2.11.06

Mutatis Mutantes


Os Mutantes mudaram, literalmente. E “o A e o Z”, música que gravaram em 1973 e que deu nome ao primeiro álbum da banda após a saída de Rita Lee, pode ter também, agora, um outro significado: o A de Arnaldo Baptista e o Z de Zélia Duncan. É que a cantora faz parte da nova formação do grupo, reunido este ano para shows, em substituição a Rita Lee, que não se interessou em participar do novo projeto.

A volta dos Mutantes ocorreu em maio de 2006, em um show em Londres, que fez parte de uma série de apresentações ocorridas na capital inglesa em homenagem ao movimento tropicalista, em um evento denominado “Tropicália - A Revolution in Brazilian Culture”, do qual também participaram Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé. O grupo voltou a se apresentar duas vezes em julho, em Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos. A apresentação em Londres foi gravada e vai ser lançada, brevemente, em CD e DVD. Estão previstas, também, apresentações em solo brasileiro, em 2007.

Fora a entrada de Zélia Duncan nos vocais, os demais integrantes permaneceram os mesmos: Dinho Leme na bateria e os irmãos Arnaldo Baptista nos teclados e Sérgio Dias na guitarra, com o reforço, desta vez, de dois backing vocals e outros músicos, entre eles a percussionista Simone Soul, que já acompanhou vários nomes da MPB, como Chico César, Zeca Baleiro e a própria Zélia Duncan.

Espécie de precursores do estilo seguido logo depois pelo grupo Secos & Molhados e pelo cantor Raul Seixas (vide “O vira”, do primeiro e “Mosca na sopa”, do segundo), Os Mutantes tinham como uma de suas características mais marcantes o humor, a irreverência e a ironia inteligentes, que se mostravam, ora na maneira como se vestiam em suas apresentações, ora em várias letras de suas canções, como “Amor branco e preto”, cujo título parece insinuar um relacionamento amoroso inter-racial, mas que, na verdade, fala de um amor não correspondido entre... Bem, vejam a letra, bastante atual, ao final do texto.

Logo no início da carreira, foram convidados para acompanhar Ronnie Von em seu programa na TV Record. Foi o cantor da Jovem Guarda quem batizou o grupo dos irmãos Baptista com o nome de “Os Mutantes”. Fazendo jus ao nome, pouco depois, eles aproximaram-se do movimento tropicalista, acompanhando Gilberto Gil na canção “Domingo no Parque”, segunda colocada no Festival da Record de 1967.

Os desentendimentos entre seus integrantes começaram a surgir quando, no início da década de 70, Rita Lee quis continuar seguindo o caminho dos tropicalistas e Arnaldo e Sérgio, como mutantes, quiseram partir para o rock progressivo e o experimentalismo. Se ambas as intenções eram válidas e enriquecedoras culturalmente falando, a de Rita se mostrou mais enriquecedora também na acepção monetária da palavra.

No ano seguinte a sua saída dos Mutantes, Arnaldo e Dinho também abandonaram a banda, que seguiu ainda com Sérgio Dias até 1978, quando encerrou definitivamente (à época) suas atividades. Em 1977, já consagrada em sua carreira solo, com sucessos como “Ovelha negra”, “Menino bonito”, “Coisas da vida” e “Agora só falta você”, Rita Lee gravou um elogiado disco ao vivo, junto com Gilberto Gil, o Refestança. Seguiu fazendo uma ponte entre o rock e a MPB, acompanhada da banda Tutti-Frutti, com quem fez os melhores trabalhos de sua carreira pós-Mutantes até que, em 1980, já sem essa banda, superou a marca de um milhão de discos vendidos do LP que levava seu nome no título, sucesso avassalador à época, com todas as faixas tocando em rádio, especialmente “Lança-perfume” e que iniciou uma fase mais comercial de sua carreira.

Para Arnaldo Baptista, contudo, riqueza parece nunca ter sido um grande apelo. “Se eles têm três carros, eu posso voar”, já dizia ele em sua bela “Balada do Louco”. Depois de um acidente ou tentativa de suicídio em 1982, quando caiu ou se atirou do terceiro andar de uma clínica onde se recuperava do uso de drogas, ele passou a morar num sítio em Juiz de Fora, Minas Gerais, levando uma vida simples, afastado da mídia.

A partir de 2000, quando foi lançado o álbum Tecnicolor, gravado em 1970 pelos Mutantes, mas até então inédito em disco, voltou a se apresentar em shows, participando de festivais como o “Abril pro Rock”, no Recife e o “Free Jazz”, no Rio de Janeiro, onde, além de sua apresentação solo, dividiu o palco com um grande fã, Sean Lennon, com quem cantou um dos maiores sucessos dos Mutantes, a música “Panis et Circensis”, de Caetano e Gil. Em 2004, lançou um novo trabalho, o disco “Let it bed” que, ironicamente, tem como uma de suas faixas a canção LSD, que brinca com “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles, fazendo uso das mesmas três letras, desta feita como as iniciais de "Louvado Seja Deus” (na música, ele diz: “Louvado seja Deus que nos deu o rock'n roll”).

Com a MPB em constante mutação, essa volta dos Mutantes pode trazer muito mais do que simples curiosidade aos mais novos e saudosismo aos mais antigos, que já cantaram com Rita Lee o refrão: “Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu com a música popular brasileira?” e hoje em dia andam meio desligados, talvez sentindo a falta daquele ácido Lee-Sérgico.



AMOR BRANCO E PRETO (Rita Lee / Arnaldo Baptista)

Por que será que eu gosto de sofrer?
Vai ver que agora eu dei pra masoquista
Meu amor branco e preto
Às vezes me deixou na mão
Mas eu gosto de você
Já não me importa a sua ingratidão
Sofro mas continuo a te adorar
Corinthians meu amor
Corinthians!

2 comentários:

naná disse...

Agora eu digo, “Louvado seja Deus" que nos deu o Blog do Paulinho para termos um remédio , virtual, contra a monotonia cultural e não cantarmos mais "ai , ai meu Deus o que foi que aconteceu... com a cultura popular brasileira"?E vamos mutatis a vida !Adorei!

Anônimo disse...

Escreves tão bem!

Nayra.