Ambos os filmes contam histórias reais e têm os mesmos olhares voltados para as repercussões do golpe militar de 1964, não só num nível macro, do país como um todo - seja no comprometimento da liberdade, seja no tolhimento de direitos -, mas num ponto mais íntimo, da porta de casa para dentro. No cotidiano caseiro, na limitação de horizontes, na incerteza do futuro, na desestruturação familiar. No sonho dilacerado, na esperança devastada, no projeto de vida desmoronado, na alma destruída.
Os filmes têm em comum, também, o protagonismo de mulheres - Eunice Paiva e Elizabeth Teixeira -, que tiveram suas vidas transformadas após a perda de seus companheiros – o deputado Rubens Paiva e o líder camponês João Pedro Teixeira. Mulheres marcadas por (sobre)viver.
O próprio documentário também teve sua trajetória alterada. A princípio produzido pelo Centro Popular de Cultura da UNE e pelo Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, contaria a história de João Pedro, assassinado em emboscada encomendada por latifundiários, em 1962. Interrompido por conta do golpe militar de dois anos depois, o filme teve seu material apreendido, sendo retomado quase duas décadas adiante.
Essa longa passagem de tempo deixou bem claro o citado efeito danoso de um regime ditatorial na vida privada de suas vítimas. Na retomada, o filme deslocou o foco para a trajetória da viúva do camponês, Elizabeth Teixeira, que, sem apoio e sem voz, e em sua situação de desprivilégio social, viveu na clandestinidade e mudou de nome para não ser encontrada, após o assassinato do marido e o golpe militar subsequente. Separou-se dos filhos por força das circunstâncias, por questão de sobrevivência, para proteção deles, que por anos não souberam sequer se ela estava viva. Ela ainda está aqui, completa 100 anos de vida em 2025 e merece muitas homenagens.
Camponês ou deputado, no interior da Paraíba ou no Leblon, é incontestável que o caráter duro de qualquer ditadura atinge, de várias formas e em vários níveis, pessoas que a ela se oponham, independentemente de classe social. E a dor de cada um é algo particular, que não se pode comparar. Quando os opositores ou questionadores são os mais necessitados, no entanto, tais regimes ampliam, exacerbam as já rotineiras dificuldades de suas vidas, sem eco ou repercussão.