Não queria dizer nada, mas...
3 dias atrás
A canção está chegando ao fim? Letra de música é poesia? Qualquer amante dessas duas formas de expressão – canção e poesia - já se deparou com tais questionamentos, cuja melhor resposta é não haver resposta. Trata-se do tipo de discussão clássica em que a conclusão é o que menos importa. Uma nova oportunidade de discussão – sem conclusão - desses temas foi criada por meio do documentário Palavra Encantada, de Helena Solberg e Márcio Debellian, que analisa a relação entre poesia e música, por meio de depoimentos de Adriana Calcanhoto, Chico Buarque, Maria Bethânia, Lenine, Martinho da Vila, Luiz Tatit, José Miguel Wisnik, Zélia Duncan, Tom Zé, entre outros.
É fácil externar apreço por um artista depois que ele morre. Em tais situações, é comum até o surgimento de admiradores de última hora. A relação das pessoas da minha faixa etária com Michael Jackson, porém, é antiga ou de primeira hora, algo que quem nos é contemporâneo pode entender melhor. Os pouco mais novos só acompanharam sua trajetória a partir da fase de super-mega astro pop dos anos 80. Os muito mais novos, nem isso, conheceram apenas suas excentricidades, transformações visuais e escândalos que mudaram as folhas em que costumava aparecer nos jornais, de cultura e entretenimento para páginas policiais e de fofocas.
Um documentário em homenagem ao cantor Wilson Simonal, que completaria 70 anos em 2009, tenta mostrar, sobretudo àqueles com menos de cinquenta anos e que não acompanharam a fase áurea da carreira do músico, o que ele representou para a música brasileira, ao mesmo tempo em que narra, por meio de depoimentos, um episódio polêmico no qual se envolveu e que mudou sua vida. Trata-se de “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei”, de Micael Langer, Calvito Leal e Cláudio Manoel.
Quando se fala em música de protesto, Geraldo Vandré é o primeiro nome que nos vem à cabeça. Vandré tinha convicção de que a arte constituía poderosa arma contra o regime militar e, por conta disso, não via com bons olhos aquela que não se prestasse a tal fim. Desaprovava o uso de guitarras da Jovem Guarda e do Tropicalismo – influência externa, em geral associada ao imperialismo estadunidense -, bem como os temas mais suaves da Bossa Nova, também pouco engajados politicamente.
Entre as décadas de 50 e 60, o rock começou a fazer barulho pelo mundo, revelando expoentes como Elvis Presley nos Estados Unidos e os Beatles na Inglaterra. Paralelamente a esse burburinho, o Brasil calava-se diante da Bossa Nova e seu novo paradigma de interpretação e composição. Pouco depois, questões políticas nacionais exacerbaram uma dicotomia lado A – lado B, expandindo-a para a música, até que os tropicalistas, ao olharem de lado para a categorização, deixarem de lado o preconceito e colocarem lado a lado os dois lados, fizeram tudo virar um saudável clipe sem nexo, meio bossa nova e rock’n roll.
Por esses dias, o nome da cantora Maysa voltou a ser celebrado, graças à minissérie da Rede Globo “Maysa – Quando fala o coração”, baseada em arquivos de família, notícias de jornais e diários escritos por ela própria, mesmo material utilizado pelo livro “Maysa: Só numa multidão de amores”, de Lira Neto (ed. Globo, 2007). O escritor, não obstante, desaprovou a minissérie de Manoel Carlos, dirigida por Jayme Monjardim, filho da cantora *.
Costuma-se dizer que alguém está à frente de seu tempo quando se quer destacar seu vanguardismo. O polêmico cantor Cazuza parecia não estar nem à frente nem atrás, mas no seu tempo. Tempo de contradições e conflitos, ilusões e desilusões, em que vimos a volta da democracia (pós-Riocentro), mas com eleições indiretas (pré-Collor); um presidente que foi eleito, mas não assumiu; o congelamento de preços, seguido da maior das inflações; uma seleção de futebol que encantou o mundo, mas não ganhou a copa; o surgimento da AIDS, pondo em risco os prazeres básicos da filosofia hippie, com exceção do rock’n roll.


Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil
Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou
E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor
E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor
Entre os anos 20 e 30 do século passado, as escolas de samba do Rio de Janeiro tinham como mestres nomes como Cartola e Ismael Silva. Surgidas no subúrbio, tais escolas eram manifestações do povo, pelo povo e para o povo, numa democracia musical, afinada e harmônica. Depois, vieram Martinho da Vila, Paulinho da Viola, entre tantos outros que contribuíram para fazer do samba esse ritmo tão popular.
João Cabral de Melo Neto e Chico Science, tal qual as águas dos rios que os inspiravam, refletiram bem a imagem do povo de sua cidade, aquele que realmente a constrói, pisa em seu chão, vive e convive em seus espaços e não apenas a vê através da janela do carro, da varanda do apartamento ou da tela da tv. É desse povo simples, dessa gente sofrida, que tem no futebol uma de suas poucas alegrias, que se constitui a maior parte da torcida do Santa Cruz Futebol Clube, e é natural, portanto, que os dois ilustres recifenses fossem torcedores desse clube, tendo o poeta sido, inclusive, atleta de sua equipe de futebol juvenil.


Na década de 50 do século passado, o Rio ainda disputava com São Paulo o título de maior cidade do Brasil, era a capital federal e um local de grande efervescência cultural. O país vivia um período de certa forma tranqüilo, de otimismo. Juscelino Kubitschek era o presidente, eleito pelo povo e ainda não havia lugar para as canções engajadas, que surgiriam poucos anos depois, no período da ditadura militar.
Se você é do tipo que não gosta de Sessão da Tarde, passe para o próximo texto. A vocês dois que continuam lendo, recomendo o musical “Across the universe”, um filme leve, sensível e divertido, algo como se uma versão de “Hair” fosse exibida na Sessão da Tarde, mais pueril, menos rebelde, como se os cabelos hippies, de “Hair”, passassem aos tempos da brilhantina, de “Grease”. Uma bonita história de amor e amizade entre jovens - músicos e estudantes - tendo ao fundo a guerra do Vietnã e a luta pela paz.

| *Lenço no Pescoço (Wilson Batista) Meu chapéu do lado Tamanco arrastando Lenço no pescoço Navalha no bolso Eu passo gingando Provoco e desafio Eu tenho orgulho Em ser tão vadio Sei que eles falam Deste meu proceder Eu vejo quem trabalha Andar no miserê Eu sou vadio Porque tive inclinação Eu me lembro, era criança Tirava samba-canção Comigo não Eu quero ver quem tem razão E eles tocam E você canta E eu não dou | Rapaz Folgado (Noel Rosa) Deixa de arrastar o teu tamanco Pois tamanco nunca foi sandália E tira do pescoço o lenço branco Compra sapato e gravata Joga fora esta navalha que te atrapalha Com chapéu do lado deste rata Da polícia quero que escapes Fazendo um samba-canção Já te dei papel e lápis Arranja um amor e um violão Malandro é palavra derrotista Que só serve pra tirar Todo o valor do sambista Proponho ao povo civilizado Não te chamar de malandro E sim de rapaz folgado |



Destacar algum disco ou canção da obra de Chico Buarque de Hollanda é de uma enorme injustiça com os demais. Entre Madalena ir pro mar e Renata Maria sair dele, muitas águas rolaram e o garoto que viu a banda passar cantando coisas de amor está, agora, completando 63 anos de vida, não apenas de idade. Aos oito, de partida para a Itália com a família, em carta a sua avó, previu o futuro que o destino lhe reservava, com as seguintes palavras: “Vovó, você já está muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu, se sentir saudades”.


Com todo o poder, audiência e experiência que as Organizações Globo possuem na televisão brasileira, era natural que se aventurassem, um dia, a fazer, também, cinema. Hoje, após passar por dificuldades e quase desaparecer durante o governo Collor, o cinema nacional voltou a ter grandes bilheterias, com o surgimento da Globo Filmes e todo o seu poder de divulgação, sem que isso signifique, contudo, ganho para todos. Seus filmes, sendo ou não meras transposições de produções da televisão para a tela grande, ficam, em geral, com cara de novela. E, assim como ocorre na TV, há um enorme desequilíbrio de forças, com a globalização a tomar espaço de produções menores, mas de maior qualidade.



What A Wonderful World (Bob Thiele - George Weiss)
I see trees of green, red roses too