6.7.07

Roberto: o livro-arbítrio e as canções que ele fez pra nós


O episódio da interrupção das vendas do livro “Roberto Carlos em detalhes” (Paulo César Araújo – Editora Planeta), biografia não autorizada do cantor e compositor, tem gerado polêmicas, debates e comentários comparativos entre biografias autorizadas ou não. É comum a idéia de que as primeiras têm mais valor, pelo aval e acompanhamento que recebem do biografado, afinal, ninguém melhor do que você mesmo para saber detalhes de sua vida e contar a sua história. Analisando melhor, percebe-se que trazem, também, o vício de os autores só narrarem aspectos positivos do biografado, ao contrário das não autorizadas.

Em depoimento ao programa Fantástico, da Rede Globo, Roberto Carlos revelou que questiona, a princípio, o porquê de uma biografia não autorizada, quando ele está vivo e poderia tê-la autorizado. Ele mesmo deu a resposta, logo em seguida, quando, ao ser questionado se autorizaria a biografia, caso tivesse sido consultado, disse que não. Na mesma entrevista, afirmou que não sabe ainda o que vai fazer para se livrar do livro, mas que nunca disse que iria queimá-los (que bom, não pretende queimar sua biografia). Em sua já prometida versão autorizada, certamente, não vai constar esse episódio.

Ele não costuma se expor e é discreto, na medida do possível, sendo o direito à privacidade um dos argumentos que usou em sua defesa: “Há limite entre o que é de interesse público e o que é invasão de privacidade”, afirmou. Em se tratando de pessoas públicas, porém, tal limite é sutil. É fato que pouco vemos notícias pessoais dele na mídia, mas mesmo isso pode ser visto como controverso, pois, se por um lado sua segunda esposa, a atriz Myrian Rios, quase largou a carreira quando se casou com ele, por outro, sua relação com a última, Maria Rita, foi bastante explorada pela mídia, talvez à sua revelia, talvez por ele não se encontrar mais no auge da carreira...

Outro argumento que utiliza a seu favor é que houve uma conciliação, antes mesmo de uma decisão judicial, entre ele e a Editora Planeta. Nesse acordo, ficou decidido que a editora não mais publicaria a obra e recolheria os exemplares que já se encontrassem nas livrarias, entregando-os ao cantor que, por sua vez, abriria mão de possíveis indenizações. A versão do autor do livro para esse acordo é que não havia outra saída, numa briga entre forças desproporcionais, uma vez que sobre todas as leis ainda prevalece, em geral, a lei do mais forte (e acima desta, a Lady Laura). Os advogados da editora acharam bastante provável a hipótese de perda da ação, a qual implicaria em indenizações de alto valor.

Num último recurso, Paulo César Araújo propôs abrir mão de direitos autorais sobre a obra, para descartar possíveis acusações de interesses financeiros. Dançando conforme a música e mostrando não ter o rei na barriga (na mão, talvez), propôs, ainda, que Roberto Carlos especificasse que partes do texto do livro não aprovara, para que fossem retiradas ou modificadas, mas o cantor não aceitou, alegando que, isso sim, caracterizaria censura.

Na década de 80, por suas posições religiosas, Roberto apoiou a censura ao filme “Je vous salue Marie” (de Jean-Luc Godard), condenado pela igreja católica, cuja exibição foi proibida em vários países do mundo, inclusive no Brasil, no governo José Sarney. Tal censura gerou, à época, uma grande e polêmica discussão, que só aumentou o interesse pelo filme, fato que se repete agora, com o livro, que pode ser encontrado facilmente na internet, para download.

Ele é conservador, não se pode negar. Seus discos dos anos 70 são uma receita precisa e imutável de canções religiosas, românticas, composições de Isolda e Milton Carlos, Maurício Duboc e Carlos Colla, além das habituais parcerias com Erasmo Carlos. Bons tempos em que se esperava o lançamento do LP do “rei” ao final de cada ano, ocasião em que algumas rádios tocavam todas as suas faixas, em seqüência e em primeira mão, numa época em que a pirataria era limitada a fitas cassetes.

Difícil mudar, porém, num período em que surgiram seus melhores trabalhos, num estilo pós-jovem-guarda iniciado no final da década anterior, com pérolas como “As canções que você fez pra mim”, “As curvas da estrada de Santos” e “Sua estupidez”. Suas preocupações ecológicas também estiveram sempre presentes e bem representadas em seu trabalho, em canções como “O progresso”, “O ano passado” e “As baleias”*.

Ainda que não goste de falar - ou que falem - de sua vida privada, Roberto Carlos sempre caprichou em canções que contam sua história. Difícil não gostar de “O divã”, “Traumas”, “As flores do jardim da nossa casa”, “Jovens tardes de domingo”, “Fera ferida”, “Aquela casa simples” ou das canções-tributo “Amigo”, “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” (para Caetano Veloso, à época de seu exílio em Londres), “Minha tia”, “Meu querido, meu velho, meu amigo” e “Lady Laura”. Num mundo carente de sensibilidade, sua mensagem é importante. Lendo ou não o livro, ouvindo ou não os discos, o fato é que ele sempre nos avisou: “Não adianta nem tentar me esquecer...”.



* As baleias (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)

Não é possível que você suporte a barra
De olhar nos olhos do que morre em suas mãos
E ver no mar se debater em sofrimento
E até sentir-se um vencedor nesse momento

Não é possível que no fundo do seu peito
Seu coração não tenha lágrimas guardadas
Pra derramar sobre o vermelho derramado
No azul das águas que você deixou manchadas

Seus netos vão te perguntar em poucos anos
Pelas baleias que cruzavam oceanos
Que eles viram em velhos livros ou nos filmes dos arquivos
Dos programas vespertinos de televisão

O gosto amargo do silêncio em sua boca
Vai te levar de volta ao mar e à fúria louca
De uma cauda exposta aos ventos em seus últimos momentos
Relembrada num troféu em forma de arpão

Como é possível que você tenha coragem
De não deixar nascer a vida que se faz
Em outra vida que sem ter lugar seguro
Te pede a chance de existência no futuro

Mudar seu rumo e procurar seus sentimentos
Vai te fazer um verdadeiro vencedor
Ainda é tempo de ouvir a voz dos ventos
Numa canção que fala muito mais de amor

2 comentários:

Valéria disse...

Paulo

Rei é Rei e nunca perde a majestade! Ele não quer e pronto, cada um conta a sua história como quer. E depois, "se vc. pretende saber quem eu sou eu posso lhe dizer...você vai pensar que eu não gosto nem mesmo de mim"....
P.S.o título está ótimo!

Koppe disse...

Sabe quando e onde se proíbe livros?

Algum lugar e época onde não exista a internet, talvez...