5.9.09

Baião de dois

Salve o compositor popular. Se aquele que se presta a esta ocupação e anima a festa imodesta da nossa música, como exaltado por Caetano Veloso, sempre foi um espécime pouco conhecido, com o advento do MP3 e a consequente desmaterialização do disco, tornou-se quase uma incógnita. A equação fica mais fácil quando as parcerias são constantes ou frequentes, como João Bosco e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vítor Martins, Milton Nascimento e Fernando Brandt, Roberto e Erasmo Carlos, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Ainda assim, o destaque é maior para os também cantores.

Informações sobre esses ilustres desconhecidos - ou menos conhecidos -, os compositores, são sempre interessantes e bem-vindas e é a isso que se propõe o documentário O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira (Baile perfumado, Cartola - música para os olhos), sobre o compositor, deputado federal (!) e advogado cearense Humberto Teixeira, parceiro de Gonzagão. A produção é da atriz carioca Denise Dummont, conhecida de quem já passou dos 30 anos, por já ter feito parte do elenco da Rede Globo de Televisão, em tempos idos.

O título poético vem de depoimento de Teixeira, em que ele dizia gostar de ficar em casa, engarrafando nuvens. O filme foi lançado em meio às homenagens em memória dos 30 anos – completados em 2009 -, da morte do compositor, conhecido como o doutor do baião, referência ao estilo que criou junto com Luiz Gonzaga, o rei do baião. Este, por sua vez, também vem recebendo homenagens, em memória dos 20 anos de sua morte. A dupla compôs grandes clássicos do nosso cancioneiro, músicas belíssimas como Assum preto*, Qui nem jiló, Estrada de Canindé, Juazeiro e Asa branca, o hino do nordeste independente imaginado pelos compositores Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova.

Ainda que tenha como motivação maior e principal mérito mostrar a importância do doutor do baião para a música brasileira, o filme aborda, também, aspectos pessoais de sua vida, centrados no relacionamento entre ele e Denise Dummont, pai e filha. Quando se separou de Teixeira, a mãe de Denise foi morar nos Estados Unidos e a atriz ficou morando com o pai que, contrário a sua carreira artística, não permitiu que ela usasse seu sobrenome. Diferenças de ideias e valores provocaram um certo distanciamento entre eles, superado ao longo do tempo de convivência. Além do estigma do nordestino, de ter costumes conservadores, o pai levava para casa, também, o estigma do compositor, de ser sujeito pouco conhecido.

Relações humanas conflituosas costumam render bons enredos de filmes, sejam eles de ficção ou baseados em fatos reais. Expõem-se os dramas e, ao apagar das luzes, o público, paciente, transforma sessão de cinema em sessão de análise. Quando uma das partes envolvidas nesse conflito participa da criação da obra, os efeitos terapêuticos especiais transpõem a tela e a projeção cinematográfica serve de expurgo às projeções psicanalíticas de seus próprios criadores, em suas relações. Quando tais relações envolvem, do outro lado, artistas ou pessoas públicas em geral, aumentam o interesse e a curiosidade. Exemplo recente foi Maysa – Quando fala o coração, série televisual dirigida por Jayme Monjardim, filho da cantora.


Para o público, O homem que engarrafava nuvens também é uma terapia no aspecto musical. Uma análise poético-musical coletiva, com apresentação de canções e depoimentos que ressaltam a importância do baião para a música popular brasileira, confirmando a versão de Gilberto Gil, de que ele vem de baixo do barro do chão, e mostrando onde chegou, do outro lado do mundo, graças a Gonzaga e Teixeira. Gil, como tantos outros, é admirador e seguidor do trabalho da dupla, responsável, segundo ele, por uma revolução em sua vida: “Quando ouvi essas coisas fiquei louco, estou louco até hoje”. “São as grandes famílias reais musicais brasileiras, duas dinastias, a do samba e a do baião”, afirma ele, também, em depoimento ao filme.

Caetano, outro admirador da dupla, homenageou Humberto Teixeira, o saudoso poeta, em sua canção Terra, do disco Muito, de 1978: “mando um abraço pra ti, pequenina, como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a Paraíba”, em que faz referência ao trecho “hoje eu mando um abraço pra ti, pequenina”, da canção Paraíba, dos criadores do baião.

Tocando fundo e descrevendo tão bem a alma do brasileiro nordestino, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira sempre fizeram valer a máxima, criada por eles, de que “se o baião é bom sozinho, que dirá baião de dois”. E que dois. Ou, como diria uma saudosa tia, que ambos!



* Assum preto (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)

Tudo em vorta é só beleza
Sol de abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor

Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió

Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá

Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus

Um comentário:

Juliana Moura disse...

Realmente, Paulo, ser pouco conhecido é o estigma do compositor.
E eu digo isso porque sou uma dessas pessoas muito voltadas ao intérprete, ao cantor, postura que eu tenho evitado desde que tive acesso à trajetória de vários compositores, através do blog Música do Brasil.
Decidi reservar mais tempo às leituras que aprecio, e este blog representa um dos espaços mais geniais que encontro na web.

Gosto demais do trabalho desenvolvido por Gonzagão, mas devo dizer que não sabia sobre a parceria com Humberto Teixeira, muito menos nessas canções que marcaram a nossa tradição cultural.
"Baião de dois" da melhor qualidade.