11.6.09

Uma pena

Um documentário em homenagem ao cantor Wilson Simonal, que completaria 70 anos em 2009, tenta mostrar, sobretudo àqueles com menos de cinquenta anos e que não acompanharam a fase áurea da carreira do músico, o que ele representou para a música brasileira, ao mesmo tempo em que narra, por meio de depoimentos, um episódio polêmico no qual se envolveu e que mudou sua vida. Trata-se de “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei”, de Micael Langer, Calvito Leal e Cláudio Manoel.

Simonal inovou com seu jeito de cantar e dançar cheio de suingue, que combinava bem com sua figura alegre, de sorriso aberto. Iniciou sua carreira na década de 60, com o apoio de Carlos Imperial - o mesmo que, pouco antes, havia lançado Roberto Carlos e, por isso mesmo, andava cheio de moral. Ainda nessa década, dividiu o palco com Sarah Vaughan, apresentou o programa Show em Si Monal na TV Record e atingiu o auge de popularidade.

Em 1969, já consagrado, apresentou-se no encerramento do IV Festival Internacional da Canção, não como concorrente, mas como convidado e foi bastante aplaudido pela plateia que lotava o ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Tudo ia bem. Simonal virou garoto-propaganda da Shell, integrou a comitiva da seleção brasileira à copa de 70 – dividindo as atenções com Pelé - e gravou a canção País tropical, de Jorge Ben, antes mesmo do compositor.

Em tempos de ditadura e repressão, fazer anúncio de uma multinacional estadunidense, reverenciar uma seleção de futebol e um evento esportivo tidos como ópio do povo e cantar versos como “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” já seria suficiente para criar certa prevenção à figura do músico. Além do mais, não seria nada difícil um cara de origem humilde que esbanjava dinheiro e comprava carrões ser tachado de metido a besta pela “elite” e o filme ressalta tudo isso. Até aí, tudo poderia não passar de preconceito, mas foi seu envolvimento em caso polêmico que fez a opinião pública colocar o outro pé atrás em relação a ele. Em apenas três anos, o cara que, como dizia um de seus maiores sucessos*, fez o povo inteiro cantar, passou do auge da fama ao ostracismo.

O episódio envolveu o contador da empresa de Simonal que, ao ser vítima de espancamento por parte de agentes do DOPS - Departamento de Ordem Política e Social, também conhecido como órgão oficial de tortura do governo militar -, denunciou o músico como mandante. A versão de Simonal era que estaria sendo roubado e queria dar uma prensa no contador. Para este, o cantor era perdulário e não administrava bem o dinheiro que ganhava. Simonal foi preso e acusado de ser informante do DOPS, o popular dedo-duro. Em depoimento, acusou o contador de ser terrorista e de ameaçar sua família, o que só piorou a situação. Passou a ser discriminado pelo público e colegas de profissão, bem como boicotado por emissoras de televisão e casas de shows, que não queriam assumir os riscos de contratá-lo.

O filme procura ser o mais isento possível e colhe depoimentos dos dois lados. De um lado, amigos e parentes como Chico Anísio, Tony Tornado, Miele, Sandra Cerqueira – sua segunda esposa - e os filhos Wilson Simoninha (a quem Simonal dedica a canção Tributo a Marthin Luther King, em momento especial registrado) e Max de Castro. Do outro, a turma do Pasquim – periódico que, à época, não o perdoou – e a própria vítima do caso, o contador Raphael Viviani, cujo relato dos fatos é a parte mais surpreendente do documentário, ainda que os depoimentos emocionados dos familiares do cantor também nos façam refletir que, se ele errou, pagou caro por isso.

Entre um lado e outro, a relevante opinião de pesquisadores e entendidos de música como Ricardo Cravo Albin e Nelson Motta é destacada. Interessante, também, o fato de um dos diretores do filme, Cláudio Manoel, fazer parte da turma do Casseta e Planeta, fusão dos periódicos Casseta Popular e Planeta Diário, este, por sua vez, fruto do Pasquim.

Na primeira apresentação após o episódio, Simonal recebeu do público sonora vaia que o impediu de cantar. Ficou evidente, a partir daí, a repercussão do caso e as consequências irreversíveis para sua carreira.

Em depoimento ao filme, o jornalista Artur da Távola afirmou que “vivemos em uma imprensa que toma o indício como sintoma, o sintoma como fato, o fato como julgamento, o julgamento como condenação e a condenação como linchamento”. A necessidade e a importância da liberdade de imprensa – assunto que mereceu destaque recentemente com a revogação da antiquada lei de imprensa - é indiscutível, mas, julgamentos à parte, o que se percebe, neste e em vários outros casos, é o assustador e inegável poder dos meios de comunicação, o qual pode ser usado para o bem ou para o mal e, em casos extremos, induzir o povo a exaltar crápulas ou destruir inocentes. Culpado ou inocente, Wilson Simonal já cumpriu sua pena.



Sá Marina (Antônio Adolfo / Tibério Gaspar)

Descendo a rua da ladeira
Só quem viu, que pode contar
Cheirando a flor de laranjeira
Sá Marina vem pra dançar

De saia branca costumeira
Gira o sol, que parou pra olhar
Com seu jeitinho, tão faceira
Fez o povo inteiro cantar

Roda pela vida afora
E põe pra fora essa alegria
Dança que amanhece o dia
Pra se cantar

Gira, que essa gente aflita
Se agita e segue no seu passo
Mostra toda essa poesia do olhar

Deixando versos na partida
E só cantigas pra se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro chorar

Um comentário:

Juliana Moura disse...

Realmente, o poder da mídia, que deveria constituir um verdadeiro pilar para o desenvolvimento do Estado Democrático de Direito, há muito vem impondo arbitrariedades, condenações e verdadeiros linchamentos éticos e morais.
Gostei muito do texto e vou assistir ao filme, já que conheço pouco sobre o Simonal.