17.8.12

Composições de destinos

Dentre os filmes nacionais que retratam as dificuldades enfrentadas pelas camadas mais carentes da população, há aqueles que o fazem de maneira explícita, contundente, retratando miséria e violência de forma crua e os que mostram a realidade de maneira mais suave e poética. Na filmografia nacional mais recente, Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) e Central do Brasil (Walter Salles, 1998), respectivamente, seriam os melhores representantes de um e outro estilo, ambos válidos nos aspectos de conscientização ou indução a reflexão, mas cada um com suas armas e cada arma atingindo diferentes alvos.

Vencedor de vários prêmios no último Cine-PE – melhor filme nos júris oficial e popular, roteiro (Patrícia Andrade), ator (João Miguel) e ator coadjuvante (Vinícius Nascimento) - À beira do caminho* (Breno Silveira, 2012), é o mais novo exemplar dos filmes do segundo grupo. O ator João Miguel é conhecido pela atuação em Cinemas, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes, 2005) e Vinícius Nascimento já se destacara, com sua espontaneidade, em Ó paí, ó (Monique Gardenberg, 2007), como um dos irmãos Cosme e Damião, filhos da evangélica dona Joana, que são assassinados, numa das poucas cenas dramáticas do filme.

Breno Silveira, que iniciou carreira como diretor de fotografia, tem colocado a música em destaque, em seus trabalhos como diretor, seja como pano de fundo para a trama, como é o caso de À beira do caminho, seja como elemento-chave, em dois filmes de conteúdo biográfico: 2 filhos de Francisco (2005), sucesso de bilheteria e Gonzaga – de pai pra filho, com estreia programada para 2012, quando se comemora o centenário de nascimento de Luiz Gonzaga.

À beira do caminho é recheado de canções - bem escolhidas - do repertório de Roberto Carlos, desde A distância, no início, a O portão, no final, parcerias dele com Erasmo Carlos. Para driblar dificuldades de liberação de mais composições da dupla, o diretor utilizou o recurso de incluir aquelas do repertório de Roberto que não são de sua autoria, umas na voz dele, como Outra vez (Isolda), umas na voz de outros intérpretes, como Vanessa da Mata em Nossa canção (Luiz Ayrão) e Antônio Marcos em Como vai você (Antônio Marcos / Mário Marcos).

O enredo de À beira do caminho guarda semelhanças com Central do Brasil também no estilo 'filme de estrada' ou 'road movie', que tem como principal característica o desenrolar da trama durante uma viagem, um percurso, sem locação fixa (O estilo voltou a ser destaque com o lançamento recente de outro filme de Walter Salles, On the road, baseado no livro homônimo, de Jack Kerouac, que marcou época nos anos 60). A semelhança estende-se à própria trama, em que um adulto e uma criança têm seus destinos cruzados e estabelecem fortes laços afetivos, enquanto caem na estrada. Similaridades também são percebidas em relação a O caminho das nuvens (Vicente Amorim, 2003), outro road movie em que a música de Roberto Carlos está presente.

O argumento, familiar como as composições de Roberto, emociona e convence, com o auxílio de dois recursos infalíveis: criança e música. O menino Vinícius é mais um exemplo de impressionante talento precoce, que traduz os sentimentos do personagem com perfeição tal, que nos atinge em cheio. Emoções à flor da pele, composições de destinos, como cabe a um filme de estrada, de passagens resumidas em frases de para-choque de um caminhão sem destino certo, a conduzir o destino incerto de seus passageiros.



* Sinopse: A emocionante história de João, um homem que encontra na estrada uma saída para esquecer os dramas de seu passado. Por acaso ou sorte, seu caminho se cruza com o de um menino em busca do pai que nunca conheceu. A partir desse encontro, nasce uma bela relação que movimentará o delicado equilíbrio construído por João para enfrentar seus fantasmas. De Breno Silveira, o diretor de 2 Filhos de Francisco, À Beira do Caminho evoca e se inspira em letras de sucessos de Roberto Carlos.


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