31.10.10

Dedicado a você

Não obstante as musas inspiradoras, reais ou não, citadas em algumas homenagens nomeadas, sobre quem já escrevi em outra ocasião (A esses seres humanos), a música, na maioria das vezes, procura ser o mais genérica possível. Talvez para permitir que as diferentes pessoas que a escutam apropriem-se de seus versos de acordo com suas próprias experiências de vida.

Para atingir tal fim, por vezes, faz uso de pronomes pessoais, para gerar citações impessoais. Assim, em Eu e ela, do repertório de Roberto Carlos, Ela e eu, de Caetano Veloso, Eu te amo, de Chico Buarque e Tom Jobim ou Odeio você, também de Caetano, os pronomes podem representar qualquer um de nós. Outras vezes, a canção faz uso de pronome possessivo, que também permite apropriação, o que faz com que As minhas meninas, de Chico, Sua estupidez, de Roberto ou Nosso estranho amor, de Caetano, possam ser de qualquer um.

Há, também, homenagens implícitas, de destinatário definido, mas que, por também não citarem nomes, adquirem o mesmo caráter genérico das anteriores. É assim Fera ferida e Do fundo do meu coração, que Roberto compôs quando estava em processo de separação num casamento. Também no ramo da separação, Gilberto Gil compôs, para a ex-esposa Sandra, uma das mais belas declarações de amor findo, Drão (O amor da gente é como um grão, uma semente de ilusão, tem que morrer pra germinar).

Ao ator River Phoenix, que este ano completaria 40 anos, Milton Nascimento dedicou uma também bela canção cujo título era o próprio nome do homenageado, o qual morreu pouco depois, aos 23 anos (Como teu nome diferente / Uma paisagem nos induz / Uma paisagem de inocência / Mas que se sabe e que conduz. / Conduz agora este momento / O pensamento e os olhos meus / brilhando de emoção e grato / alguém que só te conheceu num filme que viu tantas vezes / Este poema aconteceu). Fernando Brandt, Márcio e Lô Borges, companheiros de Milton no Clube da Esquina, fizeram, para Lennon e McCartney, Para Lennon e McCartney.

Nando Reis compôs All Star, para Cássia Eller, que também a gravou (Estranho é gostar tanto do seu all star azul / Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras / Satisfeito sorri / Quando chego ali / E entro no elevador / Aperto o 12 que é o seu andar / Não vejo a hora de te reencontrar / E continuar aquela conversa / Que não terminamos ontem / Ficou pra hoje). Temos, também, referências e citações múltiplas, como a Festa de arromba de Roberto e Erasmo, que reverencia a turma da Jovem Guarda ou a homenagem de Chico, Para todos, dedicada a seus colegas músicos.

Na categoria a finados, lembro de outro trabalho afinado: Um ser de luz, composta por Paulo César Pinheiro (com João Nogueira e Mauro Duarte), após perder a esposa Clara Nunes (E ela se foi pra cantar / Para além do luar / Onde moram as estrelas / E a gente fica a lembrar / Vendo o céu clarear / Na esperança de vê-la, sabiá / Sabiá / Que falta faz tua alegria / Sem você / meu canto agora é só melancolia).

Dos compositores da MPB, Caetano é um dos mais atuantes nessa bela arte de prestar homenagem por meio de canções. Em sua lista, constam Rapte-me camaleoa, para Regina Casé; Leãozinho, para Dadi, ex-integrante dos grupos Novos Baianos e A Cor do Som (o músico também foi uma espécie de quarto tribalista e é pai de André Carvalho, compositor de Tudo diferente, sucesso na voz de Maria Gadú); Escândalo, para Ângela Rô Rô, linda e sensível homenagem da qual quem acompanhou a forma como a mídia tratava os “escândalos” da cantora, décadas atrás, entende cada palavra (Rompe a manhã da luz em fúria a arder / Dou gargalhada, dou dentada na maça da luxúria pra quê? / Se ninguém tem dó, ninguém entende nada / O grande escândalo sou eu, aqui, só). E mais: Tigresa e Trem das cores, para a atriz Sônia Braga, esta última uma encantadora descrição de viagem, em que nós, ouvintes, seguimos junto.

É comum perpetuarmos certos erros de escuta de canções e alguns deles, quando cometidos por grande número de pessoas, tornam-se até clássicos, como a famosa troca compulsiva de biquíni, em Noite do prazer, de Cláudio Zoli, em que, em vez de “tocando B. B. King sem parar”, muitos cantavam “trocando de biquíni sem parar”).

A esse respeito, cabe observação curiosa sobre Tigresa. Depois de quase três décadas escutando-a, notei, alertado por um amigo, parte engraçada da letra, para a qual, até então, não tinha atinado, que nem Gabriela, quando veio pra esse mundo: “as garras da felina me marcaram o coração, mas as besteiras de menina que ela disse, não”. Faltava, na minha escuta, a percepção da vírgula antes do não (determinada, eu acho, pela elipse sintática presente na oração) e, por isso, eu entendia a mensagem como se ela, a tigresa ou felina, dissesse não às besteiras de menina e não que era ela quem dizia as besteiras, as quais, por sua vez, não marcavam o coração do leão. Meu entendimento, porém, soava meio sem sentido, até porque, se fosse esse o caso, a frase estaria mal construída.

Dedicar a alguém o fruto do nosso trabalho é algo de uma generosidade e delicadeza ímpar que, no caso particular da música, ou da arte em geral, ainda tem o mérito do compartilhamento com o público e, muitas vezes, pode ficar para a posteridade. Dedicado a você* é nome de uma música de Dominguinhos e Nando Cordel, mais uma da dupla que nos legou várias belas canções. O pronome ‘você’, do título, expande o universo alvo da letra da música ao infinito – ou a todas as pessoas -, mas, ao mesmo tempo, restringe-o ao particular – ao pessoal, como o próprio pronome: simplesmente dedicado a você. Seja você quem for, seja o que Deus quiser.



*Dedicado a você (Dominguinhos/Nando Cordel)

Vem, se eu tiver você no meu prazer
Se eu pudesse ficar com você
Todo o momento, em qualquer lugar

Ah! Se no desejo você fosse o amor
Durante o frio fosse o calor
Na minha lua, você fosse o mar

Vem, meu coração se enfeitou de céu
Se embebedou na luz do teu olhar
Queria tanto ter você aqui

Ah! Se teu amor fosse igual ao meu
Minha paixão ia brilhar e eu
Completamente ia ser feliz

Um comentário:

Lela disse...

Paulo

Tinha esquecido do qto é linda essa música!
Lela