhes
O que foi presenciado

Pra começar, à visão
Fogos, balões coloridos
Delícias ao paladar
Canções para os ouvidos
É o São João no Nordeste
Bom em todos os sentidos

Fogueiras e bandeirinhas
Completam o quadro perfeito
E nada há que emocione
Em maior grau o sujeito
Do que escutar os acordes
De Asa Branca ou Assum Preto

O violeiro despertou
E assim terminou o sonho
De um filósofo renomado
Que dançou forró, bisonho
E pra findar o cordel
Não sei mais o que é que ponho

O São João desvela o tema
Desse sonho a cada ano:
Pernambuc-ano, bai-ano
Sergip-ano, alago-ano
Enfim, é o Nordeste inteiro
De mãos dadas celebrando

Mês de junho se anuncia
O coração canta feliz
Comprovando por verdade
O que todo o mundo diz:
O São João no Nordeste
É o melhor do meu país

11.6.09

Uma pena

Um documentário em homenagem ao cantor Wilson Simonal, que completaria 70 anos em 2009, tenta mostrar, sobretudo àqueles com menos de cinquenta anos e que não acompanharam a fase áurea da carreira do músico, o que ele representou para a música brasileira, ao mesmo tempo em que narra, por meio de depoimentos, um episódio polêmico no qual se envolveu e que mudou sua vida. Trata-se de “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei”, de Micael Langer, Calvito Leal e Cláudio Manoel.

Simonal inovou com seu jeito de cantar e dançar cheio de suingue, que combinava bem com sua figura alegre, de sorriso aberto. Iniciou sua carreira na década de 60, com o apoio de Carlos Imperial - o mesmo que, pouco antes, havia lançado Roberto Carlos e, por isso mesmo, andava cheio de moral. Ainda nessa década, dividiu o palco com Sarah Vaughan, apresentou o programa Show em Si Monal na TV Record e atingiu o auge de popularidade.

Em 1969, já consagrado, apresentou-se no encerramento do IV Festival Internacional da Canção, não como concorrente, mas como convidado e foi bastante aplaudido pela plateia que lotava o ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Tudo ia bem. Simonal virou garoto-propaganda da Shell, integrou a comitiva da seleção brasileira à copa de 70 – dividindo as atenções com Pelé - e gravou a canção País tropical, de Jorge Ben, antes mesmo do compositor.

Em tempos de ditadura e repressão, fazer anúncio de uma multinacional estadunidense, reverenciar uma seleção de futebol e um evento esportivo tidos como ópio do povo e cantar versos como “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” já seria suficiente para criar certa prevenção à figura do músico. Além do mais, não seria nada difícil um cara de origem humilde que esbanjava dinheiro e comprava carrões ser tachado de metido a besta pela “elite” e o filme ressalta tudo isso. Até aí, tudo poderia não passar de preconceito, mas foi seu envolvimento em caso polêmico que fez a opinião pública colocar o outro pé atrás em relação a ele. Em apenas três anos, o cara que, como dizia um de seus maiores sucessos*, fez o povo inteiro cantar, passou do auge da fama ao ostracismo.

O episódio envolveu o contador da empresa de Simonal que, ao ser vítima de espancamento por parte de agentes do DOPS - Departamento de Ordem Política e Social, também conhecido como órgão oficial de tortura do governo militar -, denunciou o músico como mandante. A versão de Simonal era que estaria sendo roubado e queria dar uma prensa no contador. Para este, o cantor era perdulário e não administrava bem o dinheiro que ganhava. Simonal foi preso e acusado de ser informante do DOPS, o popular dedo-duro. Em depoimento, acusou o contador de ser terrorista e de ameaçar sua família, o que só piorou a situação. Passou a ser discriminado pelo público e colegas de profissão, bem como boicotado por emissoras de televisão e casas de shows, que não queriam assumir os riscos de contratá-lo.

O filme procura ser o mais isento possível e colhe depoimentos dos dois lados. De um lado, amigos e parentes como Chico Anísio, Tony Tornado, Miele, Sandra Cerqueira – sua segunda esposa - e os filhos Wilson Simoninha (a quem Simonal dedica a canção Tributo a Marthin Luther King, em momento especial registrado) e Max de Castro. Do outro, a turma do Pasquim – periódico que, à época, não o perdoou – e a própria vítima do caso, o contador Raphael Viviani, cujo relato dos fatos é a parte mais surpreendente do documentário, ainda que os depoimentos emocionados dos familiares do cantor também nos façam refletir que, se ele errou, pagou caro por isso.

Entre um lado e outro, a relevante opinião de pesquisadores e entendidos de música como Ricardo Cravo Albin e Nelson Motta é destacada. Interessante, também, o fato de um dos diretores do filme, Cláudio Manoel, fazer parte da turma do Casseta e Planeta, fusão dos periódicos Casseta Popular e Planeta Diário, este, por sua vez, fruto do Pasquim.

Na primeira apresentação após o episódio, Simonal recebeu do público sonora vaia que o impediu de cantar. Ficou evidente, a partir daí, a repercussão do caso e as consequências irreversíveis para sua carreira.

Em depoimento ao filme, o jornalista Artur da Távola afirmou que “vivemos em uma imprensa que toma o indício como sintoma, o sintoma como fato, o fato como julgamento, o julgamento como condenação e a condenação como linchamento”. A necessidade e a importância da liberdade de imprensa – assunto que mereceu destaque recentemente com a revogação da antiquada lei de imprensa - é indiscutível, mas, julgamentos à parte, o que se percebe, neste e em vários outros casos, é o assustador e inegável poder dos meios de comunicação, o qual pode ser usado para o bem ou para o mal e, em casos extremos, induzir o povo a exaltar crápulas ou destruir inocentes. Culpado ou inocente, Wilson Simonal já cumpriu sua pena.



Sá Marina (Antônio Adolfo / Tibério Gaspar)

Descendo a rua da ladeira
Só quem viu, que pode contar
Cheirando a flor de laranjeira
Sá Marina vem pra dançar

De saia branca costumeira
Gira o sol, que parou pra olhar
Com seu jeitinho, tão faceira
Fez o povo inteiro cantar

Roda pela vida afora
E põe pra fora essa alegria
Dança que amanhece o dia
Pra se cantar

Gira, que essa gente aflita
Se agita e segue no seu passo
Mostra toda essa poesia do olhar

Deixando versos na partida
E só cantigas pra se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro chorar

31.5.09

A MPB em seu esplendor - Parte II

Passados os movimentos da Bossa Nova, Tropicalismo e Jovem Guarda, e com a censura e a repressão impostas pelos nossos anos de chumbo dificultando o surgimento de novas expressões artísticas, o grande movimento dos anos 70 foi mesmo a Música Popular Brasileira, que ainda conseguiu conviver com a onda disco, importada dos Estados Unidos. O sucesso era tanto que representantes da dita MPB bateram recordes de venda de discos, algo incomum nas décadas seguintes, marcadas pelo predomínio de outros estilos, como ocorreu com o rock nos anos 80, axé e sertanejo nos anos 90.

Depois de dedicar um belo trabalho ao público infantil - Os saltimbancos -, Chico Buarque lançou disco que trazia as “liberadas” Cálice, com participação de Milton Nascimento, Tanto mar e Apesar de você, bem como algumas canções que estariam presentes em seu trabalho seguinte, a trilha sonora da peça “Ópera do Malandro”: Pedaço de mim, com participação de Zizi Possi, O meu amor, com interpretação de Elba Ramalho e Marieta Severo e Homenagem ao malandro. O disco tinha, ainda, Feijoada completa, Até o fim (já de saída a minha estrada entortou, mas vou até o fim), Pequeña serenata diurna – do cubano Sílvio Rodriguez, única não composta por Chico – e duas parcerias com Francis Hime, Pivete e Trocando em miúdos.

Talvez o melhor exemplo da alta qualidade das canções da época seja o citado álbum duplo Ópera do Malandro, que está completando trinta anos, como boa parte dos discos comentados, do final dos anos 70. Além de versões bem-humoradas para trechos de óperas, Chico compôs todas as canções do disco. Interpretou sozinho um dos destaques - Geni e o Zepelim - e contou com participações de Alcione em Casamento dos pequenos burgueses (vão viver sobre o mesmo teto até que a morte os una), Zizi Possi em Teresinha, Nara Leão em Folhetim, Gal Costa e Francis Hime em Pedaço de mim, Elba Ramalho e Marieta Severo de novo em O meu amor e mais: A Cor do Som, MPB-4, Marlene, Moreira da Silva, João Nogueira e As Frenéticas.

Com várias nações latino-americanas vivendo períodos de ditadura militar, houve uma aproximação natural de cantores desses países, como Pablo Milanés, Mercedes Sosa, Chico Buarque e Milton Nascimento. Chico fez versões para Iolanda e Cancion por la unidad de latino america, ambas do cubano Pablo Milanés. A segunda fez parte de Clube da Esquina 2, álbum duplo lançado por Milton em 1978, cujo maior destaque foi Maria, Maria, também gravada por Simone e Elis Regina. O disco reunia, novamente, Milton e os compositores mineiros Márcio e Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini e Fernando Brant. Contava, ainda, com participações de Francis Hime, Chico Buarque e Elis Regina.

Elis lançou disco gravado ao vivo, Transversal do tempo (78), que reunia, além de Fascinação, canções bem brasileiras, poéticas, políticas, como Rancho da goiabada, de João Bosco e Aldir Blanc (os bóias-frias quando tomam umas biritas espantando a tristeza...), Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa, Querelas do Brasil, de Maurício Tapajós e Aldir Blanc (o Brazil não conhece o Brasil), Sinal Fechado, de Paulinho da Viola, Cartomante, de Ivan Lins e Vítor Martins, Deus lhe pague e Construção, de Chico Buarque, Boto, de Tom Jobim e Jararaca – ecológica até no compositor - e Cão sem dono, de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro (se eu cantar, a alegria sai falsa, se eu calar, a tristeza começa). Grandes compositores na voz de grande intérprete.

Ivan Lins, por sinal, também gravou Cartomante em álbum cujo título - Nos dias de hoje - foi tirado da letra dessa música e que incluía Aos nossos filhos, também gravada por Elis. Tom Jobim lançou um disco ao vivo com Toquinho, Vinícius e Miúcha e outro em dois volumes com a mesma cantora. Sivuca marcou presença com o LP Cabelo de milho, que trazia, entre as faixas, Feira de Mangaio - grande sucesso na voz de Clara Nunes – e o lirismo de No tempo dos quintais, com participação, nos vocais, de Raimundo Fagner.

Pra fechar a lista com mais de cem músicas citadas, outros grandes destaques da época: Maluco Beleza, Coração Leviano, Ive Brussel, Amanhã, Êxtase, Sufoco, Sonhos, Romaria, A Rosa, Mal necessário, Coração tranquilo, Bye bye Brasil, O bêbado e a equilibrista, Flor de Lis, Feira moderna, O cio da terra, Canção da América, Pombo correio, Vou festejar, Casinha branca, Medo de avião, Rua ramalhete, João e Maria, Dia branco, Jura secreta, Doce vampiro, Dancin’ days, Sobradinho, Espanhola, Você não me ensinou a te esquecer. Encerro com uma homenagem aos artistas da nossa música, feita em 1993 por seu ilustríssimo representante, carioca meio paulista, meio pernambucano, meio mineiro, meio baiano. Um artista brasileiro.



Para todos (Chico Buarque)

O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens à vista

O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro

15.5.09

A MPB em seu esplendor - Parte I

Quem já se entendia por gente no final da década de 70 do século passado pôde vivenciar um dos períodos mais férteis da música popular brasileira, com discos mais bem feitos que esconderijo de Osama Bin Laden. Muitos dos cantores de MPB – sigla que, por sinal, começou a ser empregada em meados da década anterior, com os festivais de música -, lançaram, nesses anos, alguns de seus melhores discos. Tantas canções de qualidade em tão poucos anos é algo difícil de se repetir. Os LP’s desses cantores eram bastante esperados, da capa ao conteúdo, e a qualidade, em geral, superava as expectativas. Além do mais, ainda tínhamos Elis, Vinícius, Nara e Clara.

Evoé, jovens à vista, duas grandes cantoras começaram a carreira nesse período, contando com o aval de nada menos que Chico Buarque: Elba Ramalho e Zizi Possi. Elba, que vinha de participação na peça Morte e vida severina como atriz e cantora, lançou, em 79, o disco Ave de prata, que tinha como destaque Não sonho mais, de Chico, além de Canta coração e Ave de prata. Zizi, que estreou em 78, deixou para a posteridade suas interpretações para Pedaço de mim, de Chico, Nunca e Luz e mistério, integrantes de seu segundo disco, Pedaço de mim. Estrearam, ainda, Ângela Rô Rô, que brilhou como cantora e compositora com Tola foi você e Amor meu grande amor, Marina Lima e os grupos A Cor do Som, Boca Livre e 14 Bis.

Logo após a experiência conjunta dos Doces Bárbaros, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia reinvadiram, a sós, o solo fértil da nossa música. Em 1977, Caetano atacou de Bicho, que louvava, nas canções, vários espécimes de seres vivos (Gente, Um índio, Tigresa, O leãozinho). Um ano depois, lançou o disco Muito, que se hoje não é muito lembrado, trazia pérolas eternas, como Sampa e Terra, além de Muito romântico, também gravada por Roberto Carlos. Em paralelo aos dois trabalhos, lançou Muitos carnavais - apenas com marchinhas e frevos - e um disco ao vivo, com Bethânia. Fechou a década com Cinema transcendental, que incluía Lua de São Jorge, Beleza pura, Menino do Rio e Cajuína.

Depois do disco Refazenda, de 1975, Gil completou a trilogia “Re” com Refavela (77) e Realce (79), que nos presentearam com canções como Aqui e agora, Sandra, Super-homem, Toda menina baiana, Não chore mais, além das que deram nome aos discos. Ainda dividiu com Rita Lee o álbum Refestança (78), época em que a cantora compôs, com Paulo Coelho, as duas versões de Arrombou a festa*, em que caçoava da MPB. Bethânia em Álibi e Gal em Água viva deram voz e graça a canções de grandes compositores como Chico, Caetano, Gil e Gonzaguinha. A primeira com O meu amor, Diamante verdadeiro, Cálice e Explode coração e a segunda com Folhetim, Mãe, De onde vem o baião e O gosto do amor, entre outras.

Fora os bárbaros baianos, uma nova leva de retirantes, incluindo Elba, colocou ainda mais nos eixos nordestinos a música brasileira de então: Zé Ramalho, que já havia lançado o experimental Paêbirú, com a boa companhia de Lula Côrtes, contribuiu, nos dois primeiros trabalhos de sua carreira solo, com Vila do sossego, Chão de giz, Bicho de sete cabeças, Admirável gado novo, Frevo mulher, entre outras. Fagner, que começara a carreira no início da década, alcançou, com os discos Quem viver chorará (78) e Beleza (79), o auge do sucesso de público e crítica. Revelação e Noturno foram os grandes destaques desses dois álbuns.

A cantora Simone também marcou época com seu LP Pedaços, de 1979, no qual interpretava temas sobre encontros, como o samba Tô voltando, que virou hino da anistia e sobre separações, como Começar de novo e Saindo de mim ("você foi saindo de mim por todos os meus poros e ainda está saindo nas vezes em que choro"), ambas de Ivan Lins e Vítor Martins. E mais: Outra vez, de Isolda, Pedaço de mim e Sob medida, de Chico Buarque.

Roberto Carlos continuou sua cavalgada em torno do sucesso com um bom disco, em 1977, em que todas as músicas tocaram em rádio. Falando sério, amigo. Roberto, outra vez, lançou disco muito romântico e ainda homenageou a Jovem Guarda, com Jovens tardes de domingo. Nos anos seguintes, num gesto familiar, fez coro com Pai e mãe de Gil, Mãe de Caetano e Pai de Fábio Júnior, ao presentear a mãe e o pai com Lady Laura e Meu querido, meu velho, meu amigo, com direito a Café da manhã, ainda que sovinamente requisitado: “vou pedir um café pra nós dois.



* Arrombou a festa II (Rita Lee - Paulo Coelho)

Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu
Com a música popular brasileira?
Quando a gente fala mal, a turma toda cai de pau
Dizendo que esse papo é besteira

Na onda discoteque da América do Sul
Lenilda é Miss Lene, Zuleide é Lady Zu
Pra defender o samba contrataram Alcione
É boa de piston mas bota a boca no trombone
No meio disso tudo a Fafá vem dar um jeito
Além de muita voz, ela também tem muito peito
E a música parece brincadeira de garoto
Pois quando ligo o rádio ouço até Cauby Peixoto
Cantando: “Conceição!”

Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu
Com a música popular brasileira?
Quando a gente fala mal, a turma toda cai de pau
Dizendo que esse papo é besteira

O Sidney Magal rebola mais que o Matogrosso
Cigano de araque, fabricado até o pescoço
E o Chico na piscina grita logo pro garçon
Afasta esse cálice e me traz Moët Chandon
Com tanto brasileiro por aí metido a bamba
Sucesso no estrangeiro ainda é Carmen Miranda
E a Rita Lee parece que não vai sair mais dessa
Pois pra fazer sucesso arrombou de novo a festa

Ziri, ziriguidum, skindô, skindô, lelê
Sai da frente que eu quero é comer
A música popular brasileira
Lady Laura
A música popular
Parabéns a você, parabéns para a...
Música popular
Oh, eu te amo, oh, eu te amo, meu amor
Ai Sandra Rosa Madalena
O meu sangue ferve pela...
Música popular
Oh, fricote, eu fiz xixi
Fricote, eu fiz xixi
Na música popular brasileira
Corre que lá vem os "hóme"!

1.5.09

Caminhando e cantando - os dias eram assim

Quando se fala em música de protesto, Geraldo Vandré é o primeiro nome que nos vem à cabeça. Vandré tinha convicção de que a arte constituía poderosa arma contra o regime militar e, por conta disso, não via com bons olhos aquela que não se prestasse a tal fim. Desaprovava o uso de guitarras da Jovem Guarda e do Tropicalismo – influência externa, em geral associada ao imperialismo estadunidense -, bem como os temas mais suaves da Bossa Nova, também pouco engajados politicamente.

O compositor paraibano teve curta carreira artística, talvez desiludido com o caminho que traçava o país, a perseguição que sofria por lhe ser contrário e as dificuldades com a censura. Lançou apenas cinco discos, sendo o último em 1973. Tempo suficiente, porém, para compor belas canções, como Disparada e Canção da despedida. Sua canção mais conhecida, Caminhando (Pra não dizer que não falei das flores), tornou-se hino de resistência à ditadura. Era fascinante escutar pessoas cantando, em rodas de violão ou reuniões informais, uma música que não tocava em rádio e televisão, nem estava disponível em disco, o que, naqueles tempos, apenas contribuía para torná-la especial.

Da desilusão de Roda-Viva (“tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”) à esperança de Vai Passar (“vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade”), Chico Buarque foi o compositor que melhor traduziu o sentimento do povo em relação ao rumo político que o país tomava. No início dos anos 70, período crítico da ditadura militar, mandou um recado mais do que direto contra o governo e a repressão em Apesar de você. Quando a censura deu conta do recado, a canção já havia sido lançada em compacto simples que foi, então, recolhido.

O disco Calabar (1973), trilha sonora para a peça de mesmo nome, com composições de Chico Buarque e Ruy Guerra, teve que mudar a capa e o título, que passou a ser Chico canta. Fora isso, trechos de música foram alterados, palavras substituídas ou suprimidas. No jogo de palavras em que era mestre, Chico usou as sílabas de Calabar como mote de uma das canções do disco: Cala a boca Bárbara. Outras duas – Ana de Amsterdam e Vence na vida quem diz sim - apenas foram liberadas em versões instrumentais. Com subtítulo “O elogio da traição”, a peça fazia uma analogia entre Calabar – personagem da história do Brasil visto de forma controversa como traidor - e os opositores do regime militar.

Com o nome cada vez mais visado, Chico gravou, no ano seguinte, disco com músicas de outros compositores, com um sugestivo título: Sinal fechado. Para escapar da censura, passou a adotar, até ser descoberto alguns meses depois, o pseudônimo Julinho de Adelaide, com o qual assinou Milagre brasileiro, Acorda amor (“depois de um ano eu não vindo, ponha a roupa de domingo e pode me esquecer”) e Jorge Maravilha (“você não gosta de mim, mas sua filha gosta”).

Tim Maia disse, certa vez, que com uma música de Ivan Lins faria umas dez, em exaltação ao estilo apurado das composições do colega. Compositor mais comumente associado a canções românticas, Ivan Lins, com o parceiro e letrista Vítor Martins, também foi esmerado em canções políticas, como A noite (“a noite tem deixado seus rancores gravados...”), Cartomante (“nos dias de hoje não lhes dê motivo, porque na verdade eu te quero vivo”) e Aos nossos filhos*, as duas últimas com interpretações notáveis de Elis Regina. Ironicamente, um de seus primeiros sucessos foi O amor é o meu país, de seu primeiro LP (1970), considerada alienada para um período tão conturbado.

Pra não dizer que não falei das flores, com a abertura política, canções outrora censuradas puderam, enfim, ser gravadas, como a citada música de Vandré, que fez parte de um disco ao vivo da cantora Simone, gravado no último dia do ano de 1979, no qual ela fazia votos de “que as pessoas menos afortunadas do que nós tenham um pouquinho de estabilidade na vida”. Um ano antes, num LP a que ele se refere como o “disco das samambaias”, por conta da capa, Chico Buarque não perdeu tempo e gravou logo três: Apesar de você, Cálice e Tanto mar.

A partir daí, surgiu uma leva de canções mais otimistas. Prenunciava-se “um novo tempo, apesar dos perigos”, com mensagens como “desesperar jamais, aprendemos muito nesses anos” (Ivan Lins e Vítor Martins). Como já disse Tom Zé, a felicidade é cheia de hino. Vieram, então, os hinos da anistia (O bêbado e o equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc; Tô voltando, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro), das diretas (Pelas tabelas, de Chico Buarque), da Nova República (Coração de estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso), culminando com o hino da redemocratização (Vai passar, de Chico Buarque e Francis Hime).

A arte, mais especificamente a música, sempre foi lenitivo a momentos difíceis. Quem canta seus males espanta, diz um dito popular. Cantando eu mando a tristeza embora, responde um cantor popular. E assim, virando a página, tocando em frente, caminhando, cantando e seguindo a canção, escrevemos nossa história em notas musicais.



* Aos nossos filhos (Ivan Lins / Vítor Martins)

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

E quando lavarem a mágoa
E quando lavarem a alma
E quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim

15.4.09

Formas simples pra falar de amor

Entre as décadas de 50 e 60, o rock começou a fazer barulho pelo mundo, revelando expoentes como Elvis Presley nos Estados Unidos e os Beatles na Inglaterra. Paralelamente a esse burburinho, o Brasil calava-se diante da Bossa Nova e seu novo paradigma de interpretação e composição. Pouco depois, questões políticas nacionais exacerbaram uma dicotomia lado A – lado B, expandindo-a para a música, até que os tropicalistas, ao olharem de lado para a categorização, deixarem de lado o preconceito e colocarem lado a lado os dois lados, fizeram tudo virar um saudável clipe sem nexo, meio bossa nova e rock’n roll.

Quem viveu a adolescência nesse período entre meados das duas décadas, além de vivenciar as mudanças inerentes a essa etapa da vida, presenciou aquelas por que passou a música e, certamente, não saiu ileso. O cantor e compositor Roberto Carlos foi um desses jovens. Iniciou a carreira nessa época, cantando no estilo da recém-surgida Bossa Nova, mas, logo em seguida, deixou o barquinho correr e criou o movimento que ficou conhecido como Jovem Guarda, inspirado no tal do rock. Não obstante, sempre foi figura benquista em todo o meio artístico, com amigos como o tropicalista Caetano Veloso e o bossanovista Ronaldo Bôscoli, que foi produtor de seus shows junto com Miele.

Em seu marcante LP de 1971, quando Caetano estava no exílio em Londres, Roberto gravou uma canção dele - Como dois e dois - e outra para ele, Debaixo dos caracóis dos seus cabelos*, que faz sutil referência ao exílio, como uma espécie de Sabiá (esta inspirada na Canção do Exílio, de Gonçalves Dias) a cantar em outra freguesia, a da Jovem Guarda. Em discos posteriores, gravou, também de Caetano, Muito romântico e Força estranha. Ainda no quesito homenagem, no qual, como diria Carlos Imperial, ele era dez, nota dez, compôs pro parceiro Erasmo Carlos (Amigo), pra seus pais (Meu querido, meu velho, meu amigo e Lady Laura) e talvez seja o único compositor a lembrar a categoria das tias (Minha tia).

O cantor, que está completando 50 anos de carreira, lançou, em 1959, seu primeiro trabalho, um compacto simples (que, pra quem não sabe, era uma miniatura de LP, ainda assim fisicamente um pouco maior que um CD, contendo duas músicas). Dois anos depois, lançou o primeiro LP, Louco por você, o único que ainda não autorizou a ser relançado em CD. Nesse disco, havia várias canções de Carlos Imperial (o tal do “dez, nota dez!”) e versões de músicas estrangeiras. No segundo LP, iniciou a parceria com Erasmo Carlos, com Parei na contramão e outra.

Durante quatro anos, apresentou, junto com Erasmo e Wanderléa, o programa Jovem Guarda, na tv Record. Várias canções de Roberto e Erasmo tornaram-se marcos desse período, como Quero que vá tudo pro inferno - lançada no LP Jovem Guarda (1965) e regravada dez anos depois -, que está para a Jovem Guarda como Chega de saudade para a Bossa Nova. A dupla inovou na linguagem de algumas letras: você tem que aprender a ser gente, sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo, e que tudo mais vá pro inferno, por exemplo, soaria incomum na voz de cantores de rádio.

Outro sucesso da época, Festa de Arromba, gravada por Erasmo, descreve uma reunião fictícia e faz referência a expoentes da Jovem Guarda. A canção serviu de inspiração para, na década de 70, Rita Lee e Paulo Coelho comporem versões irônicas e atualizadas, Arrombou a festa I e II (Ai, ai meu Deus, o que foi que aconteceu com a música popular brasileira?). Também nessa década, Roberto e Erasmo compuseram Jovens tardes de domingo, bela exaltação do que representou um tempo que provoca certa nostalgia mesmo em quem não o viveu.

Quando o movimento arrefeceu, Roberto Carlos passou a adotar o estilo romântico que o caracteriza até hoje, numa mudança perceptível a partir do citado LP de 71. Ainda assim, continuou retratando bem os dilemas da juventude, seus anseios ou a falta deles, como em À janela, Traumas ou Como dois e dois (“Tudo certo como dois e dois são cinco”). Nessa época, bateu recordes de venda de discos e quase tudo o que compôs tornou-se clássico da nossa música - e até nome de gente, como O divã, uma de suas pérolas. Ao longo da carreira, teve canções gravadas por intérpretes dos mais variados estilos, de Maria Bethânia a Chico Science.

No seu aniversário, em 19 de abril, RC inicia, em sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim (ES), turnê cujo ponto alto será uma apresentação no Maracanã, Rio de Janeiro. Eventos especiais marcarão os 50 anos de carreira do cantor, todos em São Paulo. No Teatro Municipal, ocorrerá o show “Elas cantam Roberto Carlos”, do qual participarão várias elas. No ginásio do Ibirapuera, será apresentado o “Roberto Carlos Rock Symphony”, com participação de bandas de rock. O espetáculo “Emoções sertanejas” será exibido no estádio do Pacaembu e reunirá cantores de... música sertaneja. Haverá, ainda, a “Expo RC 50 anos”, sobre a carreira do cantor, no parque do Ibirapuera.

Como eu já disse em outra ocasião, ele estava certo ao afirmar: “Não adianta nem tentar me esquecer”. Sabe que é coisa muito grande pra esquecer.





* Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

(Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Um dia a areia branca
Seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar
Janelas e portas vão se abrir
Pra ver você chegar
E ao se sentir em casa
Sorrindo vai chorar

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar de um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um instante

As luzes e o colorido
Que você vê agora
Nas ruas por onde anda
Na casa onde mora
Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar de um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um instante

Você anda pela tarde
E o seu olhar tristonho
Deixa sangrar no peito
Uma saudade, um sonho
Um dia vou ver você
Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso

27.3.09

Depois do dilúvio


“Por que não viver esse mundo, se não há outro mundo?”. Depois dos mal comportados anos 60 - onde se pôde experimentar de tudo um pouco - e com os efeitos da ditadura surgindo com mais força, era natural que os anos 70 fossem mais conservadores. A aniquilação dos movimentos estudantis e a censura, em geral, afastaram os jovens da área cultural e, tirando os artistas já estabelecidos, como Chico, Caetano, Gil, Roberto e outros, poucos conseguiram destaque. Apenas os mais persistentes ousaram enfrentar uma situação adversa, como foram os casos de Raul Seixas e dos grupos Secos & Molhados - do qual fazia parte Ney Matogrosso – e Novos Baianos. Em comum, a atitude de enfrentar a dita desdita apenas pelo comportamento, sem canções notadamente de protesto.

Os Novos Baianos formavam um grupo recheado de gente boa e talentosa que, após o exílio dos tropicalistas Gil e Caetano, fazendo uso da mesma régua e compasso, arregaçou as mangas e começou a traçar seu caminho pelo mundo num espetáculo de sugestivo nome: Desembarque dos bichos depois do dilúvio. Os bichos misturavam samba, bossa-nova e rock, pandeiro, violão e guitarra, em composições em sua maioria próprias. Entre cantores, compositores e instrumentistas a equipe era composta por Luís Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Baby Consuelo, Bolacha e os integrantes do subconjunto A cor do som Dadi, Baixinho e os irmãos Jorginho e Pepeu Gomes *.

Acabou Chorare, o segundo trabalho da turma, de 1972, é daquelas obras eternas (foi eleito, em 2007, o melhor disco de música brasileira de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil). Nesse disco, Galvão assim se referiu ao grupo e suas influências: "Tudo começou quando Caetano e Gil deixaram o Brasil e nós desembarcamos no Sul. Vínhamos do meio da rua, da juventude que viveu, pulou e sorriu o tropicalismo. A alegria, alegria que Caetano deu ao jovem de saber que ainda existe aquela figura pensando e a força de Gil trouxeram a gasolina pro meu pique. Com a passagem de João Gilberto, 'o mestre', pelo Brasil, o nosso trabalho e esse disco assumiram essa qualidade. João deixa ele na gente".

Adeptos de uma filosofia hippie, naturalista, os Novos Baianos moraram alguns anos em comunidade, num sítio no Rio de Janeiro. Foi nessa época que eles conheceram João Gilberto e descobriram uma admiração mútua, galvanizada pela "lei natural dos encontros", em que deixamos e recebemos um tanto. João Gilberto louvou o estilo de vida do grupo, ao mesmo tempo em que passou a exercer influência sobre seu trabalho.

Essa influência, no segundo disco, é nítida, sobretudo nas faixas Preta pretinha e Acabou chorare, essa última até no título, uma frase dita pela filha de João, Bebel Gilberto, na época ainda bebê. Depois de abrir o berreiro, a futura cantora, parecendo saber, desde pequena, que o pai não gostava de barulho, misturou línguas e tratou logo de anunciar: "Acabou chorare". Interessante que, anos depois, uma frase dita pelo próprio João Gilberto, ao observar uma mulata descendo o morro, daria nome a outra canção de Moraes Moreira: "Lá vem o Brasil descendo a ladeira".

A maioria das canções de Acabou Chorare são conhecidas e tocam em rádio até hoje, seja em suas gravações originais, seja em regravações feitas por outros artistas. Estão, também, no repertório desse disco os sucessos Brasil pandeiro, de Assis Valente - um samba da década de 40, Besta é tu, Mistério do Planeta e A menina dança **, que vejo como uma referência às meninas-do-olhos sob efeito dos colírios alucinógenos de José Simão ou outros artifícios, certamente comuns entre eles.

O último disco dos Novos Baianos foi lançado em 1979. Em seguida, Dadi juntou-se a Armandinho e seguiu com A cor do som, enquanto Moreira, Paulinho, Baby e Pepeu seguiram carreira solo. Mesmo extinto, o conjunto completa quarenta anos em 2009 e, pra marcar a data, seus integrantes têm participado de eventos e comemorações. Moraes Moreira lançou o livro em cordel A história dos Novos Baianos e outros versos, junto com show, CD e DVD homônimos. Galvão, Paulinho, Pepeu e Baby apresentaram-se no carnaval de Salvador em um trio elétrico, como nos velhos tempos. Legal ver baianos novos curtindo o som dos novos baianos, o mesmo som que seus pais, velhos baianos, escutavam quando ainda eram baianos novos.





* Assista (se quiser) ao documentário Novos Baianos Futebol Clube, de Solano Ribeiro (1973):

Parte I / Parte II / Parte III


**A menina dança (Moraes Moreira / Luís Galvão)

Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos


Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar


De um lado o olho desaforo
Que diz o meu nariz arrebitado
E não levo para casa
Mas se você vem perto eu vou lá
Eu vou lá


No canto do cisco
No canto do olho
A menina dança


E dentro da menina
A menina dança


E se você fecha o olho
A menina ainda dança


Dentro da menina
Ainda dança


Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer
Nascer o que há

22.1.09

Quando o coração fala mais alto

Por esses dias, o nome da cantora Maysa voltou a ser celebrado, graças à minissérie da Rede Globo “Maysa – Quando fala o coração”, baseada em arquivos de família, notícias de jornais e diários escritos por ela própria, mesmo material utilizado pelo livro “Maysa: Só numa multidão de amores”, de Lira Neto (ed. Globo, 2007). O escritor, não obstante, desaprovou a minissérie de Manoel Carlos, dirigida por Jayme Monjardim, filho da cantora *.

Guardadas as proporções devidas aos apelos novelesco-filiais - aceitáveis para um meio de comunicação tão amplo e abrangente como a televisão -, a obra (que bem poderia ter como subtítulo: Quando fala o coração de um filho), mais do que apresentar o trabalho de Maysa a um público novo, proporcionou a uma geração nascida antes de sua morte, mas que não chegou a acompanhar sua carreira, a oportunidade de entender e desmistificar a imagem vaga e distante que fazia dela.

Na época em que faleceu, há trinta e dois anos completados hoje e aos quarenta de idade, sua canção mais famosa, “Meu mundo caiu”, fez parte da trilha sonora da novela “Estúpido Cupido”, da Rede Globo, sendo esse meu primeiro contato com sua obra. A composição de Maysa destacava-se pelo tom melancólico, o que me causava certo desconforto, afinal, à parte o trocadilho, não há nada mais pra baixo que a expressão “meu mundo caiu”.

Ademais, como parte dessa geração a que me referi, que cresceu e despertou para a música depois da Bossa Nova, da Jovem Guarda e do Tropicalismo, eu estranhava um pouco o vozeirão característico dos cantores que surgiram antes desses movimentos e que, depois deles, viraram exceção em vez de regra, como era o caso de Maysa. Com tal prevenção, só bem depois procurei conhecer melhor seu trabalho – e apreciei -, como por meio do disco: “Maysa – Essa chama que não vai passar”, com vários cantores interpretando canções que ela gravou ao longo da carreira, lançado em 2006.

Lira Neto afirma que poucos tiveram vida e arte ligadas de forma tão indissociável quanto Maysa. Na arte, ela manteve-se fiel a seu estilo, mesmo ao decantar (exaltar) a decantada (enxuta) Bossa Nova e gravar canções de Ronaldo Bôscoli - com quem manteve relações musicais e (nem tanto) amorosas -, Tom e Vinícius. O termo brega ainda não era comum, então os ávidos em categorização classificaram tal estilo como cafona, boco moco. Os traços de personalidade que a cantora deixava transparecer em suas autobiográficas composições **, se hoje seriam vistos como sinais de depressão, termo à época ainda não banalizado, eram, então, sintomas de fossa, os quais a tornaram assim conhecida, como cantora de fossa.

Na vida, Maysa reuniu ingredientes de forte apelo popular: riqueza, fama, casos amorosos, autodestruição, transgressões, escândalos provocados por bebedeiras e vice-versa, necessariamente nessa desordem. Vítima da síndrome vínico-jobiniana de tristeza-e-melancolia-que-não-sai-de-mim, seu temperamento forte parecia querer disfarçar uma insegurança que, por sua vez, provocava-lhe a necessidade de ser admirada, aceita, elogiada e de aparecer, a despeito dos desentendimentos frequentes com atitudes invasivas da mídia. Nos relacionamentos em geral, parecia buscar nos outros atitudes paternais sem, contudo, ser maternal, haja vista a relação distante com o filho.

Na minissérie, os números musicais foram um bom recheio, sobretudo pelo fato de as letras das canções encaixarem-se tão bem com a trama, devido a seu já citado conteúdo autobiográfico. A atriz Larissa Maciel, no papel de Maysa, fez um bom trabalho. É no choro que se reconhece um bom ator e, interpretando uma personagem por natureza tão melancólica, era natural que ela tivesse que passar por esse teste. E passou bem, como na cena de um show em Lisboa, em que dedica “Hino ao amor” - versão de uma canção de Edith Piaf -, ao ex-marido, recém-falecido. O coração falou mais alto.



* Trecho inicial do artigo “Minissérie global simplifica e distorce biografia de Maysa”, do escritor Lira Neto, publicado na Folha de São Paulo em 14/1/2009:

Ao assistir aos capítulos de “Maysa - Quando Fala o Coração”, logo me veio à lembrança o dia em que um jornalista quis saber a opinião da escritora Rachel de Queiroz a respeito da adaptação de seu romance “Memorial de Maria Moura” para a televisão, à época também levada ao ar na forma de minissérie. Rachel, com irresistível senso de humor, sapecou: “Até estou gostando; eles lá na Globo é que não gostaram muito de meu livro, pois trataram de mudar tudo na história” (Leia aqui o artigo completo).



** Resposta (Maysa)

Ninguém pode calar dentro em mim
Essa chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar
Eu não posso explicar quando foi
E como ela veio
E só digo o que penso
Só faço o que gosto
E aquilo que creio
Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim

8.1.09

Falando a mesma língua – parte II: abrindo um parêntese

O ano novo chegou, junto com o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, o qual entrou em vigor, no Brasil, em seu primeiro dia. Devido às dificuldades em sua aprovação – o acordo atingiu a maioridade no ano passado -, ficou decidido que, para a mudança tornar-se oficial, seria necessária a ratificação de apenas três dos oito países da comunidade lusófona (o que ocorreu em 1º de janeiro de 2007) e não de todos, como de início. Até o momento, metade dos países que fazem parte do acordo já o ratificaram: Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal, além do Brasil. A outra metade parece não tê-lo aprovado ainda apenas por ter outras prioridades, não por lhe ser contrária.

Ora, ora, pois, pois, mas estou cá a pensar que a maior parte das análises a respeito desse acordo tem sido feita a partir do ponto de vista luso-brasileiro, sem levar em conta, na discussão dos prós e contras, as situações bem específicas dos demais países envolvidos, sobre os quais não nos chegam muitas informações. Volto ao assunto, então, para escutarmos o outro lado do disco: em lugar de um fado tropical - da linda mulata com rendas do Alentejo e do rio Amazonas que, numa pororoca, deságua no Tejo -, um puro semba africano. Parafraseando Gil, só quem sabe onde é Luanda saberá lhe dar valor.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa, defensor do acordo, apresenta importante argumento a seu favor. Com uma produção de livros ainda incipiente, Angola precisa importar bastantes livros de Brasil e Portugal e, num país com alto índice de analfabetismo, o acesso a livros com diferentes grafias aumenta a dificuldade de aprendizado da língua, ainda que sejam poucas as palavras que tiveram alterações gráficas. Para diminuir o problema, os livros didáticos provêm, em geral, exclusivamente de Portugal o que, para ele, justifica, em parte, a resistência desse país à aprovação do acordo: com ele, os portugueses perdem mercado editorial nos países africanos.

Essa redução da influência de Portugal sobre Angola, porém, já vem ocorrendo em outras áreas. No que Agualusa chama de vingança de ex-colônia, a música popular angolana tem sido predominante no mercado português, o que tem feito com que os jovens lusitanos imitem o jeito de falar dos angolanos (algo como o que ocorre com o sotaque carioca em relação ao Brasil), a ponto de ele – natural de Angola, mas, apenas por ser branco, confundido com português -, ao falar em locais públicos de Lisboa, ser interpretado como um português querendo ser moderno ou falar como um jovem.

Um ponto pacífico (e, por isso, também atlântico) é que, mesmo com a cooperação de um sem-número de super-homens, ou talvez por isso mesmo, o recém-nascido acordo foi supereconômico nas mudanças no emprego do hífen, sinal dia a dia crítico. A dificuldade de autoaprendizagem e a necessidade de esforço extraordinário, quase sobre-humano, para assimilar os anti-intuitivos contraexemplos não cessaram de todo. Ainda que tal contrassenso tenda a nos tornar super-resistentes - pra não dizer ultrarresistentes a essas regras -, fazendo-nos sentir semianalfabetos com hífen, lembremos que o supracitado acordo não caiu de paraquedas, foi bem debatido por seus coautores, inclusive com consulta pública – ainda que malsucedida - quanto a sua implementação.

Segundo um caro amigo, só dois ou três chatos deviam entender as anteriores regras do hífen, o que não deve mudar tanto: agora, talvez uns quatro ou cinco venham a entendê-las. Para servir como base para os futuros dicionários, dirimir dúvidas e etc., o documento oficial será o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que está sendo concluído e deverá ser divulgado em breve.

O gramático Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras, a qual participou ativamente da elaboração do texto do acordo, afirma que a nossa língua era a única, dentre as faladas em mais de um país, em que a grafia não era unificada. Outro acadêmico critica o uso do termo "norma culta" no texto do acordo, termo que, segundo ele, traz uma incorreção política, pois você dizer que um jeito de falar ou escrever é culto, vulgar ou chulo é fazer juízo de valor, quando a melhor maneira de falar, na verdade, é a que vem de dentro de cada um, adequada a suas vivências e experiências, de forma natural e espontânea. Como diria a cantora Ana Carolina, é isso aí!

25.12.08

Retrospectiva recreativa

O ano vai chegando ao final, época em que deixamos fluir nosso espírito fraternal, em meio a ceias de Natal, Roberto Carlos Especial, etcetera e tal. Em mais uma habitual retrospectiva anual, vejamos o que foi notícia de jornal, o que houve de especial, para o bem ou para o mal, nos cenários nacional e mundial.

Depois do chilique de Milosevic e malgrado o protesto de Belgrado, de bom grado, parte do povo de Kosovo reconheceu como um país novo essa província do tamanho de um ovo. Em Cuba, Fidel encerrou seu papel de direção da nação e, sem escarcéu, abriu mão do martelo e da foice e foi-se ao léu. A população ergueu as mãos ao céu e tirou o chapéu, em comemoração à ascensão do seu irmão, que teve boa aceitação, mesmo mantida a retaliação do tio Sam. Sem confusão, mas com embargo, sin embargo.

Na grande potência, a inadimplência provocou falência, os bancos pediram clemência e Obama, sua excelência, homem do ano da Time, pediu ao povo paciência e clamou com veemência: dai-me sapiência para encarar a presidência, livrai-me do subprime e da desavença, perdoai-me pelo ataque ao Iraque, a invasão ao Afeganistão, o mal-estar com Ahmadinejad e os entraves com Hugo Chaves. Em xeque, o BRIC deu um breque e até que o sino da carestia por aqui repique, a crise se complique e pipoque, sem alguém que a explique, do Chuí ao Oiapoque, sem saco e sem saque, pra que o crescimento não empaque, seguimos no pique do PAC.

Passando de falta pra flauta, de saque pra sax, de repercussão pra percussão e de violação pra viola, louvemos dois compositores de primeira. Um faria cem anos, Angenor de Oliveira, o famoso Cartola, figura pioneira da música brasileira, criador da escola Estação Primeira de Mangueira e de canções que a gente a toda hora cantarola e põe pra tocar na vitrola ou radiola, como queira. O outro deixou a vida real, compositor do mesmo time, Dorival Caymmi, um ser especial, sublime, sem igual, que tão bem exprime, e de forma tão natural, a gente simples do litoral.

A violência no trânsito continua monstruosa e homérica, com veículos guiados por gente colérica e histérica, em má condição etílica e com teor alcoólico compatível com a máquina, numa mistura fatídica que, enfim, obtém repercussão jurídica, com a Lei Seca. Pra diminuir essa taxa de mortalidade trágica, quase bélica, agora quem seca a caneca vai de táxi, como Angélica.

Nos caminhos da vida, somos estimulados, desde pequenos, a competir. Compete a nós aceitar ou não. De um jeito ou de outro, como em tudo na vida, paga-se um preço, maior no primeiro caso. Em todo caso, não importa o quanto importa. O importante é não competir. Discordo de uma antiga musiquinha de Natal que dizia: “Quero ver você não chorar, não olhar pra trás nem se arrepender do que faz”. Chorar, olhar pra trás e se arrepender do que faz não faz mal e, às vezes, é fundamental. Chorar por sentir, olhar pra trás para ajudar, arrepender-se para reparar e, como maior presente, aos outros fazer-se presente, a si mesmo, viver o presente, renovando, diariamente, o simples desejo de um feliz dia novo para todos.

“A vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro” (John Lennon).



Simples Desejo (Daniel Carlomagno e Jair Oliveira)

Que tal abrir a porta do dia
Entrar sem pedir licença
Sem parar pra pensar
Pensar em nada

Legal ficar sorrindo à toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua

Pra viver e pra ver
Não é preciso muito não
Atenção, a lição
Está em cada gesto

Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez
Eu só tenho um simples desejo

Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem

11.12.08

No seu tempo

Costuma-se dizer que alguém está à frente de seu tempo quando se quer destacar seu vanguardismo. O polêmico cantor Cazuza parecia não estar nem à frente nem atrás, mas no seu tempo. Tempo de contradições e conflitos, ilusões e desilusões, em que vimos a volta da democracia (pós-Riocentro), mas com eleições indiretas (pré-Collor); um presidente que foi eleito, mas não assumiu; o congelamento de preços, seguido da maior das inflações; uma seleção de futebol que encantou o mundo, mas não ganhou a copa; o surgimento da AIDS, pondo em risco os prazeres básicos da filosofia hippie, com exceção do rock’n roll.

Foi por meio desse prazer sem risco que ele traduziu tal estado de espírito, em frases como: meu cartão de crédito é uma navalha, minha metralhadora cheia de mágoas, mentiras sinceras me interessam, vejo um museu de grandes novidades, vivo num clipe sem nexo, meu prazer agora é risco de vida, meu partido é um coração partido.

2008 marca os 18 anos de morte e o cinqüentenário de nascimento de Cazuza. O cantor e compositor começou a carreira como vocalista do grupo Barão Vermelho, com quem lançou três discos, todos pela gravadora Som Livre, cujo diretor era seu pai, João Araújo. Desde o primeiro disco, já mostrou a que vinha e o reconhecimento de grandes nomes da MPB, que gravaram algumas de suas canções, mostrou que não vinha apenas por ser filho de um diretor de gravadora. Seu primeiro disco solo, "Exagerado", foi lançado ainda pela Som Livre e os quatro seguintes, pela gravadora Polygram.

Dos ilustres intérpretes de suas canções, fizeram parte Caetano Veloso (Todo amor que houver nesta vida), Ney Matogrosso (Pro dia nascer feliz), Gal Costa (Brasil), Simone, Luiz Melodia (Codinome beija-flor) e Marina Lima (Preciso dizer que te amo). Frejat, companheiro de banda, foi seu mais constante parceiro musical. Juntos, eles compuseram, entre outras, a música-tema de "Bete Balanço" - sucesso de bilheteria do cinema nacional nos anos 80. Cazuza compôs, também, em parceria com Rita Lee (Perto do fogo) e Gilberto Gil (Um trem pras estrelas, do filme homônimo de Cacá Diegues).

Naquela época, havia, ainda, pouca informação a respeito da AIDS e Cazuza, uma das vítimas desse desconhecimento, foi um dos primeiros brasileiros de fama reconhecida a tornar público que havia contraído a doença. Após a morte do cantor, Lucinha Araújo, sua mãe, criou a Sociedade Viva Cazuza, com o objetivo de prestar assistência a crianças carentes com AIDS.

Sobre o assunto, em matéria considerada desnecessária e apelativa, a revista Veja estampou, na capa da edição de 26 de abril de 1989, uma foto do cantor, já bastante debilitado pela doença, com o seguinte texto: “Uma vítima da Aids agoniza em praça pública”. O impacto negativo provocado pela foto e pela matéria gerou carta de desagravo à revista, assinada por vários artistas e resposta do próprio compositor. Quem viu a chocante imagem, que não vale ser aqui reproduzida, decerto não a esqueceu.

Na década de 90, Cássia Eller dedicou um disco inteiro, "Veneno antimonotonia", às composições de Cazuza. Na mesma época, Lucinha Araújo publicou o livro "Cazuza – só as mães são felizes". Anos depois, ele teve sua trajetória de vida desde o começo da carreira artística mostrada no filme "Cazuza – o tempo não pára", de Sandra Werneck e Walter Carvalho, baseado no livro. Um filme marcante para quem viveu a época.

Se na vida pessoal foi figura polêmica, de comportamento pouco convencional, como cantor, Cazuza deveria ser avaliado por seu trabalho. Há quem não ache, e a quem não ache, sua canção responde por ele: "Não escondam suas crianças, nem chamem o síndico, nem chamem a polícia, nem chamem o hospício. Eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo, a não ser a mim" (Mal nenhum – Cazuza / Lobão).



Ideologia (Cazuza/Frejat)

Meu partido é um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito

Que aquele garoto que ia mudar o mundo
Frequenta agora as festas do "Grand Monde"

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia! Eu quero uma pra viver

O meu prazer agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Ah! saber quem eu sou

Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
Agora assiste a tudo em cima do muro

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia! Eu quero uma pra viver

21.11.08

Carta aberta

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Cérebro eletrônico (Gilberto Gil)

O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Quase tudo
Mas ele é mudo


O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda

Só eu posso pensar se Deus existe
Só eu
Só eu posso chorar quando estou triste
Só eu

Eu cá com meus botões de carne e osso
Eu falo e ouço
Eu penso e posso

Eu posso decidir se vivo ou morro
Porque
Porque sou vivo, vivo pra cachorro
E sei

Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Em meu caminho inevitável para a morte

Porque sou vivo, sou muito vivo
E sei
Que a morte é nosso impulso primitivo
E sei

Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro

6.11.08

Reflexos e reflexões

A Lewis Hamilton e Barack Obama

Num passado recente do nosso país, há apenas 120 anos, homens eram subjugados por seus semelhantes, com a conivência das leis e da maior parte da sociedade. Em trecho de relatório de cônsul britânico no Recife a um conde inglês, em 1843, constante do livro "Children of God's Fire – A documentary history of black slavery in Brazil" de Robert Edgar Conrad, publicado nos EUA, percebe-se uma síntese da época da escravidão no Brasil, quando se mutilava corpo e alma de seres humanos e as leis serviam de pretexto para quem se beneficiava da situação vigente:

"In a word, my Lord, all the worst features of slavery exist in this province; the endeavour of the master is to suppress alike the intellect, the passions, and the senses of these poor creatures, and the laws aid them in transforming the African man into the American beast"*.

Mais de um século após a quebra das correntes, uma outra corrente vem consolidando, em nosso país, o entendimento de que a abolição da escravatura pela princesa Isabel apenas corrigiu uma injustiça secular e a data não ressalta a luta dos negros pela libertação. Em seu lugar, vem se firmando, a cada ano, a comemoração do dia da consciência negra, em 20 de novembro, instituído pela lei 10.639/2003 - a mesma que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. O dia, que coincide com a morte de Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência à escravidão e luta pela liberdade, é feriado em várias cidades brasileiras, em sua grande maioria dos estados do Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo suas capitais.

As leis mudaram e a escravidão acabou (?), tarde demais, a vergonha permanece. Como no canto das três raças**, ecoa noite e dia. Nada redime nossa sociedade de ato tão vil e covarde, o qual contribuiu bastante para a desigualdade de condições que se experimenta até hoje em dia, desde o primeiro abrir de olhos. Olhos que podem ser vistos, por exemplo, nas primeiras e fortes cenas do filme "Última Parada 174", de Bruno Barreto, no rosto de um bebê que é tomado dos braços da mãe como "pagamento" de dívidas relacionadas ao tráfico de drogas ou de uma criança que vê a mãe assassinada.

A página em branco da vida dos dois garotos, como a de outros tantos, começa ali a ser preenchida, em linhas tortas, deixando antever os garranchos de seu capítulo final. Um caminho tortuoso e de certa forma previsível, em que violência e crime não são apenas a última parada, nem simples casos de polícia, mas um problema social. O filme é baseado em história real. Um dos dois garotos sobreviveu à chacina da Candelária e, anos depois, matou uma refém e foi morto por policiais, no desfecho do seqüestro de um ônibus, no Rio de Janeiro.

Em filmes como esse (outros exemplos são "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite"), a exposição de cenas de violência tem sempre como justificativa o objetivo que as acompanha, qual seja o de chamar a atenção para algo que de fato existe. Isolados do mundo que nos cerca, fechamos os olhos e vemos miséria e violência como algo distante, enquanto isso é possível. Nesses filmes, porém, somos postos frente a frente com essas mazelas.

Tal método é discutível, em ambos os sentidos: que se pode discutir e que é contestável, duvidoso, pois há quem seja - ou procure ser - consciente de outras formas, preferindo a denúncia implícita, que não precisa ser escancarada para ser compreendida. Eu, por exemplo, prefiro a poesia de "Central do Brasil". Há que se reconhecer, porém, nos três filmes citados, o lado mais positivo do princípio maquiavélico de que os fins justificam os meios. Certamente, os fins desses filmes fazem-nos sair do cinema reflexivos.





* Em uma palavra, meu senhor, todas as piores características da escravidão existem nesta província; o esforço dos mestres é, igualmente, de suprimir o intelecto, as paixões e os sentimentos destas pobres criaturas, e as leis ajudam-lhes a transformar o homem africano na besta americana.


** Canto das três raças (Paulo César Pinheiro – Mauro Duarte)

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor

17.10.08

Falando a mesma língua

Acordo e dou de cara com o acordo. Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, os países lusófonos, enfim, falarão a mesma língua. O mesmo não se pode dizer dos linguistas desses países. Estes não andam falando a mesma língua e com alguns deles não tem acordo. Os que não o veem com bons olhos, dizem que não vai funcionar, ponto. Já os que creem em seu êxito, respondem: não vai funcionar, vírgula! A resistência é maior em Portugal, onde as mudanças na ortografia atingirão em torno de 1,5% das palavras. No Brasil, o percentual de vocábulos alterados é de cerca de 0,5%*.

O fato é que o acordo ortográfico – de 1990 -, começa a vigorar, no Brasil, a partir de janeiro de 2009, embora as regras anteriores permaneçam válidas até 2012. A ideia é unificar a grafia e acabar com a odisseia na comunicação escrita entre os países de língua portuguesa, aumentando a integração entre eles, sendo este seu maior trunfo. A principal queixa dos discordantes é o alto custo envolvido com as mudanças, principalmente na reedição de livros - sobretudo os didáticos, gramáticas e dicionários. Vale lembrar que já passamos por outros acordos e reformas ortográficas - não tão facilmente assimiláveis - e que, por conseguinte, nossa ortografia já foi bem diferente, com menos acentos e muitas consoantes mudas **.

No novo acordo, a maior parte das mudanças implica em perda de acento, como nos hiatos oo (voo), na terceira pessoa do plural dos verbos dar, crer, ler, ver (deem, creem, leem, veem), nas paroxítonas com I e U tônicos precedidos de ditongo (feiura) e nos ditongos ei e oi - apenas em paroxítonas (plateia perde o acento, coronéis, não e cuidado: não confundir veia literata com uma senhora idosa versada em letras). Em Portugal, a maior mudança, porém, talvez seja a supressão das consoantes mudas na grafia de algumas palavras (director, óptimo), o que tem deixado os portugueses sem acção.

Há outras mudanças simplificadoras, como a perda do acento diferencial de palavras homógrafas. Por exemplo, pára, do verbo parar, para de ter acento, o que não constitui um problema, pois se você para para observar, neste caso é fácil distinguir o verbo da preposição. Com relação ao acréscimo das letras K, W e Y ao nosso alfabeto, K pra nós não tem muita utilidade, Y muito menos e W, só na internet. O hífen, que dá trabalho a todo o mundo, perdeu o emprego em algumas situações (abrindo um parêntese aqui, as exceções, grande problema do hífen, continuam) e, finalmente, para que todos fiquem tranquilos e ninguém mais tema nem trema ao escrever, o trema não mais existirá.

A conclusão a que se pode chegar é que o acordo atual, ainda que facilite, não é suficiente para proporcionar uma maior integração entre os países em questão, uma vez que não há como unificar o vocabulário em constante evolução de tais países, cada um com suas próprias influências históricas, como o tupi-guarani e as palavras de origem africana, no caso do Brasil. Por outro lado, é considerável podermos imaginar que este texto escrito assim, de acordo com o acordo, poderia ser lido, sem alterações, em Lisboa ou João Pessoa, em Portugal ou Guiné-Bissau.



* Quanto a esse percentual, Vasco Graça Moura, escritor e deputado português no Parlamento Europeu e um dos maiores críticos do acordo que, segundo ele, “serve interesses geopolíticos e empresariais brasileiros” e “redundará em total benefício do Brasil”, afirma que “não foi feito cálculo nenhum quanto à frequência com que essas palavras são utilizadas, havendo casos em que tal frequência é altíssima”. Leia esta e outras opiniões do além-mar, a favor e contra o acordo, em: www.ciberduvidas.sapo.pt/controversias.

** Para ilustrar tais mudanças de ortografia, seguem curiosos trechos do prefácio e apêndice do livro “A illusão americana”, de Eduardo Prado, publicado no Brasil em 1895, pouco depois da proclamação da República:

“Este despretencioso escripto foi confiscado e prohibido pelo governo republicano do Brazil. Possuir este livro foi delicto, lel-o conspiração, crime havel-o escripto”.

“Escrevo um livro sustentando a doutrina politica de que o Brazil deve ser livre e autonomico perante o estrangeiro, e adopto o aphorismo de Montesquieu, de que as republicas devem ter como fundamento a virtude.
O governo é contrario a essas opiniões, e está no seu direito. Manda, porém, prohibir o livro! Onde está a palavra do governo, dada solemnemente n'um decreto em que diz garantir a propaganda de qualquer doutrina politica?
A sabedoria popular diz: Palavra de rei não volta atraz. - O povo terá de inventar outro proverbio para a palavra do vice-presidente da republica”.

21.9.08

Um Rio que passou em minha vida

Entre os anos 20 e 30 do século passado, as escolas de samba do Rio de Janeiro tinham como mestres nomes como Cartola e Ismael Silva. Surgidas no subúrbio, tais escolas eram manifestações do povo, pelo povo e para o povo, numa democracia musical, afinada e harmônica. Depois, vieram Martinho da Vila, Paulinho da Viola, entre tantos outros que contribuíram para fazer do samba esse ritmo tão popular.

Com o passar dos anos, ao mesmo tempo em que o desfile das escolas foi se consolidando como um espetáculo, o carnaval carioca foi sumindo das ruas, tornando-se um tanto elitista (isso vem mudando, vide Monobloco, Simpatia é quase amor, Cordão do Boitatá e outros blocos de rua). Porém, ai porém, ser ou não ser elitista, como tudo na vida, depende do ângulo de visão, no caso o de quem assiste ou o de quem faz. Olhando de cima, de fora pra dentro ou do ponto de vista dos espectadores dos desfiles, sim, pois paga-se caro para assisti-lo e o ingresso é bastante disputado. Olhando por baixo, de dentro pra fora ou do ponto de vista de quem está desfilando, não, pois trata-se, em sua maior parte, de gente das comunidades, que trabalha o ano inteiro, a vida toda, para fazer uma boa apresentação e tem nesse ofício sua razão de viver.

Gente de um outro Rio de Janeiro, não o que tem braços abertos no cartão postal, mas o que tem Jesus e está de costas, que não figura no mapa, do subúrbio de Chico, berço do samba, que nos legou os laralaiás das canções. Um Rio que passou em minha vida, na minha infância, quando escutava belíssimas canções saídas das mentes sensíveis da turma da Velha Guarda da Portela, como “O mar serenou”, de Candeia e “Quantas lágrimas”, de Manacea, grandes sucessos nas vozes de Clara Nunes e Cristina Buarque, respectivamente.

Um rio que deságua na Lapa da nova geração real de sambistas (a imperatriz Teresa Cristina à frente), trazendo afluentes influentes como Paulinho da Viola e Marisa Monte, o primeiro, idealizador do grupo formado por ex-integrantes da Portela – nunca vi coisa mais bela - e produtor do primeiro disco da Velha Guarda, “Portela passado de glória”; a segunda, filha de ex-diretor da escola e produtora do último disco dos veteranos sambistas, “Tudo azul”, com músicas antigas, porém inéditas, algumas gravadas apenas em suas memórias.

Do trabalho de pesquisa para a composição do repertório de “Tudo azul”, surgiu o documentário “O mistério do samba”, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda, após quase dez anos de filmagens, a partir de 1998. O filme registra depoimentos de vários integrantes da Velha Guarda da Portela, entre eles Argemiro e Jair do Cavaquinho - falecidos durante o período das filmagens -, bem como os encontros do grupo com Marisa Monte, que também colabora como produtora e roteirista. Entre as canções do filme estão “Quantas lágrimas” e “Esta melodia”, esta última já gravada por Marisa em “Verde anil amarelo cor de rosa e carvão”, aquela do refrão: “Não suporto mais tua ausência / já pedi a Deus paciência”, mais uma que começa com um delicioso laralaiá.

Em depoimento ao documentário, Paulinho da Viola, ao se referir à emoção que a música e outras artes proporcionam, dispensa, de forma genial, maiores explicações: “você pode até explicar, mas não é o mais importante”. Eis o mistério do samba. O que difere a música da ciência é justamente que esta precisa do conhecimento, da medida, da precisão, da explicação para ser entendida, enquanto a música só precisa do sentimento. Não dá pra definir, é como aquele azul da Portela, que não era do céu nem era do mar e conquistou Paulinhos num certo dia de carnaval...



Foi um rio que passou em minha vida (Paulinho da Viola)

Se um dia
Meu coração for consultado
Para saber se andou errado
Será difícil negar
Meu coração tem mania de amor
Amor não é fácil de achar
A marca dos meus desenganos ficou, ficou
Só um amor pode apagar

Porém
Há um caso diferente
Que marcou um breve tempo
Meu coração para sempre
Era dia de carnaval
Eu carregava uma tristeza
Não pensava em novo amor
Quando alguém que não me lembro anunciou
Portela, Portela
O samba trazendo alvorada
Meu coração conquistou

Ah, minha Portela
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria a voltar
Não posso definir aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar
Foi um rio que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar

7.9.08

Fora de série

* Ao Mestre Salu, grande mestre da cultura popular e torcedor do Santa Cruz.

João Cabral de Melo Neto e Chico Science, tal qual as águas dos rios que os inspiravam, refletiram bem a imagem do povo de sua cidade, aquele que realmente a constrói, pisa em seu chão, vive e convive em seus espaços e não apenas a vê através da janela do carro, da varanda do apartamento ou da tela da tv. É desse povo simples, dessa gente sofrida, que tem no futebol uma de suas poucas alegrias, que se constitui a maior parte da torcida do Santa Cruz Futebol Clube, e é natural, portanto, que os dois ilustres recifenses fossem torcedores desse clube, tendo o poeta sido, inclusive, atleta de sua equipe de futebol juvenil.

O clube pernambucano, que possui 24 títulos estaduais e já revelou atletas como Ricardo Rocha e Rivaldo, foi fundado em 1914 - por garotos que costumavam se reunir no pátio da igreja de Santa Cruz, no bairro da Boa Vista - e afundado no novo milênio, quando passou a viver sua pior fase. Depois de sagrar-se campeão estadual pela única vez na década, em 2005 e disputar a primeira divisão do campeonato brasileiro em 2006, “o mais querido”, como o chamava o mestre Capiba, foi rebaixado três vezes consecutivas, fato inédito no futebol brasileiro, o maior rebaixamento consecutivo do norte-nordeste-centro-oeste-sudeste-sul, algo difícil de se repetir.

Na década de 70, em sua época de ouro, o Santa Cruz conquistou sete títulos estaduais, entre os quais o pentacampeonato pernambucano, tinha a maior torcida do estado, inaugurou o estádio do Arruda, pertencente ao clube e fez boas campanhas no Brasileirão. Se, hoje em dia, Sport e Náutico são os únicos clubes pernambucanos que figuram no cenário nacional, o Brasil já foi, em tempos passados, Terra de Santa Cruz.

Em 73, o clube teve o artilheiro da competição (Ramon) e em 78 ficou na quinta colocação, mantendo-se invicto por 27 jogos, mas o ano em que mais se destacou foi 75, quando chegou às semifinais, sendo, então, derrotado pelo Cruzeiro (eu estava lá!), que se tornaria o vice-campeão nacional e campeão da Libertadores no ano seguinte. Em 76, venceu, em torneio no Recife, a seleção da Tchecoslováquia, à época campeã da Eurocopa e, no final da década, retornou invicto de excursão à Europa e ao Oriente Médio, tendo vencido, entre outras, a seleção da Romênia.

Numa segregação literal, costuma-se dividir as pessoas em classes sociais: A, B, C, D. O mesmo ocorre com os times de futebol, divididos entre as séries A, B, C e – agora também – D. Como se pessoas e clubes pudessem ser valorados por uma simples letra. Os jogadores passam, a torcida fica. Por isso, a maior conquista de um clube é sua torcida e, nesse aspecto, tenha santa paciência, o Santa Cruz, que tem em sua bandeira as cores das três raças, vermelha, preta e branca, é fora de série.

Como diz o hino do clube, composto pelos irmãos Valença, “Esta multidão tamanha, gente pobre que te aclama, lembra o ouro que se apanha nos cascalhos e na lama. Esse ouro é sangue, é vida. É delírio, raça e amor. A bandeira tão querida. A bandeira tricolor”. O hino é uma canção de amor ao clube e a sua torcida, pois como dizia Gonzaguinha, “uma canção de amor também é aquela que canta o suor do trabalho, o calo das mãos de quem canta a esperança, no jogo, na dança, com garra e fé”. Como têm dito os sofridos tricolores, um amor incondicional, um amor que não tem divisão, ao que acrescento: um amor fora de série.

27.8.08

Momentos olímpicos

De acordo com a Wikipedia, o Aurélio, o Houaiss e outros caras, olimpíadas e jogos olímpicos, atualmente bastante usados como sinônimos, podem não ter o mesmo significado. O termo olimpíada representava, na Grécia Antiga, o período de quatro anos compreendido entre duas edições de tais jogos, que por sua vez, têm esse nome por terem surgido na cidade grega de Olímpia. Em suma: após a olimpíada, começam os jogos olímpicos. Outra curiosidade é que o símbolo oficial dos jogos, os conhecidos cinco anéis de cores diferentes, representam, cada um, um continente, o azul sendo a Europa, o amarelo, a Ásia, o preto, a África, o vermelho, a América e o verde, a Oceania.

Um grande momento da história dos jogos olímpicos foi a conquista de quatro medalhas de ouro, no atletismo, pelo atleta negro Jesse Owens, dos Estados Unidos, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, episódio que foi de encontro aos objetivos do líder nazista Adolf Hitler de comprovar a superioridade da raça ariana durante os jogos.

A ginástica e o atletismo, duas das modalidades mais tradicionais dos jogos olímpicos, foram responsáveis por outros dois momentos marcantes de sua história, opostos em termos de resultados, mas semelhantes no espírito de superação e perseverança. Nas Olimpíadas de Montreal, em 1976, a romena Nádia Comaneci recebeu a primeira nota 10 da ginástica olímpica, com apenas 14 anos de idade e em 1984, em Los Angeles, a suíça Gabriela Andersen-Scheiss, à época com 39 anos, terminou a prova em um dos últimos lugares, quase não se aguentando em pé, cambaleando, desorientada, até cruzar a linha de chegada e ser acudida por médicos, desmaiando em seus braços.

As brigas políticas, que iam de encontro ao espírito olímpico de união entre os povos, foram freqüentes nas várias edições dos jogos, com destaque para o atentado ocorrido em Munique - que resultou na morte de atletas da equipe de Israel - e os jogos realizados durante a Guerra Fria, na década de 80. Em 1984, em Los Angeles, as Olimpíadas foram marcadas pelo boicote da maioria dos países socialistas à competição, em resposta a ato semelhante praticado pelos Estados Unidos e dezenas de outros países aos jogos de Moscou, em 1980.

Os jogos de Barcelona, em 1992, por sua vez, foram os primeiros ocorridos após importantes fatos históricos que se refletiram na relação dos países participantes. Três anos após a queda do muro de Berlim e dois após o fim do regime de apartheid, a Alemanha, como nação unificada, e a África do Sul voltaram a participar de Olimpíadas. Já a União Soviética e a Iugoslávia viviam um processo de desmembramento em várias nações, com algumas delas, como Lituânia, Letônia, Estônia, Croácia e Eslovênia, participando separadamente da competição. As repúblicas soviéticas remanescentes participaram com o nome de Equipe Unificada.

A canção tema das Olimpíadas de Barcelona, “Amigos para Siempre”, refletiu bem o tal espírito olímpico, louvando a amizade e a união entre os povos e as nações e sensibilizou a todos. Foi também nessa época que uma nova “modalidade” criada pelos voluntários gandulas mereceu destaque: a limpeza de quadra sincronizada, que roubava a cena nos intervalos dos jogos de vôlei e basquete - sendo bastante aplaudida - e que até hoje dão um toque de graça a esses jogos.

O Brasil, depois de uma maratona de deslizes e sobressaltos com vara, até que não se saiu tão mal em Pequim. Mas quem merece parabéns mesmo é a Jamaica, país que melhor reverteu (e inverteu) a proporcionalidade direta entre a posição no quadro de medalhas e o quadro social, com sua décima terceira colocação e suas onze medalhas, sendo seis de ouro, três delas de Usain Bolt, no atletismo. Tentando escrever este texto rapidamente, talvez inspirado nos tempos olímpicos, lembrei da velocidade das braçadas de Michael Phelps, atleta estadunidense que ganhou oito provas de natação nesses jogos. Nada mau pra quem nada bem. A potência máxima da natação é levada ao Cubo D'Água: pura matemática. Mas o que ele faz pra ganhar tantas medalhas de ouro? Nada de mais, apenas nada demais! Beijing pra todos.

14.8.08

Avós do coração

Tristeza não tem fim. Felicidade, sim. Quando era pequeno, chorava ao escutar esse trecho da música de Tom e Vinícius. Ao levar a letra ao pé da letra, sentia-me incomodado em estar iniciando uma trajetória na qual a tristeza seria constante e a felicidade, apenas pequenos momentos. Enxergando a vida através das lentes suaves dos olhos de uma criança, era feliz e resolvi, então, esperar vir o amadurecimento, deixar de ser jovem para então poder tirar conclusões mais precisas. Aos pouquinhos, sem pressa, entre felicidades e tristezas, ganhos e perdas, chegadas e partidas, encontros e despedidas. Só não sabia ao certo quando deixaria de ser jovem...

Descobri que isso acontece no exato momento em que perdemos nossos avós e constatamos que por ninguém mais seremos tratados como crianças. Foi assim que, numa fria manhã de agosto, repentinamente, amanheci mais velho. Sem a grande mãe, como chamam os ingleses. Sem a estrela-guia com quem descobri a importância de se escutar avós (e a voz) do coração, a quem devo a crença de que o amor é possível, de quem sempre admirei a simpatia e herdei o gosto por rir de qualquer coisa, a quem sempre busquei seguir na sensibilidade, simplicidade e delicadeza sem, contudo, chegar a seus pés. Linda com l maiúsculo, minha avó é a felicidade pela qual volto a chorar, depois de adulto, ao perceber que estava certo ao chorar, quando criança.

20.7.08

Da missa um terço


Uma cerimônia que ocorre todos os anos no interior de Pernambuco, sob o sol forte do sertão, dentro da jurisdição de Januário, que vai de Salgueiro a Bodocó, resgata os verdadeiros e primordiais preceitos religiosos de negação ao que representa luxo, ostentação, superfluidade. O evento ocorre, mais precisamente, no Parque Estadual João Câncio, Sítio das Lajes, a cerca de 30 km da cidade de Serrita e a 577 km do Recife, desde 1970, sempre num domingo do mês de julho, a partir das 10 horas da manhã.

Trata-se da Missa do Vaqueiro, cerimônia idealizada por Luiz Gonzaga em homenagem ao vaqueiro Raimundo Jacó, seu primo, neto do véio zangado, que um dia pediu respeito a Januário e seus oito baixos. Hoje em dia, a reverência estende-se a todos os vaqueiros, ao próprio Luiz Gonzaga e também ao padre João Câncio, celebrante das primeiras edições da missa e um de seus organizadores, junto com Gonzagão. Além deles, também foi responsável pela criação da missa o poeta Pedro Bandeira, de Juazeiro do Norte, único dos três ainda vivo.

O acesso ao parque é difícil, o cenário, monótono, o transporte, precário. Os vaqueiros que vêm de longe chegam em paus-de-arara, enquanto seus cavalos são transportados por caminhões, das fazendas. Outros andam léguas a pé ou já chegam montados nos cavalos. Lotações fazem jus ao nome e passam lotadas sob a vista grossa de alguns fiscais das estradas. O caminho caminha, a dura paisagem dura e, de tão igual, permanece. Lembra um causo de Gonzaga que, ao voltar pro sertão, depois da fama, perguntou a um transeunte: “Daqui pra Exu é longe?”, ao que este respondeu: “Umas seis léguas” e completou: “Aqui pra nós, porque nesse carro aí não dá nem quatro”.

A celebração acontece no local onde Raimundo Jacó foi encontrado morto, em julho de 1954, supostamente assassinado. No início da cerimônia, vaqueiros entram a cavalo no chão de terra seca e batida, ao som de “A morte do vaqueiro”*, de Nelson Barbalho e Luiz Gonzaga (aquela do tengo lengo tengo), que homenageia Jacó. De início, o próprio Gonzagão cantava essa e outras músicas, assim como o Quinteto Violado, que, inclusive, gravou dois discos inspirados na cerimônia. Atualmente, cantores populares revezam-se na interpretação das canções.

No ofertório, momento mais bonito, os vaqueiros sucedem-se em direção ao altar e entregam ao padre, uma a uma, as várias partes de sua indumentária típica, como chapéu, gibão, perneira, sela, alforje e chocalho, ao mesmo tempo em que Pedro Bandeira explica, de forma poética, a utilidade de cada uma delas. Na comunhão, os vaqueiros repartem o queijo, a rapadura e o vinho. Um comovente ritual, em que as lágrimas iminentes nas peles ressequidas lembram a promessa de chuva na terra rachada e as mãos em prece confundem-se com os mandacarus da paisagem.

A exploração turística do evento, ainda que pequena, se por um lado proporciona um mínimo de infra-estrutura, por outro, tira um pouco de sua espontaneidade, conseqüência natural da simplicidade rica dos sertanejos, numa tentativa artificial de criar um espetáculo. Em alguns desses momentos teatralizados, por exemplo, uma espécie de chefe de cerimonial insiste para que os vaqueiros acenem com seus chapéus.

Numa região geralmente esquecida pelas autoridades, que não sabem da missa 1/3, é pertinente a denúncia de exploração política do ato, presente nos versos do cordel “Encontro de padre João com Raimundo Jacó no céu”, de Pedro Bandeira: “Da sua missa primeira / Todo sertão tem saudade / Hoje o governo aproveita / Pra fazer publicidade / Parece uma coisa boba / Que o progresso sempre rouba / A nossa felicidade”. Acontece, por exemplo, de políticos adentrarem o parque montados a cavalo, com chapéu de couro na cabeça e o séquito de vaqueiros seguindo-os.

A festa profana começa na sexta-feira anterior à missa e segue até o domingo, tendo como atrações, além das apresentações de artistas populares, as vaquejadas, rodas de forró - semelhantes às rodas de samba - e pegas de boi. Na ocasião, alguns jovens sertanejos, indiferentes à missa e seguindo o exemplo que chega das “terras civilizadas”, reúnem-se dia e noite, religiosamente, em um extenso conjunto de bares à beira da estrada onde, em vez de hosana, o som é nas alturas. Acordar com a passarada até se consegue, dormir ao som do chocalho é que é difícil...



* A Morte do Vaqueiro (Luiz Gonzaga / Nelson Barbalho)


Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar

Tengo, lengo, tengo,
lengo, tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi

Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão

Tengo, lengo, tengo,
lengo, tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi

Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Que inda chora sua dor
É demais tanta dor
A chorar com amor

4.7.08

O concreto e o abstrato na terra da polêmica

Criar polêmica não é para qualquer um. Mais cômodo é seguir o senso comum dos críticos ou patrulhadores de plantão e não ir de encontro a suas opiniões, ainda que isso signifique optar pelo diferente, pelo exótico, em vez de louvar o que é mais comum.

O filósofo e poeta Antônio Cícero, também conhecido como parceiro musical e irmão da cantora Marina Lima, afirmou, em entrevista recente, que toda originalidade é, de início, esquisita, o que lembra a famosa frase de Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Em comum, as duas frases têm um componente generalizador e polêmico, o pronome indefinido toda. Certas vezes, os críticos, formadores de opinião, têm um gosto meio esquisito mesmo, mas estar do lado deles é achar-se parte de uma minoria intelectual privilegiada, o popular “crente que está abafando”, fugindo, assim, da “unanimidade burra”, do trivial, de apelo mais fácil.

Os embates entre os dois lados, porém, decorrem, muitas vezes, mais da polêmica que a polêmica cria, por conta da forma como é lançada, do que do lado escolhido. Recentemente, dois depoimentos - do tipo que gera controvérsias pelo conteúdo e sobretudo pela forma - receberam destaque na internet, ambos, de certa forma, coerentes com a especialidade dos respectivos autores: o primeiro, do economista Rodrigo Constantino, com MBA em finanças e profissional do mercado financeiro, conforme perfil exposto em seu blog e o segundo do humorista Marcelo Madureira, do programa Casseta e Planeta.

O economista, que se define como um pensador independente e libertário, escreveu em seu blog artigo intitulado “Um século de hipocrisia”, sobre o arquiteto Oscar Niemeyer, que completou, este ano, um século de vida. O artigo, a começar pelo título, é provocativo, recheado de frases como: “Niemeyer, sejamos bem francos, não passa de um hipócrita”, “Na prática, Niemeyer é um capitalista, não um comunista. Mas um capitalista da pior espécie: o que usa a retórica socialista para enganar os otários”, ou ainda: “... a ignorância é cada vez menos possível como desculpa para defender algo tão nefasto como o regime cubano, restando apenas a opção da falta de caráter mesmo. Ainda mais no caso de Niemeyer”.

No campo profissional, sabe-se que o arquiteto também gera polêmica, pelo uso em excesso de concreto em detrimento do verde em seus projetos. De concreto, porém, há de se concordar que, ainda que não se aprove suas posições ideológicas ou seu trabalho, os adjetivos usados do começo ao fim do artigo - que ainda deixa no ar a pergunta: “O que alguém como Niemeyer tem para ser admirado, enquanto pessoa?” - são fortes e desrespeitosos aos seus cabelos brancos.

Na mesma linha da forma exacerbando o conteúdo, mas com maior repercussão, inclusive por conta da maior divulgação por parte da mídia, Madureira afirmou, em debate ocorrido no Rio de Janeiro, no Cine Odeon: “Gláuber Rocha é uma merda”. Carlos Heitor Cony descreveu a reação dos “entendidos” participantes do evento ao comentário do humorista com ironia, como que adivinhando o pensamento daqueles que se imaginam agraciados com um gosto apurado, privilégio de poucos: “Como podiam ter deixado um cara daqueles, que não pertencia ao povo eleito, penetrar no sagrado pátio, no templo da arte do Terceiro Mundo...?”.

Entendidos à parte, mesmo aqueles que consideram a obra do cineasta de não tão fácil assimilação hão de concordar que o termo utilizado para descrevê-lo não cheira bem. Rocha é muito mais sólido do que isso. Como não cheira bem, também, o alarde que fizeram porque Ronaldo trocou as bolas. Como diz Caetano Veloso, nada pode prosperar quando todo o mundo quer saber com quem você se deita, o que, aliás, não interessa a ninguém, assim como o fumo e a bebida da rebelde Núbia Lafayette. Caetano, que gosta de polêmicas, criticou tais comentários intrusivos e traduziu bem o fenômeno: “A vida é assim: complexa e bonita, como os travestis”.

19.6.08

O nosso Dominguinhos de todos os dias


Há alguns dias, um homem arretado recebeu, com o sorriso sincero e a simplicidade cativante de sempre, merecida homenagem na sexta edição do Prêmio Tim de Música, substituto do Prêmio Sharp, que, este ano, trouxe seu nome no subtítulo: “Ano Dominguinhos”. Vai ser, também, um dos homenageados do São João do Recife.

Os primeiros discos do músico são da década de 60, época em que começou, também, a tocar com Luiz Gonzaga, que conheceu ainda adolescente, em sua terra natal, Garanhuns, no agreste pernambucano. O Rei do Baião, responsável pela escolha de seu nome artístico Dominguinhos, chamou-o para fazer parte do grupo que o acompanharia no histórico show “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, no Teatro Tereza Rachel, no Rio, em 1972, um trabalho, segundo o jornalista Sérgio Cabral, da linha recomendada por Drummond que, cansado de ser moderno, resolveu ser eterno.

No ano seguinte, gravou seu primeiro grande sucesso, “Lamento sertanejo”*, uma parceria brilhante com Gilberto Gil a qual, pra mim, melhor define o sertanejo e sua dificuldade em lidar com os “mestiços neurastênicos do litoral”, como bem definiu Euclides da Cunha em “Os Sertões”. Gostaria de ser sertanejo para poder sentir o prazer de ser perfeitamente traduzido por canções como esta, “Súplica cearense” do baiano Gordurinha, “Disparada” do paraibano Geraldo Vandré.

“Lamento sertanejo” foi gravada, também, por Gil, juntamente com “Tenho sede”, de Dominguinhos e Anastácia – primeira esposa do sanfoneiro e sua principal parceira musical -, no disco Refazenda, numa época em que músicas que não eram feitas pra tocar no rádio ainda tocavam no rádio, o que fez com que Dominguinhos passasse a ser mais conhecido pelo grande público. Outra parceria dele com Anastácia, “Eu só quero um xodó”, já havia sido destaque no disco anterior de Gil, “Cidade do Salvador” e, alguns anos depois, em “Refestança”, de Gil e Rita Lee. O baiano e o pernambucano compuseram juntos, também, “Abri a porta”, um dos destaques do LP “Frutificar”, do grupo “A cor do som”.

Nos anos 80, Dominguinhos compôs, com Nando Cordel, “De volta pro aconchego” e “Gostoso demais”, que conseguiram uma brechinha no monopólio do rock brasileiro de então e foram das canções mais executadas nas rádios, em gravações de Elba Ramalho e Maria Bethânia, respectivamente. Também nessa época, firmou parceria com Chico Buarque em “Tantas palavras”, parceria que seria reeditada, anos depois, em “Xote da navegação”. Outro grande sucesso dele com Nando Cordel na década foi “Isso aqui tá bom demais”, gravada com Chico que, assim como “De volta pro aconchego”, fez parte da boa trilha sonora da impactante novela “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, que havia sido censurada em 75 e, dez anos depois, refilmada e exibida.

Dominguinhos tem mais de 40 discos lançados, sendo o último um trabalho em conjunto com o violonista Yamandú Costa, pela gravadora Biscoito Fino, em 2007. No Prêmio Tim, dividiu o palco com velhos e novos amigos como Elba Ramalho, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo e Luciano e Vanessa da Mata, a quem acompanhou na sanfona, na citada “Lamento sertanejo”. No mesmo evento, uma seleção musical foi interpretada em conjunto por ele, Flávio José, Jorge de Altinho e o impagável Genival Lacerda, nomes conhecidos no nordeste, mas nem tanto no sudeste e sul do país. Em depoimento, na ocasião, Ângela Rô Rô afirmou: “Dominguinhos é o deus da música brasileira”. Como disse um aluno em prova do Enem, “eu concordo em gênero e número igual” (sic bem grande)!



* Lamento sertanejo (Gilberto Gil / Dominguinhos)


Por ser de lá do sertão
Lá do cerrado
Lá do interior, do mato
Da caatinga, do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado

Por ser de lá
Na certa, por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada
Caminhando a esmo

4.6.08

Rivalidade PEBA

Recentemente, o poeta, escritor, antropólogo e historiador baiano Antônio Risério publicou artigo intitulado “Pernambuco fogo alto, Bahia banho-maria”, reproduzido abaixo*, em que fala das diferenças históricas e atuais entre esses dois estados. Como pernambucano, procuro expor, a seguir, um outro ângulo de visão do que fala o texto, a partir do que vivenciei por aqui, ao longo dos anos.

Durante minha infância e adolescência, li, ou escutei, vários depoimentos muito parecidos com esse de Risério, apenas trocando baiano por pernambucano, Bahia por Pernambuco. Sempre tendemos a ser mais críticos com o lugar em que vivemos do que com os demais. O que ele chama de “narcisismo provinciano” do baiano, por exemplo, em geral era visto pelo pernambucano como uma característica positiva do povo baiano, de dar valor a sua terra (talvez a recíproca, nesse caso, também ocorra, de lá pra cá, pra mostrar que, como na física, tudo depende do referencial de onde observamos as coisas). Esse valor à terra era algo que, pelo menos nessa época, não parecia existir por aqui e esse propalado orgulho do pernambucano, se existia, era coisa dos mais velhos, que destacavam os fatos do passado e ignoravam a situação vigente.

O período da ditadura militar, que presenciei em sua maior parte, coincidiu com uma época de total marasmo cultural e estagnação econômica em Pernambuco, essa última atribuída, em parte, à discriminação do governo dos militares, por conta de Recife e Pernambuco, por ocasião do golpe, terem como governantes políticos de esquerda. Todo esse vazio, imagino, resultou numa baixa auto-estima do povo daqui.

Depois de Luiz Gonzaga e antes de Chico Science, ou depois do golpe e antes da volta das eleições diretas, não surgiram grandes poetas nem músicos de grande destaque nacional oriundos deste estado. Aliás, o manguebeat surgiu justamente como uma resposta a esse vazio e marasmo reinantes ou a “uma depressão crônica que paralisa os cidadãos", como disse Fred 04, uma das cabeças do movimento (o que lembra o comentário de Risério, de que a Bahia "parece hoje paralisada, incapaz de produzir pensamentos e idéias”).

Após tão acentuado declínio, sem ter mais pra onde cair, o momento presente a que ele se refere, em Pernambuco, só poderia mesmo ser de subida. Quanto ao também citado êxito do atual governador Eduardo Campos, ressalte-se que ele é afinado com o governo federal, o que, de certa forma, tem ajudado. Seu correligionário e avô Miguel Arraes, por exemplo, em seu terceiro governo, entre 94 e 98, não foi tão bem sucedido: FHC e seu vice (ainda que pernambucano) eram de posição antagônica à do governo estadual.

Brasil X Argentina, Rio X São Paulo, Bahia X Pernambuco, essas rivalidades ou preconceitos quanto ao local de origem, pra mim tão ilógicos quanto o preconceito de cor, existem em ambos os lados do X, em boa parte alimentados pelos respectivos governos, no intuito de destacar seus países/estados e em outra parte, também, pela imprensa. Mas, como diz Arnaldo Antunes, “nenhuma pátria me pariu” e eu fico com Gilberto Freyre, Jorge Amado e vários outros que, espero, sejam a maioria.



* Pernambuco fogo alto, Bahia banho-maria (Antônio Risério)

Diferenças entre a Bahia e Pernambuco sempre foram apontadas pelos mais diversos tipos de observador, de eruditos a iletrados.

Por conta, inclusive, de antiga rivalidade entre os dois Estados.

Rivalidade, aliás, que chegou a provocar uma caracterização baiana do Recife que, se é falsa e ridícula no conteúdo, é brilhante, digna do James Joyce do Finnegans, do ponto de vista formal: “Recífilis, a Venérea brasileira, capital de Per nambucocos”.

Rivalidades e preconceitos à parte (coisas que, de resto, nunca foram alimentadas por personalidades como Gilberto Freyre e Jorge Amado), essas diferenças entre baianos e pernambucanos foram formuladas de formas diversas e atribuídas a razões igualmente várias. O “gênio do lugar”, a “alma do povo”, o “caráter” de cada região se manifestariam, por exemplo, na virilidade pernambucana e na malemolência baiana. João Cabral achava enjoativos o jeitão relaxado, a ausência de rigor, a excessiva doçura das coisas criadas na Bahia. Era todo pelo corte seco, pelo golpe preciso.

Muitos baianos, por sua vez, não gostavam da aspereza pernambucana. De sua natureza agreste. Pernambucano não se desarmaria nem para um abraço – viria sempre com uma faca na frente.

É certo que tais observações subjetivas ou preconceituosas remetem a uma base real. São traços culturais distintivos que podem ser examinados de uma perspectiva histórico-antropológica.

Um amigo meu (não vou citar nomes neste artigo) observa, por exemplo, que mesmo conspirações e revoluções, que aconteceram nas histórias da Bahia e de Pernambuco, apresentam caráter humanamente distinto. Bastaria comparar, diz ele, estilos e princípios da Confederação do Equador e da Revolução dos Alfaiates, por exemplo. Mas não é por esse terreno que vou enveredar.

Quero falar do momento presente. De como Pernambuco e Bahia estão vivendo, hoje, situações e sensações radicalmente dessemelhantes.

Diferenças que parecem ter sido antecipadas, aliás, pelas produções artísticas desses Estados. Não faz muito tempo, outro amigo sublinhou o contraste que via entre os cinemas da Bahia e de Pernambuco. Salvo raras exceções, inquietude, criatividade e ousadia no cinema pernambucano (num caminho que desembocaria em Aspirinas & Urubus), mas autocomplacência, redundância e narcisismo provinciano nos filmes baianos. Na música, a situação não seria diversa. Apesar da imponência da percussão do Olodum, da criatividade de Carlinhos Brown e Gerônimo, a Bahia era o reino da “axé music”, enquanto Pernambuco, incorporando a Tropicália, ousava no “mangue beat”.

Hoje, essa diferença parece espalhada por todas as áreas do pensar, do criar e do fazer. No meio do empresariado, entre os políticos e administradores públicos, no ambiente universitário, na área mais ampla da produção intelectual. No campo intelectual, a Bahia, que sempre participou intensamente dos grandes debates e reflexões que se desenharam no País – dos tempos de Vieira aos dias de Glauber, passando pelo Visconde de Cairu, por Ruy Barbosa, Guerreiro Ramos, Anísio Teixeira e Nestor Duarte –, parece hoje paralisada, incapaz de produzir pensamentos e idéias.

Mas, como disse, os intelectuais não estão sós nas águas estagnadas da mentalidade rotineira. Ainda um outro amigo me sugere: compare as associações comerciais e federações de indústrias da Bahia e de Pernambuco. A diferença é brutal: lá, projetos e propostas; aqui, o vazio. A Bahia parece reduzida à espera da fábrica da Toyota. No campo político, a mesmíssima coisa. Até os antigos quadros da direita pernambucana são superiores a tudo que existe no espaço partidário baiano.

Na Bahia, nem a maré transformadora, que se poderia ter armado com a derrota do carlismo, aconteceu.

Em Pernambuco, a chegada de Eduardo Campos avivou ainda mais o pedaço. Na Bahia, nada. Não há tesão na transformação. No novo. Ao contrário, reinam a flacidez e o ceticismo. Em suma: Pernambuco, hoje, é sinônimo de entusiasmo e inquietude – a Bahia, de mormaço e mesmice. Continuam em vigor aqui, acima de tudo, a mediocridade e o clientelismo. E, o que é pior: anda todo mundo muito satisfeito consigo mesmo e com o que vê.

12.5.08

Entre nessa festa


Há algumas semanas, escrevi sobre um filme de perfil jovem, “Across the universe”, feito para agradar, sobretudo, mas não apenas, aos adolescentes. Desta vez, para falar de outro que, se não é musical no sentido estrito, tem a música como principal destaque, dirijo-me aos adolescentes de cabelos brancos, como o roteirista Luiz Bolognesi descreveu seu público-alvo, a turma da terceira idade, mas não apenas a eles. Os da segunda também são bem vindos, pois este senhor filme é de primeira.

"Chega de Saudade", de Laís Bodanzky, tem como único cenário um salão de baile numa noite paulistana, ambiente, em geral, freqüentado por pessoas de mais idade. Em vez de criar uma trama que nos permita conhecer os personagens a fundo, o filme tem como interesse principal mostrar situações comuns vivenciadas nesses espaços, bem como retratar o perfil de seus freqüentadores: casais, amantes, carentes, galanteadores, independentes, sonhadores, solteiros à procura de parceiros ou apenas de diversão. De suas vidas, sabemos apenas o que se passa no baile, em uma única noite: o filme começa na entrada e termina na saída da festa. A mensagem que fica é: chega de saudade, vamos entrar na dança e aproveitar a vida.

Apesar do título e da época de seu lançamento remeterem à bossa nova e seu cinqüentenário, a trama de "Chega de Saudade" passaria toda ao largo desse tema, não fosse a execução, ainda que ao som de orquestra de baile, da canção homônima, durante os créditos finais. Ao contrário da sutileza e discrição características das canções bossa-novistas, as diversas músicas deste filme - por sinal presentes em todas as cenas - são de tirar o pé do chão, ainda que devagarinho. Algumas são interpretadas por Elza Soares, que atua como cantora do baile, com sua voz marcante.

É impossível não cantarolar baixinho várias delas, de diferentes épocas e estilos, mas tendo em comum o fato de serem bastante tocadas nos bailes da vida, em qualquer lugar do país: "Não deixe o samba morrer / Não deixe o samba acabar / O morro foi feito de samba / De samba pra a gente sambar", "Vem logo / Vem curar teu nego / Que chegou de porre / Lá da boemia", "Você não vale nada, mas eu gosto de você / Tudo o que eu queria era saber por quê", "Eu quero entrar na folia, meu bem / Você sabe lá o que é isso?", "Já tive mulheres / De todas as cores / De várias idades / De muitos amores", "Neste corpo meigo e tão pequeno / Há uma espécie de veneno / Tão gostoso de provar", "Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa / Tudo sempre passará"...

A diretora e o roteirista do filme são os mesmos de "Bicho de Sete Cabeças", também muito bom, mas de outro estilo, chocante, tenso e angustiante. O elenco é formado por atores experientes e consagrados: Leonardo Villar, Tônia Carrero, Betty Faria, Cássia Kiss e Stepan Nercessian, entre outros. De atores jovens, apenas Paulo Vilhena, que faz o papel do operador de som do baile e Maria Flor, como sua namorada.

26.4.08

Bossa Nova: da cidade à eternidade

Na década de 50 do século passado, o Rio ainda disputava com São Paulo o título de maior cidade do Brasil, era a capital federal e um local de grande efervescência cultural. O país vivia um período de certa forma tranqüilo, de otimismo. Juscelino Kubitschek era o presidente, eleito pelo povo e ainda não havia lugar para as canções engajadas, que surgiriam poucos anos depois, no período da ditadura militar.

Foi nesse cenário, refletido na música, que surgiu a Bossa Nova, sem fazer barulho, em reuniões informais entre amigos, na zona sul carioca, de onde se propagou pelos meios universitários que, se por um lado sempre foram associados a uma postura de questionamentos e protestos (o que, ao contrário de Copacabana e Ipanema, não era a praia dos adeptos do movimento), por outro, sempre se mostraram abertos a novas idéias. Ainda não havia os Beatles (nem Rita Lee) e toda a sua influência mundial que, por aqui, deu origem à Jovem Guarda.

As canções falavam, sobretudo, de amor, felicidade, tristeza e tinham uma forma leve, contida, mesmo ao exprimirem sentimentos incontidos, manifestados em expressões como abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim; desesperadamente, eu sei que vou te amar; é impossível ser feliz sozinho ou tristeza não tem fim, felicidade, sim: os desafinados também têm um coração. A esse novo jeito de cantar, compor e tocar, tudo se encaixando perfeitamente, o compositor e pesquisador musical Luiz Tatit chamou de triagem estética, uma espécie de corte de excessos, o que tentarei analisar, metaforicamente, a seguir. 

É como se extraíssemos o mínimo múltiplo comum entre letra, música, interpretação e arranjo, obtendo como resultado canções leves, que pediam arranjos enxutos, interpretações discretas, vozes suaves, as quais contrastavam com a empostação de voz dos cantores de rádio das décadas anteriores, de prestígio diretamente proporcional ao vozeirão. A partir daí, rompeu-se a barreira do som, que se propagou em um espectro de vozes diversificadas, como o brilhante do brilhante Jobim, que, partindo a luz, explode em sete cores. Uma mudança de estação que nos levou do rei da voz à voz do rei, provocando um enorme impacto, cuja noção exata quem nasceu com tudo isto já consolidado jamais terá. 

As primeiras gravações bossa-novistas puderam ser escutadas em dois discos lançados em 1958: “Canção do amor demais”, de Elizeth Cardoso, com canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que reproduziu, pela primeira vez, a diferente batida de violão de João Gilberto, em duas faixas, entre elas “Chega de Saudade” e um compacto simples do próprio João, com “Bim Bom”, música de sua autoria e, novamente, “Chega de saudade”.

A partir daí, o bolo cresceu e multiplicou-se, numa versão mais doce do bolo do crescimento que nos foi receitado alguns anos depois, à época do milagre econômico da ditadura, com a diferença de que os santos da Bossa Nova saíram de casa e fizeram milagre. Da primeira vez, era a cidade, da segunda, o cais e a eternidade: os maiores expoentes do movimento, Tom Jobim e João Gilberto, logo despertaram a atenção de vários países pelo mundo afora, atenção esta catalisada pela histórica apresentação no Carnegie Hall, em 1962, em Nova York, que foi, ao mesmo tempo, o ápice do reconhecimento e a base da disseminação para o resto do mundo.

A Bossa Nova foi o gênero musical brasileiro (com o perdão da palavra ao historiador e pesquisador musical José Ramos Tinhorão, que não a via como tal, mas como um movimento ou uma maneira de tocar) que alcançou maior sucesso internacional, com várias canções gravadas por músicos de outros países. “Garota de Ipanema” e “Chega de Saudade”, ambas de Tom e Vinícius, estão entre as músicas mais executadas e gravadas em todo o mundo. Da turma bossa-nova, também faziam parte Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Sylvia Telles, Roberto Menescal, Nara Leão e vários outros artistas.

É o que sei contar.

Atualmente, João Gilberto está em disputa judicial, iniciada há anos, com a gravadora EMI, que remasterizou, segundo ele sem autorização e com alteração, seus quatro primeiros discos - três LP`s e um compacto – transformados em uma coletânea (“O mito”) a que ele, com sua sensibilidade extremada, nas palavras do juiz de primeira instância, qualificou como mutilação de sua obra, pela mudança na capa, na seqüência das faixas, no corte de algumas músicas e mesmo em alterações no som. De cócoras com os sapos da minha terra, informo os dados para consulta ao processo na página do STJ: Número de Registro: 2006/0104444-2; Número do Processo: REsp 879680; UF:RJ. 

Como parte das comemorações dos 50 anos da Bossa Nova, completados em 2008, João Gilberto volta ao Carnegie Hall, em junho deste ano, para depois se apresentar em algumas capitais brasileiras: dias 14 e 15 de agosto em São Paulo, 24 de agosto no Rio e 5 de setembro em Salvador. Para não perder a piada, deixo um pedido a quem vai ou pretende ir: se vai, não beba; se beber, não vaie (não vale). Por fim, como consegui chegar ao final do texto sem fazer nenhum trocadilho com o “tom” de Jobim, achei-me com crédito para encerrá-lo assim, com uma frase feita num lugar comum: o resto é mar, é tudo que não sei contar.

14.4.08

Leve - Sensível - Divertido

Se você é do tipo que não gosta de Sessão da Tarde, passe para o próximo texto. A vocês dois que continuam lendo, recomendo o musical “Across the universe”, um filme leve, sensível e divertido, algo como se uma versão de “Hair” fosse exibida na Sessão da Tarde, mais pueril, menos rebelde, como se os cabelos hippies, de “Hair”, passassem aos tempos da brilhantina, de “Grease”. Uma bonita história de amor e amizade entre jovens - músicos e estudantes - tendo ao fundo a guerra do Vietnã e a luta pela paz.

A guerra do Vietnã, por sinal, é um tema já bem explorado em produções cinematográficas dos mais variados estilos, pontos de vista e gostos, de “Rambo” a “Amargo regresso”. Também girando em torno do tema, o supracitado musical “Hair”, que já fora sucesso na Broadway e em teatros de todo o mundo, foi adaptado ao cinema pelo diretor Milos Forman, em 1979, tornando-se um grande sucesso de público e crítica, bem como referência de um musical de qualidade. “Let the sunshine in”, uma das canções da peça e do filme, virou um dos hinos do movimento hippie.

“Across the universe” conta a história de jovens que, vindos de diversos locais, por motivos idem, seguem para Nova York, onde se conhecem, experimentam alucinógenos e juntam-se a movimentos pacifistas, tudo tratado com profundidade de programa vespertino. Mas, o filme tem como diferencial as canções dos Beatles, nas quais a trama e também os nomes dos personagens são inspirados. Jude, um garoto de Liverpool, faz amizade com Max e apaixona-se por sua irmã Lucy (só aí, ao menos duas músicas garantidas para a trilha sonora). Max é convocado para a guerra e o casal segue a vida cantando, entre encontros e desencontros, junto aos amigos – de nomes também extraídos de músicas dos Beatles - Prudence, Jo-Jo e Sadie (os dois últimos, personagens inspirados em Jimi Hendrix e Janis Joplin).

No Brasil, o musical estreou durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2007, passando, em seguida, para as salas de cinema daquela cidade. No Oscar 2008, foi indicado para o prêmio de melhor figurino. A diretora, Julie Taymor, é a mesma de Frida e sua experiência em musicais vem de peças da Broadway, entre elas “O Rei Leão”, em cartaz há mais de dez anos e que também foi sucesso no cinema, em desenho animado.

Os melhores momentos do filme são as cenas musicais, algumas bem criativas. As interpretações dos próprios atores para as canções, todas legendadas, surpreendem, bem como alguns arranjos, diferentes dos originais e, por isso mesmo, originais, como em “I wanna hold your hand”, em ritmo mais lento e “Let it be”, como música gospel. As letras das canções encaixam-se bem ao enredo (ou o enredo às canções) e a seus personagens, como em “Dear Prudence” e “Hey Jude”. Tem ainda: “Because”, “Something”, “All you need is love”, “Strawberry fields”, “Revolution”, “Across the universe” e muito mais. Os cantores Bono Vox e Joe Cocker têm participações especiais no filme e também na trilha sonora, disponível em CD (em “I am the walrus” e “Come together”, respectivamente).

Se você é fã dos Beatles e de musicais, libere seu lado meia-entrada, vá sem medo. E não se esqueça de recomendá-lo aos que passaram para o próximo texto.

7.4.08

Outra vez outra vez

Em setembro do ano passado, escrevi, neste blog, um texto (“Uma vez outra vez”) sobre a compositora Isolda, seu irmão Milton Carlos e sua canção “Outra vez”, a qual afirmei, na ocasião, ter sido feita dela pra ele, que acabara de falecer. Tal texto recebeu um comentário afirmando que a versão do livro "Roberto Carlos em Detalhes" sobre essa música era diferente da que eu relatava e perguntando qual das duas versões era a correta (confirmei que o livro realmente afirma, em detalhes, que a canção teria sido feita para um ex-namorado da compositora).

Essa pergunta ficou sem resposta (pro leitor e pra mim mesmo) por um bom tempo, pois o que eu relatava no texto era baseado apenas em informações que circulavam na época em que a música foi gravada por Roberto Carlos, quando eu ainda era criança, as quais, portanto, dificilmente poderiam ser comprovadas. Tanto que, logo que comecei a escrever o texto e, portanto, antes mesmo da indagação do leitor, eu já vinha tentando encontrar algum artigo ou informação confiável que ratificasse a versão por mim conhecida, sem êxito. Confiei, então, apenas na minha memória dos fatos e num comentário que encontrei no site oficial de Isolda - o qual consultei e citei ao escrever o texto – que, se não confirmava, era um indício de que a canção poderia, realmente, ter sido feita para seu irmão.

Mais adiante, quando soube dessa outra versão publicada no livro de Paulo César Araújo, por meio do comentário do leitor ao que escrevi, até passei a achar que poderia mesmo ter me equivocado, afinal não deveria comparar a intensidade da pesquisa feita pelo autor do livro com observações captadas por uma criança, observadora, sobretudo em assuntos musicais, mas criança. A única maneira de me certificar, então, seria encontrar depoimentos ou comentários da própria Isolda, em algum site, mas consegui algo ainda melhor...

Após mandar mensagem para a compositora, pedindo que esclarecesse a questão e prontificando-me a corrigir a informação caso estivesse equivocado, não esperando resposta, tive a grata surpresa de receber sua ilustre e gentil visita neste blog, comentando exatamente esse texto que escrevi sobre ela, bem como ratificando minha versão dos fatos, algo, pra mim, gratificante, enriquecedor e de valor pessoal e musical histórico.

Além de se mostrar esclarecedor em relação à música, seu comentário deixa claro que, como Roberto Carlos, ela não está satisfeita nem com o livro nem com seu autor, o que é compreensível, ainda que, do lado de cá do palco, olhando por outro ângulo e baseados apenas nas informações que recebemos, tendamos a ver P. C. Araújo mais como um fã de Roberto do que como um aproveitador.

Isolda ainda reforçou, por e-mail, o comentário em que confirmou a minha versão dos fatos e fez, também, uma ressalva quanto a sua idade: ela nasceu em 1959, não tendo ainda, portanto, 50 anos, ao contrário do que afirmei no texto, baseado em informação obtida em sua página no dicionário Cravo Albin de MPB. Não fosse ela a informante, seria difícil, ainda que louvável, imaginá-la começando a carreira ainda mais cedo. Pra completar, em seu blog, Isolda ainda fez boas e generosas referências e recomendações ao meu, no texto “Um blog que vale a pena”. Muitas emoções...

14.3.08

Sobre natural


Quando assistimos a um filme que nos desperta algum sentimento, seja de medo, repulsa, alegria, vontade de rir ou de chorar, sabemos, de antemão, por que estamos nos emocionando, se por algo real, como no caso de um documentário, ou irreal, em caso de ficção. Isso não fica claro em “Jogo de cena”, último filme do conceituado e premiado cineasta Eduardo Coutinho, que não se enquadra facilmente em nenhuma das duas categorias. Não há enredo e as histórias contadas são reais, o que o classificaria como documentário, mas quem conta a história ora é uma atriz, como numa obra de ficção, ora é a própria protagonista. Foi eleito o melhor filme brasileiro de 2007 pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

O filme começa mostrando o anúncio que o diretor colocou em jornais e outdoors, convocando mulheres com histórias de vida interessantes para contar. Dos depoimentos colhidos, cerca de dez foram aproveitados. Um importante critério de escolha - até mais do que os próprios fatos narrados - foi, segundo Coutinho, a maneira como foram contados e que os tornou mais ou menos interessantes. Tal critério definiu, também, sua opção por entrevistar apenas mulheres, as quais, como ele explica, expõem-se mais e controlam menos seus sentimentos, em comparação com os homens. De fato, percebe-se bem a espontaneidade com que elas se portam diante da câmera, resultando em momentos engraçados e comoventes.

A princípio, temos a impressão de que o jogo é fácil e, arnaldocesarcoelhamente, sua regra é clara e perfeita: histórias de vida narradas por mulheres são intercaladas por interpretações de atrizes conhecidas, que repetem ou complementam seus depoimentos, com a única orientação de não imitar as depoentes, o que, do ponto de vista da atriz, se por um lado proporciona uma maior liberdade de interpretação, por outro tira a referência ou modelo a seguir.

Entre as atrizes, que também contam casos pessoais, estão Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão, as quais, após suas participações, falam de suas dificuldades e impressões quanto ao resultado obtido, o que é bem sintetizado por Fernanda Torres, quando ela afirma que a diferença entre interpretar um personagem real e um fictício é que, com este, embora se possa atingir um bom grau de realidade, se você atinge um nível medíocre, pode se manter ali, porque ele é da sua medida, enquanto com aquele a realidade esfrega na sua cara até onde você poderia chegar e não chegou, pois existe alguém acabado na sua frente.

Como o sentimento não necessariamente é proporcional à sua expressão, acontece, às vezes, de o depoimento da atriz nos impactar mais do que o de quem ela representa, o que nos tira um pouco do eixo. À medida que o jogo continua, atrizes desconhecidas passam a se confundir com as demais depoentes, o que nos deixa com um monte de dúvidas sobre quem é a atriz e uma única certeza: a de que o filme brinca com os nossos sentimentos. Todos os casos relatados são bastante densos e, em um deles, saímos do prumo após ouvi-lo duas vezes, recebendo-o como real em ambas, com um impacto emocional ainda mais forte na segunda, ao mesmo tempo em que tomamos consciência de que apenas uma (ou mesmo nenhuma) das depoentes é sua real protagonista.

O cenário dos depoimentos é um teatro vazio, talvez para mostrar que a diferença entre a vida real e a ficção é apenas o palco em que se atua. Também reforçando essa dualidade, ou dubiedade, a entrevistada senta-se no palco, como se fosse uma atriz, mas se posiciona no mesmo ângulo de visão da platéia, como uma pessoa comum ou espectadora.

Os documentários de Eduardo Coutinho partem sempre de idéias bem originais.
Em “Peões”, de 2004, por exemplo, ele vai atrás de metalúrgicos que participaram das famosas greves do ABC, entre 1979 e 1980, junto com o atual presidente Lula (uma ótima referência para entendermos melhor seu carisma e a importância de sua eleição para o nosso país, aprovemos ou não seu governo).“Cabra Marcado para Morrer”, seu filme mais conhecido, conta a história de um líder de liga camponesa do interior do nordeste. Iniciado em 1964 e interrompido por conta do golpe militar, só foi retomado e finalizado em 1984.

Em recente debate com o público, após uma exibição de “Jogo de cena”, em São Paulo, o diretor falou da dificuldade de encontrar um título em inglês, ou qualquer outra língua, para o filme. Sua mensagem, porém, é universal e nos faz refletir que o pensamento é o único meio em que nossa impressão se manifesta em sua forma mais pura; que a expressão é apenas o lado visível da impressão, que pode se aproximar bastante dos nossos sentimentos, mas nunca será igual e, às vezes, nem mesmo proporcional; que mesmo o natural é interpretado - o que, segundo o próprio Coutinho, é acentuado pelo “efeito-câmera” - e que, sem a expressão, o silêncio triste parece igual ao silêncio alegre:
apenas silêncio. Apenas parece.

29.2.08

Tirando de letra

“Ai, mina, aperta a minha mão, alá meu only you, no azul da estrela”. Se alguém vier com essa conversa pro seu lado, desconverse, não dê ouvidos, diga que tá ocupado e saia de fininho, a menos que esse alguém complete: “Aliás, bazar da coisa azul, meu only you, é muito mais que o azul de Zanzibar Paracuru, o azul da estrela”. Aí, pode ser caso de internação.

Brincadeiras (nem tão) à parte, a primeira impressão de uma canção, em geral, vem da melodia, mas logo passamos a prestar atenção à letra, a qual podemos entender ou não. É sobre essas letras obscuras ou ininteligíveis, mas nem por isso desinteressantes, que me proponho a discutir a seguir, ressaltando que admiro todos os malucos mencionados, bem como suas músicas, e que criar letras assim não é pra qualquer um, é mais do que simplesmente rimar amor e dor, paixão e coração. É saber o que quer, o que pode essa língua, criar confusões de prosódia, profusão de paródias, outras palavras, como diz um dos membros dessa especial e admirável confraria dos metaforistas aloprados, Caetano Veloso.

Para uma introdução ao tema, Zé Ramalho é uma boa opção. Conhecido por seu estilo apocalíptico, ele é capaz de unir a melodias harmoniosas, letras estranhas, místicas, indecifráveis, fazendo a gente cantá-las como se fossem declarações de amor, como: “Quantos dentes eram tristes, quantos eram solidão, outros eram diferentes, não nasceram para o chão. Claros pêlos evidentes nascerão em cada mão, lívidos e conscientes, pelo vinho e pelo pão” ou “meu treponema não é pálido nem viscoso, os meus gametas se agrupam no meu som”, e por aí vai.

Entre essas letras, que mais parecem de médico, há, mesmo, declarações de amor - e bem incomuns - como: “Apesar de colher as batatas da terra, com essa mulher eu vou até pra guerra”. Isso é proposta que se faça? Garanto que ela não iria querer, ainda que fosse a mesma mulher devorada por Djavan, a qual inspirou o Criador a fazer os dinossauros e devia ser, portanto, um pouco feia. Mas, não se avexe não, baião de dois, deixe de manha, deixe de manha e vamos caetanear o que há de bom. Como diz a esfinge devoradora Djavan (decifra-me ou te devoro), também membro do grupo, “a paixão, puro afã, místico clã de sereia, castelo de areia, ira de tubarão, ilusão, o sol brilha por si”. Noutras palavras, o amor é lindo.

Citando, agora, outro mestre da palavra, Gilberto Gil: “ao poeta cabe fazer com que na lata venha a caber o incabível”*. No caso das canções, outros fatores também entram em jogo na concepção de seus versos, como questões fonéticas, compasso, harmonia entre melodia e letra e tudo o mais que diferencia esta da poesia, que se basta. Assim, deve haver alguma explicação para todas essas letras e o segredo para entendê-las talvez seja não levá-las tão ao pé da letra, ou ainda, a partir delas, criar nossas próprias metáforas, as quais podem coincidir ou não com as do autor.

Com Jorge Benjor e Carlinhos Brown, que também fazem malabarismo com as palavras e não têm papas na língua, essa tática da conclusão pessoal pode não funcionar, simplesmente porque, certas vezes, não conseguimos concluir nada. Quando Brown diz: “Magamalabares Acqua Marã, o parquinho oxáiê. Quem esteve aqui, viu barquinho de gazeta ancorar no mistério”, mistério mesmo é o que ele quer dizer com isso. Nesse caso, não é questão de levar ou não ao pé da letra, pois trata-se de letra sem pé (nem cabeça?), do tipo que W/Brasil, de Benjor, é outro bom exemplar: “Cuidado com o disco voador, tira essa escada daí, essa escada é pra ficar aqui fora, eu vou chamar o síndico”.

Se no final, então, tudo nos sugere uma mistura de letras, lembrando o saudoso Gonzaguinha, eu fico com a pureza da resposta de um popular que, entrevistado na rua por Oswaldo Montenegro, num programa musical de televisão (Letras Brasileiras), ao ser indagado sobre qual a letra que tinha marcado sua vida ou que era mais importante pra ele, tirou de letra e respondeu, literalmente: “a letra B”. No mais, estou indo embora...

P.S.: “Zanzibar”, citada no parágrafo inicial, é de autoria de Armandinho e Fausto Nilo, e foi gravada pelo grupo “A cor do som”.



* Metáfora (Gilberto Gil)

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo-nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

14.2.08

Cine qua non


Há cerca de 80 carnavais, como no Bloco do Prazer, um garoto do bairro carioca de Vila Isabel, de voz suave, destoante dos padrões da época, compôs uma canção, a princípio rejeitada por cantores de rádio, mas que viria a tornar-se o maior sucesso do carnaval de então e de pós-então. Ao indagar: “Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?”, o tal garoto, Noel Rosa, nem se deu conta de que mudava, também, a roupagem da música brasileira, mais especificamente do samba, unindo ao ritmo letras de linguagem coloquial, que falavam do cotidiano, ora sérias, ora divertidas, ora tristes, ora irônicas, sempre bem elaboradas e que lhe valeram os apelidos de “filósofo do samba” e “poeta da Vila”.

Como ninguém aprende samba no colégio, Noel logo trocou de roupa, largando a faculdade de medicina para se dedicar apenas à música. Iniciou sua carreira artística no final dos anos 20, quando se aproximou de outros músicos de Vila Isabel e deixou aflorar seu lado boêmio - o qual se refletia em suas composições - ao mesmo tempo em que foi convidado para fazer parte do grupo Bando dos Tangarás, ao lado de João de Barro, o Braguinha, entre outros. Em menos de uma década, fazendo música como quem troca de roupa, compôs mais de 250 canções, só ou em parceria com amigos como Ismael Silva, Cartola e Vadico. Com o último, fez algumas de suas melhores: “Conversa de botequim”, “Feitiço da Vila”, “Pra que mentir” e “Feitio de oração”.

É exatamente esse curto período de tempo, entre o início de sua atuação como cantor e compositor e sua morte prematura aos 26 anos, que é retratado em “Noel - Poeta da Vila”, primeiro longa-metragem de Ricardo Van Steen, com produção musical de Arto Lindsay, lançado em 2007, ano do aniversário de 70 anos da morte do cantor. Além das belas músicas executadas, tem interessantes participações de Supla, interpretando Mário Lago, Wilson das Neves como Papagaio, Flávio Bauraqui como Ismael Silva, Jonathan Haagensen como Cartola, músicos da nova e da velha guarda do samba carioca. Mas o grande destaque é o protagonista Rafael Raposo, estreante em cinema, que só conseguiu o papel pouco antes do início das filmagens e surpreendeu em sua performance.

Baseado no livro “Noel Rosa: uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo, o filme salienta a relação estreita entre suas músicas e as situações e pessoas que o rodeavam, sobretudo as duas principais mulheres de sua vida: a adolescente Lindaura, com quem foi obrigado a casar e quase virou papai Noel, e Ceci, a amante por quem de fato era apaixonado, uma dançarina de cabaré da Lapa (ou uma lapa de dançarina de cabaré), bem interpretada pela atriz Camila Pitanga. Para a primeira, dedicou a canção “Três apitos”, para a segunda, “Pra que mentir”, “A dama do cabaré” e, pouco antes de morrer, “Último desejo” (no filme, cantada por Wilson das Neves, em comovente cena).

Outra mulher importante em sua vida, Aracy de Almeida, injustamente mais conhecida como jurada do programa Sílvio Santos, era uma das principais intérpretes de suas músicas e chamava-o de “a rosa do meu jardim”. Em “Noel – Poeta da Vila”, está muito bem representada pela atriz Carol Bezerra, de bela voz. No site oficial do filme, é possível baixar músicas interpretadas por ela e outros atores-cantores.

Bem sucedido em seu ofício, Noel Rosa logo despertou, também, rivalidades no mundo da música. Travou “batalha”, ou lavagem de roupa-suja, com o compositor Wilson Batista, iniciada devido a divergências quanto ao uso do termo “malandragem”, em que um respondia ao outro através de canções (o primeiro round foi “Lenço no pescoço” x “Rapaz folgado”*). “Feitiço da Vila” e “Palpite infeliz” foram feitas em resposta a “O mocinho da Vila” e “Conversa fiada”, respectivamente. Quando Batista apelou com “Frankestein da Vila”, em alusão a Noel, este, sabiamente, encerrou a disputa, reconhecendo, talvez, no oponente, menos talento para manter o nível do embate.

Se sua vida não foi nenhum mar de rosas, Noel Rosa, em sua curta existência, viveu intensamente e, mesmo com tuberculose, continuou levando uma vida extravagante, cometendo uma espécie de suicídio culposo ou inconsciente. Nesse exagero, na vida desregrada e boêmia, no bem-estar com os amigos e na profusão de amores, o poeta da Vila poderia ser comparado ao poeta do rock: Noel era o Cazuza da década de 30 (ou Cazuza era o Noel dos 80).

No estilo de compor, por sua vez, Noel teve em Chico Buarque um de seus maiores herdeiros musicais, um discípulo que, diga-se de passagem, aprendeu bem a lição e sempre cultuou seus grandes mestres. Trocando em miúdos, não foi à toa que, após ter sofrido ao perder um bom disco de Noel, ficou com o disco do Pixinguinha, sim, e dispensou todo o resto.



*Lenço no Pescoço (Wilson Batista)

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão

E eles tocam
E você canta
E eu não dou
Rapaz Folgado (Noel Rosa)

Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora esta navalha que te atrapalha

Com chapéu do lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo um samba-canção
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão

Malandro é palavra derrotista
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado


24.1.08

O que foi manchete em 2007

2007 chegou ao final e, ao final, afinal, chegou a tv digital, ou, ao menos, seu sinal, o que, por sinal, já é um bom sinal. Enquanto a maison de Odete foi manchete local, os filhos de Chitãozinho e Xororó foram manchete nacional. O inseparável casal separou-se, afinal. Agora, Sandy e Júnior vai cantar sozinho, enquanto Sandy e Júnior vai tocar só. Bem ou mal, no mais andou tudo igual, como é natural. Aquecimento global, operações da polícia federal, escândalos no planalto central, et cetera e tal. Mas, tá legal, logo chega o carnaval, pra melhorar o astral.

Numa nação que mais parece uma panela de pressão, "Tropa de Elite" passou como um furacão, despertou atenção, provocou reflexão e quem comanda o caldeirão fez do capitão a solução das mazelas da nação. Parte da elite admite seus métodos de ação, deu razão ao capitão, deu ibope ao BOPE, fez das tropas coração. Outra parte da população, de mais sensata opinião, disse que não, que se evite fazer injustiça com a própria mão, que não se acredite na lei de talião, da selva ou do cão e deu outro palpite nessa discussão: dura lex, sed lex, sim. Mais do que isso, não. E não só pra "moleques" ou ladrão de Rolex, mas pra todo cidadão, qualquer infração, roubo ou corrupção e colarinhos de qualquer coloração.

O rei Roberto foi esperto, mas não escapou dos achincalhes ao recolher os exemplares de "Roberto Carlos em Detalhes". Pra alguns, Roberto está certo e de razão está coberto: sua vida não tem que ser um livro aberto, nem precisa ser vista de tão perto. Pra maioria, houve censura, decerto, e Roberto fez jogo sujo com P. C. Araújo, o autor do dito cujo, que ficou boquiaberto, e seu livro, com um futuro incerto, embora, pra encontrá-lo, não precise ser tão esperto.

Não bastasse a frustração na perseguição a Osama, no Afeganistão ou não sei onde estão, antes de vestir o pijama, Bush tem nova razão pra cair da cama e fazer drama: na eleição pra sua sucessão, os seus enfrentarão Obama ou a ex-primeira dama, não terão outra opção. E, fazendo jus a sua fama, ao que o povo reclama e às mudanças que conclama, a começar pelo Alabama, a derrota tá na mão, não tem solução. Bush não relaxa com tanta queixa e desembucha que acha que sua pecha de gostar de rixa é fuxico, pois quando Chavez debocha, ele só estrebucha. O resto é agouro de Al Gore.

Duas falas foram comentadas em todas as salas por aqui: de Juan Carlos, o "por qué no te callas?" e o "relaxa e goza", de Marta Suplicy. Dizem que ambos poderiam usá-las pra falarem entre si: "relaxa e goza" pra Juan Carlos, "por qué no te callas?" pra Suplicy.

O timão, rebaixado no Brasileirão, pra os paulistanos, tá na sarjeta. Tudo bem que a ascensão não se resolve mais com mutreta, mala preta ou caneta, mas também, segunda divisão não é coisa de outro planeta e equipes de tradição, o que, aliás, todas são, já viram de perto a coisa preta, mas honraram a camiseta e não fizeram confusão, só cumpriram sua missão e aprenderam a lição, voltando mais fortes na subseqüente edição.

No mais, desejo a todos ao menos um 2008 mais ou menos. Mais gentileza, menos aspereza, mais delicadeza, menos dureza, mais pureza, menos esperteza, mais fartura pra todos na mesa, menos avareza, menos agressão à natureza. 2008 é ano bissexto, isso está fora de contexto, mas assim encontro um pretexto pra terminar meu texto.

14.9.07

Uma vez outra vez


A canção “Outra Vez”*, vez por outra regravada no Brasil e no exterior, embora pareça retratar o fim de um relacionamento amoroso entre um casal, na verdade foi feita pela compositora Isolda, aos 20 anos, para seu irmão, o cantor e também compositor Milton Carlos, que morreu em um acidente de carro, com apenas 22 anos, em 1976. Roberto Carlos, principal intérprete da dupla, gravou a música, que se tornou um dos maiores sucessos de sua carreira, em seu LP de 1977, um de seus melhores discos.

Sobre o trágico episódio e a música, Isolda comenta, em seu site oficial: “Acho que minha vida se divide em antes e depois desse dia. Pensei em voltar a estudar, em tomar outro rumo, mas no meio dessa tempestade encontrei vários amigos que me abrigaram, emocionalmente, e mesmo sem perceber continuei fazendo sozinha, o que sempre fiz desde menina. Brincar de fazer músicas. Desse momento em diante, sem mais o meu amigo para brincar comigo. Foi assim que fiz, numa madrugada, uma música desprovida de qualquer ambição futura, uma confidência sincera: ‘Outra vez’. Gravei essa canção numa fita entre outras e entreguei para Roberto Carlos”.

Isolda e Milton Carlos começaram a carreira ainda adolescentes, participando de festivais, comuns à época, cantando como backing vocals até que, em 1970, após Milton Carlos lançar seu primeiro LP, começaram a receber pedidos de músicas de outros cantores. Em 1977, foi lançado o último trabalho do cantor e compositor, de um total de quatro. Sua habilidade (e da irmã) em compor boas músicas com tão pouca idade impressiona, assim como sua bela voz meio andrógina, conhecida pela interpretação de canções suas e de outros compositores, como “Memórias do Café Nice” (“Ai que saudade me dá...”).

O ano de 1973 foi o mais importante da carreira dos dois irmãos. Na ocasião, Roberto Carlos gravou a primeira música deles, “Amigos, amigos”, que abriu as portas para a dupla. Também nesse ano, Milton Carlos gravou “Samba Quadrado”, uma de suas canções mais conhecidas (“Eu fiz um samba quadrado pra você voltar...”). A partir daí, bateram ponto nos discos de Roberto, com “Jogo de Damas” em 1974, “Elas por elas” em 1975, “Pelo avesso” e “Um jeito estúpido de te amar” (também gravada por Maria Bethânia no disco “Pássaro da manhã”) em 1976. Com a morte do irmão, Isolda continuou a seqüência com “Outra Vez” em 1977, “Tente esquecer” em 1978 e algumas outras na década de 80.

Isolda, que sempre se ateve à carreira de compositora, só agora, aos 50 anos, lançou seu primeiro trabalho como cantora, “Tudo exatamente agora”, com músicas inéditas e, claro, “Outra Vez” como exceção. Entre as inéditas, uma parceria antiga com o irmão, “Voz Ativa” e outra homenagem a ele, “Chorando”. Lançou, também, o livro “Você também faz músicas”, com orientações sobre composição musical.

“Outra vez” tem uma visão diferente, positiva e otimista da perda que lembra “Drão”, de Gilberto Gil, feita para sua ex-esposa, Sandra, por ocasião da separação dos dois, visão essa que as torna especialmente bonitas. Enquanto esta fala de um amor que, como um grão, tem que morrer pra germinar, naquela o amor gera como fruto as lembranças e através destas permanece.

Além da versão de Roberto Carlos para a música de Isolda, merecem destaque a gravação de Maria Bethânia, em seu disco “As canções que você fez pra mim”, de 1993, apenas com canções de Roberto e Erasmo e a interpretação marcante de Simone, em seu não menos marcante disco “Pedaços”, de 1979, no qual ela gravou, também, “Sob medida” e “Pedaço de mim” (Chico Buarque), “Começar de novo” (Ivan Lins/Vítor Martins) e o hino da anistia, “Tô voltando” (Maurício Tapajós/Paulo César Pinheiro), mas isso é uma outra história, fica pra outra vez...



* Outra vez (Isolda)

Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços o que eu nunca esqueci
Você foi dos amores que eu tive
O mais complicado e o mais simples pra mim
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu
E é por essas e outras
Que a minha saudade faz lembrar de tudo outra vez
Você foi a mentira sincera
Brincadeira mais séria que me aconteceu
Você foi o caso mais antigo
O amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim
Outra vez

Esqueci de tentar te esquecer
Resolvi te querer por querer
Decidi te lembrar quantas vezes
Eu tenha vontade sem nada perder
Ah... você foi toda a felicidade
Você foi a maldade que só me fez bem
Você foi o melhor dos meus planos
E o maior dos enganos que eu pude fazer
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim
Outra vez

15.8.07

O controverso e a descanção


“A união de duas criaturas maravilhosas, mas com cabeças completamente diferentes, foi terrivelmente prejudicial pra o que nasceu dali”. Assim o fruto dessa união, Antônio José, o inventivo e original cantor e compositor Tom Zé, tenta explicar sua existência.

Nascido em Irará, sertão baiano, Tom Zé estudou música na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, onde também lecionou. Apesar da formação erudita, ele sempre criticou o excesso de seriedade dos músicos brasileiros e soube diluir tal erudição em boas doses de irreverência e espontaneidade. Ficou o erudito pelo não erudito. Na década de 60, conheceu os conterrâneos Caetano e Gil, com quem lançou, em 1968, o álbum “Tropicália ou Panis et Circenses”, referência do Tropicalismo. Nesse mesmo ano, venceu o festival da TV Record com a canção “São São Paulo, meu amor” e lançou seu primeiro trabalho individual, com seu próprio nome no título.

Nos anos 70, continuou seguindo por trilhas alternativas e controversas, que provocaram seu afastamento involuntário da mídia, mesmo tendo produzido, então, trabalhos considerados inovadores como “Estudando o samba”, ou talvez por isso mesmo. Na década seguinte, lançou apenas um disco, “Nave Maria”, até que foi apresentado ao mundo pelo músico David Byrne, líder da banda americana Talking Heads que, em 1990, lançou a coletânea “The best of Tom Zé”. Depois desse debeste, nos anos que se seguiram, o cantor voltou a lançar discos com mais freqüência, bem como a ter seu valor reconhecido também no Brasil.

Nessa época, foi responsável por um dos melhores momentos da história do festival Abril pro Rock, no Recife, onde se apresentou em total empatia com o público, de início surpreendendo, depois envolvendo e por fim contagiando a platéia presente, jovem em sua maioria, com a criatividade de suas canções, a versatilidade de suas interpretações e a originalidade de suas mugangas e trejeitos multimídia.

Essa sua costumeira criatividade pode ser percebida de diversas maneiras em seu trabalho. Em títulos de canções como "Jimi renda-se" ou "Conto de fraldas", em letras como “Companheiro Bush” (“Se você sabe quem vendeu aquela bomba pro Iraque, desembuche. Eu desconfio que foi o Bush”) ou “Augusta, Angélica e Consolação” (“Augusta, graças a Deus, entre você e a Angélica eu encontrei a Consolação que veio olhar por mim e me deu a mão”), na utilização de instrumentos inventados por ele, em sua postura no palco e sobretudo no motivo condutor de suas obras.

Em seu disco “Jogos de armar – faça você mesmo”, de 2000, um CD auxiliar apresenta as canções como produtos de prateleira, não fechados, ou peças de um jogo de armar, que podem ser remontadas pela junção de fragmentos de arranjos, letras e músicas do CD principal. Para facilitar as experiências, combinações e reaproveitamentos, tais fragmentos são dispostos separadamente no CD auxiliar. Um lego musical que virou legado.

No elogiado LP “Estudando o samba”, lançado em 1976, quase todas as canções têm títulos monossilábicos: Mã, Toc, Tô, Vai, Ui, Doi, Mãe, Hein?, Só, Se. A última faixa, “Índice”, reúne todas essas palavras em uma só letra, fechando o repertório monótono, em que a mudança de Tom ocorre apenas na faixa “A felicidade”. Em “Defeito de fabricação” (1999), as canções são apresentadas como Defeito 1, Defeito 2, etc., enquanto em “Danç-Êh-Sá - Pós-Canção/Dança dos Herdeiros do Sacrifício/7 Caymianas para o Fim da Canção” (2006), elas são definidas como pós-canções ou descanções.

Algumas dessas armações do inventivo Tom Zé podem ser vistas no documentário “Fabricando Tom Zé”, de Décio Matos Júnior, eleito melhor documentário nos festivais de cinema do Rio de Janeiro e de São Paulo, pelo júri popular. O filme mostra cenas de palco e bastidores de suas apresentações em uma turnê pela Europa, em 2005, intercaladas por depoimentos do próprio Tom Zé, de sua esposa, Neusa Martins, de Arnaldo Antunes, David Byrne, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros.

Em um show é vaiado, em outros ovacionado e tudo é mostrado. Comenta sua mágoa com os conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil, que teriam se afastado dele após o movimento tropicalista e a volta do exílio, em sua época de reclusão involuntária, bem como um episódio ocorrido num carnaval de Salvador que homenageou o Tropicalismo. Segundo ele, filme só com coisa boa é um porre. Modesto, afirma que o fato de ser um péssimo músico ajudou-o a ficar à vontade pra experimentar, fugir aos padrões e fazer o que quisesse. Explicar pra confundir, confundir pra esclarecer. De fato, a cartilha por que ele reza é a do improviso, do jogo de palavras. Não tem papas na língua, seu oratório é outro e sua oratória idem.

Até mesmo batendo boca, o tom é o mesmo. Em certo episódio retratado no documentário, durante um ensaio, sem saber que sua equipe estava filmando, soltou um “vá pra porra!” em alto e bom som a um responsável pela equipe de som do festival de Montreux, na Suíça, por conta de sua má qualidade, sem se preocupar com o que ele entenderia com isso. Comentando o incidente depois, denunciou a má vontade e a discriminação que sofrem as nações subdesenvolvidas por parte dos países que, segundo ele, têm dinheiro mas não têm nosso talento e criatividade, nossos defeitos de fabricação, made in Brazil.

6.7.07

Roberto: o livro-arbítrio e as canções que ele fez pra nós


O episódio da interrupção das vendas do livro “Roberto Carlos em detalhes” (Paulo César Araújo – Editora Planeta), biografia não autorizada do cantor e compositor, tem gerado polêmicas, debates e comentários comparativos entre biografias autorizadas ou não. É comum a idéia de que as primeiras têm mais valor, pelo aval e acompanhamento que recebem do biografado, afinal, ninguém melhor do que você mesmo para saber detalhes de sua vida e contar a sua história. Analisando melhor, percebe-se que trazem, também, o vício de os autores só narrarem aspectos positivos do biografado, ao contrário das não autorizadas.

Em depoimento ao programa Fantástico, da Rede Globo, Roberto Carlos revelou que questiona, a princípio, o porquê de uma biografia não autorizada, quando ele está vivo e poderia tê-la autorizado. Ele mesmo deu a resposta, logo em seguida, quando, ao ser questionado se autorizaria a biografia, caso tivesse sido consultado, disse que não. Na mesma entrevista, afirmou que não sabe ainda o que vai fazer para se livrar do livro, mas que nunca disse que iria queimá-los (que bom, não pretende queimar sua biografia). Em sua já prometida versão autorizada, certamente, não vai constar esse episódio.

Ele não costuma se expor e é discreto, na medida do possível, sendo o direito à privacidade um dos argumentos que usou em sua defesa: “Há limite entre o que é de interesse público e o que é invasão de privacidade”, afirmou. Em se tratando de pessoas públicas, porém, tal limite é sutil. É fato que pouco vemos notícias pessoais dele na mídia, mas mesmo isso pode ser visto como controverso, pois, se por um lado sua segunda esposa, a atriz Myrian Rios, quase largou a carreira quando se casou com ele, por outro, sua relação com a última, Maria Rita, foi bastante explorada pela mídia, talvez à sua revelia, talvez por ele não se encontrar mais no auge da carreira...

Outro argumento que utiliza a seu favor é que houve uma conciliação, antes mesmo de uma decisão judicial, entre ele e a Editora Planeta. Nesse acordo, ficou decidido que a editora não mais publicaria a obra e recolheria os exemplares que já se encontrassem nas livrarias, entregando-os ao cantor que, por sua vez, abriria mão de possíveis indenizações. A versão do autor do livro para esse acordo é que não havia outra saída, numa briga entre forças desproporcionais, uma vez que sobre todas as leis ainda prevalece, em geral, a lei do mais forte (e acima desta, a Lady Laura). Os advogados da editora acharam bastante provável a hipótese de perda da ação, a qual implicaria em indenizações de alto valor.

Num último recurso, Paulo César Araújo propôs abrir mão de direitos autorais sobre a obra, para descartar possíveis acusações de interesses financeiros. Dançando conforme a música e mostrando não ter o rei na barriga (na mão, talvez), propôs, ainda, que Roberto Carlos especificasse que partes do texto do livro não aprovara, para que fossem retiradas ou modificadas, mas o cantor não aceitou, alegando que, isso sim, caracterizaria censura.

Na década de 80, por suas posições religiosas, Roberto apoiou a censura ao filme “Je vous salue Marie” (de Jean-Luc Godard), condenado pela igreja católica, cuja exibição foi proibida em vários países do mundo, inclusive no Brasil, no governo José Sarney. Tal censura gerou, à época, uma grande e polêmica discussão, que só aumentou o interesse pelo filme, fato que se repete agora, com o livro, que pode ser encontrado facilmente na internet, para download.

Ele é conservador, não se pode negar. Seus discos dos anos 70 são uma receita precisa e imutável de canções religiosas, românticas, composições de Isolda e Milton Carlos, Maurício Duboc e Carlos Colla, além das habituais parcerias com Erasmo Carlos. Bons tempos em que se esperava o lançamento do LP do “rei” ao final de cada ano, ocasião em que algumas rádios tocavam todas as suas faixas, em seqüência e em primeira mão, numa época em que a pirataria era limitada a fitas cassetes.

Difícil mudar, porém, num período em que surgiram seus melhores trabalhos, num estilo pós-jovem-guarda iniciado no final da década anterior, com pérolas como “As canções que você fez pra mim”, “As curvas da estrada de Santos” e “Sua estupidez”. Suas preocupações ecológicas também estiveram sempre presentes e bem representadas em seu trabalho, em canções como “O progresso”, “O ano passado” e “As baleias”*.

Ainda que não goste de falar - ou que falem - de sua vida privada, Roberto Carlos sempre caprichou em canções que contam sua história. Difícil não gostar de “O divã”, “Traumas”, “As flores do jardim da nossa casa”, “Jovens tardes de domingo”, “Fera ferida”, “Aquela casa simples” ou das canções-tributo “Amigo”, “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” (para Caetano Veloso, à época de seu exílio em Londres), “Minha tia”, “Meu querido, meu velho, meu amigo” e “Lady Laura”. Num mundo carente de sensibilidade, sua mensagem é importante. Lendo ou não o livro, ouvindo ou não os discos, o fato é que ele sempre nos avisou: “Não adianta nem tentar me esquecer...”.



* As baleias (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)

Não é possível que você suporte a barra
De olhar nos olhos do que morre em suas mãos
E ver no mar se debater em sofrimento
E até sentir-se um vencedor nesse momento

Não é possível que no fundo do seu peito
Seu coração não tenha lágrimas guardadas
Pra derramar sobre o vermelho derramado
No azul das águas que você deixou manchadas

Seus netos vão te perguntar em poucos anos
Pelas baleias que cruzavam oceanos
Que eles viram em velhos livros ou nos filmes dos arquivos
Dos programas vespertinos de televisão

O gosto amargo do silêncio em sua boca
Vai te levar de volta ao mar e à fúria louca
De uma cauda exposta aos ventos em seus últimos momentos
Relembrada num troféu em forma de arpão

Como é possível que você tenha coragem
De não deixar nascer a vida que se faz
Em outra vida que sem ter lugar seguro
Te pede a chance de existência no futuro

Mudar seu rumo e procurar seus sentimentos
Vai te fazer um verdadeiro vencedor
Ainda é tempo de ouvir a voz dos ventos
Numa canção que fala muito mais de amor

15.6.07

Homenagem ao malandro

Destacar algum disco ou canção da obra de Chico Buarque de Hollanda é de uma enorme injustiça com os demais. Entre Madalena ir pro mar e Renata Maria sair dele, muitas águas rolaram e o garoto que viu a banda passar cantando coisas de amor está, agora, completando 63 anos de vida, não apenas de idade. Aos oito, de partida para a Itália com a família, em carta a sua avó, previu o futuro que o destino lhe reservava, com as seguintes palavras: “Vovó, você já está muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu, se sentir saudades”.

Como querendo demarcar espaço, seu primeiro disco tinha como título seu próprio nome, assim como os que se seguiram, os volumes 2, 3 e 4. Trabalhos de alto nível, dignos de compositores experientes, mas impressionantemente saídos de uma cabeça de vinte e poucos anos, com várias músicas que viraram clássicos da MPB. Se apenas esses seus quatro primeiros discos já o credenciavam como um dos melhores compositores brasileiros, sua obra ao longo de quatro décadas consolidou uma carreira impecável, que sempre transitou, com a mesma perfeição, tanto por canções de cunho político e social, quanto por canções românticas e líricas.

Ao mesmo tempo em que lançou esses discos no início da carreira, participou de vários festivais de música popular, freqüentes à época, vencendo, em 1966, com a canção “A banda”, e em 1968, com “Sabiá”, ironicamente (em se tratando de Chico) consideradas bem comportadas pelo público, que preferiu “Disparada” e “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré, não menos belas e mais politizadas, digamos assim. Também nessa época, iniciou sua parceria com os já consagrados Tom Jobim e Vinícius de Moraes, amigos de seu pai, o historiador Sérgio Buarque: “Sabiá”, “Retrato em branco e preto” e “Pois é” (Tom Jobim – Chico Buarque) são de 1968, Gente humilde (Garoto – Vinícius de Moraes – Chico Buarque), de 1969.

Nos anos 70, suas músicas passaram a apresentar um perfil mais contundente. “Apesar de você”, lançada em um compacto simples juntamente com “Desalento” em 1970, marcou o agravamento de seus problemas com a censura, tendo sua execução proibida nas rádios. Também são dessa década os álbuns “Construção”, “Calabar”, que teve a capa censurada e o título alterado para “Chico canta”, “Sinal fechado”, de título sugestivo, que contava com apenas uma música de sua autoria, disfarçada por pseudônimos e “Meus caros amigos”, além de “Quando o carnaval chegar”, com a trilha sonora do filme homônimo, “Caetano e Chico juntos e ao vivo” e “Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo”.

Também dessa década, fechando-a com chave de ouro, mais um disco com seu nome no título, e digno dele, que antecipava músicas que faziam parte da trilha sonora da peça “Ópera do malandro”, lançada em álbum duplo no ano seguinte, entre outras inéditas, inclusive “Cálice”, de 1973, censurada à época. Também foram liberadas pela censura e gravadas nesse disco “Apesar de você” e “Tanto mar”, que até então ele havia gravado apenas em versão instrumental, no impecável LP “Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo” (esqueci que não deveria destacar, os outros também são impecáveis).

Ao longo da carreira, compôs várias canções ou mesmo trilhas musicais inteiras para peças de teatro e filmes, de sua autoria ou não: “Morte e vida Severina”, “Quando o carnaval chegar”, “Roda-viva”, “Calabar”, “Gota d’água”, “Os saltimbancos”, “Ópera do malandro”, “O grande circo místico”, “Cambaio”, entre outros. Fez músicas sobre mulher, para mulher, mas sobretudo como mulher. Com açúcar, com afeto, sem açúcar, sem fantasia... Maria Bethânia conta que Mãe Menininha do Gantois ficou perplexa ao saber que um homem havia composto “Olhos nos olhos”*.

Se nos anos 70 lutou contra a ditadura, nos 80 vestiu a blusa amarela das diretas pra ver passar a evolução da liberdade, na festa do povo. A partir da década de 90, passou a alternar trabalhos como compositor e escritor, tendo lançado, desde então, os livros “Estorvo”, “Benjamim” e “Budapeste”. Em 2006, lançou o CD “Carioca”, seguido do show, que lotou os teatros por onde passou, comprovando o apreço incondicional que o cantor desperta, ainda que não tenha se rendido, nesse show, a um repertório centrado em suas músicas mais consagradas, mas sim nas composições feitas dos anos 80 em diante, incluindo todas do novo trabalho.

Chico Buarque é, realmente, um fenômeno a ser estudado. Dado o seu total domínio da arte de compor, é possível que sua cadeia de DNA seja um pentagrama, com suas canções em partituras e seu genoma esteja refletido em sua obra, clone de nossos sentimentos.



* Olhos nos olhos (Chico Buarque)

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

25.5.07

O homem velho


Caetano Veloso pode ser classificado de diversas maneiras, segundo diversos critérios, muitas vezes situando-se em mais de uma categoria ou em todas elas. O certo é que ele está sempre se reinventando, ousando, polemizando, desafiando rótulos e definições, fugindo aos padrões, abrindo caminhos alternativos, coerente apenas consigo mesmo e é isso que o torna tão bom. Numa análise simplista, particular e sem pretensões acadêmicas, diria que uma das diferenças entre ele e Chico Buarque, quanto às composições, é que deste, Maria Bethânia gravaria tudo, dele, nem tudo, o que pode ser enxergado como mérito ou não.

Seguindo esse raciocínio, as canções do novo disco de Caetano, Cê (como de outros também), poderiam ser divididas entre aquelas que Bethânia gravaria e as que ela não gravaria. Gosto de ambas porque gosto de ambos, mas prefiro as primeiras. É inimaginável vê-la cantando, por exemplo, “Rocks”, de um linguajar jovem demais para seu gosto (mas cê foi mesmo rata demais... você foi mor rata comigo), ou “Outro”, “Deusa urbana” e “Homem”, explícitas demais para ele. Por outro lado, a dramaticidade de “Não me arrependo” (nada, nem que a gente morra, desmente o que agora chega à minha voz) e “Minhas lágrimas” (... nada serve de chão onde caiam minhas lágrimas) cairia bem na sua voz.

Devido ao estilo mais roqueiro das músicas e dos arranjos de Cê, algo que o próprio cantor tem afirmado, alguns críticos têm-no comparado com Velô, seu disco lançado em 1984. Há semelhanças nos títulos dos dois discos. Cê tanto pode ser uma abreviatura do pronome você, usada, inclusive, em algumas letras das faixas do disco, como também uma referência à letra inicial de seu nome. Velô, por sua vez, pode ser uma abreviatura de velocidade (A letra de “Língua”, desse disco, inclusive, traz o termo neste sentido: “Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmen Miranda”), mas também do seu sobrenome, Veloso.

Os primeiros significados, de abreviaturas de palavras, denotam uma linguagem coloquial, uma forma jovial de expressão, que se alinha com o estilo mais jovem dos discos, enquanto os que se referem ao seu nome dão-lhes um caráter mais pessoal. Todas as canções de Cê, e quase todas de Velô, são de autoria de Caetano, que parece ter brincado com esses dois significados dos títulos, em sintonia com as semelhanças entre os dois trabalhos.

Outra semelhança é a nova banda que o acompanha em Cê, formada por jovens e competentes músicos, assim como era a Banda Nova, que o acompanhava em Velô. Tais escolhas, porém, parecem ser apenas conseqüência do espírito inovador que sempre o norteou, bem como da sonoridade que o cantor almejava com ambos os trabalhos, o que, no fundo, remete à semelhança anterior.

A comparação entre os dois discos deve ser considerada elogiosa, pois Velô, de 1984, foi um de seus melhores trabalhos, de canções marcantes como “Podres poderes”, “O quereres”, a citada “Língua” e “Shy moon”, em que ele interagia com o rock brasileiro que assolava o país, ao dividir os vocais com o cantor Ritchie. Nesse disco, também, ele regravou “Nine out of ten”, do álbum Transa, de sua fase pós-exílio na Inglaterra e inovou ao musicar o poema “Pulsar”, de Augusto de Campos, com uma melodia que varia entre tons graves e agudos, de acordo com o som das vogais que formam as sílabas de seus versos, ora abertas, ora fechadas, num ritmo constante, pulsante. Melodia concreta para um poema concreto.

É de Velô, também, uma das mais bonitas canções de Caetano, “O homem velho”*, não muito conhecida, mas à altura dos homenageados a quem ele a dedicou, com as seguintes palavras, no encarte do disco: “À memória do meu pai, a Mick Jagger e a Chico Buarque, que agora tem 40 anos, mas aos 20 fez uma canção lindíssima sobre o tema”, numa referência a não menos bonita “O velho”**, do álbum Chico Buarque de Hollanda – Vol. 3, de 1968. A música de Caetano traduz o pesar e o prazer do que significa ser um homem velho, numa descrição que bem pode, agora, ser aplicada ao próprio autor.

Voltando ao Cê da questão, o repertório do show oscila entre as músicas desse novo disco e outras de várias fases de sua carreira, com arranjos adaptados ao acompanhamento enxuto de guitarra, baixo e bateria, como “Sampa” e “Cajuína”. Entre as novas canções, dois bons momentos da apresentação são as interpretações de “Odeio”, que Caetano canta duas vezes, e “O herói”, de letra panfletária, no estilo de “Haiti” e “Podres poderes” (nasci num lugar que virou favela, cresci num lugar que já era ... por um triz não sou bandido).

A iluminação, nos momentos mais agitados do show, faz o palco parecer uma pista de dança, contagiando a platéia. Também visível, e bonito de se ver, é a integração deste grande homem velho com os jovens músicos que o acompanham, Pedro Sá na guitarra, Ricardo Dias Gomes no baixo e Marcelo Callado na bateria.

Entre as músicas que não fazem parte do novo CD, além de “O homem velho”, Caetano interpreta outra de suas melhores composições: “Desde que o samba é samba”, digna de Pixinguinha, Cartola ou qualquer dos grandes compositores do nosso país. Depois de ter feito músicas como essas, e tantas outras, Caetano pode tudo. E Cê não é tudo.

P.S.: Parabéns a uma das mães mais eficientes para a MPB, e das suas principais credoras, dona Canô, que em 2007 completa 100 anos (Cê, em romanos).

Leia também: Paul McCartney & Chico Buarque: sonhos sonhos são (Mário Montaut)



* O homem velho (Caetano Veloso)

O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal


** O velho (Chico Buarque)

O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Da sua vida
Então eu lhe pergunto pelo amor
A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar

O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívida, sem saldo
Sem rival
Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar

O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já se fechou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Não
Foi tudo escrito em vão
Eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar

14.5.07

Nação nordestina - Parte II


Sendo a Paraíba um dos estados que produz mais cantores e compositores por metro quadrado, era natural que não ficasse de fora quando os ventos do mercado voltaram-se para o nordeste.

Zé Ramalho chegou com estilo, com letras complexas, enigmáticas, de tom profético, apocalíptico, psicodélico. Segundo ele, “música é para botar as pessoas para viajar” e seus discos, realmente, poderiam muito bem ser chamados de “discos voadores”. Como seu primeiro trabalho, um disco experimental em parceria com Lula Côrtes, Paêbirú, de pouca divulgação (escutando-o no escuro, voa-se melhor). Zé tornou-se mais conhecido do público em 1977, quando lançou um disco que trazia uma versão instrumental de “Bicho de sete cabeças” e as canções “Avôhai”* (com Patrick Moraz, do grupo inglês Yes, nos teclados), “Chão de giz” e “Vila do sossego”, alguns de seus maiores sucessos até hoje, que têm histórias interessantes, por ele reveladas em alguns depoimentos, que nos ajudam a entendê-las um pouco melhor.

“Chão de giz” foi feita para um amor platônico dele por uma mulher casada e rica, enquanto “Vila do Sossego” era a casa de praia de uma tia, em João Pessoa. “Em 73, essa casa tornou-se um ponto de encontro de artistas de João Pessoa que se reuniam para fumar um baseado, tomar umas, conversar sobre arte e outros rumos. ... O que aparece na música são citações desses encontros.” (tá explicado!), afirmou o cantor em depoimento ao poeta Jorge Salomão, em 1998. “Avôhai”, por sua vez, ele fez em homenagem ao avô que o criou, o “velho e invisível Avôhai”. Se eu tivesse ido à Vila do Sossego, gostaria de discutir com ele a letra de “Pelo vinho e pelo pão”. Seria uma metamorfose kafkaniana?

Compositor de excelentes trabalhos autorais, Zé Ramalho foi um dos compositores mais gravados por essa geração, com destaque para as interpretações marcantes de Elba Ramalho. Em um de seus melhores discos, o excelente álbum duplo “Nação Nordestina”, lançado em 2000, porém, ele assina apenas seis das vinte faixas. Nas demais, uma gama de compositores nordestinos: Luiz Gonzaga, João do Vale, Geraldo Vandré, Dominguinhos e Gilberto Gil, entre outros. Destaque para a criativa capa, inspirada em “Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, e para o encarte, com belos desenhos e todas as faixas comentadas. Produção de Robertinho do Recife.

A também paraibana Elba Ramalho começou cantando e atuando nas peças musicais “Morte e Vida Severina” e “Ópera do Malandro”, experiência que lhe proporcionou uma excelente presença de palco. Sempre identificada com suas raízes, gravou canções de vários compositores nordestinos, às vezes discos inteiros, como “Leão do Norte”, “Flor da Paraíba” (com exceção de uma faixa) e “Baioque” (deste, apenas a canção-título, de Chico Buarque, não tinha, entre os compositores, alguém da região).

Em 1984, Elba gravou a polêmica canção “Nordeste independente” (Bráulio Tavares / Ivanildo Vila Nova), uma crítica ao descaso e à discriminação sofrida pela região que, naqueles tempos, viveu o auge do coronelismo, do clientelismo, do voto de cabresto. “Já que existe no sul esse conceito / Que o nordeste é ruim, seco e ingrato / Já que existe a separação de fato / É preciso torná-la de direito”, dizia a primeira estrofe da canção, que tinha como refrão: “Imagine o Brasil ser dividido e o nordeste ficar independente”.

O baiano Moraes Moreira começou como integrante do grupo Novos Baianos, cujo primeiro disco foi lançado em 1969, partindo para carreira-solo em 1975. Nessa mesma época, conheceu Armandinho, filho de Osmar Macedo, um dos criadores do trio-elétrico, invenção que completava, então, 25 anos, “desde os tempos da velha fubica”. Este encontro foi fundamental para a definição do estilo musical de Moraes, que se tornou um exímio compositor de músicas carnavalescas, sendo seu primeiro grande sucesso a música “Pombo-correio”, feita em parceria com Dodô e Osmar.

A partir de 1978, continuou a compor belas marchinhas, afoxés e frevos, em parcerias com Fausto Nilo (“Chão da praça”, “Bloco do prazer”, “De noite e de dia”), Capinan (“Cidadão”) e Abel Silva (“Festa do interior”), carnavalizando essa turma que, com Fagner, por exemplo, compunha canções mais intimistas. Em 1981, apresentou-se no festival de Montreux, na Suíça, com Toquinho e Elba Ramalho, o que resultou num disco ao vivo. Outras belas canções suas são “Meninas do Brasil”, com Fausto Nilo, do LP “Bazar brasileiro”, de 1980 e “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”, com Pepeu Gomes, do disco de mesmo nome, de 1979.

O ano de 1979, aliás, foi prodigioso com essa turma, todos no auge do reconhecimento artístico, lançando alguns de seus melhores trabalhos. “A Peleja do diabo com o dono do céu”, de Zé Ramalho, por exemplo, contou com acompanhamentos instrumentais de Geraldo Azevedo, Jorge Mautner, Pepeu Gomes e de sua conterrânea Cátia de França. Todas as canções eram de sua autoria, entre elas várias de suas melhores músicas: além da faixa-título, destaque para “Admirável gado novo”, “Beira-mar”, “Garoto de aluguel”, “Pelo vinho e pelo pão” e a instrumental “Agônico”, em que Zé Ramalho toca todos os instrumentos. Merece destaque também a capa, com Zé do Caixão e a atriz Xuxa Lopes.

“Frevo Mulher”, de Amelinha, contou com o mesmo respeitável elenco de compositores, em sua maioria nordestinos, em outras tantas belas canções: “Santa Tereza” (Fagner e Abel Silva), “Galope Rasante” (Zé Ramalho), “Coito das Araras” (Cátia de França) e a melhor gravação de “Dia Branco” (Geraldo Azevedo e Rocha). O mesmo pode-se dizer de “Ave de Prata”, primeiro disco de Elba Ramalho, que tinha, entre as canções, marcantes interpretações de “Não Sonho Mais”, de Chico Buarque, e “Ave de Prata”, de Zé Ramalho. Dois excelentes LP’s, que ainda não foram relançados em formato de CD.

Em “Beleza”, Fagner contou com seus parceiros e compositores habituais e com excelentes arranjos de João Donato. Sua melancolia característica permaneceu presente neste trabalho, através de sua voz, dos arranjos, das melodias e sobretudo dos versos de belas canções, como “Noturno”**, “Asas” e “Beleza”, três de seus maiores sucessos, carregadas de uma tristeza que chegava ao ápice na última faixa do disco, “Elizete”, que ele fez para sua irmã, falecida num acidente de automóvel, naquele ano.

Tantos talentos indiscutíveis, surgidos em condições as mais adversas (parafraseando Belchior, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindos do interior), servem-nos de orgulho, ao mesmo tempo em que nos fazem refletir e questionar quantos tantos outros são desperdiçados, por falta de oportunidade, até que a gente aprenda que “ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país” (Milton Nascimento).



* Avôhai (Zé Ramalho)

Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas, de ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde coarava sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisível Avôhai
Oh meu velho e indivisível Avôhai
Neblina turva e brilhante em meu cérebro, coágulos de sol
Amanita matutina e que transparente cortina ao meu redor
Se eu disser que é meio sabido você diz que é meio pior
É pior do que planeta quando perde o girassol
É o terço de brilhante nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira que nunca dormia só, Avôhai

O brejo cruza a poeira
De fato existe um tom mais leve na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida sua alma na altura que mandar
São os olhos, são as asas, cabelos de Avôhai
Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada e na cratera condenada eu me calei
Se eu calei foi de tristeza, você cala por calar
E calado vai ficando só fala quando eu mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa
Girando a carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Avôhai, Avôhai, Avôhai


** Noturno (Graco-Caio Sílvio)

O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas
Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania vem mais forte
Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou, há muito me deixou...
Ai, coração alado
Desfolharei meus olhos
Neste escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança
Nesta estrada
Só quem pode me seguir sou eu
Sou eu, sou eu, sou eu...

3.5.07

Nação nordestina – Parte I


Sempre foi difícil para um artista nordestino, ou de qualquer outro lugar do país que não o eixo Rio-São Paulo, conseguir espaço para seu trabalho. Nos anos 70, porém, um grupo de cantores e compositores da região, oriundos em sua maioria do sertão, enfrentou o desafio de sair de sua terra natal para tentar a sorte por lá, seguindo os passos e exemplos dos mestres e conterrâneos Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, mas levando no matulão, também, a guitarra e abrindo portas para outros, que viriam depois.

Assumiram o estereótipo do nordestino, de feições agrestes, sem maquiagens nem embelezamentos artificiais, com sotaque, vozes melancólicas, fortes, ásperas, lembrando a paisagem crua e seca do sertão. Tais características marcantes, aliadas a uma notável qualidade musical, chamou a atenção da mídia e do público.

Oe elementos do grupo, apesar de dispersos geograficamente por entre os estados nordestinos, tinham forte ligação entre si. A cantora cearense Amelinha, por exemplo, começou com o conterrâneo Fagner e foi casada com Zé Ramalho. Este, por sua vez, tinha algum parentesco com Elba Ramalho e começou tocando na banda de Alceu Valença, que era amigo de Geraldo Azevedo e junto com ele iniciou a carreira. Essa união, que persistiu ao longo dos anos, produzindo importantes trabalhos, resultou, em 1996, em mais um excelente disco, "O Grande Encontro", gravado ao vivo, que reuniu Alceu, Geraldo, Elba e Zé. Em 1997 e 2000, mais dois volumes de "O Grande Encontro" foram lançados, sem a participação de Alceu Valença.

Do Ceará, Raimundo Fagner e Belchior foram os que mais conseguiram destaque, tendo recebido, no início de suas carreiras, fundamental apoio de Elis Regina que, em 1972, gravou em seu disco a canção Mucuripe, dos dois compositores, também gravada por Roberto Carlos, em 1975. Bem antes de se tornar conhecido pelo grande público em 1978, com o disco "Quem viver chorará" e a música "Revelação" (Clodô/Clésio), Fagner já havia feito excelentes trabalhos, como o CD de estréia, "O último pau-de-arara", de 1973, que contava com a participação de Nara Leão e Naná Vasconcelos, produção de Roberto Menescal e Paulinho Tapajós e arranjos de Ivan Lins.

É deste disco a música "Canteiros", feita por Fagner, baseada em poesia de Cecília Meireles (Marcha), que o tornou réu em processo movido pelas filhas da poetisa. Por decisão da justiça, o disco teve que ser relançado, com a substituição de "Canteiros" por "Cavalo ferro" (Fagner/Ricardo Bezerra) e apenas em 2000 o músico pôde regravar a canção, num álbum duplo, gravado ao vivo. O processo envolvia, também, outra canção, "Motivo", também baseada em poema de Cecília Meireles, de mesmo nome, gravada por Fagner, em 1978. Novamente, o disco foi recolhido e relançado, com a faixa "Quem me levará sou eu" (Dominguinhos/Manduka), que acabara de vencer um festival da Rede Tupi de Televisão, em substituição a "Motivo".

Fagner musicou, também, outros poemas, como "Traduzir-se", de Ferreira Gullar, "Fanatismo" e "Fumo", da poetisa portuguesa Florbela Espanca, entre outros. Desde seus primeiros trabalhos, contou com parcerias freqüentes e de qualidade com o compositor baiano Capinan ("Pavor dos paraísos", "Natureza noturna"), os cearenses Fausto Nilo ("O astro vagabundo", "Calma violência"), Brandão ("Dois querer", "Beleza"*) e Belchior ("Mucuripe", "Moto I"), além do carioca Abel Silva ("Asa partida", "Sangue e pudins", "Asas"). Contou, também, com a qualidade dos arranjos de nomes como Hermeto Paschoal, João Donato, Wagner Tiso, Robertinho do Recife e o já citado Ivan Lins, um time de primeira.

A maioria de suas canções traziam, em comum, versos plangentes (e pungentes), em tom de lamento, desesperança, pessimismo e desilusão, que combinavam bem com sua voz melancólica e agradaram em cheio à juventude, geralmente perdida. Em meados da década de 80, seguiu em uma linha romântica, porém de letras mais fáceis, menos elaboradas, numa trajetória que poderíamos chamar "De Revelação a Deslizes".

Amelinha teve quase todos os seus discos concentrados entre 1977 e 1987, sendo o primeiro deles produzido por Fagner, que também produziu trabalhos de vários outros cantores.
Sua voz bonita e agradável foi logo enaltecida, bem como seu repertório. Ednardo, mais conhecido como o autor de "Pavão misterioso" e "Enquanto engomo a calça", foi outro destaque cearense surgido na época.

Os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo começaram a carreira um pouco antes, em 1972, quando lançaram um disco juntos. São deles as canções "Caravana" e "Táxi Lunar", esta última em parceria com Zé Ramalho. Em 1984, Geraldo lançou mais um trabalho em grupo, com o paraibano Vital Farias e os baianos Elomar e Xangai, a partir de um show gravado ao vivo, o LP "Cantoria", aclamado pela crítica. Compositor de estilo romântico, embora tenha composto, também, em outros estilos, teve como principal intérprete de suas canções a cantora Elba Ramalho.

De estilo inovador, Alceu foi um dos pioneiros, em Pernambuco, a misturar ritmos regionais com solos de guitarra, tendo parte dos créditos pelo surgimento, na década de 90, do manguebeat. Lançou seu primeiro trabalho individual em 1974, o conceituado "Molhado de suor", recentemente relançado em CD, e alcançou maior sucesso junto ao público no início da década de 80, com as canções "Coração bobo", "Pelas ruas que andei" e "Tropicana".



* Beleza (Raimundo Fagner - Brandão)

Beleza só se tem quando se acende a lamparina
Iluminando a alma se entende a própria sina
E quando se vê o arame que amarra toda gente
Pendendo das estacas sob um sol indiferente
Beleza só depois de uma sangria desatada
Aberta na ferida dos perigos do amor
E quando se afasta a sombra triste do remorso
Que faz olhar pra dentro para enfrentar a dor
Repara este silêncio que se estende da janela
Repassa o teu passado e come o lixo que ele encerra
Vagar sem remissão é também parte da questão
Juntar estas migalhas para refazer o pão
Não é da natureza que ele surge confeitado
Mas é desta tristeza, deste adubo de rancor
Beleza é o temporal que suja e corta uma visão
E esmaga qualquer sonho com um grito de pavor

12.4.07

Meu rei mandou dizer...

Com todo o poder, audiência e experiência que as Organizações Globo possuem na televisão brasileira, era natural que se aventurassem, um dia, a fazer, também, cinema. Hoje, após passar por dificuldades e quase desaparecer durante o governo Collor, o cinema nacional voltou a ter grandes bilheterias, com o surgimento da Globo Filmes e todo o seu poder de divulgação, sem que isso signifique, contudo, ganho para todos. Seus filmes, sendo ou não meras transposições de produções da televisão para a tela grande, ficam, em geral, com cara de novela. E, assim como ocorre na TV, há um enorme desequilíbrio de forças, com a globalização a tomar espaço de produções menores, mas de maior qualidade.

A nova produção da Globo Filmes, “Ó Paí, Ó”, de Monique Gardenberg, que dirigiu, também, Benjamim, baseado em livro homônimo de Chico Buarque, deve seguir o caminho inverso, mas não menos direto, e virar seriado na TV. Parte, contudo, de uma boa idéia, a de mostrar as dificuldades e desventuras de uma comunidade pobre dos arredores do Pelourinho, no centro histórico de Salvador, e sua forte ligação com o carnaval.

Segundo a página oficial do filme (www.opaio.com.br), “Ó Pai, Ó faz uma rasura na superfície de uma reordenação urbanística do Pelourinho que violentou territorialidades negras em tentativas vãs de embranquecimento cultural e de desafricalização dos espaços públicos de Salvador”. Rasura, de fato, bem superficial e a lápis, resultando em papéis sem maiores riscos, pois o filme não foge à regra global e sofre da mesma miopia ou visão pouco aprofundada de questões importantes, visão essa decorrente do compromisso com o padrão Globo de qualidade, que a exige, em troca de uma boa divulgação, com direito a comentários na novela das oito e em seus programas.

Quando insinua tratar com seriedade de temas como o preconceito racial, o assunto é logo abortado, como se entrassem os comerciais. Isto acontece, claramente, numa cena em que o ator Lázaro Ramos mostra todo o seu potencial dramático, talvez menos conhecido (pelo menos na televisão) do que sua veia cômica. Ele rouba a cena e em seguida devolve-a ao público, já quase transformada em realidade, através de sua contundente (e convincente) expressão facial, no primeiro momento sério do filme até que... uma piada recoloca-o nos eixos mal traçados de uma comédia musical sem muita graça.

Um aspecto interessante é a divulgação do belo trabalho social, cultural e de resistência, que faz o Bando de Teatro Olodum na capital baiana. O filme, inclusive, é baseado em uma peça de teatro encenada pelo grupo, do qual saiu, também, boa parte do elenco. Um bando de bons atores, que têm a chance de serem conhecidos e reconhecidos nacionalmente, seguindo os passos de Lázaro Ramos e da cantora Virgínia Rodrigues, que começaram no grupo.

Além deles, “Ó Paí, Ó” conta com as participações de Stênio Garcia, Wagner Moura e Dira Paes. Merecem elogios, também, as atuações de Luciana Souza (dona Joana) e dos graciosos e espontâneos garotos Vinícius Nascimento e Felipe Fernandes (Cosme e Damião), bem como a beleza morena de Emanuelle Araújo, ex-vocalista da Banda Eva.

Na parte musical e nas cenas de carnaval, o filme também parece um pouco prejudicado pelos interesses comerciais, deixando um pouco de lado, por exemplo, o afoxé, ritmo que melhor representa a cultura carnavalesca negra baiana (o Araketu é bom demais, mas a coisa mais linda de se ver é o Ilê-Aiyê). Mesmo o samba-reggae, sempre posto, injustamente, como subproduto da chamada axé-music, mas de valor bem maior, poderia ter sido melhor explorado e ter substituído algumas faixas da trilha sonora (disponível em CD).

Se a primeira impressão é a que fica, porém, “Ó Paí, Ó” começa muito bem com a bela canção “É d’Oxum”* (na voz de Jauperi, ex-vocalista do Olodum), já gravada por Gal Costa. Termina bem, também, com “Protesto do Olodum – E lá vou eu”** (com participação de Margareth Menezes e Daniela Mercury), gravada em 1988 pela Banda Mel, que casa perfeitamente com a segunda e última cena séria do filme, protagonizada com destaque pela atriz Luciana Souza.

Outros destaques da trilha sonora são “Ilha de Maré”, que já foi sucesso na voz de Alcione em 1977; “Depois eu volto”, do tradicional sambista baiano Batatinha; “Vem meu amor” (por Lázaro Ramos), gravada anteriormente pelo Olodum; e “Canto do mundo”, de Caetano Veloso, que também assina “Ó Paí, Ó”, com Davi Moraes. A produção musical do filme é de Betão Aguiar, Davi Moraes e Luiz Brasil; a não-musical, de Augusto Casé, Sara Silveira e Paula Lavigne.

Saiu por uma porta, entrou pela outra. Meu rei mandou dizer que, em suma, a história e a trilha do filme valem como uma série ou especial da Globo, mas poderiam valer muito mais. Quem quiser que conte outra e tomara que queiram.



* É d’Oxum (Vevé Calazans/ Gerônimo Santana)

Nessa cidade todo mundo é d'Oxum
Homem, menino, menina, mulher
Toda essa gente irradia magia
Presente na água doce
Presente na água salgada
E toda cidade brilha
Seja tenente ou filho de pescador
Ou importante desembargador
Se der presente é tudo uma coisa só
A força que mora n'água
Nao faz distinção de cor
E toda cidade é d'Oxum
É d'Oxum, é d'Oxum
Eu vou navegar nas ondas do mar
Eu vou navegar, eu vou navegar


** Protesto do Olodum – E lá vou eu (Tatau)

Força e pudor
Liberdade ao povo do pelô
Mãe que é mãe no parto sente dor
E lá vou eu

Declara a nação,
Pelourinho contra a prostituição
Faz protesto manifestação
E lá vou eu

Aids se expandiu
E o terror já domina o brasil
Faz denúncia Olodum Pelourinho
E lá vou eu

Brasil liderança
Força e elite na poluição
Em destaque o terror Cubatão
E lá vou eu

Lá e cá nordestópia
Na Bahia existe Etiópia
Pro nordeste o país vira as costas
E lá vou eu

Moçambique, hei
Por minuto um homem vai morrer
Sem ter pão nem água pra beber
E lá vou eu

Mas somos capazes
O nosso deus a verdade nos trás
Monumento da força e da paz
E lá vou eu

Desmond Tutu
Contra o apartheid na África do Sul
Vem saudando o Nelson Mandela
O Olodum

29.3.07

Anos 80: o paradoxo estendido na areia



Com Eduardo e Mônica perto de completarem bodas de prata, vale a pena recordar o que acontecia quando eles se conheceram. Aquela festa estranha, com gente esquisita, não tinha uma trilha musical tão inovadora em termos de sonoridade, mas tornou-se uma identidade, imagem da juventude da época. Uma imagem tosca, mas real, talvez a única possível, diante das circunstâncias.

Tudo começou com Evandro Mesquita que, vindo do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, trouxe a linguagem teatral à sua banda Blitz, suas apresentações em palco e suas canções, a partir de “Você não soube me amar” que, em 1982, abriu as portas para o denominado BRock. Do grupo de teatro, também fazia parte a camaleoa Regina Casé. Da banda, Lobão e a carioca Fernanda Abreu. Marina Lima, Ritchie e Lulu Santos chegaram sozinhos, os dois últimos vindos de um grupo não muito conhecido, de nome Vímana, junto com Lobão. Num cantinho, meio deslocada, uma turma fazia uma festinha paralela: 14 Bis, Boca Livre e Roupa Nova.

Sem microcomputador, internet, telefone celular, CD e MP3, a informação era menos acessível. A televisão acabava de entrar na era dos vídeo-clips e as bandas de sucesso tocavam na rádio Fluminense e no Circo Voador, ambos no Rio de Janeiro, e apresentavam-se em programas de auditório como o Cassino do Chacrinha, da Rede Globo. Rolava de tudo: Miquinhos Amestrados, Abóboras Selvagens, Kid Abelha, Kid Vinil, Absyntho, Herva Doce, Sempre Livre, Camisa de Vênus. Difícil descrever, por exemplo, a loucura que era a apresentação dos Titãs, com seus oito integrantes se espalhando pelo pequeno palco em performances alucinantes, em meio à gritaria do auditório, estripulias de Chacrinha, toques de sirene e requebros das chacretes.

O Rock in Rio I, ocorrido em janeiro de 1985, ajudou a consolidar o BRock como algo rentável para as gravadoras e, por conseqüência, a disseminar o surgimento de bandas que apareciam por todas as bandas, de qualidade ou não. Mesmo não fazendo parte de suas atrações, os grupos Titãs, Legião Urbana, Ultraje a Rigor e RPM alcançaram um maior destaque após o festival, o qual ajudou, também, a alavancar a carreira de grupos que já se destacavam, como Kid Abelha, Blitz, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, este último protagonista de um de seus melhores momentos, quando Cazuza cantou, abraçado à bandeira brasileira, “Pro dia nascer feliz”. Era o dia da votação que elegeria Tancredo Neves presidente da república.

Nas escolas, na década anterior, os filhos da “revolução” cresciam tendo aulas de “moral e cívica”, que reverenciavam “nossos” presidentes. O movimento estudantil não tinha mais força, as manifestações culturais eram censuradas, a televisão deixava-nos burros, muito burros demais. Todo esse cerceamento de liberdade teve conseqüências na formação intelectual dessa geração perdida, que parecia de outro mundo, uns aliens alienados, que não tinham outra cara pra mostrar. Eram o fruto de todo esse lixo, “toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer”. Não havia outra saída: “vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

Na década de 80, enfim, o sinal fechado do período de repressão tornou a abrir. Em 1979, veio a Lei da Anistia e em 1982, eleições diretas para governador, embora ainda não para presidente (Diretas já já). “Eu vejo a vida melhor no futuro”. Porém, o que fazer com essa senhora liberdade, que abria suas asas sobre nós? Que caminho seguir? Não sabíamos lidar com isso.

Por outro lado, se a política caminhava em direção a uma maior abertura, a liberdade sexual trilhava o caminho inverso: “meu prazer agora é risco de vida”. Frutos da revolução sexual dos anos 60, os jovens de então depararam-se com um vírus desconhecido, o qual, por ter sido, a princípio, entendido de maneira equivocada como exclusividade de homossexuais e africanos, alastrou-se rapidamente, resultado da filosofia egoísta dos “sem-risco”: “se não seremos atingidos, por que nos preocuparmos?”. Hoje, paga-se o preço por esse descaso.

Alienados, desiludidos, sem posições políticas definidas, “cansados de correr na direção contrária”, a seu jeito, os jovens protestavam: “indecente é você ter que ficar despido de cultura”, “as ilusões estão todas perdidas”, “os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito”, “meu partido é um coração partido”, “minha metralhadora cheia de mágoas”, “meu cartão de crédito é uma navalha”, “ideologia, eu quero uma pra viver”, “a gente não sabemos escolher presidente”, “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”. Que país é esse?

Outros, em crise de identidade, apenas experimentavam o inédito prazer de comprar um disco e gostar de uma banda da qual seus pais não gostavam, que tivesse suas caras. Como rebeldes sem causa (“como é que eu vou crescer, sem ter com quem me rebelar?”), querendo negar os preceitos de Belchior de que “nossos ídolos ainda são os mesmos” e que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Como eles, queríamos nos sentir capazes de produzir algo de valor e não mais ter que repetir: “a gente somos inútil”.

Até que não nos saímos tão mal e, em meio ao lixo que cuspimos, pudemos garimpar e encontrar belas poesias expelidas por Cazuza, Renato Russo e Júlio Barroso, que poderiam ter feito muito mais, não fosse o destino tão cruel ao dizimar algumas das principais cabeças dessa geração (Herbert Vianna escapou por pouco). Outros talentos, porém, sobreviveram: Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulinho Moska, que à época rondava o lixo com música barata, junto com os Inimigos do Rei, entre outros.

O alívio definitivo e a certeza de que a década não fora perdida veio, então, quando escutamos Gal Costa, Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Luiz Melodia cantando Cazuza, Chico Buarque cantando com Paula Toller, Tom Jobim com Marina Lima e Gilberto Gil cantando e compondo com os Paralamas do Sucesso, assim como exaltando o que acontecia, em seu “Roque santeiro – o rock”. O paradoxo estendido nas areias escaldantes, então, desfez-se, junto com um mar de dúvidas. Descobrimos, enfim, que poderíamos gostar desses expoentes da nossa geração sem romper com nossos grandes e insubstituíveis ídolos, os mesmos de nossos pais. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido.



Roque santeiro - o rock (Gilberto Gil)

Outrora, só cabeludo
Agora, o menino é tudo de novo no front
Outrora, só rebeldia
Agora, soberania na noite neon

Outrora, mera fumaça
Agora, fogo da raça, fogoso rapaz
Outrora, mera ameaça
Agora, exige o direito ao respeito dos pais

E tem mais, e tem mais, e tem mais

Outrora, arraia miúda
Agora, lobão de boca bem grande a gritar
Outrora, pirado e louco
Agora, poucos insistem em negar-lhe o lugar

Outrora, frágil autorama
Agora, três paralamas de grande carreta de som
Outrora, simples bermuda
Agora, ultravestidos de elegante ultraje a rigor

E o amor, e o amor, e o amor

Só quem não amar os filhos
Vai querer dinamitar os trilhos da estrada
Onde passou passarada
Passa agora a garotada, destino ao futuro

Deixa ele tocar o rock
Deixa o choque da guitarra tocar o santeiro
Do barro do motocross
Quem sabe ele molde um novo santo padroeiro

Outrora, o seio materno
Agora, o meio da rua, na lua, nas novas manhãs
Outrora, o céu e o inferno
Agora, o saber eterno do velho sonho dos titãs

Outrora, o reino do Pai
Agora, o tempo do Filho com seu novo canto
Outrora, o Monte Sinai
Agora, sinais da nave do Espírito Santo

E o encanto, e o encanto, e o encanto

8.3.07

A esses seres humanos

* A Zélia Duncan

A Amélia, mulher de verdade, que me deixou saudade. A Geni, que não é de verdade, mas é um poço de bondade. A Bárbara, que amar nunca é demais. A Conceição, de quem me lembro muito bem. A Marina, de quem estou de mal. À tigresa, de íris cor de mel. A Carolina, menina bem difícil de esquecer, de olhos fundos, que não viu o tempo passar na janela porque foi pro samba, pra dançar o xenhenhém.

A Dindi, que não sabe o bem que lhe quero. A Beatriz, que não me deixa entrar na sua vida. À deusa da minha rua, à dona da minha cabeça. À preta, pretinha, à pérola negra, à magrelinha. À malandrinha, rainha dos meus sonhos, que demorou, mas chegou e minha vida transformou. À moça bonita, à mais bonita. A essa mulher, àquela mulher. À violeira, caprichosa e nordestina, à paraíba masculina. À namorada: a minha, a de um amigo meu ou a que tem namorada.

A Luciana, sorriso de menina, nos olhos de mar. A Madalena, meu bem querer, que foi pro mar e me deixou a ver navios. À morena dos olhos d’água, que não tira os seus olhos do mar, nem vê que a vida ainda vale o sorriso que eu tinha pra lhe dar, mas a Rita levou. A Rita que levou meu sorriso e a Irene que o trouxe de volta.

A Rosa, Rosinha, de quem me recordo, olhando a chuva, que guarda consigo meu coração e embora divina e graciosa, e com andar de moça prosa, ou talvez por isso, arrasa o meu projeto de vida (eu, hein, Rosa!). À Maria vai com as outras, à Maria de verdade. A Maria, que mistura a dor e a alegria, que ri quando deve chorar e não vive, apenas agüenta. Que sobe o morro e não se cansa, lata d’água na cabeça e uma força que nunca seca.

A Eva, que me dá força pra viver e me abraça por um instante. A Iolanda, com quem quero morrer e ficar, eternamente. À morena de Angola ou a tropicana. A Tereza da praia, que não é de ninguém. À moça bonita da praia de Boa Viagem, à morena de Itapoã, à garota de Ipanema. Às mulheres de Atenas, que têm medo apenas. À bailarina que não tem. À mulher de fases. Às três meninas do Brasil, de simpatia mulata. À menina veneno, que tem um jeito sereno. À menina do Lido, que eu conheço não sei de onde. À alegre menina, a quem chamei de rainha. À pobre menina, que não tem ninguém. À menina que mora na ladeira e à que carreguei no colo.

A você, que não está entendendo nada do que eu digo, a você, que tirou partido de mim, a você, que não serve pra mim, a você, que é tudo pra mim, a você, que precisa saber de mim, a você que eu não conheço mais.

A Kátia Flávia, Anna Júlia, Lady Laura, Sá Marina, titia Amélia, Adelaide, Alice, Camila, Diana, Anália, Dora, Maricotinha, Laura, Helena, Vera, Solange, Sandra, Sílvia, Lígia, Lia, Tereza, Luzia, Luíza, Sandra Rosa Madalena, Clara, Ana e quem mais chegar.

Às mulheres de João, de vida e morte severinas: Juliana, de José e João; Maria Lúcia, de Jeremias e João; Joana, que errou de João. Às mulheres de todas as cores, de várias idades e muitos amores. Enfim, à mulher, sempre mulher, este ser superior, sempre a me ensinar como ser humano e não como ser vivo, minha eterna admiração.



A força que nunca seca (Chico César / Vanessa da Mata)

Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
Que faz o equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta
Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força que nunca seca
Pra água que é tão pouca

15.2.07

Cem e sem anos do frevo


“Ô, ô, saudade, saudade tão grande ...” (Antônio Maria) - A despeito de uma limitada divulgação nacional nos dias atuais, o frevo já viveu uma época de ouro, quando tocava e era tocado em todo o país, contando com o apoio de uma gravadora pernambucana, a Rozenblit, especialista em lançamentos do gênero, que saíam aos montes e com qualidade, principalmente quando o carnaval se aproximava. Compositores como Antônio Maria, Nelson Ferreira, Capiba e Edgar Moraes criavam canções que reverenciavam seus blocos preferidos e a eles declaravam amor fiel. Em algumas, prostituíam-se, declarando-se a vários ao mesmo tempo, como em “Valores do passado”, uma escalação do dream-team dos blocos de frevo, alguns deles ainda em atividade, como o “Bloco das flores”, fundado em 1921.

“Saudade que eu sinto do Clube das Pás, do Vassouras, passistas traçando tesouras nas ruas repletas de lá” (Antônio Maria) - Se a dança é derivada dos passos da capoeira, inventados pelos negros, a sonoridade e o instrumental são atribuídos a bandas marciais. Os primeiros clubes de frevo, como o “Clube das pás”, o “Vassourinhas” e o “Lenhadores”, datam do final do século XIX e continuam existindo até hoje. Como não se sabe ao certo quando a festa começou, escolheu-se, recentemente, como data de criação do frevo, o dia 9 de fevereiro de 1907, quando registrou-se a primeira referência à dança com este nome.

“Pode acabar o petróleo, pode acabar a vergonha, pode acabar tudo enfim, mas deixem o frevo pra mim” (Capiba) - No ano de seu centenário, o frevo foi registrado como patrimônio cultural imaterial do país, no livro das formas de expressão. Entre as características que justificaram tal registro, estão sua riqueza e simplicidade, singularidade e diversidade, e seu caráter libertário de resistência, a princípio apenas social, posto que surgiu entre os negros recém-libertados e, posteriormente, também cultural, diante da globalização do mercado musical.

“É lindo ver o dia amanhecer com violões e pastorinhas mil...” (Getúlio Cavalcanti) - O frevo é dividido em três gêneros principais. O frevo-de-rua é instrumental, executado por orquestras de metais e é o mais vivaz e ligeiro. Quando ganhou letra, virou frevo-canção, o mais abrangente e variado. O frevo-de-bloco, por sua vez, tem um ritmo mais suave e é geralmente executado por um coral de vozes femininas, acompanhado por uma orquestra de instrumentos de pau e corda.

“É de fazer chorar quando o dia amanhece e obriga o frevo a acabar ...” (Luiz Bandeira) - O processo de aculturação e discriminação por que passou Pernambuco com o golpe militar, refletiu, também, ou sobretudo, na área cultural, abandonada nos anos que se seguiram. O carnaval do Recife foi sumindo aos poucos, até chegar, ao final da década de 70, praticamente morto, restrito às comunidades. Blocos tradicionais de frevo, maracatu e caboclinho dispunham de pequena subvenção e desfilavam para um mirrado público no centro da cidade.

“Ei pessoal, vem moçada, carnaval começa no Galo da Madrugada” (José Mário Chaves) - Diante deste quadro, em 1979, fundou-se o “Clube de Máscaras Galo da Madrugada”, na intenção de reviver os velhos carnavais pernambucanos. O bloco foi, durante muito tempo, o único do carnaval recifense a atrair um grande público, crescente a cada ano. Hoje, embora não seja mais o único a cantar, o Galo segue seu grandioso desfile nos bairros de São José e Santo Antônio, abrindo o carnaval, no sábado de Zé Pereira, acompanhado por uma multidão.

“Entre confetes e serpentinas venho te oferecer com alegria o meu amor ...” (Clídio Nigro / Clóvis Vieira) - Ao mesmo tempo, Olinda virou reduto de resistência à dissolução das manifestações culturais do carnaval pernambucano. Blocos irreverentes foram criados, com nomes e hinos fazendo referência à situação política do país, como: “Eu acho é pouco”, “Siri na lata” e “Nóis sofre mais nóis goza” (este último no Recife), que se juntaram a blocos tradicionais da cidade como “Pitombeira dos Quatro Cantos”, “Elefante de Olinda” e aos seus tradicionais bonecos gigantes. O título de patrimônio cultural da humanidade, recebido pela cidade em 1982, contribuiu para dar maior visibilidade aos festejos nesta cidade.

“Batidas de bombos são maracatus retardados, chegando à cidade cansados, com seus estandartes no ar” (Antônio Maria) - Um evento conseguiu atravessar, incólume, o marasmo em que se encontrava o carnaval do Recife, tornando-se uma de suas maiores referências na mídia: a “Noite dos Tambores Silenciosos”, cerimônia que reproduz o ritual de escravos, suas preces e loas em busca de proteção, e reúne as mais tradicionais nações de maracatu de baque-virado, entre elas algumas fundadas ainda na época do império, antes da abolição da escravatura, como o “Nação Elefante”, de 1800 e o “Leão Coroado”, de 1863. Tais maracatus têm como características as figuras do rei e rainha, a religiosidade e os ritmos percussivos, de influência negra, bastante ligados à resistência da raça à situação vigente na época.

“Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu ...” (Caetano Veloso) - A inclusão de instrumentos eletrônicos nas orquestras foi viabilizada com a invenção do trio elétrico, quando compositores como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Moraes Moreira deram nova energia ao ritmo. Mas, se em Pernambuco o frevo era ligado aos antigos carnavais e pouco se produzia de novo, o ritmo foi perdendo espaço também na Bahia, com o surgimento do samba-reggae e da axé-music, no início dos anos 90.

“Vem fazer parte desse cordão, Recife tem um lugar pra você dentro do coração” (Sérgio Andrade / Zezinho Franco) - Na década de 80, contribuíram para o ressurgimento do carnaval recifense as apresentações da Banda de Pau e Corda na praia de Boa Viagem e o projeto “Asas da América”, do compositor Carlos Fernando, que tentou recuperar a vivacidade e a energia de um frevo que vinha perdendo as forças e incentivou uma nova geração de artistas a compor e interpretar frevos-canção, entre eles Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho.

“Modernizar o passado é uma evolução musical” (Chico Science) - Em meados da década passada, dois outros fatores possibilitaram a revalorização da cultura popular pernambucana: a revitalização do outrora abandonado bairro do Recife, a qual viabilizou uma estrutura mais profissional, necessária ao evento e o rufo dos tambores, o eco das alfaias, a repercussão da percussão de Chico Science e Nação Zumbi, que se uniu ao som dos clarins de momo. Também passaram a receber mais atenção e destaque antigas manifestações culturais do interior do estado, como o maracatu rural, de Nazaré da Mata; os papangus, de Bezerros; os caboclinhos, de Goiana e os caretas, de Triunfo.

“Quero sentir a embriaguez do frevo, que entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé ...” (Luiz Bandeira) - O nome frevo vem de ferver e quem ouve os gritos e pulos da multidão, parecendo pessoas em ebulição logo aos primeiros acordes de “Vassourinhas”, espécie de hino do carnaval pernambucano, entende bem o porquê. A música faz uso de requintes de crueldade: começa de repente, sem introdução, sem preparar os corações dos pobres foliões e segue divertindo-se com a surpresa e as conseqüentes perdas de controle e compostura dos mesmos, presas fáceis, indefesas, vítimas emocionadas, enlouquecidas. Doidos varridos por vassourinhas que levantam a poeira e seguem causando impacto, bagunçando tudo, lavando suas almas, até terminarem a faxina, com a sensação do dever cumprido.

“E frevo ainda, apesar da quarta-feira, no cordão da saideira, vendo a noite se enfeitar ...” (Edu Lobo).

1.2.07

Rompendo as fronteiras dos jardins da razão


Em meio à apatia generalizada, metástase da impassibilidade em que se encontrava o Recife pós-golpe militar, quando pouco ou nada de novo conseguia emergir de seus becos, um grupo de amigos, liderados pelos músicos Chico Science e Fred Zero Quatro, reuniu-se, no início da década de 90, denunciando a estagnação, o vazio criativo e o depressivo quadro social em que viviam seus habitantes.

Suas idéias foram reunidas num tipo de manifesto, intitulado "Caranguejos com cérebro", no qual clamavam: "Um choque rápido ou o Recife morre de infarto", pela obstrução de suas artérias, a matança de seus rios e o aterramento de seus estuários. O texto falava do conceito de mangue, de sua importância para o equilíbrio ambiental e da cena musical que na cidade despontava, à qual eles deram o nome de manguebeat, ao mesmo tempo em que propunha uma saída, "para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos", através de uma mudança de atitude urgente: "Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.".

Chico Science criou a banda Nação Zumbi e Fred Zero Quatro, a Mundo Livre S/A. Após alguns shows em bares do Recife, ambos lançaram seus primeiros discos, "Da lama ao caos" e "Samba esquema noise", respectivamente, em 1994. Após se apresentarem na primeira edição do festival "Abril pro rock", que surgiu na mesma época, dividindo o palco com Gilberto Gil na canção "Macô", Chico Science e Nação Zumbi despertaram a atenção dos críticos para sua música. A mistura de sons da banda adveio, de forma natural, da formação musical de seus componentes, vindos parte de um grupo de rock, o Loustal (entre eles, o próprio Chico e o guitarrista Lúcio Maia), parte de um grupo de samba-reggae e outros ritmos afros, o Lamento Negro. Em 1996, lançaram o segundo disco, "Afrociberdelia".

A simbologia do mangue reproduzia bem as características do movimento, com sua diversidade de espécies representando a variedade de estilos, sua localização, entre o rio e o mar, entre a água doce e a salgada, equivalendo à mistura de ritmos e sua destruição representando o esvaziamento da alma da cidade. Seguindo o ímpeto tropicalista de misturar, o manguebeat tinha como imagem símbolo uma antena parabólica enfiada na lama do mangue. "Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão".

Nas letras, referências a revoltas e líderes populares, à concentração de riquezas, à discriminação, à fome e seus males, com citações à revolução praieira, a Antônio Conselheiro, Zumbi e Josué de Castro, este último espécie de ícone do manguebeat, com suas alusões ao "estranho mimetismo entre homens e caranguejos", tão bem representado por Chico Science nas canções e também no palco, em sua admirável e singular performance.

O fim do segundo milênio começava a despontar e uma pesquisa feita por um instituto da cidade de Washington – EUA, apontava o Recife como a quarta pior cidade do mundo para se viver, fato descrito por Chico Science em uma de suas canções. A cidade crescera rápida e desordenadamente. "A cidade não pára, a cidade só cresce. O de cima sobe e o de baixo desce". A exposição desses contrastes sociais e da dura realidade de uma "situação sempre mais ou menos, sempre uns com mais e outros com menos", contribuiu para que o manguebeat fosse bem melhor aceito na periferia, seu berço e fonte de inspiração.

A forte vibração vinda do mangue abalou um pouco as sólidas estruturas da sociedade conservadora recifense. Os respingos da lama nas varandas de seus apartamentos de luxo, qual "a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma", desagradaram aos assustados e aflitos burgueses, protegidos em suas casas fortes, os quais, diferentemente das populações ribeirinhas, que (sobre)vivem em "mocambos entulhados à beira do Capibaribe", sempre apreciaram o mangue à distância, do alto dessas varandas, com vista para o rio. O duro retrato de uma manguetown miserável ("Tô enfiado na lama / é um bairro sujo / onde os urubus têm casas / e eu não tenho asas") não caiu nas graças dos mais abastados que, embora na mesma cidade, viviam em outro mundo, tampouco lhes cheirou bem ("ninguém foge ao cheiro sujo da lama da manguetown").

A modernização da sonoridade, por sua vez, aproximou o movimento dos mais jovens, deixando os mais velhos bem reticentes, quando não exclamativos, à teoria de que "modernizar o passado é uma evolução musical". Concordando ou não com essa teoria, temos que reconhecer o papel fundamental de Chico Science na revalorização da tradicional cultura popular do estado, na revitalização do carnaval do Recife e de ritmos como o coco e o maracatu.

Pernambuco sempre se fechou um pouco em sua forte tradição de cultura popular, regional e, talvez por isso, tenha tido, nas últimas décadas, pouco acesso à mídia, infelizmente cada vez mais globalizada (Alceu Valença, pioneiro, no estado, na mistura de rock com ritmos locais, foi uma das raras exceções). Chico Science e Nação Zumbi quebraram um pouco essa separação, modernizando a música regional, aproximando-a dos mais jovens e abrindo as portas para que outros músicos e grupos, que vieram em seus rastros, conseguissem mais espaço, quer seguindo a mistura e diversidade de estilos do manguebeat, quer não. Nomes como Otto, ex-Mundo Livre S/A; Siba Veloso, ex-Mestre Ambrósio; Silvério Pessoa, ex-Cascabulho; as bandas Devotos e Faces do Subúrbio e, mais recentemente, Cordel do Fogo Encantado e Mombojó.

Chico Science faleceu precocemente, aos trinta anos, em um acidente de carro, num domingo, dia 2 de fevereiro de 1997, dia de Iemanjá, entre o mangue e a praia, entre a lama e o caos, entre o rio e o mar, entre Recife e Olinda, entre rios, pontes e overdrives. Há dez anos. Seus preceitos de liberação da mente, expansão da consciência e tudo o mais que faça alguém ficar pensando melhor, continuam bem vivos e em sintonia com os anseios de quem está sempre à busca de romper as fronteiras dos jardins da razão.

23.1.07

Monte de sucesso


O ecletismo da produção musical de Marisa Monte reflete bem a trajetória de quem começou a carreira estudando canto lírico para, em seguida, aparecer ao público como revelação da música popular brasileira. Reflete, também, não apenas suas influências, mas suas amizades, seus amores, suas fases, sua vida pessoal.

De seu pai, ex-diretor-cultural da escola de samba carioca Portela, vieram os sambistas da Velha Guarda e com eles, Paulinho da Viola. De Nando Reis, vieram os Titãs e entre eles, Arnaldo Antunes (ou o contrário). De Davi Moraes, vieram os Novos Baianos e entre eles, Moraes Moreira, Pedro Baby e Dadi. Noves fora, Carlinhos Brown.

Finalmente, do seu filho, veio uma pausa de cerca de cinco anos nas apresentações em palco, que possibilitou o trabalho de pesquisa e a preparação de seus dois novos trabalhos, "Infinito particular" e "Universo ao meu redor", os quais melhoraram sua média anterior de cinco cd’s em 16 anos de carreira. Este maior espaçamento entre discos lançados e descompromisso de lançar um por ano são, em parte, responsáveis pela manutenção da qualidade em seu trabalho.

Em seu álbum preto, "Infinito particular", considerado por um crítico do jornal The New York Times o segundo melhor disco de 2006 em todo o mundo, todo o repertório é composto de canções suas, em diversas parcerias. Além da já habitual, com o concreto Arnaldo Antunes e o abstrato Carlinhos Brown, da qual ela tornou-se o equilíbrio, ela compôs, também, com Adriana Calcanhoto, Seu Jorge e Marcelo Yuka, entre outros.

Embora seja uma das cantoras que menos se expõe na mídia, sempre preservando seu infinito particular do universo ao seu redor (mesmo os discos são separados), Marisa vem mantendo uma boa parceria público-privada ao longo de sua carreira, preferindo mostrar suas caras na música, aos caros ouvintes, e não em revistas Caras, fúteis. "Gerânio", por exemplo, foi feita a partir de uma carta em que sua prima a descreve. Na canção que dá nome ao disco e é sua primeira faixa, por sua vez, a descrição pode se aplicar a ela mesma ou a sua música: "Eis o melhor e o pior de mim / O meu termômetro, o meu quilate / Vem, cara, me retrate / Não é impossível / Eu não sou difícil de ler / ... / Só não se perca ao entrar / No meu infinito particular".

"O rio" é uma bela e singela cantiga de ninar criança e gente grande também: "Quando amanhã por acaso faltar / Uma alegria no seu coração / Lembra do som dessas águas de lá / Faz desse rio a sua oração / Lembra, meu filho, passou, passará / Essa certeza a ciência nos dá / Que vai chover quando o sol se cansar / Para que flores não faltem".

Embora algumas de suas músicas, de estilo mais comercial, como "Já sei namorar", façam parte da sua cota "o pior de mim" (nesse caso, o termo privada, da PPP mencionada acima, pode, para alguns, assumir um outro significado), ela, de um modo geral, é competente nisso também (vide "Até parece" e "Pra ser sincero"). Ademais, sabe que tem um público diversificado e que a sociedade deformadora de opinião é bem mais condescendente com "pequenos deslizes" de cantores como ela que, embora definidos como de música popular brasileira, são tratados como genuínos representantes de uma música não-popular brasileira, na acepção elitista do termo.

"Pernambucobucolismo", idealizada durante um trajeto por entre plantações de cana-de-açúcar do interior de Pernambuco, remete-nos, realmente, ao doce silêncio e à leveza dos canaviais. Apenas baixo, percussão e sua voz, num arranjo puro, simples, bucólico, que tem como resultado uma revolução do interior (da pessoa e do lugar), não-praieira, pacífica, um movimento silencioso, um barulhinho bom. Para ouvir em silêncio absoluto. Também bucólica é "Vilarejo", que descreve um lugar onde o mundo tem razão e onde portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar. Peitos fartos, filhos fortes e em todas as mesas pão.

Dispondo de grande quantidade de material, após intensa pesquisa que contou com a ajuda de antigos compositores, Marisa, que já vinha gravando sambas em trabalhos anteriores, lançou, também, o álbum "Universo ao meu redor", só com músicas deste ritmo, entre composições antigas, mas ainda inéditas e outras mais recentes. Paulinho da Viola, de quem ela já gravara "Dança da solidão" e "Para ver as meninas", está muito bem representado nesse novo disco com "Para mais ninguém".

Ao ser indagada, em entrevista a uma revista, sobre novos talentos da música brasileira, Marisa Monte afirmou que, enquanto as pessoas estão sempre à procura do novo na juventude, ela busca o novo nas gerações anteriores. De fato, algumas músicas de "Universo ao meu redor" foram compostas há mais de cinqüenta anos e nunca haviam sido gravadas, entre elas "Meu canário" (Piu-piu, piu-piu, piu-piu, canta, meu canarinho, para amenizar a minha dor), do mesmo autor de "O pato" (O pato vinha cantando alegremente, quém, quém), o onomatopéico compositor Jayme Silva. A música estava registrada apenas no HD (head-disk) de Monarco, sambista da Portela.

Outro destaque da velha guarda é a canção "Lágrimas e tormentos", mas, como novo e antigo são adjetivos que denotam condição e não qualidade, sambistas mais novos como Adriana Calcanhoto e o trio Marisa, Brown e Arnaldo, atendem satisfatoriamente ao pedido final dos mais velhos, de não deixar o samba morrer, com suas canções "Vai saber" e "Universo ao meu redor", respectivamente.

Os arranjos, de Eumir Deodato, João Donato e Philip Glass, conseguem manter a atmosfera de simplicidade das canções, sem perderem o esmero e o apuro. Nos acompanhamentos, na bateria, Pupilo (Nação Zumbi) e em instrumentos de corda, Jacques Morelenbaum, Nicolas Krassik, Pedro Baby e o inseparável Dadi (A Cor do Som), entre outros. Toda essa mistura, meio bossa nova e rock’n roll, talvez revele o segredo de seu sucesso, a abrangência de seu público e sua percepção de que o Brasil não é só verde, anil e amarelo, o Brasil também é cor de rosa e carvão.

30.12.06

Conversa com verso

Na última estação, em razão da confusão na aviação civil, avião não se viu e a população do Brasil, que se viu nessa situação, sem ação no saguão da estação, diante de uma aviação vil que não lhe serviu, servil, inquiriu: "vou ou não vou?", "vôo ou não vôo?". Em qualquer nação, overbook é contravenção, uma agressão, não tem perdão, mas o que dizer do cidadão que cancela a excursão e não dá satisfação, deixando vazio seu lugar ou posição no avião e dando sua contribuição às pequenas taxas de ocupação? Todos têm culpa, então e estão com Pires na mão, sem razão. A reclamação no balcão das companhias de aviação segue a mil, com razão, assim como a convicção de que do extravio só escaparão as bagagens de mão. Se em tal ocasião não havia avião, nos verões que virão, vocês verão, a via-crúcis nos terminais terminarão e os aviões que não haviam aviado, aviarão. Sairão da situação anacrônica em que estão e, então, decolarão e voarão.

Na novela da passarela, a magrela, que é só costela, sem nada na panela, trela que custa a ela seqüela, presa a uma empresa de meia-tigela, debela a situação em tela, que nada tem de bela, e, enfim, se rebela: ruim sem ela, pior com ela. Bela, mas num estado de osso e pele a que o padrão a impele, o que come expele. Carente de HDL, tentando ser Gisele, esperando que alguém a revele, a bela donzela apela para que o ás do corte e costura corte sua desventura e costure sua cura, revele sua loucura, aceite sua gordura, e cancele a ditadura da cintura.

As coisas nos Andes vão andar e, com Correa, vão correr. Devedores bolivianos, cansados de atentar contra Morales e os bons costumes, vão, finalmente, afirmar: "Evo, não nego, pago quando puder". Uribe, presidente da Colômbia Pictures, apoiado pelos Estados Unidos, ficará com as FARC e o queijo na mão, com receio de que um Vladimir Putin da vida envenene seu queijo com alguma droga nociva ou dê bola pra ele.

Romário, retardatário, mas ainda no páreo, em romaria no hilário intento do milésimo tento, promete que, em 2007, fará novo experimento. Tentará no basquete seu sustento, para que o processo não seja tão lento e, pelo contrário, o tetragenário, que tá lento, mostre o talento do craque lendário, encontre um alento e, por um momento, seu trabalho saia mais a contento, acelerando ao menos cem por cento, com meia cesta equivalendo a um tento.

Com um mínimo de menos de quatrocentos, um aumento de noventa e um por cento em um rendimento, lamento, mas não tem cabimento. Que no ano que vem, para lamentar o parlamentar e para nosso alento, o aumento salarial do parlamento seja igual ao percentual de cumprimento de toda promessa e juramento da campanha eleitoral, dando encerramento, afinal, a um aumento de vencimentos desproporcional e dando vencimento ao clamor geral contra o congresso nacional e à cara de pau de cada mau elemento, seja senador ou deputado federal. Verdade seja dita, essa sujeira irrita e Rita, então, sem eira nem beira e aflita, em sua costumeira desdita, perde a estribeira e, de maneira grosseira, em vindita, revida a rasteira e dita ao dito, que a um pedido seu não atendera, a mesma punhalada traiçoeira e maldita que levamos na traseira. Gabeira permita que sua classe reflita para que essa dita besteira não se repita. Tenho dito.

Após essa conversa em prosa e verso, girando em sentido inverso por um universo controverso e assunto diverso, não tergiverso e me despeço com os versos de um sucesso de Louis Armstrong, que aqui jazz e de quem soul fã confesso. Que no futuro que amanhã começa, a tolerância, a generosidade e o sorriso venham em excesso, a desigualdade cesse, não haja caminho adverso, o destino não seja perverso, a justiça tenha frente e verso, o verdadeiro sentido da vida seja expresso e o mundo seja maravilhoso para todos, não apenas para myself, é o que peço.






What A Wonderful World (Bob Thiele - George Weiss)

I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world
I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world
The colors of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands, saying, "how do you do?"
They're really saying, "I love you"
I hear babies cry, I watch them grow
They'll learn much more, than I'll never know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world