20.8.10

Era um, era dois, era cem

(Era dos festivais)

As imagens dos festivais do final dos anos 60 foram, ao longo das décadas seguintes, bastante exibidas, sobretudo na televisão, a ponto de muitas delas nos parecerem bem familiares. As cenas mais marcantes, porém, eram, em geral, fragmentadas e misturavam várias edições de festivais, entre os das tv’s Record e Globo, principalmente. No cinema, lembro de duas boas produções recentes que abordaram o assunto de alguma forma: O Sol – Caminhando contra o vento (2006) e Palavra encantada (2008). Agora, chega às telas Uma noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, diretamente voltado para o tema, mais especificamente para o III Festival de Música Popular Brasileira, da tv Record.

Essa edição do festival da Record - nossa MTV do passado, com vários programas musicais e cantores contratados -, está entre as mais lembradas de todas. O filme tem como um dos pontos fortes as apresentações na íntegra de algumas das finalistas desse festival, entremeadas por entrevistas da época com os artistas concorrentes, bem como ótimos depoimentos atuais.

É sempre uma experiência interessante ver artistas hoje consagrados ainda sem a bagagem dos anos vividos, na flor da idade e com ideias à flor do cérebro, prontas para desabrochar. Um Chico Buarque com as conexões cerebrais a todo vapor, exercitando-se para produzir o que viria a ser, mais adiante, um dos maiores tesouros da música popular brasileira; um Roberto Carlos ainda na Jovem Guarda, antes de sua melhor e pior fase; um Caetano Veloso veloz, em pleno movimento e um Gilberto Gil genial, acompanhado de uma Rita Lee linda e mutante, com o coração literalmente à flor da pele.

Foi nessa edição inovadora do festival que Gil e Caetano romperam as barreiras do som - acompanhados pelas guitarras elétricas dos Mutantes e dos argentinos Beat Boys -, que Roberto interpretou um samba (Maria, carnaval e cinzas - 5º lugar) em plena Jovem Guarda e que Chico iniciou seu repertório de canções politicamente engajadas. Num período em que nacionalismo era sinal de protesto contra o regime vigente, Caetano, provocativo, protestou contra o protesto. Não bastasse ter usado guitarras em Alegria, alegria (4º lugar), que, entre outras, fazia citações à Coca-Cola, ícone do imperialismo dos Estados Unidos, o cantor ainda se fez acompanhar por uma banda argentina.

Embora os festivais fossem programas organizados por emissoras de televisão e transmitidos por esse meio de comunicação, foi o palco onde aconteciam que constituiu o verdadeiro espaço democrático, em plena ditadura, devido à imensa participação popular. O organizador do festival da Record, Solano Ribeiro, afirma que os primeiros festivais dos anos 60 já haviam instituído a vaia como personagem, fato que se repetiu na ediçao de 67, onde a distinta protagonista foi responsável por algumas das imagens mais marcantes, como a discussão do cantor Sérgio Ricardo com a plateia, que culminou com um violão quebrado.

Um fato curioso é que, para levar esses protagonistas – aplausos e vaias - ao público de casa, Zuza Homem de Mello, engenheiro de som responsável pela transmissão televisiva, colocou um microfone no teto do teatro, como afirma em depoimento ao filme. Ficou claro que o que sempre vi como má qualidade do som na transmissão - por conta das limitações da época -, deveu-se, em boa parte, a esse recurso propositadamente utilizado.

Uma característica interessante, que talvez seja a cereja do bolo na receita de sucesso deste que pode ser considerado o melhor dos festivais, foi a qualidade dos arranjos das canções vencedoras, as três primeiras delas valendo-se do artifício da crescente empolgação até o desfecho apoteótico.

No arranjo de Magro (MPB-4) para Roda-Viva (3º lugar), a música vai acelerando o andamento, como uma roda girando cada vez mais rápido, até terminar de súbito, impelindo o público ao aplauso caloroso (segundo Chico, os aplausos pareciam estar previstos no arranjo). Artifício semelhante é usado em Ponteio*, de Edu Lobo (1º lugar), no refrão “quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”. Já o arranjo premiado de Rogério Duprat para Domingo no parque (2º lugar) usa a alternância de ritmo e andamento, de acordo com a narrativa, refletindo na alternância de sensações, até terminar com um empolgado “êh êh êh êh”, em coro.

Mesmo sendo inegável o caráter democrático dos festivais, a ânsia por novos tempos, o acirramento dos ânimos e os protestos por conta da ditadura geraram certas distorções ou exageros, como Chico ter sido vaiado no festival seguinte, por ter vencido, com Sabiá, em detrimento de Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Por outro lado, as músicas de cunho político mais explícito, como a de Vandré, ou mesmo Roda-Viva de Chico, não foram vencedoras, ainda que Sabiá e Ponteio tenham, também, forte mensagem política.

Outro aspecto que pode ser observado por meio dos depoimentos dos artistas ao filme é que a exposição exagerada, durante e após os anos de festivais, causou-lhes um certo incômodo, a ponto de vários deles, como Chico (“Não penso muito nessas histórias”), Caetano (“Queria me livrar de Alegria, alegria, como Chico se livrou de A banda”) e Edu (“Não tenho uma música só”), passarem a impressão de pouco caso em relação àqueles anos. Não se pode negar, porém, a qualidade de um festival que se deu ao luxo de eliminar uma canção como Eu e a brisa** (Johnny Alf), fechando as portas a surpresas do inesperado ou a alguém que a quisesse escutar.



* Ponteio (Edu Lobo/Capinan)

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse ou amor ou dinheiro

Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar
Ô, você, de onde vai, de onde vem
Diga logo o que tem pra contar

Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra, nem sol, nem vento

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar

Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto calado, sem ponteio
Violência, viola, violeiro
Era morte em redor, mundo inteiro

Era um dia, era claro, quase meio
Tinha um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia das ondas do mar

Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola ponteio
Meu canto não posso parar, não

Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio

Certo dia que sei por inteiro
Eu espero, não vá demorar
Este dia estou certo que vem
Digo logo o que vim pra buscar

Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar


** Eu e a brisa (Johnny Alf)

Ah! se a juventude que esta brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só pra ser um sonho

Dai então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria

E depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, oh brisa, fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar

5 comentários:

Vila Cultural disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isaac Moraes disse...

Muito bom esse relato

Fiquei com água na boca pra ver esse filme

Paulo Bap disse...

Oi, Isaac. Bom vê-lo como fiel leitor do blog, já há algum tempo. A casa é sua. Quanto ao filme, é, de fato, muito bom, tanto pelas imagens, quanto pelos depoimentos da época e atuais. Vale a pena assistir.

Felipe Leal disse...

Legal o texto, Paulo! Já tava mesmo querendo ver o filme. Espero que consiga arrumar um tempo.

Paulo Bap disse...

Vá mesmo, Lipe. Você vai gostar bastante. Não bastasse a trilha sonora, os depoimentos são muito bons e os de Chico, especialmente, são impagáveis.

Valeu por sua visita, costumeira e valiosa. Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.