27.3.09

Depois do dilúvio


“Por que não viver esse mundo, se não há outro mundo?”. Depois dos mal comportados anos 60 - onde se pôde experimentar de tudo um pouco - e com os efeitos da ditadura surgindo com mais força, era natural que os anos 70 fossem mais conservadores. A aniquilação dos movimentos estudantis e a censura, em geral, afastaram os jovens da área cultural e, tirando os artistas já estabelecidos, como Chico, Caetano, Gil, Roberto e outros, poucos conseguiram destaque. Apenas os mais persistentes ousaram enfrentar uma situação adversa, como foram os casos de Raul Seixas e dos grupos Secos & Molhados - do qual fazia parte Ney Matogrosso – e Novos Baianos. Em comum, a atitude de enfrentar a dita desdita apenas pelo comportamento, sem canções notadamente de protesto.

Os Novos Baianos formavam um grupo recheado de gente boa e talentosa que, após o exílio dos tropicalistas Gil e Caetano, fazendo uso da mesma régua e compasso, arregaçou as mangas e começou a traçar seu caminho pelo mundo num espetáculo de sugestivo nome: Desembarque dos bichos depois do dilúvio. Os bichos misturavam samba, bossa-nova e rock, pandeiro, violão e guitarra, em composições em sua maioria próprias. Entre cantores, compositores e instrumentistas a equipe era composta por Luís Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Baby Consuelo, Bolacha e os integrantes do subconjunto A cor do som Dadi, Baixinho e os irmãos Jorginho e Pepeu Gomes *.

Acabou Chorare, o segundo trabalho da turma, de 1972, é daquelas obras eternas (foi eleito, em 2007, o melhor disco de música brasileira de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil). Nesse disco, Galvão assim se referiu ao grupo e suas influências: "Tudo começou quando Caetano e Gil deixaram o Brasil e nós desembarcamos no Sul. Vínhamos do meio da rua, da juventude que viveu, pulou e sorriu o tropicalismo. A alegria, alegria que Caetano deu ao jovem de saber que ainda existe aquela figura pensando e a força de Gil trouxeram a gasolina pro meu pique. Com a passagem de João Gilberto, 'o mestre', pelo Brasil, o nosso trabalho e esse disco assumiram essa qualidade. João deixa ele na gente".

Adeptos de uma filosofia hippie, naturalista, os Novos Baianos moraram alguns anos em comunidade, num sítio no Rio de Janeiro. Foi nessa época que eles conheceram João Gilberto e descobriram uma admiração mútua, galvanizada pela "lei natural dos encontros", em que deixamos e recebemos um tanto. João Gilberto louvou o estilo de vida do grupo, ao mesmo tempo em que passou a exercer influência sobre seu trabalho.

Essa influência, no segundo disco, é nítida, sobretudo nas faixas Preta pretinha e Acabou chorare, essa última até no título, uma frase dita pela filha de João, Bebel Gilberto, na época ainda bebê. Depois de abrir o berreiro, a futura cantora, parecendo saber, desde pequena, que o pai não gostava de barulho, misturou línguas e tratou logo de anunciar: "Acabou chorare". Interessante que, anos depois, uma frase dita pelo próprio João Gilberto, ao observar uma mulata descendo o morro, daria nome a outra canção de Moraes Moreira: "Lá vem o Brasil descendo a ladeira".

A maioria das canções de Acabou Chorare são conhecidas e tocam em rádio até hoje, seja em suas gravações originais, seja em regravações feitas por outros artistas. Estão, também, no repertório desse disco os sucessos Brasil pandeiro, de Assis Valente - um samba da década de 40, Besta é tu, Mistério do Planeta e A menina dança **, que vejo como uma referência às meninas-do-olhos sob efeito dos colírios alucinógenos de José Simão ou outros artifícios, certamente comuns entre eles.

O último disco dos Novos Baianos foi lançado em 1979. Em seguida, Dadi juntou-se a Armandinho e seguiu com A cor do som, enquanto Moreira, Paulinho, Baby e Pepeu seguiram carreira solo. Mesmo extinto, o conjunto completa quarenta anos em 2009 e, pra marcar a data, seus integrantes têm participado de eventos e comemorações. Moraes Moreira lançou o livro em cordel A história dos Novos Baianos e outros versos, junto com show, CD e DVD homônimos. Galvão, Paulinho, Pepeu e Baby apresentaram-se no carnaval de Salvador em um trio elétrico, como nos velhos tempos. Legal ver baianos novos curtindo o som dos novos baianos, o mesmo som que seus pais, velhos baianos, escutavam quando ainda eram baianos novos.





* Assista (se quiser) ao documentário Novos Baianos Futebol Clube, de Solano Ribeiro (1973):

Parte I / Parte II / Parte III


**A menina dança (Moraes Moreira / Luís Galvão)

Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos


Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar


De um lado o olho desaforo
Que diz o meu nariz arrebitado
E não levo para casa
Mas se você vem perto eu vou lá
Eu vou lá


No canto do cisco
No canto do olho
A menina dança


E dentro da menina
A menina dança


E se você fecha o olho
A menina ainda dança


Dentro da menina
Ainda dança


Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer
Nascer o que há

Um comentário:

Juliana Moura disse...

Bom ler um texto novo. Veja que, mesmo que seja preciso dar um tempo no trabalho, os seus textos são formas muito agradáveis de interação com o mundo (e com a vida).